sábado, 18 de fevereiro de 2017

Um profeta

Em 1831, numa missão do ministério da justiça francês, o magistrado Alexis de Tocqueville e o seu amigo Gustave de Beaumont permaneceram nos EUA cerca de nove meses com o objectivo de estudar o sistema prisional americano. No início de janeiro de 1832 regressaram a França. Cerca de dois anos depois, em 1834, Tocqueville, com 29 anos, publicou a primeira parte Da democracia na América. O livro tornou-se um best-seller e o autor famoso em França e no estrangeiro – principalmente na Inglaterra, uma espécie de segunda pátria do escritor. Durante anos, Tocqueville foi membro do parlamento da monarquia orleanista e Secretário de Assuntos Estrangeiros, por um curto período, na Segunda República. Em 15 de Dezembro de 1850, numa carta ao seu amigo Loius de Kergorlay, enviada de Sorrente, confessa que “valho mais no pensamento que na acção”. Se alguma coisa permanecer de si neste mundo será mais o “rasto do que escrevi do que a lembrança do que fiz”. Via os anos dedicados à política activa como estéreis, sob muitos ângulos. Ao mesmo tempo, sentia-se mais maduro e experiente, iluminado por “luzes mais verídicas sobre as coisas humanas e uma noção mais prática dos detalhes”. Agora, aos 45 anos, no declive da vida, Tocqueville queria escrever outra obra. Mas qual o assunto a escolher? Era essa a sua dúvida na altura. Tinha de escolher algo que o animasse e fizesse sair de si tudo aquilo que pudesse dar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sinais dos tempos

Ontem estive numa reunião de directores de centros de investigação, presidentes e vice-presidentes com uma secretária de estado. Não contei a divisão entro homens e mulheres mas aquilo estava e equilibradíssimo. A haver maioria era de mulheres.
Houve três pessoas que tiveram de sair antes da reunião acabar. Todos homens. Não sei os motivos dos outros 2 que saíram antes de mim, mas eu tive de sair às 19h porque tinha de tomar conta das minhas filhas, porque a minha mulher não estava em casa.

Século XXI no mundo ocidental

Escrito por um dirigente do partido republicano dos EUA e publicado ontem, ou seja em 2017. Ou seja, no século XXI num país ocidental.

Sara Bichão em Houston









quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Desobedecer


Na véspera de Donald Trump instituir o controle de imigração a que alguns chamam de "Muslim Ban", fui ao Museu do Holocausto, em Houston, assistir à exibição do filme "Désobéir -- Aristides de Sousa Mendes", que os americanos traduziram como "Disobedience". Tratava-se de um programa patrocinado pelo Museu do Holocausto e pelo American Jewish Committee.

A assistir ao filme estavam presentes duas pessoas da família de Aristides de Sousa Mendes: eram ambos netos, Louis-Philippe Mendes, que conta 56 anos de idade e apresentou o filme, vive no Canadá e o outro mais jovem, vive mesmo em Houston; foi a primeira vez que se encontraram. Também lá estava um outro rapaz descendente de judeus que tinham recebido vistos. Lembrei-me, mais uma vez, de que todos nós somos frutos do acaso: os nossos antepassados tiveram de sobreviver a muitos eventos para nós existirmos e o mesmo acontecerá com os nossos descendentes.

Nessa famigerada Sexta-feira, em que se celebrava o "International Holocaust Remembrance Day", Aristides de Sousa Mendes foi homenageado em Houston, mas não tive oportunidade de comparecer -- o Consul Honorário de Portugal também não compareceu, aliás, Portugal não teve presença oficial na cerimónia.

Tinham passados seis dias desde a tomada de posse de Donald Trump e ver aquele filme naquela altura foi uma experiência muito emotiva para mim. Senti orgulho de um português ter salvo tanta gente -- estima-se que tenha emitido cerca de 30.000 vistos, não se sabendo ao certo quantas pessoas foram salvas --, mas vergonha de ter sido apenas um consulado português. Deviam ter sido muitos mais porque é essa a génese de Portugal e de ser português: Portugal é um país que existe porque um tal de Afonso Henriques se lembrou de desobedecer ao Papa.

No final do filme, não fui apenas eu a ficar emocionada, pois uma senhora americana sentiu necessidade de comentar a agradecer e dizer que o filme era muito actual e que servia de inspiração para os tempos que se viviam. Mal sabia ela que, no dia a seguir, os tempos que se viviam iriam tornar-se ainda mais estranhos e parecidos com um enredo de filme.

Donald Trump acha que por ter sido eleito tem o poder de fazer tudo aquilo a que se propôs sem que ninguém o questione. Já vi várias pessoas a achar que deixá-lo fazer tudo é um sinal de Democracia: foi eleito, temos de aguentar. Isto não é Democracia! Um governante que faz tudo é um ditador; em Democracia quem governa nunca pode fazer tudo porque tem uma oposição com quem tem de negociar e um enquadramento legal a que está sujeito. Pareceu-me uma ideia evidente depois de ter pensado nela, mas não é assim tão evidente porque só pensei nela claramente no outro dia.

Há três dias saiu a decisão de um dos processos contra Trump iniciados após o suposto "Muslim Ban". Dizia a Juíza Leonie Brinkema, da Virgínia, que "maximum power does not mean absolute power." O Presidente não tem poder absoluto; tem de trabalhar dentro do que lhe permite a lei e o Parlamento. Obedecer ao Presidente não é obrigatório.



Vassourada

Se o défice de Mário Centeno fosse a vassoura da casa dele, poderíamos imaginar uma situação em que se ia visitar Mário Centeno a casa e estava tudo sujo. Ao ver-nos torcer o nariz, Mário Centeno oferecer-nos-ia a prova de que estava tudo bem: a vassoura que tinha comprado há um ano, que raramente usava. A vassoura estava como nova, ou seja, funcionaria perto do limite máximo de eficiência. A casa estava suja, mas a vassoura bem conservada era prova mais do que suficiente de que havia grande potencial para a casa estar limpa.

Assim é a economia de Centeno: no papel conseguiu "controlar" o défice; mas reduziu a taxa de crescimento do PIB de 1,6% para 1,4%. Diz o Eco que a dívida pública em 2016 estima-se em 130,5% do PIB, um máximo histórico se acabar por ser confirmado, e acima dos 129% de 2015.

Não se preocupem: a vassoura tem potencial; a competência de Mário Centeno para a usar é que não. Deve-lhe faltar uma vassourada...

"A concorrência no mercado de trabalho"

Fonte: Mónica, Maria Filomena (1982), "A Formação da Classe Operária Portuguesa", Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, págs. 140-141.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

ROTFLOL

A Presidência Trump está a tornar-se numa das coisas mais divertidas que aconteceram nos EUA. É tão divertido que o Saturday Night Live nem tem de despender muito esforço para imaginar sketches, basta ler as notícias. Ora veja-se o editorial da Bloomberg, que nos dá uma excelente sinopse do desastre em andamento:

"In office for less than a month, Trump's team has been plagued by near-constant security mishaps, ranging from the comical to the chilling. His press secretary seems to chronically tweet out his authentication codes. Senior staffers were reportedly using a private e-mail server that had been targeted by Russian hackers. At an Oval Office ceremony about factory jobs, the key was left in a classified lock-bag in view of visitors and photographers.

More worryingly, Trump is apparently still using an unsecured smartphone, to the distress of everyone from security experts to members of Congress. This is no small thing: Foreign intelligence agencies could steal data from the device, log its keystrokes, track its location, or even commandeer its camera and microphone, turning it into a roving wiretap.

Making matters worse, the cybersecurity bureaucracy that attends to this kind of thing is in flux. Gregory Touhill, the federal chief information security officer, stepped down in January just four months into the job. Cory Louie, the staffer responsible for securing devices and data for top White House staff -- including the president -- was escorted from his office earlier this month for reasons the administration hasn't explained."


Fonte: Bloomberg

Mas a melhor parte de todas é que isto está a acontecer sob um homem branco de 70 anos, que tem muito sucesso, e até dizem ser bilionário! Não é um negro, nem uma mulher que está ao leme.

prostituição intelectual altamente profissional

Ontem, numa conversa que estava a decorrer num post do Paulo Querido, em que eu criticava o Paulo e a generalidade da esquerda pela reacção ao caso Centeno, saiu-se de lá um palermita a perguntar quanto me pagavam para criticar o governo do PS.
Hoje, quando acordei, em comentário a um post meu em que me mostrava muito contente com a performance económica do 2º semestre de 2016, perguntaram-me directamente se me pagavam para escrever post laudatórios para o governo.
Conclusão: sou uma puta intelectual altamente profissional, aceito todos os clientes.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Interesse Nacional com ou sem Ideologia



Na sequência do meu artigo no DN a semana passada sobre Governar com Ideologia, o meu amigo Pedro Braz Teixeira publica hoje um artigo em jeito de resposta, Interesse Nacional. Já sei que hoje deveríamos estar a falar do Centeno, mas decidimos debater estas coisas mais abstratas. 

(1) Eis o ponto fundamental de discordância – eu acho que não é possível definir “interesse nacional” sem fazer referência a uma ideologia; o Pedro defende que há exemplos de violações do “interesse nacional” que, sendo gritantes, não necessitam de um referencial ideológico.

(2) Todos os exemplos que o Pedro apresenta são violações do interesse nacional. Mas o Pedro acha que são objetivamente violações do interesse nacional. Eu acho que são subjetivamente violações do interesse nacional. Subjetivamente porque pedem uma moldura ideológica (por sinal, eu e o Pedro temos a mesma pelo que não surpreende a nossa concordância sobre as referidas políticas). Provavelmente, nestes casos concretos, estas políticas públicas são uma violação do interesse nacional do ponto de vista de muitas ideologias. Mas, na minha análise, não posso excluir que existam ideologias que apoiam estas políticas e entendam que não são violações do interesse nacional.

(3) Isto leva ao ponto seguinte – o uso do “interesse nacional” no debate político. Nada tenho a opor se for aceito por todos que o “meu” entendimento de interesse nacional pode ser distinto do “teu” entendimento de interesse nacional. Isso só é possível com um entendimento subjetivo. Discordo quando o debate é apresentado como o interesse nacional contra uma particular ideologia. Porque isso é dizer que há portugueses bons e portugueses maus. Como cita o Pedro, “é fugir ao saudável combate das ideias. Mas, acima de tudo, é insistir num discurso pouco democrático.”

(4) Não tenho problema em subscrever a frase do Pedro, “Ora, na prática, há um conjunto de circunstâncias em que me parece não só legítimo mas também essencial invocar o interesse nacional ao criticar certas opções políticas,” sempre e quando essa invocação não seja para aspirar a uma superioridade moral.  Mais concretamente, assim como eu e o Pedro podemos achar que o consulado socrista (2005-2011) feriu o interesse nacional, aceito que outros possam genuinamente entender que o consulado passista (2011-2015) feriu o interesse nacional. Não concordo, mas aceito. E só posso aceitar porque o interesse nacional é ideologicamente subjetivo. Se não aceitar, estou a optar por uma arrogância ideológica que é, na minha forma de ver, profundamente anti-democrática.

Dados simpáticos e bem conseguidos!

A Catarina Martins acha que o problema de Mário Centeno é que tinha dados "simpáticos" sobre a economia e é por isso que foi promovido a frango de churrasco na Praça Pública. Conclui, então, que é "tragicamente irónico", pois nem há "factos novos" sobre a CGD.

Já Marisa Matias acha que ninguém pode provar que Mário Centeno mentiu no Parlamento e o problema de Mário Centeno é mesmo os indicadores económicos conseguidos, nomeadamente os bons resultados do défice.

Crescimento de 1,5% (depois revisto para 1,6%), em 2015, era uma calamidade; agora crescimento de 1,4% entra na esfera do simpático e conseguido. Já sei, já sei, não é do crescimento que elas falam porque, para estas duas moças, é o défice que conta para o bem-estar dos portugueses; não é a dívida que aumentou, nem o crescimento do PIB que é inferior ao de 2015.

E depois admiram-se de tanta gente dizer que as mulheres não são boas com números...

A/C Mário Centeno

Esta seria uma boa altura de queimar muita gente...


Estações e estacionamentos

Trainspotting era um hobby clássico de ficar a ver passar os comboios.
Trumspotting é o novo hobby de ficar a ver atropelar os factos.

A ter em conta na política educativa

Não tenho cumprido o que de algum modo me propus ao aceitar o convite para colaborar no DdD – publicar posts sobre educação. Depois de tê-lo feito numa fase inicial, a pouco e pouco perdi a vontade. Talvez esta pouca apetência tenha a ver com um certo distanciamento da acção do Ministério da Educação do actual governo, que embora satisfizesse um objectivo que me agradou – eliminar os desvios de Nuno Crato ao que vigorava antes do seu consulado – não fazia mais do que tomar medidas avulsas.

Floricultura 20

Olha para a porcaria que fizeste.

Entretanto, na América...

É véspera de S. Valentim. Viva a economia! Viva o amor!








segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Demitam-se o PM e o PR!

Agora o Mário Centeno é que é o mau da fita, quando tanto o Primeiro Ministro, como o Presidente da República, quando confrontados com o que Mário Centeno planeava fazer olharam para o lado. O Mário Centeno pode ser muita coisa, mas virgem sacrificial não é uma delas. Se António Costa deixar cair Mário Centeno, então dissolva a Geringonça.

E já agora, caro Presidente da República, diga adeus também. Se não serve para evitar crises deste tipo, então o que é que anda a fazer exactamente?

O Teu Perfume Patchouly


Dedicado ao nosso comentador NG.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Se não é crime, devia ser

“O que deveríamos estar a discutir neste momento – e gostaria de ver juristas a ser entrevistados com perguntas concretas – era saber se o que já é público configura o crime de corrupção ou não. Eu não conheço a lei suficientemente bem para saber se isto que já se sabe – que é fazer uma lei à medida de uma pessoa e em que essa pessoa encarrega os seus advogados de fazerem essa lei – por si só não configura o crime de corrupção”.
“Agora o que posso dizer é que se, por acaso, os juristas vierem a terreiro explicar que o que se passou, de facto, não é corrupção – e não foi cometido qualquer crime – então eu, como cidadão, posso opinar e dizer: as leis devem ser mudadas para que passe a ser crime."

10 anos depois

Há 10 anos, no referendo sobre o aborto, houve argumentos a favor e contra a despenalização. Havia previsões apocalípticas e houve quem considerasse que trazer os abortos para dentro da legalidade permitiria atenuar uma série de problemas.

Podemos hoje concordar que o lado que ganhou o referendo tinha toda a razão nos seus principais argumentos e nas suas previsões, não podemos?

Just say "No!"

Desde que a Geringonça tomou posse que me pergunto o que terá levado Mário Centeno a aceitar ser Ministro das Finanças. Em Portugal, dá sempre bronca, logo por que razão é que ele se sujeitaria a tal risco de ficar mal-visto? Julgo que a resposta é que Mário Centeno não sabe dizer "Não!", senão teria dito "não" a António Costa ou a António Domingues. Mas não pensem que dizer "não" é uma coisa muito fácil porque pode ser das coisas mais difíceis que fazemos.

Lembro-me do dia em que dizer "não" se tornou mais fácil para mim. Foi uma vez quando a minha sogra andava em arrumações lá em casa e me perguntou se eu queria uma camisola de Natal, como usam as avózinhas. E era uma camisola tão feia, tão feia, que, por muito que me custasse dizer "não" à minha sogra, tive de o fazer. É que era tão feia, tão feia, aquela camisola, que eu nem a queria levar para casa e dar a alguém e também me custava meter no lixo uma coisa que a minha sogra me tinha dado. Esse "não" soube-me pela vida e pensei: "Rita, tens de dizer 'não' mais vezes -- muitas mais!"

Como já não vou a tempo de oferecer a Mário Centeno uma camisola de Natal muito feia para ele aprender a dizer "não", decidi encontrar uma canção para ele treinar. Assim, pode ser que ele deixe de passar por estas situações que decerto o envergonham. Se não o envergonham a ele, envergonham-me a mim e eu já não aguento vê-lo sujeito a esta tortura.

Aqui está a letra:


"Just Say No" ~ No For An Answer

Why should I join a breed
That brings one another down?
Group behavior, group as the savior
A circus filled with clowns
Who are these men? Why are they here?
What do they want?
Ruling class, ruling by fear,
Something I am not!
All my life I've felt the push
It's caused me pain
Dilute my system, just to be with them
Why numb my brain?
A pint of fear, a quart of heart,
Is all they've got
Ruling class, ruling by fear,
Something I am not!
JUST SAY NO!!!
NO !
JUST SAY NO!!!




sábado, 11 de fevereiro de 2017

Demitir-se para quê?

Não acho que Mário Centeno se deva demitir. Não adianta nada e apenas abre uma vaga para o PS arranjar alguém com credibilidade para o lugar, dando a impressão de que as coisas mudaram para melhor. Sabemos que não mudaram: estão exactamente na mesma como sempre estiveram, mas com uma pessoa nova o que não sabemos é quando é que a pessoa sucumbe ao sistema; até lá temos de presumir que essa pessoa não irá fazer nada, que é inocente -- é esse o nosso ponto fraco que os partidos exploram.

Já sabemos que Mário Centeno é corruptível, logo ele que fique e nós assim temos razão e autoridade moral para o vigiar e questionar à vontade. Não precisamos de lhe dar o benefício da dúvida. E tem outra vantagem: enquanto Mário Centeno é Ministro protegemos a reputação de outra pessoa.

E já agora, o Presidente da República e o Primeiro Ministro também não merecem a nossa confiança -- temos de os manter debaixo de olho.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Vã glória...

Como um nosso leitor me acusou de não publicar comentários, lá fui eu ver os comentários. Já não ia lá há meses. Encontrei um muito engraçado, que acabou no SPAM, a gozar comigo por causa das minhas contas poupança-reforma. Diz assim: "Para a pequena burguesia desta pessoa que acha que vangloriar-se das suas contas fidelity de classe média baixa e' muito impressionante." A pessoa que escreveu isto não deixou o nome, mas acho que o que disse é pertinente.

Para eu vos dar uma boa ideia do que é estar nos EUA, tenho de falar nas contas poupança-reforma porque faz parte do que é viver nos EUA e é uma parte muito importante. É lógico que eu podia falar de tudo isto do ponto de vista teórico, mas julgo que falando do ponto de vista pessoal posso dar-vos a ideia do que é ser emigrante, das coisas que eu aprecio no país que me acolheu, e do que me atraiu aos EUA, pois quando eu vim para aqui da primeira vez, e até da segunda, não foi com intenção de ficar.

Sempre gostei bastante da forma como os americanos falam do planeamento da reforma e foi logo uma das primeiras coisas que notei. Ainda no outro dia pensei que tenho de vos falar nos livros e nos programas de rádio sobre este tema. Aqui, falar deste tópico é sinal de responsabilidade, não é sinal de arrogância. Para além disso, ter opções de investimento combina muito comigo porque, não sei se já repararam, mas tenho uma certa fobia de gerir mal o dinheiro e de acabar na pobreza. Não acho que seja suficientemente grave para eu ir ao psi, mas é uma pequena loucura minha que está perfeitamente controlada, por enquanto. [Não acham que tenho imenso medo de doenças psiquiátricas? Há quem tenha medo de cancro; eu tenho medo de ficar maluca -- é perfeitamente razoável.]

Por falar em maluquices, em Portugal, há uma certa esquizofrenia relativamente ao dinheiro: as pessoas julgam os outros pelas roupas, carros, férias, etc.; fugir a impostos é bem-visto; enganar quando se pode é quase um desporto nacional; mas falar da forma como nós fazemos o planeamento das nossas poupanças é vangloriarmo-nos e um sinal de sermos de "classe média baixa". Porque é que devemos ter vergonha do que planeamos fazer com o produto do nosso trabalho? Notem que um dos grandes problemas da macroeconomia portuguesa é mesmo o país ter poupanças tão fracas, que precisa de se endividar junto ao exterior -- mas essa lição é do FAlex e do LA-C.

Suponho que, para o nosso leitor, quem tem dinheiro não precisa de planear nada porque já o tem; quem planeia é quem não tem. Tente-se explicar isso ao Warren Buffett de forma a ele não nos achar uns idiotas completos -- acho impossível!

Não percebo a necessidade de classificar alguém numa classe, a não ser que se esteja a dizer que há classes de pessoas que deviam estar caladas ou ter vergonha de não pertencerem a outra classe. Mas quem acha isso não tem grande classe.


Às escondidas

Gary Cohn, ex-No. 2 da Goldman-Sachs e conselheiro de Donald Trump, está a delinear a reforma fiscal da nova Administração. Daqui a umas semanas teremos detalhes deste plano "fenomenal", mas a reforma fiscal não vai constar da proposta de Orçamento de Estado da Administração Trump. Percebe-se perfeitamente: vai funcionar tão bem que tem de ser escondida do orçamento por enquanto.

Unnamed congressional leaders have been consulted on the blueprint, the official said. It’s separate from Trump’s proposed budget, the official said, requesting anonymity because the plan is still under development.

Fonte: Bloomberg

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Mr. Trump 0 - The People 1

A federal appeals court ruled that the U.S. will remain open to refugees and visa holders from seven Muslim-majority countries, rejecting a bid by the Trump administration to reinstate a travel ban in the name of national security.

The San Francisco-based appeals court on Thursday spurned the government’s request to close the doors after days of public debate over President Donald Trump’s attacks on the judicial system and a rush of fearful immigrants. The ruling increases the likelihood that the administration will ask the Supreme Court to step into a case that’s the biggest test of Trump’s executive power yet.



Fonte: Bloomberg



See you in court, Mr. Trump!


Uma pouca vergonha

António Domingues é uma vergonha; o escritório de advogados que fez o trabalho é uma vergonha e ter ministros e secretários de estado a prometer mudar leis à medida é uma vergonha.
Que o ministro e secretário de estado (a confirmarem-se estas notícias) não sejam sumariamente corridos é um sintoma do pântano que são as elites deste país. Pouca vergonha.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Eu alinho no desalinho

A minha contribuição para a conversa do Zé Carlos e do Luís Gaspar acerca de sermos desalinhados é o filme School of Rock: you have to stick it to the man!

Ah, e tal, não é intelectualmente estimulante, dizem vocês. Nem o Trump, mas é ver o número de pessoas que votou nele. E o número de pessoas em Portugal que acham que é um bom líder?

Dewey Finn: [on sticking it to "The Man"] Yes! But, you can't just say it, man. You've gotta feel it in your blood and guts! If you wanna rock, you gotta break the rules. You gotta get mad at the man! And right now, I'm the man. That's right, I'm the man, and who's got the guts to tell me off? Huh? Who's gonna tell me off?
Freddy: Shut the hell up, Schneebly!
Dewey Finn: That's it Freddy, that's it! Who can top him?
Alicia: Get outta here, stupidass.
Dewey Finn: Yes, Alicia!
Summer Hathaway: You're a joke, you're the worst teacher I've ever had!
Dewey Finn: Summer, that is great! I like the delivery because I felt your anger!
Summer Hathaway: Thank you.
Lawrence: You're a fat loser and you have body odor.
Dewey Finn: ...All right, all right! Now, is everybody nice and pissed off?

Moralmente repreensível

Depois da crise financeira de 2008, os jornais encheram-se de editoriais a falar da crise de ética nas escolas que formavam o upper management das companhias envolvidas no colapso financeiro. Harvard foi uma das universidades mais criticadas (ver aqui e aqui). No entanto, a universidade desde então investiu bastante em formar pessoas eticamente responsáveis e que não ajudem a corromper o sistema mais do que ele já está.

Quando vi a sucessão dos resultados das previsões de crescimento dos modelos de Mário Centeno, sabendo que ele tinha passado por Harvard, questionei-me se era uma pessoa séria e de princípios ou se também era facilmente corruptível -- para mim, aqueles resultados não eram defensáveis. Hoje tenho a certeza de que é um indivíduo moralmente corrupto; diz qualquer coisa para segurar o PS e enganar os cidadãos: manipula informação, mente, responsabiliza outros pelas suas decisões porque não tem como as defender.

Assistimos agora à novela de António Domingues na CGD, na qual veio à luz um acordo explícito que o governo fez com António Domingues; mas quando Centeno se tornou Ministro das Finanças, a novela era a do Banif, que envolvia questões como a de quem tinha sido a decisão de intervir no banco em 2015.

Mário Centeno formou-se em Harvard antes da crise financeira, na altura em que a escola não ligava muito a questões de ética porque pensava que as pessoas que chegavam a uma universidade daquele calibre tinham o mínimo de fibra moral. Infelizmente, não têm todas, como se vê pela actuação de Mário Centeno.

Do alinhamento

O José Carlos Alexandre fala aqui do primeiro episódio da terceira temporada do Black Mirror. É para mim um tratado emocionante sobre a conformidade. Mostra os mecanismos invisíveis que levam as pessoas a prescindir da liberdade e a alinhar. Aquilo que leva tanta gente à nossa volta a pensar muito bem antes de falar, a alinhar com quem tem poder, ou a não desalinhar, a dar graxa, a formatar a opinião não com base no que é dito, mas em quem diz. O meu rating pode ser baixo, ninguém me dá nada, mas retenho a liberdade do FUCK YOU espontâneo. Do FUCK YOU a quem quer que seja. Que, vendo bem, é a única genuína liberdade. E isso basta-me. 

Na mesma semana que vi o episódio do Black Mirror, vi também o Trainspotting 2 - e é também maravilhoso.

Há obras que nos ajudam a não ter de inventar as nossas próprias palavras. O trainspotting foi o filme que deu à minha geração a metáfora ideal para a dificuldade da entrada na vida adulta. Escolhe a vida. Choose life. Escolhe a televisão gigante, a máquina de lavar, o carro, a vida tal como ela é vivida pelos adultos que tu conheces. Escolhe o rating elevado. Ou então encontra uma boa alienação, que não te destrua. Boa sorte, dirão os cínicos.

Passados 20 anos do Trainspotting, a vida escolheu a maioria de nós. Fazemos por ela, não é verdade? Mas há sempre momentos em que nos lembramos que também há vida para além da vida que vivemos, mas que simplesmente não temos tempo para ela. A boa arte não é aquela que nos deixa experienciar, por um bocadinho, em modo compacto e arrumadinho, essa vida para além da vida (era só o que faltava que fosse tão simples); a boa arte mostra-nos que as compensações que vamos arranjando podem ser muita coisa, mas não são realmente compensações.

Uma sequela do Trainspotting tinha tudo para correr tão mal – teria tudo para se tornar uma espécie de caricatura de si mesma, onde as personagens mostravam o que acontece quando viciados em heroína acabam por escolher a vida. Felizmente, o Danny Boyle não mostra nada disso. Em referências sucessivas e subtis ao primeiro filme, faz-me uma visita guiada, mas não condescendente, a um mundo projetado a partir dos sonhos da nossa adolescência. Mostra-nos que mudamos pouco. Que, se procurávamos alienação, e se a alienação não nos matou pelo caminho, o mais provável é que tenhamos encontrado entretanto outra alienação para a substituir. Mostra-nos com humor os limites dessa alienação - mas também nos mostra os limites do mundo real. E é algures entre os limites dos dois que temos a possibilidade de sermos felizes. 

Ferradura

Quem com o ferro fere, com o ferro será ferido?


In court papers Melania filed on Monday as part of a libel lawsuit against the parent company of the Daily Mail, she said that the British tabloid and web site, by falsely reporting that she had once worked as a prostitute, caused the first lady to miss “major business opportunities” and “multimillion-dollar relationships.”

[...]

For students of good government, Melania’s lawsuit does have an upside: the discovery process.

Since she is seeking at least $150 million in damages stemming from missed business opportunities, the lawyers representing the Daily Mail should eventually avail themselves of their discovery powers to secure each and every e-mail, communique and document about White House business prospects that the Trump parents and children discussed. They should also subpoena the Trump family’s tax returns and banking records while they’re at it.

If President Trump isn’t inclined to release his tax returns or be more transparent about his business dealings, then maybe the courts can help him along.


Fonte: Timothy L. O'Brien, Bloomberg


Sem preconceito

And it's hard to love, there's so much to hate
Hanging on to hope
When there is no hope to speak of
And the wounded skies above say it's much too late
Well maybe we should all be praying for time


~ George Michael


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Em queda livre

O LA-C disse-me maravilhas do episódio 1 da terceira temporada da série Black Mirror – o Luís Gaspar também já havia dito o mesmo no FB. E têm razão. Aquele mini-filme de 1 hora é absolutamente genial. Num futuro não muito distante, as pessoas classificam-se umas às outras numa escala de 1 a 5 em quase tudo o que dizem e fazem. Qualquer comentário ou gesto pode ser classificado imediatamente com um simples clique no telemóvel. O reino ou tirania da likability extravasou as redes sociais online e está agora em todo o lado. A hierarquia social é formada em função da média que cada um obtém. E a classificação de cada um vai subindo e descendo. As pessoas esforçam-se ao máximo para ser simpáticas com toda a gente, mesmo com aqueles que se cruzam esporádica ou acidentalmente , na esperança de obter mais um 4 ou 5. Mais de 4 permite tratamentos especiais e mais de 4,5 abre a porta a uma série de privilégios. Aos antissociais, com menos de 2,5, estão vedados alguns direitos. Mas o seu maior castigo é o ostracismo a que são sujeitos. Os outros evitam-nos de todas as maneiras. Escusado será dizer que quase ninguém fica indiferente a esta pressão social permanente. Na verdade, este sentimento não é propriamente novo. Como dizia Locke, há mais de 300 anos, nem um em dez mil conseguiria aguentar o desprezo dos seus vizinhos. Provavelmente, com as redes sociais online, o que se alterou foi o conceito de “vizinho” e “amigo”, que se tornaram mais difusos.
Lacie é boa rapariga e esforça-se para agradar aos outros, inclusive a alguns idiotas e sacanas. A sua classificação anda nos 4,2 e precisa de chegar aos 4,5 para obter um desconto especial de 20% na renda de uma casa de sonho. Recorre a um especialista na matéria que lhe explica que tem de ser genuína e aproximar-se dos líderes, os tais que têm pontuações acima dos 4,5. E Lacie, por exemplo, examina as páginas dos líderes e vê o que eles postam. Beijos apaixonados à beira-mar, festas, imagens de exercício físico, viagens, comida, etc. É a partir daqui que começa a queda livre desta rapariga simpática e insegura. Não vale a pena contar o resto dos pormenores. Mas o filme acaba com um libertador FUCK YOU, soltado aos berros, e com um sorriso franco nos lábios da personagem principal.
Tocqueville dizia que a paixão pelo bem-estar é a mãe da servidão. E não há maior prazer do que poder falar, agir e respirar sem constrangimentos “sob o único governo de Deus e de suas leis”. A liberdade vale por si própria. Os que a amam verdadeiramente não é pelos bens que ela pode dar; amam-na por a considerarem um bem tão precioso “que nenhum outro poderia consolá-los pela sua perda”. De qualquer maneira, acrescentava o génio francês, temos de renunciar a explicar este prazer às almas servis e medíocres que “nunca o sentiram”. Lacie deu cabo da sua pontuação, mas, provavelmente, nada a havia feito sentir tão bem na vida como aquele FUCK YOU. 



A singularidade de Donald Trump

A matemática Cathy O'Neil analisa Trump numa op-ed da Bloomberg: ele é um algoritmo de aprendizagem de máquina.

To make my case, I’ll first explain why Trump can be interpreted as an artificial intelligence. Then I’ll explain why the analogy works perfectly for our current dystopia.

Trump is pure id, with no abiding agenda or beliefs, similar to a machine-learning algorithm. It’s a mistake to think he has a strategy, beyond doing what works for him in a strictly narrow sense of what gets him attention.

As a presidential nominee, Trump was widely known for his spirited, rambling and chaotic rallies. His speeches are comparable to random walks in statistics: He’d try something out, see how the crowd reacted, and if it was a success -- defined by a strong reaction, not necessarily a positive one -- he’d try it again at the next rally, with some added outrage. His goal, like all TV personalities, was to entertain: A bored reaction was worse than grief, which after all gives you free airtime. This is why he could never stick to any script or teleprompter -- too boring.


Fonte: Cathy O'Neil, Bloomberg

O motor de crescimento

A Bloomberg BusinessWeek tem uma colecção de histórias sobre desemprego: cinco pessoas, cinco histórias.
  1. Logo na primeira, um jovem que, apesar de bem-parecido, não sabe falar bem, nem sequer fazer contas. É homossexual num sítio onde sê-lo não é bem-visto. Teve empregos, mas teve azares: meteu-se em drogas, morreu-lhe a mãe. Depois de desempregado, acabou na prisão e eventualmente fez um programa de reabilitação.

  2. Um ex-militar que foi condenado e passou tempo na prisão por dar nome e número de segurança social falsos para obter analgésicos na farmácia. Como as leis americanas têm ficado mais duras, o homem ficou com cadastro criminal o que lhe dificulta obter emprego.

  3. Um senhor que tem paralisia cerebral, mas que completou a faculdade.

  4. Um CEO que tem dificuldade em encontrar pessoas qualificadas: muitos dos candidatos falham no teste de uso de drogas.

  5. Um senhor com um CV excelente, mas que tem 55 anos e possivelmente é rejeitado por causa da sua idade e aparência física, apesar dos potenciais empregadores não o discriminarem activamente por ser ilegal.

Apresento-vos o exército de desempregados que irá produzir crescimento de 4% a 6% para Trump. Diz quem votou em Trump que a culpa deste pessoal estar assim é do governo federal. Ora quem é que passa leis restritivas de uso de drogas? Quem é que promove políticas que aumentam as taxas de encarceramento para crimes leves? Quem é que corta o financiamento à educação? Quem é que reduz os benefícios para pessoas com deficiências e inválidas? Quem é que discrimina homossexuais?

Estas políticas são seguidas em estados governados por Republicanos e não há qualquer indicação de que não sejam continuadas.

Hoje, espera-se que Betsy DeVos seja confirmada para a pasta de educação pelo Senado, possivelmente com o voto de desempate do Vice-Presidente Mike Pence. DeVos é milionária porque é filha de um milionário. Pelas respostas que deu durante o processo de confirmação no Congresso, não parece ser uma pessoa de grande intelecto, apesar de ter formação universitária. Se ela for uma má escolha, como suspeitam os especialistas da educação, quem será mais prejudicado: os filhos de pessoas com bons empregos e boas carreiras ou os filhos de desempregados e empregados precários?

Achismo nunca mais!

Em Portugal nunca ouvi dizer “vai para a tua terra!”
Em Portugal nunca vi uma assembleia inteira votar a favor de dar preferência a estudantes portugueses sobre estrangeiros no acesso a residências universitárias.
Em Portugal nunca ninguém proclamou o seu amor eterno a produtos nacionais.

Hades. Hades!

De vez em quando, lá dou eu uma calinadazita no português e, nessas alturas, julgo que me devo sentir como as árvores se sentem quando uma lufada de ar as desfolha no Outono. Depois entro em modo "Get your shit together and just roll, little lady!" e ponho-me a pensar o seguinte:

Diz o alter ego reflexivo:
-- Ora, ora, já passei mais tempo da minha vida adulta nos EUA do que em Portugal e falo melhor inglês do que o actual Presidente da República dos EUA, que tem 70 anos, e, pensando bem, até falo melhor português do que o actual Primeiro Ministro de Portugal em algumas das suas intervenções públicas. Ou seja, que desculpa têm estes fulanitos e como é que há pessoas que votam neles? Ouve lá, ó Rita catita, tu até sabes a diferença entre "há" e "à"...

Eis que aparece o alter ego da racionalidade:
-- Mais, mais, Rita Isabel! Filha, já viste -- Não é bistes, nem vistes! É viste. -- a quantidade de portugueses que não sabe a diferença entre "ter de" e "ter que"? Até em jornais se vê o erro, ou seja, errou quem escreveu e quem editou: uma vergonha! E o pessoal que nunca passou nenhum tempo no estrangeiro e escreve coisas como "tenha-mos" em vez de "tenhamos"?!? Ai, ai, ai!!! Caiu um santo do altar lá na igreja de Sta. Rita, onde quer que seja a dita! Um erro tão absurdo, que parece impossível alguém cometê-lo... Isto para não falar na restante conjugação de verbos, que é uma grande salgalhada na cabeça de alguns. Correcção! Devia ser salgalhada, mas há quem ache que é salganhada porque não percebe que vem de salgar. Está bem que, de vez em quando, dá-te para erradamente "antecipares", em vez de "ficares na expectativa", mas como se dizia na primária aos putos precoces "Nunca te enganaste? Mais burro..."

Interrompe o alter ego mal-educado:

-- FODA-SE!!! Onde já vai esta caralhada... Ó RIC, tu e a tua mania para o auto-flagelo orgásmisco não estão com nada! Pensa Frankie Goes to Holywood e Relax, ó garina. Aliás, tu não tens que fazer? Vai mas é desmanchar as árvores de Natal. E os extractos, hã? Não tens extractos bancários de 1997-2005 para triturar? Vergonha, RIC, vergonha! Daqui a nada tenho de te dar umas alfinetadas no rabo e mexes-te logo, preguiçosa dum raio!

Finalmente, o alter ego apaziguador:
-- Ó Ritinha, vamos lá a ver, fofinha: se tu não te acalmas, acabas com uma úlcera, menina. Já bem basta que, quando vais à massagista, ela mexe-te numa perna e dói tanto que a outra se levanta por andares tão tensa. Deixa lá enganares-te em alguns usos do verbo "haver" -- hão-de haver mais pessoas que o fazem nesses casos e noutros e, quando chegar a altura, hás-de vê-las quando forem chamadas a Hades. Hades! Há-de ser uma festa...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A conta de quê?

No passeio matinal com o meu Chopper, ouvi o Governo Sombra de Sábado. Fartei-me de rir com o Ricardo Araújo Pereira. A certa altura, estava o João Miguel Tavares muito indignado acerca da redução do horário da função pública, pois as 35 horas por semana foram repostas e o actual governo insiste em afirmar que não há custo nenhum. Dizia o JMT que tinha de haver um custo, quanto mais não fosse o do trabalho que não era feito, senão estaríamos a afirmar que a função pública não contribuia nada nesses 15% do horário. Depois passam para o RAP comentar e o RAP diz que ainda não tinha visto a conta. E eu desatei a rir à gargalhada! Ainda não viu a conta -- hahahaha!!!

Ó RAP, então achas que o dinheiro que perdeste com o BES era a conta de quê? De um país no qual a função pública, em sentido lato, funciona bem, serve os interesses do público, inclusive fiscaliza a banca, durante o horário de expediente? Hahahah! Boa piada, pá!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Ascensão e queda de um populista

No início de dezembro de 2016, na terceira volta das eleições presidenciais austríacas (o tribunal mandou repetir as eleições da segunda volta),  Alexander Van Der Bellen do partido os verdes venceu o populista Norbert Hofer do FPÖ, o partido da liberdade. Antes, em maio, na primeira volta, os candidatos haviam obtido, respectivamente, 21% e 35%. O partido social-democrata (SPÖ) e os conservadores do partido popular (ÖVP) obtiveram apenas um quarto dos votos. Pela primeira vez, desde o pós-guerra, a “grande coligação” ficou abaixo dos 50%. Era mais um aviso lançado à Europa e ao mundo. A seguir viriam o Brexit e Trump.
Já poucos se lembram, mas foi Jörg Haider (1950-2008) quem revolucionou por completo o FPÖ a partir de 1986, ano em que assumiu a sua liderança. Até então, o FPÖ não passava dos 5% do eleitorado. Nos anos 50, começou por ser um albergue dos “nacional socialistas". A partir dos anos 60 tornou-se um partido liberal. Pretendia aproximar-se do centro e transformar-se num partido de poder. Em 1983, entrou numa coligação com os social-democratas, a qual cairia em 1986 com a chegada de Haider.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Pérsia

Quando andei à procura da biografia de Alan Greenspan, encontrei um livro de culinária sobre a Pérsia, sendo que o Irão ocupa hoje grande parte do território que antigamente se considerava como sendo a Pérsia. Não resisti à capa, nem ao livro, especialmente depois de o folhear e ver que estava cheio de fotos não só dos pratos, mas também do quotidiano dos diferentes países estudados (Arménia, Azerbaijão, Irão e Curdistão). O que eu não suporia era que encontraria o nome de Barack Obama algures num livro de culinária, mas ele lá está, como podem ver abaixo. Deixo-vos também uma receita do livro para fazerem em casa.







O beco sem saída dos partidos tradicionais

Na verdade, o populismo anda há muito tempo debaixo dos radares.  Por essa Europa fora, os partidos tradicionais não têm conseguido enquadrá-lo ou absorvê-lo. Por um lado, por falta de liderança e capacidade política; por outro, porque o actual sistema torna muito difícil a luta contra este vírus.
Hoje, quase todos os partidos recorrem a sondagens, focus groups, entrevistas em profundidade, fóruns online, etc.. O objectivo é apresentar programas, soluções e discursos que vão ao encontro das necessidades e desejos dos eleitores. Obviamente, pressupõe-se que as pessoas são capazes de articular os seus problemas e inquietações.  Que se interessam pelos assuntos públicos e que têm opiniões sobre eles.  Isto exige um público educado, informado e interessado. Este é o primeiro problema. Nem sempre isso acontece. Sobre esta problemática existem toneladas de literatura.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O dinheiro fala mais alto

Há uns meses, depois de Donald Trump ganhar as eleições, notei que no Marshall's onde costumo ir de vez em quando, a roupa da Ivanka Trump, que costumava estar logo à frente, desapareceu. Nessa visita, vi apenas uma peça enfiada na secção de saldo. Pensei que tal fosse por o condado de Harris, onde estou, ter votado a favor de Hillary Clinton com 54% dos votos (mas dentro de Houston mesmo, a margem foi muito maior). Fiquei curiosa com o que se passaria em outras cidades do país, como Oklahoma City, apesar de não me ter ocorrido visitar uma loja numa parte mais Republicana da área metropolitana de Houston.

Desde então, tenho andado a pensar se o negócio de Ivanka Trump é viável, pois há muita animosidade contra Donald Trump e, de um momento para o outro, usar algo ligado a ele tornou-se de mau gosto. A Nordstrom anunciou que irá deixar de vender a marca Ivanka Trump, mas não foi por uma questão política. Parece que quem não gosta do Trump deixou de comprar e quem apoia o Trump não compra.

Todas as companhias que dão a entender que apoiam qualquer coisa que Trump defende são boicotadas por quem não gosta de Trump e a Grab Your Wallet faz campanha contra elas. Os americanos sempre tiveram a ideia de que a maneira como consomem e as marcas que escolhem são uma forma de apoio às ideias que os gerentes das marcas partilham. Eu consumo de acordo com o que acredito, não decido apenas com base no preço, também olho para a qualidade, a imagem que a marca cultiva, etc.; mas fiquei chateada quando boicotaram a New Balance.

Compro sapatilhas New Balance há mais de 10 anos e faço-o porque ainda há modelos que são feitos nos EUA e eu tento comprar esses (assim como tento comprar coisas portuguesas de boa qualidade, das quais eu goste). Agora com o proteccionismo do Trump, os White Supramacists a tecerem elogios à New Balance, e o CEO da New Balance a dizer que algum proteccionismo iria ajudar o negócio, o pessoal começou a queimar New Balance, a fazer vídeos e a partilhá-los nas redes sociais.

Fiquei chateada com isto, especialmente porque a New Balance tem uma colaboração com a J.Crew em roupa de desporto e eu adoro J.Crew, logo não os quero boicotados (ai de vocês se contactarem a Grab Your Wallet a fazer queixa da J. Crew -- olhem que eles fotografam muitos catálogos em Portugal e eu dou-vos nas orelhas). Aliás, as últimas sapatilhas New Balance que eu comprei foram mesmo pela loja online da J. Crew; usei-as esta manhã para passear o Chopper.

Adenda: o WashPost tem um artigo interessante sobre toda esta guerrilha das compras.