segunda-feira, 23 de abril de 2018

Um vaidoce não dava tanta comichão

Sinto-me dividida. Por um lado, gostaria de ver Portugal a ser melhor gerido e a crescer, por outro lado penso que, se calhar, por ser assim, lá se vai aguentando há mais de 900 anos. De uma forma ou outra, arranja-se maneira de continuar na mesma como a lesma: pessoas incompetentes no governo.

Isto a propósito de todo o circo em redor de José Sócrates-- ele é sociopata, não é? Já penso isso dele há muito tempo, antes de ele admitir ser vaidoso e só ser essa a razão que se dedicou à política. Será que isso é apenas a opinião dele? Deus nos livre de haver alguém que ache que quer fazer algo pelo país, uma pessoa de boa índole, que goste de Portugal e dos portugueses: um "vaidoce", em vez de um vaidoso.

Depois pensei que ao menos com o PSD o Miguel Relvas não vai voltar a ser ministro, mas reconsiderei. Se há sítio onde um fulano como o Relvas ia a ministro outra vez seria em Portugal. Ele ainda anda por aí, como se fosse uma pessoa respeitável, com quem os outros têm orgulho de se associar.

Bem, mas quando a esmola é muita, o santo desconfia e eu ando para aqui desconfiada de toda esta imprensa em torno de Sócrates quase sete anos depois de ele sair do Governo. Porquê agora? É altura da comichão dos sete anos (seven year itch) ou é ele a ser vaidoso porque má imprensa é sempre melhor do que nenhuma imprensa...


quarta-feira, 18 de abril de 2018

Frases famosas 84

Ricardo Coração de Leão voltou das cruzadas para um reino arruinado pela sua teimosia em pelear nelas.

domingo, 15 de abril de 2018

Notícias

Acabei de levar um raspanete da minha vizinha em Houston por não ter escrito durante mais de uma semana. Quer dizer, eu comecei a escrever na Sexta-feira passada, mas não cheguei a terminar e, consequentemente, a enviar o email. Ontem decidi mesmo deixar de procrastinar e fui comprar um computador novo para poder escrever mais facilmente, mas ainda tenho de ligar a Internet lá em casa.

Quando eu era miúda achava que era tão glamoroso mudar de casa porque nos filmes americanos era tão comum haver sempre alguém que tinha acabado de mudar. Mas agora, depois de ter mudado de casa mais de 10 vezes desde que vim para os EUA, as mudanças já não parecem tão interessantes. Não há como evitar o nojo que sinto ao ver quantas coisas acumulei e, no fim, reverto sempre ao mesmo pensamento: tens isto porquê?

Não consegui re-encaminhar o correio da morada antiga, a primeira vez que tal me aconteceu. Desta vez, os correios enviaram uma carta para a morada nova com um código para meter online, só que eu não tinha feito a inscrição na página dos correios quando mandei parar o correio e, quando fiz a inscrição para meter o código, usei a morada nova e disseram-me que o código não era compatível com a minha informação. O progresso é uma coisa fantástica, tão fantástica que agora funciona pior do que antes. Vou ter de resolver esta confusão pelo telefone e não me apetece nada falar com ninguém ao telefone.

Ainda não liguei o meu plano de poupança reforma no emprego novo porque também envolve um telefonema, nem mudei a morada nos bancos, nem nos seguros, nem escolhi médico, nem dentista, não registei o carro, não me registei para votar... Ainda estou na fase em que me apetece hibernar durante uns meses e só entrar na civilização quando me apetecer, mas o mundo não quer esperar por mim.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Podíamos partilhar um giro

Ainda não liguei a Internet na casa nova, nem desliguei na casa de Houston, logo escrevo-vos do Starbucks. Bem sei que é um desperdício de dinheiro, mas ter de telefonar à AT&T e ter de aturar aquele pessoal também não me traz grande ganho, nem me poupa dinheiro. Este acesso condicionado leva-me a escrever posts na minha cabeça que nunca publico. E são bastante giros, mas somem-se no éter...

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O primeiro (e provavelmente último) Quizz da Destreza!!!

É com muito prazer e preguiça que mais uma vez demonstro o porquê de ser o membro mais novo (e menos activo) deste blog, desta vez com uma iniciativa plena de originalidade, informação e, acima de tudoo resto, estupidez!

Senhores e senhoras, meninos e meninas, comunas e fascistas, o primeiro (e talvez último):

QUIZZ DA DESTREZA

O jogo é simples e funciona da seguinte forma: Vão ser apresentadas quatro citações, para as quais o leitor tem que escolher uma de duas opções relativas à sua autoria. Se acertar todas (ou se pelo menos tiver pachorra para chegar ao fim deste post - hey, fazer scroll down não vale!), terá acesso a uma conclusão sobre o futuro governativo do nosso estimado país à beira mar plantado de fazer inveja ao professor Karamba e capaz de rivalizar em grau de fiabilidade com as projecções dos resultados das eleições americanas de 2016 ou o mais recent post no facebook da Maya! Aqui vamos:


Declaração Número Um:


"Por razões profissionais, por compromissos que assumi, não tenho disponibilidade para o que essas funções exigem."

Opção A): Durão Barroso, aquando do convite para se tornar o presidente da Comissão Europeia em 2014.
Opção B): Fernando Alexandre, em entrevista ao Observador em 2018, sobre a possibilidade de fazer parte do grupo de “porta-vozes” ou “coordenadores” temáticos de Rui Rio.


Declaração Número Dois:


"E em Portugal valoriza-se pouco o conhecimento. Valoriza-se os títulos, sejam reais ou inventados."

Opção A): José Socrates, em 2007, quando questionado sobre a validade da sua licenciatura.

Opção B): Resposta de um professor associado da Universidade do Minho a um entrevistador do Observador em 2018.


Declaração Número Três


"Acho errado que se diga que não há aumentos dos salários dos funcionários públicos. É preciso explicar isso."

Opção A): Pedro Passos Coelho, em 2013, quando questionado sobre a continuidade das medidas de austeridade.


Opção B): Um dos co-autores da Destreza, ao ser entrevistado pelo Observador este ano.



Declaração Número Quatro


"Na Função Pública (...) os funcionários têm de ter aumentos se a economia crescer"

Opção A): António Costa, aquando do anúncio do aumento dos salários da função pública no início de 2018 no seguimento da trajectória positiva da economia portuguesa.

Opção B): O meu professor de macro do segundo ano da licenciatura, numa entrevista ao Observador no outro dia, que só tive tempo para ler hoje.



Se escolheu a opção A) em todas as declarações, lamento informa-lo que sofre de uma patologia grave de nome técnico "viver no mundo da lua". Se respondeu B) a todas elas, no entanto, deve neste momento finalmente perceber porque é que a atitude financeira mais sensata a tomar neste momento é apostar todas as suas poupanças em como o Fernando Alexandre nunca mais na vida põe os pés no governo. You heard it here first folks. De nada!

50 anos

Escrevo-vos de Memphis, TN, e penso que tive muita sorte em poder estar aqui e sentir toda esta energia que paira sobre a cidade. Celebra-se hoje, 4 de Abril de 2018, os 50 anos do assassinato do Reverendo Martin Luther King, Jr., alvejado na varanda do Motel Lorraine, em Memphis, TN. Na comunicação social, o aniversário desta tragédia domina as notícias e os discursos que marcam a data exultam o povo para que seja mais participativo e, especialmente, que vote nas eleições deste ano.

Depois da mobilização dos jovens, com o tiroteio na escola da Florida, os adultos incentivam a juventude a fazer-se ouvir -- os adultos falharam, está na altura deles, os mais jovens, nos mostrarem o caminho, e os pais levam os filhos a marchas e manifestações para que aprendam que a sua voz é o mecanismo que constrói a sociedade. As palavras de MLK no seu último discurso, proferido a 3 de Abril de 1968, e que é conhecido por "I've been to the mountaintop", recebe hoje uma atenção redobrada:


Podem ler o discurso na sua íntegra na Internet; é considerado um discurso profético, no qual o Reverendo King falou da sua mortalidade:


"Well, I don't know what will happen now. We've got some difficult days ahead. But it really doesn't matter with me now, because I've been to the mountaintop.

And I don't mind.

Like anybody, I would like to live a long life. Longevity has its place. But I'm not concerned about that now. I just want to do God's will. And He's allowed me to go up to the mountain. And I've looked over. And I've seen the Promised Land. I may not get there with you. But I want you to know tonight, that we, as a people, will get to the promised land!

And so I'm happy, tonight.

I'm not worried about anything.

I'm not fearing any man!

Mine eyes have seen the glory of the coming of the Lord!!!"



Mas deixo-vos com a minha parte preferida do discurso:

"Let us rise up tonight with a greater readiness. Let us stand with a greater determination. And let us move on in these powerful days, these days of challenge to make America what it ought to be. We have an opportunity to make America a better nation. And I want to thank God, once more, for allowing me to be here with you."



sexta-feira, 30 de março de 2018

Quem continua a desdenhar...

O longo processo de venda dos terrenos da antiga feira popular, em Entrecampos, intriga-me. É defeito profissional. E fico mais intrigado a cada notícia que leio nos jornais. 

Em 2015, saiu um artigo que dizia que os potenciais participantes no leilão organizado pela Câmara Municipal de Lisboa ameaçavam – publicamente - não participar por causa do “excessivo” preço mínimo exigido. Nessa altura, escrevi aqui que isso me soava a (clássica) estratégia de condicionar o vendedor. Se todos os potenciais compradores anunciarem que não participam num processo de venda a menos que o vendedor mude as condições, o poder do vendedor fica aparentemente reduzido: ou aceita o que os compradores querem, ou arrisca-se a não ter participação no leilão. Claro que o vendedor podia – e devia – ter seguido em frente com o processo de venda, esperando que pelo menos um dos compradores mandasse às urtigas o que disse e viesse na mesma ao leilão. Isso – mandar às urtigas o que disse anteriormente – não é, pelo menos em teoria, implausível: se todos os compradores disserem que se abstêm de participar, um deles poderá ter o incentivo de, à socapa, vir à mesma ao leilão e comprar os terrenos a preço da chuva. A questão é que Portugal é um país pequeno, onde existe um número muito reduzido de empresas que participam sucessivamente neste tipo de compras, e de vendas, ao Estado. Também por causa disso, nenhuma dessas empresas deverá terá grande interesse em dar parte de fraca num processo de venda, deitando a perder o poder negociar conjunto que, de outro modo, poderá continuar a beneficiar com as outras empresas do setor. 

Existem no entanto várias formas de o vendedor aumentar o número de potenciais compradores, reduzindo assim o poder negociar dos suspeitos dos costume. Uma questão maior é que o terreno é enorme, e está numa zona central da cidade. É provável que apenas empresas de grande dimensão estejam interessadas em comprar este terreno. Uma compra deste tipo custa muito dinheiro, e exige meios de financiamento próprios, ou acesso privilegiado aos mercados financeiros. Além disso, a posterior construção nos terrenos e a venda parcelar, em apartamentos ou escritórios, exige escala, quer na construção, quer no retalho. Claro que vários potenciais compradores pequenos podem tentar coordenar-se e vir juntos ao leilão, cada um ficando depois com uma parte do todo. Mas esse tipo de acordos é de difícil concretização. Desde a definição de quem paga o quê, até ao acordo do tipo de construção que cada um deles poderá fazer, o mais provável é que nunca saia das intenções. Perante isto, o vendedor pode optar por vender parcelarmente os terrenos. Em vez de vender o bloco como objeto único, divide-o em vários lotes e disponibiliza-los simultanemanete no leilão. Assim, na eventualidade de existirem vários compradores pequenos interessados em lotes individuais, estes não sofrerão do problema de terem de coordenar a sua participação conjunta. Convencendo-os a participar, aumentava-se a concorrência no leilão e diminua-se o poder negociar dos grandes compradores em impor as condições da venda. Aparentemente, mais de dois anos depois, parece ser precisamente intenção da câmara dividir o terreno em lotes

O curioso da notícia, no entanto, é, tal como em 2015, aparentar ter sido escrita sob o ponto de vista dos tais suspeitos dos costume. Novamente, é dito que grandes compradores estão pouco interessados em vir ao leilão, nas condições sugeridas pela Câmara. Ora isso não faz nenhum sentido. É perfeitamente natural que as grandes empresas só queiram vir ao leilão se conseguirem comprar o terreno na sua totalidade, não querendo arriscar sair de lá com alguns, mas não todos, os lotes disponíveis. Por exemplo, poderão querer construir um edifício que ocuparia três dos lotes, pelo que ganhar um ou dois lotes não lhe serviria de nada. Mas, num leilão bem desenhado – e isso é crucial aqui -, nada os impedirá de licitar pela totalidade ou pelo número de lotes que quiserem, sem risco de ganhar menos do que isso. Isso faz-se permitindo licitações em pacote. Uma licitação em pacote é uma licitação combinada, ou conjunta, por um determinado número de lotes. Se sair vencedora, quem a fez ganha todos os lotes incluídos no pacote. Se não for vencedora (porque a soma das licitações feitas sobre cada lote individual é superior), o licitante não ganha nada. Não há – novamente, num leilão bem desenhado – qualquer risco de um licitante ganhar apenas um número de lotes para os quais não tem valor. E, assim sendo, não há nenhuma razão para os grandes compradores não virem ao leilão. 

Novamente, parece apenas conversa de quem quer tentar convencer a Câmara a mudar as condições do leilão para benefício próprio. É apenas pena que os jornalistas não consigam ver para além disso. Mas já seria uma tragédia se a Câmara também não conseguisse.

domingo, 25 de março de 2018

O acto de matar

The Act of Killing (2012) de Joshua Oppenheimer e de um anónimo é o documentário mais perturbante que vi até hoje. Oppenheimer filma encenações dos próprios carrascos das execuções que fizeram 50 anos antes na Indonésia. Em 1965-1966, o general Shuarto, apoiado pelos EUA, comandou um golpe para derrubar os comunistas. Fala-se no massacre de 1 milhão de comunistas, muitos de origem chinesa. Os carrascos são hoje heróis nacionais e muitos estão no poder. Mataram com as próprias mãos centenas e centenas de comunistas. Não se vê qualquer arrependimento do que fizeram. Estavam a salvar o país e hoje fariam tudo na mesma. O regime continua, aliás, a louvá-los e a homenageá-los sem cessar. Muitos não escondem inclusive o prazer que as matanças lhes davam. Brincam com o sofrimento das vítimas. A personagem principal, Anwar Congo, um gangster (significa homem livre, dizem eles amiúde) muito temido nessa época, no fim diz sentir-se um bocado mal. As encenações das execuções trouxeram-lhe de volta os mortos e esse não era um sentimento agradável para ele. Ao mesmo tempo, muitos desses carrascos parecem pessoas simples, normais, alegres, gostam de cantar e dançar. O que me perturbou foi perceber que, vivessem eles noutro contexto, e teriam sido, provavelmente, apenas uns tipos porreiros, bons pais de família e cidadãos exemplares.
Foi isto que Hannah Arendt percebeu quando, no início dos anos 60, assistiu ao julgamento de “Eichmann em Jerusalém”. Eichmann era um homem bastante inteligente e, ao mesmo tempo, profundamente estúpido na medida em que não era capaz de perceber o que se passava com as pessoas à sua volta. O seu pensamento reduzia-se a clichés, que são o conforto do mal como escreveria Arendt. A banalidade do mal é isso. A superficialidade, a suspensão do pensamento. A mente povoada de lugares-comuns torna os seres humanos mais propensos a ceder ao mal. Eichmann era um tipo vulgar, como muitos que conhecemos. Não era um ser demoníaco, como muitos o preferiam pintar. Arendt descobriu uma coisa terrível. Uma das origens do mal é a superficialidade, a estupidez e os lugares-comuns que lhe estão atrelados. À época, perturbou imenso, em especial a comunidade judaica e Arendt pagou um preço elevado. Foi ostracizada. Quase 60 anos depois, a forte intuição de Arendt continua a perturbar. The Act of Killing é uma prova disso.




sábado, 24 de março de 2018

O FB e a descoberta da pólvora

Em 2012, vários colaboradores da campanha de Barack Obama contaram que utilizaram dados do FB de milhões de eleitores susceptíveis de serem convencidos a votar no seu candidato. Na altura, esta revelação não chocou ninguém. Há muito que se sabe que as campanhas mais sofisticadas utilizam esses dados para fazerem propaganda indivíduo a indivíduo. Estas operações podem ser, de facto, decisivas nos resultados eleitorais. As diferenças marginais são importantes porque na maioria dos países existem 4 a 10% de eleitores flutuantes (swing voters). Isto é ou não um perigo para a democracia? Talvez. Mas o meu ponto é que há por aí muita hipocrisia numa das indignações do momento. Ou então esta gente andava toda a dormir.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Mais um

A grande notícia de hoje para a economia foi a Reserva Federal ter aumentado a taxa de juro outra vez, já vai no sexto aumento desde a recessão. Jerome Powell, o novo Chairman da Reserva Federal, indicou que este ano haverá pelo menos três aumentos, tendo o de hoje sido o primeiro. Veremos se conseguirão manter o plano e se haverá um quarto.

Não sabemos é quando, e se, estes aumentos nos EUA irão levar a aumentos no lado da União Europeia. É que diferenciais nas taxas de juro entre países levam a movimentos de capitais ao nível internacional que servem para atingir um novo equibrio. Pelo sim, pelo não, paguem os cartões de crédito e tenham uns trocos extra para a hipoteca...

terça-feira, 20 de março de 2018

Aos alunos da FEUC

Caros alunos da FEUC,

Tal como vocês, estudei na FEUC e posso, mais de 20 anos depois de ter terminado a licenciatura, assegurar-vos de que a educação que recebi na altura me permitiu competir no mercado de trabalho internacional e atingir um certo nível de sucesso. Quero com isto dizer-vos que é uma boa escola, que pode ser usada como plataforma para uma carreira profissional gratificante. Mas devemos estar cientes que uma universidade não serve para ensinar a regurgitar; serve, sim, para dotar os alunos de ferramentas que lhes permitam avaliar problemas criticamente e procurar soluções e, por isso, uma parte do sucesso da vossa educação depende da vossa vontade de usar o que aprendem.

Há, no entanto, uma área em que a FEUC é fraca e que é em questões de ética, pois de vez em quando convida pessoas para ensinar que exibem deficiências nessa área, que são previamente conhecidas. Gostaria de vos falar do último caso e que é o convite ao ex-Primeiro Ministro José Sócrates para discutir o tema “O Projecto Europeu Depois da Crise Económica”, no dia 21 de Março, às 14h, no auditório da FEUC. Como é do conhecimento público, José Sócrates publicou vários trabalhos sob o seu nome, que não eram da sua autoria. 

No contexto de uma universidade, um aluno que plagie cronicamente pode estar sujeito a ser expulso, logo por que razão uma pessoa com este comportamento é convidada para ser um ponto de referência na vossa educação? Para além disso, José Sócrates exibe deficiências técnicas na compreensão da economia que, também elas, são do conhecimento público, logo que tipo de conhecimento poderá ele oferecer-vos?


Dado o investimento em termos de tempo e dinheiro que têm de fazer, é vossa responsabilidade exigir que a FEUC vos proporcione oradores com um mínimo de qualidade. Cabe por isso a vós o papel de fazer perguntas pertinentes tanto à escola, como ao orador, e manifestar um nível de exigência que seja compatível com a educação que querem receber, pois está em causa a vossa futura reputação profissional.



quinta-feira, 15 de março de 2018

Campanha da vassoura

A DdD soube de fonte segura que Rui Rio está a considerar iniciar uma campanha da vassoura. O objectivo da campanha é triplo: por um lado pretende assegurar aos camaradas que votaram nele que ainda está disposto a dar um banho de ética ao PSD, nem que seja à vassourada; por outro, precisa de um lembrete porque reconhece que ninguém, muito menos ele, vai para novo; e ainda ajudaria a economia nacional.

Sendo assim, o plano é pedir aos caríssimos portugueses que lhe mandem vassouras biodegradáveis para proceder à limpeza do partido: se as vassouras forem ubíquas na sua proximidade, Rui Rio não se esquecerá do que tem de fazer e os portugueses podem também fazer uso de uma vassoura para lhe lembrar, com umas bordoadas bem aplicadas. Finalmente, como Portugal tem matas por todo o lado, o aumento da produção de vassouras biodegradáveis iria permitir ao país usar o material de limpar as ditas, o que contribui para o desenvolvimento das zonas rurais, a redução de externalidades negativas, e maior segurança no território português.

Aguardamos s ansiosamente o lançamento oficial da campanha da vassoura...

terça-feira, 13 de março de 2018

Houve progresso?

Então, o Feliciano já foi corrido do PSD? Esta é a prova de fogo de Rui Rio e acho bem que se distancie desta malta. Se querem que vos diga, sinto um profundo nojo. Eu, para arranjar um emprego onde vivo, tenho de me sujeitar a uma investigação criminal, a exames de urina para ver se consumo estupefacientes, a referências profissionais, e a investigações do meu crédito pessoal e eu passo a isso tudo com muito orgulho. Eu tenho vergonha na cara, meus caros, e sinto um enorme peso nos meus ombros: sou uma pessoa que é portuguesa e vive no estrangeiro e não quero conspurcar o meu nome, nem o nome do meu país. E estes gajos que andam nos partidos aí nem um CV sem mentiras conseguem ter e ainda envergonham o país no estrangeiro.

E ainda -- porque isto parece uma competição de safadeza --, olhem para esta ordinarice: o júri da tese de mestrado do Feliciano -- um fulano do PSD, um ex-Secretário de Estado do PS, e uma ex-Ministra do PS -- diz que é grave o que ele fez. A sério, o que ele fez é grave? E o que vocês não fizeram não é grave? Foi-vos dada a responsabilidade de avaliar as credenciais académicas de uma pessoa e nem o estatuto do aluno conseguiram verificar. É preciso ter lata! Como é que esta gente tem emprego?

domingo, 11 de março de 2018

Escolasticamente pobres

Não percebo se há uma fixação em Portugal com o grau de professor universitário ou se o público, em geral, inclusive os jornalistas, é ignorante em assuntos universitários e em princípios básicos de jornalismo.

Por exemplo, depois da confusão em redor do estatuto de Pedro Passos Coelho, confrontamo-nos com outra situação em que a palavra "professor" é usada de forma errada e até o nome da universidade erram. Há tantos erros na peça, que eu nem sei quem disse o quê.

Lê-se na peça da agência Lusa publicada no Expresso acerca de Feliciano Barreiras Duarte, o seguinte:
'Em causa está o estatuto de "visiting Scholar" da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que o secretário-geral do PSD retirou entretanto do seu currículo.'
e
'Um dia depois de o semanário Sol ter noticiado que Feliciano Barreiras Duarte teve de retificar o seu currículo académico para retirar o item que o indicava como professor convidado (visiting scholar) na Universidade de Berkeley, na Califórnia, Estados Unidos, o novo secretário-geral do PSD veio justificar-se em declarações ao Diário de Notícias.'

Em primeiro, scholar não se traduz como professor. Segundo, a Universidade de Berkeley não existe; existe a Universidade da Califórnia, que tem um campus em Berkeley, que é um de 10 diferentes. Terceiro, o estatuto de visiting scholar não existe na Universidade da California-Berkeley; o que existe são os estatutos de Visiting Researcher Scholar, que é reservado a pessoas com doutoramento, e Visiting Student Researcher, reservado a pessoas que são estudantes numa universidade que não a UC-Berkeley.

Isto está tudo explicado na página de Internet da universidade, logo por que razão o jornalista não investiga o assunto antes de escrever na peça uma informação que induz em erro o leitor?

sábado, 10 de março de 2018

Limites de adaptação

Foi no Sábado passado que apanhei um Uber para ira para o aeroporto e depois vir para Memphis, talvez tenha sido um Lyft, já não me recordo. O condutor era um rapaz da Venezuela, que trabalha num banco, onde faz originação (é assim que se diz?) de novos empréstimos e, segundo me disse, o negócio está bom. É esquisito que alguém que tem um emprego que parece bom ainda faça biscates pelo meio, mas é comum haver empregos part-time nos EUA e acho que agora com a Uber e Lyft muito mais pessoas têm. Ou talvez não, pode ser que haja maior visibilidade e isso turve a minha impressão. Por exemplo, num prédio onde vive uma amiga minha, um dos senhores da recepção é professor primário durante a semana e trabalha no prédio ao fim-de-semana. E depois há as senhoras que vendem Mary Kay, Avon, Stampin' Up, etc.

Sempre que conheço alguém da Venezuela pergunto como vão as coisas por lá. É verdade que há as notícias, mas o testemunho directo também é importante, especialmente hoje em dia quando o noticiário compete com entretenimento. Não estão muito bem, disse-me ele. Fala-se em eleições, mas os resultados são o que interessa ao governo. Os jovens que podem saem e há um envelhecimento da população. Era preciso que houvesse uma revolução, mas eu disse-lhe que as revoluções não costumam ser feitas por idosos. Exactamente, responde ele e rimo-nos ambos. Passámos a viagem de quase 40 minutos a rir.

Até há pouco tempo, ele tinha uma namorada na Venezuela, o que fazia com que visitasse com bastante frequência: cada seis meses. Mas as coisas complicaram-se porque distância e amor não combinam sempre e depois para ela vir para aqui há os vistos, o processo de imigração, etc. Teria de se casar para a poder trazer. Perguntei-lhe se ele tinha a certeza que ela gostava dele e ele não me pareceu muito convencido, para além de me dizer que o pai dele perguntava, em tom retórico, por que razão não tinha ele arranjado uma rapariga simpática nos EUA. Ele chegou a pensar em regressar, mas tem uma filha pequena nos EUA, que ele quer visitar todas as semanas logo sair ficou fora de questão. Achei bem.

Na última visita, levou um smart phone para o pai. Contava usá-lo enquanto lá estava, mas foi assaltado quando ia na rua com o pai e o tio, com o telefone no bolso das bermudas. Um fulano numa mota topou que era um smartphone deu meia-volta e roubou-o. Perguntei-lhe se as pessoas se vestiam assim ou se ele tinha ido para lá armar-se em americano. Vestem-se assim, garantiu-me. O pai não ficou triste, pois gosta de andar com o telefone baratucho a que chamam de barata, como o insecto. Uma vez o pai foi assaltado; quando o ladrão viu o telefone, devolveu-o e agora o episódio é contado com humor pelo pai, aliás ele diz-me que o pai é muito bem humorado. A mãe tem um smartphone, mas só o usa em casa.

A vida está difícil, mas os pais parecem estar bem; só não há dinheiro para ir de férias e é perigoso andar na rua. Isto trouxe-me à ideia os relatos de um amigo meu português que viveu em S. Paulo, no Brasil. Aconteceu-lhe ir jantar a um restaurante e quando saiu o carro não estava onde o tinha estacionado porque tinha sido roubado. Pensei na confusão que seria, mas ele disse-me que era normal: ia-se à polícia para ir buscar um papel para a seguradora e davam a indemnização pelo carro. Mesmo quando foi raptado durante algumas horas, o meu amigo não ficou afectado. Não aconteceu nada, para além de ser raptado. Não levaram muito dinheiro.

Para mim é estranho, mas suponho que quando vocês vêem notícias de tiroteios no EUA devem sentir esta estranheza: como é que alguém vive assim? Vive-se assim porque temos uma capacidade imensa de nos adaptarmos, mas há coisas que acho que não consigo.

http://www.humansofnewyork.com/post/171706138581/they-came-to-our-house-first-because-its-closest

quarta-feira, 7 de março de 2018

Eleições no Texas

Esqueci-me de vos dizer que hoje, Terça-feira (para mim; já é Quarta para vós), decorreram as eleições primárias no Texas. Os resultados ainda estão a sair, mas amanhã vai estar nos noticiários porque nestas eleições aumentou bastante a participação dos eleitores, especialmente os que votaram nas primárias democratas. Eu votei nessas, fi-lo antecipadamente, na semana passada, mas cheguei a pensar votar antes nas republicanas para poder votar contra o Ted Cruz (Senado) e o John Culberson (Câmara dos Representantes). Em vez disso, votei no Beto O'Rourke e na Lizzie Fletcher e ambos ganharam. Podem consultar os resultados aqui, no Politico.

Mudança

No Sábado, entrei num avião e mudei-me para o Tennessee: regressei a Memphis. Apesar de já ter vivido aqui e ter gostado bastante de cá estar, sinto o local estranho e sempre que ouço a palavra Memphis não a associo a casa. A grande ironia é que vendi a casa que eu tinha em Memphis no dia 4 de Janeiro e no dia 8 de Fevereiro recebi uma proposta de trabalho. Não me arrependo de ter vendido a casa, pois foi a decisão certa e o mercado imobiliário está no pico e demorou umas cinco semanas a fechar o negócio, sendo que nós publicitámos mesmo antes do Dia de Acção de Graças, logo uma época baixa.

Foi complicado preparar a casa para vender pois tivemos de fazer algumas obras. No entanto, não me posso queixar, pois tenho uma agente imobiliária que deve ser uma das melhores agentes nos EUA. Faz um acompanhamento do cliente fantástico, contacta profissionais para arranjar orçamentos para as obras, discute quais as opções que fazem mais sentido do ponto de vista de retorno do dinheiro gasto, dá apoio emocional, ajuda a decorar a casa, escolhe um bom fotógrafo, e certifica-se que as fotos são boas, etc. Já usei vários agentes para compra e venda e ela foi a melhor, nem tem comparação.

Entretanto, estou a passar três semanas num hotel, enquanto procuro por uma casa para arrendar. Apesar de já vos ter falado de Memphis, vou tentar ver a cidade com olhos novos e relatar-vos as coisas que acontecem aqui. Hoje, na viagem de Uber para o trabalho, a condutora era uma senhora do Chile, que não gosta de aqui estar porque acha a cidade triste e quer regressar para o seu país. Está aqui enquanto os filhos não têm a vida orientada: o mais novo tem 15 anos e o mais velho já está na faculdade. Ela trabalha no sistema de educação e conduz para a Uber nos tempos livres; é mãe solteira e o ex-marido não a ajuda com as despesas dos filhos.

Eu nunca tinha pensado em Memphis como sendo triste, mas é a "home of the Blues, birthplace of Rock 'n' Roll". Sabem o que me faz mesmo feliz? Em Abril, a cidade enche-se de flores -- os cornizos (dogwood) são as minhas árvores preferidas -- e o verde das árvores parece cristalino, como se tivéssemos entrado numa floresta encantada. Depois eu mostro-vos...

domingo, 4 de março de 2018

Aos Camaradas de Direita

Se eu soubesse que bastava Passos Coelho ser convidado para ir ensinar numa universidade para os camaradas de Direita lhe darem valor, teria feito campanha para isso. Infelizmente, alguém teve essa ideia primeiro e Passos Coelho é agora Dr. Passos Coelho porque é licenciado e tem valor. Eu acho que Rui Rio tem valor e, ainda por cima, é licenciado em economia, como o Dr. Passos Coelho. Também acho que a transformação que ocorreu na cidade do Porto sob o Dr. Rui Rio deveria ser um case study para outras cidades. Não sei por que razão ainda não house ninguém numa universidade portuguesa que o tenha convidado para dar aulas ou, pelo menos, uns seminários, em administração pública e local, mas fica aqui a ideia.

Ah, sim, camaradas de Direita, quando quiserem criticar Rui Rio, não se esqueçam que não é Rui Rio, é Dr. Rui Rio, if you’re nasty!



sábado, 3 de março de 2018

Enviado por um amigo fora do Facebook

Actualmente estou a tentar fazer amigos fora do Facebook... mas usando os mesmos princípios. Todos os dias saio à rua e durante alguns metros acompanho as pessoas que passam e explico-lhes o que comi, como me sinto, o que fiz ontem, o que vou fazer mais tarde, o que vou comer esta noite e mais coisas. Entrego-lhes fotos da minha mulher, da minha filha, do meu cão, minhas no jardim, na piscina e fotografias do que fizemos no fim-de-semana. Também caminho atrás das pessoas, a curta distância, ouço as suas conversas e depois aproximo-me e digo-lhes que "gosto" do que ouvi, peço-lhes que a partir de agora sejamos amigos e também faço algum comentário sobre o que ouvi. Mais tarde, partilho tudo quando falo com outras pessoas. E funciona. Já tenho 3 pessoas que me seguem... São dois polícias e um psiquiatra.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Azul

Yves Klein: Anthropométrie de l'époque bleue (1960)


Érika Circé-Perrault: Bleu (2012)

Graças ao Facebook, temos, finalmente, uma resposta

O existencialismo é uma maneira de perguntar “Porque é que estamos neste planeta? Porque é que vivemos as nossas vidas sem sentido?" Durante 200 ou 300 anos, ilustres escritores e filósofos espremeram em vão os miolos a tentar responder a estas perguntas. Como diz a personagem J. karacehennem em “Odeio a Internet” de Jarett Kobek:

“O Facebook é fantástico porque compreendemos finalmente porque é que temos cidades natais, porque é que nos envolvemos em relacionamentos, porque é que comemos os nossos jantares estúpidos, porque é que temos nomes, porque é que somos donos de carros idiotas e porque é que tentamos impressionar os amigos. Porque é que aqui estamos, porque é que fazemos estas coisas todas? Podemos, por fim, avançar com uma solução. Estamos na Terra para fazer enriquecer ainda mais o Mark Zuckerberg.”

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Três pontos

  1. Como têm acompanhado nas notícias, no dia 14 de Fevereiro passado, dia de S. Valentim, houve um atentado numa escola secundária nos EUA. Não foi muito diferente dos atentados que têm acontecido ao longo dos últimos anos e não julgo que seja o último. Há, no entanto, uma pequena diferença na reacção: os alunos desta escola decidiram organizar um movimento de protesto nacional para exigir que o acesso a armas seja controlado de forma diferente. Para o dia 24 de Março, está a ser planeada uma marcha em Washington, que irá mobilizar os alunos das escolas americanas. Veremos se o momentum deste movimento terá pernas para andar, mas é inspirador ouvir raparigas de 17 anos a discutir este tema.

Reportagem 15

 Numa iniciativa inédita em território nacional e, tanto quanto foi possível apurar, também além-fronteiras, a Associação Cívica e Cultural Os Manhões, da vila de Manhões de c., inaugura hoje um LCD comunitário, sito no edifício da antiga escola primária, entretanto desactivada dada a vontade das crianças locais de pôr em prática pelo menos uma parte do ditado deitar cedo e cedo erguer, a saber, a segunda, ou seja, cedo erguer.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Aprender a aprender


O Diário de Notícias de hoje dá relevo, na primeira página, a uma frase que António Guterres terá proferido ontem, por altura do seu doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa: que os alunos devem aprender a aprender e não a “marrar nas sebentas” (referia-se, certamente, às suas lembranças de estudante). 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

You’re beautiful!


Foi numa Quarta-feira, que, num ímpeto do momento, telefonei à J. para saber se queria ir jantar fora, mas não a apanhei a tempo: estava cansada depois de um belo dia a jogar golfe, coisa que já sentia falta dado o inverno menos ameno que este ano temos tido em Houston. Combinámos para o dia seguinte e fui até casa dela, ao fundo da rua, buscá-la à porta. É raro a J. atrasar-se e, frequentemente, está pronta alguns minutos antes. 

Saí do meu carro, que tinha há menos de duas semanas, e ela ao vê-lo pela primeira vez imediatamente o admirou. Como tínhamos combinado, entrámos em casa da J. durante alguns minutos para conversar e beber um copo de vinho tinto, o que ela faz todos os dias, religiosamente, às 17h30m. Quando saímos, abri-lhe a porta do carro para entrar e liguei o aquecimento do banco dela na temperatura mínima para a não magoar — aos 92 anos, a pele da J. é frágil e ela toma medicamentos para controlar a espessura do sangue. Depois de, na última vez que visitou a minha casa, o meu cão lhe ter dado algumas nódoas negras só porque a cumprimentou, tento ser mais cuidadosa. 

Normalmente, a J. gosta de frequentar os restaurantes mais perto de casa, mas eu estava mais inclinada para irmos ao O’Porto Café, um pequeno bistro que serve pratos inspirados em cozinha portuguesa, italiana, e espanhola — é uma bocado fusão mediterrânea, apesar de Portugal não ficar no lado do Mediterrâneo, mas sim do Atlântico. O chefe, no entanto, é filho de um italiano e de uma portuguesa ou talvez seja ao contrário... 

Gosto de ir a este restaurante. Foi um dos primeiros em Houston que comecei a frequentar quando me mudei para cá, mas uma vez tive uma conversa com uma outra portuguesa que aqui vivia que me dizia que o bacalhau à Brás que era servido lá não era bom: o grande defeito é que não sabia ao bacalhau à Brás que ela fazia em casa. 

Achei uma crítica estranha porque, quando vou a Portugal, é raro qualquer prato saber ao que nós fazemos em casa, logo para mim é um critério meio-esquisito. Aliás, se eu quisesse que soubesse ao que faço em casa, fazia em casa, não ia comer fora... Mesmo o conceito de saber ao que se faz em casa é ilusório. Uma das minhas melhores amigas em Portugal tinha mãe goesa e muitos dos pratos que ela fazia sabiam a cominhos, o que eu adorava porque, na minha casa, quase nunca se cozinhava com cominhos, ou seja, cada casa tem o seu sabor.

Fomos pela Bissonett e a J., que ainda conduz, ficou feliz por não ter de passar pela via rápida que a assusta um bocado. Note-se que, ainda no ano passado, a J. foi a Austin de autocarro sozinha — mais de duas horas de viagem —, logo diverte-me pensar que uma via rápida dentro da cidade lhe causa ansiedade. Antes de chegarmos ao cruzamento da Wesleyan com a Richmond, entrei no parque de estacionamento e fui censurada pela minha companheira, que pensava que eu estava a tentar fugir ao semáforo, mas disse-lhe que tínhamos chegado ao strip mall onde ficava o restaurante. 

A minha mesa preferida fica junto à janela e nesse dia encontrava-se reservada. Duas mesas de jantar estavam livres: uma a meio do restaurante, outra mais para o interior. Escolhi a que ficava mais longe porque na mesa ao lado estava sentado um casal de pessoas mais velhas, o que achei encantador, pois gosto de observar pessoas: people-watching é um passatempo tipicamente americano!

Coube-me escolher o que comer e bebemos água porque já tínhamos tratado do vinho. Como os pratos são mais estilo tapas, achámos melhor partilhar várias coisas. Um dos pratos que escolhi foi pastéis de bacalhau, que são servidos com uma tacinha com molho picante. O molho não é tradicional, nem a J. gosta de picante, mas os pastéis não são maus de todo e ela apreciou-os bastante. Também impressionaram os nossos vizinhos do lado, o tal casal idoso, o suficiente para nos perguntarem o que era: eu respondi e a J., triunfante, explicou que eu era de Portugal e os pastéis de bacalhau eram uma comida tradicional portuguesa. 

Também petiscámos um queijo de cabra e, no todo, passámos uma noite bastante agradável. Para o final, o homem do casal ao lado disse à J., à frente da companheira, “You’re beautiful!” A J. agradeceu e ele acrescentou que ela tinha qualquer coisa que reluzia. Depois trocaram idades: eles tinham à volta de 87 e a J., com os seus 92, sentiu-se gloriosa: eram uns jovens, dizia amavelmente. Despedimo-nos e regressámos a casa ambas contentes.


Nessa noite, pensei no #metoo: num futuro próximo, será possível dizer a uma pessoa desconhecida “You’re beautiful!” sem que se seja acusado de assédio?

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Procrastinar



Há uns dias, deu-me para andar a procurar vídeos da Marlene Dietrich e acabei por ver este filme dela: The Monte Carlo Story (1957), que está completo no YouTube. Já não me recordo o que causou tal busca, mas decerto que foi um ataque de procrastinação. (Eu sei, eu sei, tenho andado ausente, mas escrevo-vos posts na minha cabeça todos os dias -- só não os chego a publicar... My bad!)

Pronto, vou deixar-vos outra coisa gira: alguns pedaços da entrevista da Ruth Bader Ginsberg, Juíza do Supremo Tribunal dos EUA, a Poppy Harlow. RBG, como é conhecida, tem 85 anos e está fresca que nem uma alface...

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Progresso

Ontem à tarde, nas notícias dos EUA, enquanto se tentava enquadrar a queda do mercado accionista, que chegou a estar 10% abaixo do máximo histórico, o que faz das quedas da semana passada e desta uma correcção e não apenas uma flutuação, a grande pergunta que se fazia era se o governo federal americano iria fechar outra vez à meia-noite. No All Things Considered, da NPR, entrevistavam-se membros do Congresso do lado dos Democratas e do lado dos Republicanos, num jogo de passa-a-culpa.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

How they met themselves

Elizabeth Siddal foi uma supermodelo que inspirou a parte mais importante das obras com interesse dos pré-rafaelitas. Gabriel Rossetti foi por sua vez um dos mais inspirado dos pré-rafaelitas, e manteve com a Elizabeth uma relação conturbada de doze anos, que viria a culminar com o suicídio dela com uma overdose de opiácios (tese que o Oscar Wilde viria a desafiar, sugerindo que foi Rossetti que a matou). 

No início da relação, em 1850, Rossetti começou a pintar um quadro que só viria a terminar praticamente no fim da relação com Elizabeth. Este dado é curioso – Rossetti foi um dos pintores mais produtivos dos pré-rafaelitas. Completou várias dezenas de quadros de Elizabeth e, quando estava apertado de dinheiro, pintava como se não houvesse amanhã. No entanto, demorou dez anos a terminar este quadro particular – um quadro aliás bastante medíocre, quando comparado com todos os outros que o tornaram famoso, e que hoje está literalmente escondido num museu em Cambridge (tem de se fazer marcação para poder vê-lo, numa cave). O quadro representa o próprio casal a encontrar-se consigo mesmo. Passeando num bosque, Rossetti e Elizabeth dão de caras com duas pessoas iguais em tudo a eles próprios, e têm uma reacção meio aparvalhada: ele desembainha a espada, sem que se perceba se é para atacar ou se defender; ela perde os sentidos. 

Olhando para o futuro, a partir de quando começou a ser pintado, ou para o passado, a partir de quando foi terminado, este quadro faz igualmente sentido. A partir do 1850, olhando para a frente, poderia refletir as ansiedades da paixão e as suas milhentas contradições – se for verdade que nos apaixonamos pela nossa imaginação do outro, e não por ele mesmo, o maior medo deve ser darmos de caras com a realidade. A partir do 1860, olhando para trás, refletiria o imenso choque perante o que falharam em se tornar – ela, que tinha o talento suficiente para ser patrocinada pelo crítico de arte mais conhecido do século XIX, mas que nunca veio a criar nada de memorável (quem é que hoje sabe quem ela é?); ele, que a manipulou para a tornar vulernável e dependente dele, e acabou por carregar com o peso dela nos braços. Se calhar o quadro também faz sentido se olharmos para ele como uma premonição final, dado que Rossetti viria em falhar em proteger Elizabeth de si própria (se ela se matou), ou de ele mesmo (se Oscar Wilde tiver razão). 

É uma obra tão maravilhosa como medíocre.

Image result

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Ouro puro

O Gregory Dunne, aquele rapaz que entrou no filme "Who's That Girl?" com a Madonna, fez um documentário sobre a sua tia, a Joan Didion, que é tão bom, tão bom! Está no Netflix e chama-se "The Center Will Not Hold". Há uma parte que é descrita em baixo, nesta peça da The New Yorker, da qual me lembro nitidamente porque quando ouvi a resposta de Joan Didion fiquei estupefacta com a franqueza, mas também fiquei cheia de curiosidade de ler a senhora.

"In one of several genial interviews, Dunne asks Didion about an indelible scene toward the end of her Haight-Ashbury essay—which, as any student who has ever taken a course in literary nonfiction knows, culminates with the writer’s encounter with a five-year-old girl, Susan, whose mother has given her LSD. Didion finds Susan sitting on a living-room floor, reading a comic book and dressed in a peacoat. “She keeps licking her lips in concentration and the only off thing about her is that she’s wearing white lipstick,” Didion writes. Dunne asks Didion what it was like, as a journalist, to be faced with a small child who was tripping. Didion, who is sitting on the couch in her living room, dressed in a gray cashmere sweater with a fine gold chain around her neck and fine gold hair framing her face, begins. “Well, it was . . .” She pauses, casts her eyes down, thinking, blinking, and a viewer mentally answers the question on her behalf: Well, it was appalling. I wanted to call an ambulance. I wanted to call the police. I wanted to help. I wanted to weep. I wanted to get the hell out of there and get home to my own two-year-old daughter, and protect her from the present and the future. After seven long seconds, Didion raises her chin and meets Dunne’s eye. “Let me tell you, it was gold,” she says. The ghost of a smile creeps across her face, and her eyes gleam. “You live for moments like that, if you’re doing a piece. Good or bad.”

Fonte: The New Yorker, 27/10/2017

domingo, 28 de janeiro de 2018

Malandragem!

No dia 23 de Janeiro, comprei filme para a minha Fujifilm Instax Mini na Amazon: seis pacotes de 20 fotos cada, totalizando $85.86. Como sou forreta escolhi a entrega grátis, que é a que demora mais tempo. Entregaram hoje, ao Domingo, enquanto eu estava na sala a desfrutar o meu café, poucos minutos depois de ter terminado o último post aqui no blogue.

Ele há muita malandragem no mundo: então a senhora que me veio entregar o pacote não tinha nada que estar a trabalhar a estas horas e que companhia tão mal-gerida, que demora menos de uma semana a entregar uma coisa ao cliente — o pacote veio de Las Vegas, no Nevada, que fica a mais de 2300 Km de mim, ou seja, são mais de 21 horas de carro, mais tempo para dormir, refeições, etc. Em Portugal, que é um país pequenito, mas mais eficiente e civilizado, demoraria muito mais tempo.

(Des)igualdades

Não entendi as notícias sobre a creche dos miúdos dos trabalhadores da Auto-Europa. Já percebi que há quem ache mal que se trabalhe ao Sábado, mas quem é que vai trabalhar ao Sábado para tomar conta dos putos? Também gostaria de saber se os trabalhadores da Auto-Europa que são “prejudicados” por trabalhar ao Sábado são maioritariamente homens, enquanto que os trabalhadores que são “beneficiados” por trabalhar em creches ao Sábado são maioritariamente mulheres.

Já agora, acho que todos os portugueses deviam assinar um compromisso dizendo que, daqui para diante, só terão acidentes e ficarão doentes durante o horário normal de trabalho. Ao final de Sexta-feira, os doentes hospitalizados terão de ir para casa e só regressar ao hospital na Segunda-feira de manhã. Ah, e nada de frequentar transportes públicos, centros comerciais, cinemas, museus, restaurantes, cafés, etc. ao fim-de-semana porque toda a gente tem o direito a desfrutar de tempo com a família.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Engolir a pílula

“Pais e filhos”, publicado em 1862, é o melhor romance de Ivan Turguéniev (1818-1883) e um dos melhores do século XIX. Nikolai Petróvitch ouve por acaso uma conversa entre o seu filho Arkádi e o amigo Bazárov, um niilista radical – é, sem dúvida, a grande personagem do livro. Bazárov diz: “O teu pai é boa pessoa, mas é um homem antiquado, o tempo dele já passou.” Estas palavras desanimaram o “velho” Nikolai, na altura com quarenta e poucos anos. Apesar de viver no campo, este aristocrata generoso e culto esforçava-se por se manter actualizado e a par das modas intelectuais e políticas, havia lido os grandes autores, autores que a juventude via agora com desdém, considerando-os inúteis e uma perda de tempo. Nikólai desabafa então com Pável, o seu irmão mais velho: “Sabes do que me lembrei mano? Uma vez discuti com a nossa falecida mãe: ela gritava, não me queria escutar… Eu por fim disse-lhe: «a mãe não me pode compreender, pertencemos a duas gerações diferentes.» Ela ficou horrivelmente ofendida, e eu pensei: que fazer? A pílula é amarga, mas é preciso engoli-la. Pois agora chegou a nossa vez, e os nossos herdeiros também nos podem dizer: vocês são de outra geração, engulam a pílula.”
Turguéniev captou de forma genial uma questão intemporal. De uma forma ou outra, tarde ou cedo, temos de engolir a pílula. É a vida.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Contra a democracia

Em 2016, antes ainda da vitória de Donald Trump, Jason Brennan publicou o seu provocatório “Against Democracy”. Brennan parte de uma premissa: em geral, os votantes são uns ignorantes – os americanos, mas não há nenhum motivo para acreditarmos que os do resto do Ocidente são melhores. O cientista político vê a sociedade americana dividida em três grandes grupos. Os hobbits são as pessoas desinformadas, não sabem nem querem saber dos assuntos públicos e deviam abster-se de qualquer responsabilidade política – nos EUA correspondem, grosso modo, aos abstencionistas, mais de 40% do eleitorado. Os hooligans acompanham as notícias da política como quem acompanha as notícias do seu clube de futebol, ou seja, de forma completamente enviesada. Por fim, os vulcanos estudam os assuntos políticos com objectividade, ouvem os outros e ajustam se necessário as suas opiniões. Estamos perante tipos-ideais, para usarmos a terminologia de Max Weber. De qualquer maneira, a larga maioria dos americanos é hobbit, hooligan ou fica algures entre os dois.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Alternativas

Na Terça-feira, fui ao Tribunal da minha cidade para ser seleccionada para o júri de um julgamento. Não contei o número de pessoas que lá estavam, mas deviam ser mais de 30 porque estava programado haver quatro julgamentos, mas três foram cancelados -- cada julgamento precisa de 6 pessoas no júri, mas temos de ter em atenção que algumas saem porque têm conflitos de interesse, outras são excluídas pela defesa ou pela acusação.

Surpreendeu-me que, no meio de tanta gente, quase todos fossem brancos e predominantemente homens. Uma das formas de sermos desculpados do "dever de ser jurado" (traduzo assim "jury duty") é ter ao nosso cuidado uma criança de 12 anos ou mais nova, logo este critério deve excluir muitas mulheres. Eu devia ser a mulher mais jovem que lá estava e, para minha surpresa, fui a única seleccionada para participar no julgamento.

Como nunca tinha sido chamada para uma coisa destas, para mim foi uma experiência educativa, que ainda estou a processar. Recordei-me de um episódio que me aconteceu há uns anos, em que um colega meu, ao falar da evolução dos preços de uma commodity disse que havia três alternativas: ou o preço subia, ou descia, ou ficava na mesma, logo 33,3% para cada lado. Quando ele disse aquilo, tive uma reacção visceral imediata porque a probabilidade de um preço ficar na mesma de um dia para o outro é quase nula, logo os 100% são quase na totalidade divididos entre ou vai para baixo ou vai para cima. Mas aquele erro é muito comum...

Agora que penso nas escolhas do veredicto, pergunto-me que impacto terá na forma como as pessoas processam as suas alternativas. No caso da multa, os veredictos possíveis eram "guilty" ou "not guilty", mas o "guilty" tinha também a possibilidade de escolha de uma multa que ia de um mínimo de $1 a um máximo de $200. Quando o advogado de defesa instruiu o júri, disse-nos que perante a lei nós tínhamos de presumir inocência, logo qualquer dúvida devia dar um veredicto de "not guilty". Só que não é bem o caso porque o veredicto tinha de ser unânime, logo todos os jurados tinham de reconhecer ter uma dúvida para concluir "not guilty".

O caso era insignificante: uma multa por conduzir a 70 milhas por hora, numa área em que o limite está assinalado como sendo 60. No Texas, não há limite de velocidade máxima, mas temos de conduzir a uma velocidade que não é “unreasonable and imprudent under the circumstance then existing”. Se está assinalado um limite, entra em consideração a questão de limites de velocidade "prima facie", em que velocidades acima desse limite podem não ser prudentes ou razoáveis -- ou seja, é necessário avaliar as condições.

No julgamento, tivemos oportunidade de ver o vídeo da polícia em que a pessoa acusada ultrapassa os 70 mph por uns segundos e é parada pela polícia. Na minha opinião, não achei a velocidade perigosa, aliás estava tudo a conduzir a mais de 60 mph, quase a 70 mph, inclusive um camião, que penso colocar um risco maior, mas a minha dúvida, que era partilhada por outra pessoa, não foi suficiente para absolver porque há quem ache que 70 mph é o limite de perigoso. Dizia eu aos meus colegas que havia um carro à frente que ia mais rápido do que o da pessoa acusada, logo a velocidade da pessoa acusada inseria-se no argumento de "flow of traffic", só que me responderam que esse carro ia muito mais à frente e estava mais longe da polícia e alguém cometer uma violação e safar-se não serve de desculpa para safar quem é apanhado.

Tenho a ligeira sensação de que o meu papel de refilona não serviu a justiça; apenas serviu para minimizar a injustiça. O meu opositor principal disse-me que, se eu aceitasse dar um veredicto de "guilty", ele aceitaria dar uma multa de $1. Pensei nas alternativas: a pessoa ia a tribunal outra vez e corria o risco de ser culpada e ter uma multa maior ou não ia a tribunal e pagava a multa, que é mais de $1. Aceitei mudar o meu veredicto em troca da multa mínima. No final, o homem que me opôs perguntou-me o que eu fazia: sou economista.

Um outro senhor, muito mais discreto do que eu e que também estava disposto a dar o veredicto de "not guilty", veio ter comigo no final e disse que aquilo era o melhor que podíamos ter feito dada a composição do júri e sugeriu que déssemos os $6 que cada um recebeu em troca do nosso serviço à pessoa acusada e que lhe disséssemos "We're sorry, but this is the best that we could do under the circumstances". Assim fizemos e entregámos os $12.

Mas continuo insatisfeita e com vontade de refilar: estou a avaliar as minhas alternativas...

A morte da perícia

Tom Nichols publicou The death of expertise em 2017, depois do Brexit e da vitória de Donald Trump. Para Nichols, a morte da expertise não é sinónimo de um saudável cepticismo em relação aos especialistas. A morte da perícia é, antes de mais, um rancor ou ressentimento dos leigos para com os especialistas. Nesta fase pós-industrial, todos os cidadãos acreditam ser especialistas em tudo e mais alguma coisa.
Perante a morte da perícia, a explicação recorrente é acusar a internet. De facto, a internet é um extraordinário repositório de conhecimento e, ao mesmo tempo, uma fonte de conhecimentos errados. Mas esta explicação é demasiado simples. Os ataques ao conhecimento estabelecido têm uma longa história. A internet é apenas o elemento mais recente num problema com raízes profundas. Assim, além da internet, Nichols identifica mais três grandes causas da morte da perícia: as fraquezas humanas (a aversão à ambiguidade e à dissonância; a crença, bastante enraizada, num mundo ordenado) que nos levam a cometer erros sistemáticos (enviesamentos); a educação; e o novo jornalismo.
A educação poderia ser a solução de problemas como o “enviesamento da confirmação” ou das falhas e lacunas de conhecimento dos cidadãos. Infelizmente, a educação faz hoje parte do problema. O estudante é tratado como um cliente. O cliente paga e tem sempre razão. Esta tendência gerou efeitos altamente perversos. A necessária humildade do bom estudante deu, muitas vezes, lugar a uma arrogância sem fundamento, acompanhada de um conhecimento ilusório. Os estudantes não desenvolvem hábitos de autocrítica que lhes permitam continuar a aprender e a avaliar as complexas questões sobre as quais terão de deliberar e votar como cidadãos.
Por fim, os jornalistas profissionais enfrentam novos desafios na era da informação. No meio altamente competitivo dos media, os editores e produtores não têm mais a paciência – ou os meios financeiros – para permitir aos jornalistas desenvolverem a sua própria perícia ou um conhecimento mais profundo dos assuntos. Para mais, não há sequer provas de que a maioria dos consumidores esteja interessada em muitos detalhes. E as pessoas envolvidas na indústria das notícias sabem hoje que, se as reportagens não entreterem o suficiente, o público pode facilmente encontrar outras com um simples clique.
O desprezo pelos especialistas está a minar a democracia, conclui Nichols. Os representantes eleitos não podem dominar todos os assuntos e, por consequência, irão precisar sempre dos especialistas e de outros profissionais. Os especialistas aconselham; os líderes eleitos decidem. Para julgar o desempenho dos especialistas e as decisões dos políticos, os cidadãos devem familiarizar-se com os assuntos em questão. Tal não significa um estudo profundo sobre as políticas, mas exige interesse em obter uma literacia básica nos assuntos que afectam as suas vidas.
Quando os cidadãos se afundam na ignorância, perdem o controlo das decisões importantes. Pior, a democracia pode ser sequestrada por demagogos ignorantes ou as instituições democráticas podem, paulatinamente, cair na decadência. A democracia pode transformar-se numa tecnocracia autoritária. E este último ponto leva-nos ao "elitismo" - uma espécie de populismo virado do avesso - e ao livro “Against democracy” do cientista político norte-americano Jason Brennan de que falarei noutra oportunidade.

Contos zen para crianças boas 80

1.      Cavalgamos por aquele bosque cerrado, até chegarmos a uma clareira pequena, após atravessarmos um rio veloz, com os nossos cavalos já cansados, porque lutámos contra ursos e cavalgamos desde madrugada, sob a ameaça dos lobos, para chegarmos ainda nessa noite, ou entre a noite e a alvorada, sem parar um minuto que seja, nem perante o evidente cansaço dos cavalos, nem por causa de uivos aterradores, ou de árvores fantasmagóricas, à clareira pequena onde nos espera refúgio de ursos e lobos, alimento para cavalos e uma cama merecida junto a uma fogueira crepitante. Não somos salteadores, nem príncipes. As aventuras acontecem a qualquer pessoa.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Um mal bastante disseminado e democratizado

“Madoff: Teia de mentiras” (The wizard of lies) é o melhor filme que se fez até ao momento sobre a tragédia Madoff. Barry Levinson é um realizador competente, um bom artesão. Robert De Niro e Michel Pfeiffer cumprem bem o seu papel de casal Madoff. Em Dezembro de 2008, Madoff revelou à família a enorme fraude que andara a urdir durante mais de 16 anos. Foram os filhos que o entregaram à justiça, apesar de Madoff declarar várias vezes que se entregaria de qualquer maneira. Antes de mais, o filme centra-se na tragédia familiar. Os dois filhos morreram, entretanto. O mais velho suicidou-se com 46 anos em 2010. O mais novo morreu em 2014 de cancro, com 48. Madoff, agora com 79, espera pela morte na prisão. A mulher, Ruth, deixou de lhe falar e foi abandonada e ostracizada por todos, excepto por uma irmã, ela própria vítima das vigarices do cunhado. O filme aborda, de raspão, a incompetência dos reguladores, os quais não cruzam informação entre si, e são ingénuos ao ponto de acreditarem na palavra de um vigarista - onde é que já vimos este filme?
Madoff deixa no ar a pergunta se é ou não um sociopata. Claro que é, como o são muitos desses gurus empresariais e da alta finança. Gente especialista em contornar regras, atreitos a correr grandes riscos e sem um pingo de remorsos nas veias. A diferença de Madoff é que confessou e, por isso, está preso – a justiça americana também não é bem essa maravilha que às vezes se diz. Os outros sociopatas, os que puseram a economia mundial à beira do precipício, foram os primeiros a erguer-se e, muitas vezes, a aproveitar-se dos destroços que eles próprios provocaram.
Madoff diz várias vezes que o problema é a ganância das pessoas. Ele próprio recomendava aos seus clientes que não investissem mais de metade do seu dinheiro nos seus fundos. Mas os clientes não resistiam. Queriam mais e mais, e depois muitos ficaram a arder, sem nada. Isto não iliba nem desculpa Madoff, claro. Mas é um problema que muitas vezes nos esquecemos ou preferimos ignorar. Preferimos atribuir a culpa toda aos Madoffes deste mundo – ele bem se queixa, com alguma razão, que foi transformado no bode expiatório de todo o sistema. Estes vigaristas aproveitam-se das fraquezas humanas, e uma delas é a ganância, um mal bastante disseminado e democratizado. Infelizmente.


domingo, 21 de janeiro de 2018

Uma ideia, não uma raça

Quando o Presidente Trump acusou alguns países de serem "shitholes" e questionou porque é que os EUA não atraíam mais pessoas da Noruega, a pessoa que o opôs foi Lindsey Graham, um senador republicano da Carolina do Sul que disse "A America é uma idea, não é uma raça" e ofereceu a diversidade dos EUA como uma força, em vez de uma fraqueza.

Ontem, na Marcha das Mulheres, em Houston, o Mayor da cidade, Sylvester Turner, um homem democrata e negro, afirmou o mesmo no seu discurso. Houston é a cidade com mais diversidade dos EUA: uma em cada quatro pessoas nasceu noutro país e os residentes de Houston falam mais de 140 línguas. "A causa é justa", disse, acerca da motivação da Marcha das Mulheres, mas diversidade é apenas uma condição necessária, não é uma condição suficiente para honrar os valores mais altos pelos quais marchamos. Também é necessário que haja inclusão, alertou o Mayor, que todos tenham representação democrática: que haja maior diversidade nos candidatos, no voto, e na eleição e nomeação de pessoas. É importante que todos os residentes encontrem uma forma de participar na construção do futuro da cidade para que o processo de inclusão seja aprofundado. Nesse aspecto, apresentou Houston como um farol para o resto do país: o futuro dos EUA é tornar-se ainda mais diverso e inclusivo, não há como parar este movimento e quem o opuser estará do lado errado da história.

Quem olha para a Marcha das Mulheres e acha que para os americanos é suficiente que haja mais mulheres no governo não compreende a natureza dos EUA. A causa da Marcha das Mulheres é elucidativa: procuram-se candidatos, homens e mulheres, de raças e etnias diferentes, de orientação sexual diferente, de estratos sociais diferentes, etc. Ser mulher não é suficiente. Aliás, é essa uma crítica que se faz à Casa Branca de Trump: não há diversidade étnica, nem racial, nem socio-económica. Omarosa Manigault-Newman, uma mulher negra assessora de Trump na Casa Branca, que era uma linha de defesa contra esta crítica, demitiu-se recentemente. Em fotografias oficiais, o Presidente Trump rodeia-se de mais homens, quase todos brancos, em contraste com as fotos da Administração Obama -- a equipa de Trump contem mais homens do que as equipas dos últimos seis presidentes.

A 20 de Março irão realizar-se as eleições primárias para as mid-terms de 2018, nos EUA. Nessa altura, poderemos avaliar se a mensagem de diversidade e inclusão está a ganhar força.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Oposição construtiva

Depois de Rui Rio ter ganhado a liderança do PSD, o Primeiro Ministro António Costa afirmou que a oposição de Rui Rio não seria "seguramente difícil" de ser melhor do que a de Pedro Passos Coelho e desejou que fosse uma "oposição construtiva".

"Oposição construtiva" dito por António Costa parece-me um oxímoro, pois, do ponto de vista dele, algo construtivo não pode ser oposto ao que ele quer e algo oposto não pode ser construtivo. Senão, vejamos: se a oposição de Rui Rio é vista como construtiva por António Costa, significa que o Governo está a fazer alguma coisa que precisa de ter oposição e se esta oposição é construtiva, então a coisa que está a ser feita não deve ser muito boa. Nesse caso, se a coisa não é boa por que é que António Costa a defende?

Mas se ele acredita em "oposição construtiva", certamente que a praticou quando Pedro Passos Coelho era Primeiro-Ministro, logo seria importante que algum jornal ou TV nos fizesse uma revisão do que é "oposição construtiva" segundo António Costa enquanto líder da oposição. Recordo-me que, quando António Costa subiu ao poder, ninguém percebeu o que iria ser um governo dele.

Faz, no entanto, sentido falar-se em "oposição construtiva" do ponto de vista dos cidadãos. Pessoalmente, prefiro situações em que todos os partidos são fortes e têm pessoas competentes que consigam articular os diferentes pontos de vista do eleitorado. É lógico que é impossível agradar a toda a gente, mas haver forças opostas significa que o país seguiria um caminho mais regrado, em que os excessos são improváveis.

Espero que Rui Rio consiga aumentar a qualidade do debate político em Portugal. A primeira tarefa é controlar a mensagem do PSD, um partido que passa demasiado tempo a lavar roupa suja em público e descura o estudo e a proposta de políticas alternativas. Não é suficiente estar na oposição para se fazer oposição. É preciso conhecer o país e o mundo em que nos inserimos, identificar riscos e oportunidades, e ter planos de curto e de longo prazo. A curto prazo, é preciso compreender os pontos fracos da política proposta pelo governo e oferecer alternativas, mas deixem-se do pseudo-liberalismo esquizofrénico e do moralismo anacrónico a que nos habituaram.

Uma forma fácil de ser alternativa ao PS é melhorar a qualidade dos deputados do PSD: diversidade etária, de género, de percurso profissional, etc. Invistam em pessoas com valor que sejam bons líderes hoje, mas que também possam liderar no futuro, em vez de andarem a fabricar pessoas como Miguel Relvas. E liberalizem os votos da bancada do PSD no Parlamento: deixem que os deputados votem com a sua consciência -- note-se que é necessário que tenham consciência -- e incentivem o contacto dos deputados com o eleitorado. Com a Internet não é assim tão difícil e caro de fazer. O PSD precisa de demonstrar que está no Parlamento para servir o povo que representa e não para tratar da vidinha dos do costume.






quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Domingo: Power to the Polls

No próximo Domingo, irá celebrar-se o primeiro aniversário da Women's March on Washington, D.C., que foi um evento que mobilizou pessoas por todo o mundo: foi apenas a maior manifestação colectiva de sempre. Irá haver outra marcha, no Domingo, que terá vários propósitos: o primeiro é o de celebrar a Women's March; o segundo é o de marcar o início oficial do movimento "Power to the Polls, cujos objectivos incluem aumentar a participação das mulheres na vida política dos EUA, aumentando o número de candidatas para as eleições de Outubro de 2018 (as mid-terms), e também aumentar a participação política em distritos críticos para mudar a orientação do Congresso americano.

Tal como no ano passado, irá haver uma marcha principal, desta vez em Las Vegas, Nevada, que foi o local do tiroteio que matou 58 pessoas e feriu mais de 500, em 2017, e outras marchas de solidariedade por todo o mundo. Portugal não tem nenhuma marcha registada, mas um de vós pode organizar uma no sítio onde vive. Se o fizerem, não se esqueçam de registar o evento na página oficial do Power to the Polls.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Óptimos

"How do you drive to Memphis?!?" perguntou a J. Respondi-lhe "Drive to Texarkana, then Little Rock, AR, turn east and go until you hit Memphis." Fazia-lhe confusão que eu fizesse um percurso tão longo de carro, quando ela, com 92 anos nunca tinha sequer tomado uma refeição num restaurante sozinha -- a culpa era do marido, diz-me ela frequentemente, que a tinha mimado demasiado e, mesmo após ele morrer, há mais de 10 anos, ela apenas come fora acompanhada.

São quase 950 Km pela rota mais curta; mas nos EUA distâncias assim são normalmente medidas em termos de horas. Se não há trânsito em Houston e em Memphis e não há muitas obras na auto-estrada, consigo fazer o percurso em cerca de pouco mais de 10 horas, incluindo paragens para meter gasolina e comer, mas só posso comer fast food. Se comer uma refeição completa, e eu gosto sempre de parar pelo menos uma vez no Cacker Barrel durante as minhas roadtrips, demoro mais uma meia-hora, pelo menos.

No Domingo passado, quando regressei a Houston, completei o percurso em 9 horas e 53 minutos, o meu melhor tempo. Saí de Memphis depois das 13 horas e parei para verificar a pressão dos pneus. Pensei em almoçar dentro da cidade, mas como já era tarde e ainda estava cheia do pequeno-almoço tardio que tomei em casa de uma amiga, achei melhor fazer-me à estrada. Não resisti, no entanto, a descer a Poplar Av. até à baixa, em vez de adoptar uma das circulares. Demora mais, mas é uma das minhas ruas preferidas porque atravessa a cidade.

Talvez tenha sido um erro não ter almoçado porque, entre Memphis e Little Rock, não há quase nenhum sítio de jeito onde parar. Enquanto ruminava a sensatez da minha decisão, vi a saída para Palestine, AR, população 681, no census de 2010, e decidi parar, encher o depósito do carro e comer. Dentro do Love's -- a bomba de gasolina --, havia pouca escolha, mas resignei-me em comer no Chester's Chicken, cujo menu estudei durante vários minutos.

Há quem escolha comida pelo preço, mas eu costumo escolher pelas calorias e, como no Natal comi doces a mais e fiquei bastante doente, também tentei escolher algo que não tivesse muito trigo. Decidi que dois panados de frango, cole slaw, e uma taça de fruta seriam um bom almoço. Cole slaw é uma salada de couve branca crua cortada em julienne, cenoura, e um molho (normalmente vinaigrette ou maionese).

Quando chegou a minha vez, fiz o pedido: "two chicken tenders, cole slaw, and a fruit bowl", ao que o rapaz, que era magro e desenvolto, falando com um sotaque do sul pronunciado, respondeu "three-piece meal or six-piece?" Repeti "two chicken tenders, cole slaw, and a fruit bowl" e ele repete a mesma coisa "three-piece meal or six-piece?" e diz que não vou poder comprar "two chicken tenders". Olho outra vez para o menu e está lá o preço individual dos itens: volto a pedir e ele volta a recusar-se.

Desisto e digo "three-piece meal" -- pronto, lá se vão as calorias para o galheiro e ainda por cima a refeição traz um "biscuit", que é um pão de buttermilk, com 400 calorias, apenas um terço das minhas calorias diárias... O empregado explica-se "I'm not trying to be difficult, but you can get everything you want in a meal and it's cheaper. I'm just trying to save you money." O homem que está atrás de mim na fila comenta o empregado ser obstinado. Digo-lhe que o dinheiro é meu e tenho o direito de gastar como me apetecer, mas de nada vale. Pago a refeição, agarro na comida e vou sentar-me numa mesa.

Na TV, falam do ritual do chá no Reino Unido; no alti-falante anunciam quando os duches estão livres para os camionistas. Não comi tudo; guardei parte para o jantar e foi por isso que demorei menos de 10 horas a conduzir de Memphis a Houston. Nem sempre o cliente tem razão. De vez em quando, há um puto esperto que acha que sabe optimizar o consumo dos outros e acaba poupando-lhes tempo...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Fall in love

“Fall in love with some activity, and do it! Nobody ever figures out what life is all about, and it doesn't matter. Explore the world. Nearly everything is really interesting if you go into it deeply enough. Work as hard and as much as you want to on the things you like to do the best. Don't think about what you want to be, but what you want to do. Keep up some kind of a minimum with other things so that society doesn't stop you from doing anything at all.”


― Richard Feynman