sexta-feira, 28 de abril de 2017

Resumo da semana

Hoje saíram os dados de crescimento do PIB dos EUA para o primeiro trimestre: a economia cresceu a uma taxa anual de 0,7%, o ritmo mais lento dos últimos três anos. Nas componentes do PIB, o consumo cresceu apenas 0,3% por causa de menos vendas de automóveis e menos gastos em custos de aquecimento das casas no inverno. Em contraste, os custos de emprego (compensação pelo trabalho, que inclui salários e benefícios) aumentou 0,8%, o valor mais alto desde o último trimestre de 2007.

As sondagens indicam que há bastante optimismo dos cidadãos relativamente à economia e, no entanto, os dados duros não traduzem esse optimismo em crescimento da economia -- as pessoas ganham mais, mas nem por isso gastam mais. Há quem ache que esta inconsistência é, por um lado, produto do método de ajustamento sazonal usado pelo Commerce Department, pois desde 2000, no primeiro trimestre a economia cresce sempre a uma taxa bastante inferior à dos outros -- em média cresce apenas 1%. Por outro lado, este ano o Inverno foi bastante ameno o que tem implicações em termos de compras de roupa, gastos de energia, etc.

Ontem conversei com uma rapariga que trabalha na área da Construção Civil, em Houston. Tenho notado que há bastantes obras espalhadas pela cidade, logo perguntei-lhe o que é que ela observava na sua empresa. Disse-me que a maior parte da construção é acabamento de projectos já iniciados, mas não há muitas obras novas. O tipo de construção é maioritariamente apartamentos mais luxuosos, porque ela diz que os construtores têm facilidade em arranjar pessoas que paguem $1300/mês por um apartamento T1, logo é um mercado mais lucrativo do que o de construir casas para famílias, até porque um lote de terreno no centro de Houston está bastante caro e os apartamentos permitem diluir o custo do terreno em mais unidades. No resto dos EUA, o mercado imobiliário actual caracteriza-se pelo baixo número de casas disponíveis para venda, o que tem pressionado os preços do imobiliário.

Esta semana também saiu uma notícia relativamente aos bancos locais e regionais onde o número de empréstimos efectuados está em baixa. Estes bancos têm-se afastado de investir em imobiliário comercial e no sector de vendas a retalho, pois o comércio tradicional está em decadência devido ao maior número de compras efectuado pela Internet. Muitas empresas têm também aproveitado o optimismo dos investidores e emitido dívida directamente no mercado de capitais, através de bonds, por exemplo. Quem está bastante interessado em empresas industriais no chamado Rust Belt, a área geográfica que nunca chegou a recuperar da Grande Recessão, são os investidores estrangeiros. Este afastamento dos bancos locais e regionais é um canário na mina, pois estes bancos têm critérios bastante apertados na selecção de empréstimos.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Bonzinhos e Mauzinhos

Estava a ler uma entrevista de Junho do ano passado ao matemático Steven Strogatz, quando me deparei com esta parte, que me fez pensar na onda de populismo que navegamos hoje em dia:

So in fact what was found in later studies, when they examined prisoner’s dilemma in environments where errors occurred with a certain frequency, is that the population tended to evolve to more generous, more like New Testament strategies that will “turn the other cheek.” And would take a certain amount of unprovoked bad behavior by the opponent ... just in order to avoid getting into these sort of vendettas. So you find the evolution of more gradually more and more generous strategies, which I think is interesting that the Old Testament sort of naturally led to the New Testament in the computer tournament — with no one teaching it to do so.

And finally, this is the ultimately disturbing part, is once the world evolves to place where everybody is playing very “Jesus-like” strategies, that opens the door for the [the player who always defects] to come back. Everyone is so nice — and they take advantage of that.

I mean, the one thing that’s really good about “tit for tat” is that … the player who always defects — he can’t make much progress against “tit for tat.” But it can against the very soft, always cooperating strategies. You end up getting into these extremely long cycles going from all defection to “tit for tat” to always cooperate and back to all defection. Which sort of sounds a lot like some stories you might have heard in history. Countries or civilizations getting softer and softer and then they get taken over by the barbarians.


Fonte: Steven Strogatz entrevistado na Business Insider

Floricultura 16



Constantino José Marques de Sampaio e Melo, florista português, ficou para a história graças aos seus arranjos artificiais de pano e papel.

Activismo político

Há um programa de rádio produzido em Dallas, que se chama Think, e que tem sempre entrevistas muito interessantes com pessoas de várias áreas. Eu já vos devia ter falado deste programa várias vezes, pois ouvi várias entrevistas que gostaria de ter partilhado convosco e podem fazer o download do podcast. A de ontem foi a Chelsea Clinton, que pode ter algum interesse, mas o pedaço de informação que ficou na minha cabeça foi quando ela disse que, de acordo com a Emily's List, um grupo de defesa dos direitos das mulheres, desde a eleição de Donald Trump, mais de 10.000 mulheres manifestaram interesse em tornar-se candidatas em eleições; no último ciclo, apenas 900 concorreram.

O nível de activismo político está bastante alto. Já fui a duas marchas e a um evento de um Representante no Congresso que quer concorrer para o lugar de Ted Cruz, no Senado. Tinha planeado ir a uma Town Hall do meu Representante no Congresso, mas acabei por ter um conflito. Neste Sábado teremos o Movimento Povos Clima (Peoples Climate Movement). Há uma lista enorme de movimentos anti-Trump que foram agregados na Wikipédia.

Convidei a minha vizinha JP, que tem 92 anos, para jantar em minha casa na semana passada. Durante a nossa conversa, disse-me que achava extraordinário tanto activismo, que nunca tinha visto nada assim. Fica sempre feliz quando vou a uma marcha. Perguntei-lhe se não tinha sido assim durante os anos 60, com as manifestações anti-guerra, anti-segregação, pró-mulheres, etc. Depois de alguns segundos em silêncio, disse que sim, que estamos como nessa altura.

Ontem no programa de rádio 1A falavam dos protestos estudantis em UC Berkeley de 1964, que reivindicaram a liberdade de expressão no campus. Agora, os protestos em UC Berkeley são por causa de um convite feito a Ann Coulter, que alguns estudantes acham ofensivo. Um dos participantes no debate dizia que Ann Coulter não iria a Berkeley defender nenhum ponto de vista novo, apenas ia dizer o que já tinha dito antes, logo não havia supressão do direito de expressão, até porque Coulter diz o que diz para gerar receita -- é acima de tudo um negócio.

Alguém dizia que os estudantes eram crescidos e não precisavam de ser protegidos; para além disso, parte do sucesso de Ann Coulter era exactamente a atenção que estes estudantes, que a não queriam ouvir, lhe davam -- seria mais eficaz ignorá-la. O outro convidado discordou, pois achou que já tínhamos tentado ignorar estas pessoas e não tinha funcionado; para ele, era preciso ridicularizar quem tem discursos de ódio. (Se leram os livros do Malcolm Gladwell, talvez este argumento não vos seja estranho, pois Gladwell defendeu que a forma mais eficaz para derrotar o Ku Klux Klan foi a sua ridicularização em livros de banda desenhada do Super-Homem.)

Quando fui a casa almoçar, uma outra vizinha veio ter comigo. Disse-me que tinha falado com a JP e esta lhe tinha dito que eu tinha ido à Marcha pela Ciência. Disse-me que devia ter ido, que precisava de se tornar mais activa, talvez fazer voluntariado com o Indivisible Movement. Na próxima vez que eu for, enviar-lhe-ei um convite.

Já ouvi várias pessoas dizer que a Presidência de Trump é, acima de tudo, uma oportunidade para derrotar o discurso de ódio. Nos EUA, há sempre alguém que vê oportunidade onde outros vêem desespero e há sempre alguém disposto a levantar-se e lutar pelo que acredita. Não o fazer é considerado anti-americano.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Uma clivagem

Tal como para a zoologia existe o leão, para o pensamento científico existe o homem. A clivagem entre as ciências e a política nasce precisamente aí. Para a política, não existe o homem, existem os homens, na sua pluralidade.

Fado

terça-feira, 25 de abril de 2017

Walk the walk!

Desde há uns anos para cá, no 25 de Abril, vejo sempre pessoas a queixar-se de que não se devia comemorar o 25 de Abril, mas sim o 25 de Novembro porque foi aí que Portugal voltou a ser verdadeiramente livre. Alguns dizem a ditadura de Esquerda do PREC era muito pior do que a ditadura de Direita. Eu tenho alguma dificuldade com esta lógica porque comemorar o fim de uma coisa má que durou ano e meio e não comemorar o fim de uma coisa má que durou 48 anos parece-me um bocado ridículo. E depois falar comparativamente de ditaduras, cria a ideia que umas são preferíveis a outras, o que não é verdade: são todas más!

Tenho a impressão de que quem se queixa e tinha idade para isso, não fez nada de significativo para contribuir para o fim da ditadura de Esquerda ou da de Direita e vejo que muitas pessoas que criticam comemorar-se o 25 de Abril são também as que criticam que nos manifestemos contra o Trump porque este foi "democraticamente" eleito -- quantos ditadores foram democraticamente eleitos, já agora? E são também as que criticam a Geringonça, mas são incapazes de ir para a rua manifestar-se contra ela.

Eu sou uma grande comodista, mas tenho plena noção de que acima de tudo sou uma privilegiada: tudo o que tenho, alguém lutou para eu o ter, a começar pelas famosas liberdade de expressão e liberdade de me manifestar pacificamente. Por isso, sou perfeitamente capaz de ir para a rua manifestar-me. "If you talk the talk, you better walk the walk", como se diz aqui no meu burgo...

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Milagre dos cravos no Texas

Este ano sofri as passas do Algarve aqui em Houston. O meu craveiro andava com um aspecto um bocado fraquito e receei o pior. Não sei se o problema foram as duas noites, em ocasiões diferentes, em que tivemos temperaturas abaixo de zero, apesar do inverno extraordinariamente ameno deste ano, ou talvez o próprio inverno ameno, ou os meus amigos esquilos que seguem a filosofia pseudo-Palinista de "Dig, baby dig!" no meu jardim, só sei que a minha produção de cravos está com um rendimento bastante abaixo do normal. A modos que pensava que estava lixada este ano, sem um cravinho para o 25 de Abril.

Eis que, hoje de manhã, abro a porta das traseiras e deparo-me com este espectáculo! Não é perfeitinho? Tenho para mim que se deu um milagre dos cravos no Texas e eu estou pronta para a Revolução!

Internacionalização

O novo presidente da European Public Choice Society é português, é meu colega na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho e chama-se Francisco Veiga: http://www.epcs-home.org/president/.

Muitos parabéns.

O fim de uma história

A história é conhecida. A diferença ideológica entre esquerda e direita nasceu com a revolução francesa. Em 1795, o presidente da Convenção determinou que quem fosse a favor do direito de veto do rei se sentasse do lado direito e que quem fosse contra se sentasse do lado esquerdo. Esta distinção ideológica, nascida do acaso, estruturou a vida política nos últimos 200 anos. A política existe porque os homens são diferentes e necessitam de arranjar maneiras de coexistir e de se organizar no meio do caos das suas diferenças. Há muito que essas diferenças deixaram de caber na oposição binária esquerda-direita. Ontem, em França, este facto tornou-se mais evidente para muitos. E, se calhar, esta história tinha de acabar onde começou, em França.

domingo, 23 de abril de 2017

Mau perder?

É assim tão estranho que Mélenchon não consigne o seu voto ao opositor de Le Pen? No seu anti-europeísmo, é com Marine Le Pen que Mélenchon mais pontos em comum tem.

Bem sei que é chato para muita gente de esquerda ver isto. Mas, na verdade, parece razoavelmente óbvio.

Ontem

March for Science, Houston, TX










sexta-feira, 21 de abril de 2017

Um génio compreendido

Ibrahimovic vai abandonar o futebol depois da lesão do último jogo.
É uma pena. Por tudo. Não só pelo jogador que se perde, mas também pela personalidade. Gosto de pessoas arrogantes e convencidas. E este era-o nas doses certas, ou seja, descomunais. Tal como o seu talento.
"One thing is for sure, a World Cup without me is nothing to watch. -- Ibrahimovic, 2013.
"I was asked last summer who was the best, me or (Swedish ladies international) Lotta Schelin. You're kidding with me, right? You're joking with me. Do I have to answer that?They compare with me with the world's best footballers in Europe...with Messi and Ronaldo...and when I get home they compare me with women's football. What the hell, should I feel ashamed to come home?" -- Ibrahimovic, 2013.

“I'd already got the impression that Barcelona was a little like being back at Ajax, it was like being back at school. None of the lads acted like superstars, which was strange. The whole gang – they were like schoolboys. The best footballers in the world stood there with their heads bowed, and I didn't understand any of it. It was ridiculous." -- Ibrahimovic, 2015.
“On that list I would have been number one, two, three, four and five, with due respect to the others. Coming second is like finishing last.” -- Ibrahimovic, 2014, a pretexto de ter sido eleito o segundo melhor desportista sueco de sempre.

Felizes para sempre

Ao ler a peça do Pedro Brás Teixeira no Eco, ocorreu-me ir comparar o novo Programa Nacional de Reformas (PNR) com o anterior. O Pedro acha que o novo programa é bastante vago e eu subscrevo a opinião dele, mas achei que havia lá coisas engraçadas.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Q&U têm razão!


Imagem: daqui; Bill: aqui.

E fez-se luz

Às vezes, falam-nos de um artista a que ainda não prestámos atenção. E vamos ouvir uma ou outra música e achamos que aquilo é esquisito, mas, na verdade, não passa muito disso. Mas, como vai aparecendo muitas vezes nas conversas com amigos, certos amigos, lá vamos insistindo. E, de tantos em tantos meses, lá vamos ouvindo uma canção.
E ao fim já de alguns anos, tudo faz sentido e deixa de ser esquisito. O tipo é original e mesmo bom e não se consegue deixar de o ouvir, como se quiséssemos perceber o que se tem perdido.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

22 anos

Comemora-se hoje o vigésimo-segundo aniversário do atentado à bomba de Oklahoma City. De um dia para o outro, muita gente em Portugal ficou a saber que Oklahoma existia e muitos amigos, quando eu lhes dizia que ia estudar para lá em Agosto de 1995, avisavam-me que era um sítio onde havia atentados bombistas. Atentados bombistas pode haver em qualquer lado. Lembro-me perfeitamente de ver o Telejornal e darem notícias de atentados à bomba em Espanha por causa da ETA, no Reino Unido por causa do IRA, ou seja, cresci a ver notícias de atentados à bomba, para não falar dos sequestros de aviões e outras calamidades não-naturais.

No local do edifício bombeado, ergueu-se um monumento às vítimas que pereceram, às que sobreviveram, e a todas as pessoas que ficaram para sempre transformadas por esta tragédia. O monumento está repleto de símbolos, como os portões do tempo: um com a hora 9:01, um minuto antes da bomba e que representa uma época de inocência da cidade; outro com a hora 9:03, o minuto depois da bomba, que representa não só um mundo transformado, mas também o início da esperança. A "Survivor Tree", um olmo que sobreviveu ao atentado, é outro símbolo, este de esperança e resiliência; no aniversário do atentado, árvores bebé descendentes deste olmo são oferecidas, havendo várias centenas plantadas nos EUA.

Talvez o sítio mais emotivo seja o campo de 168 cadeiras vazias, cada uma inscrita com o nome de alguém que faleceu. As cadeiras mais pequenas são as das crianças, pois no edifício havia um infantário.

April 19, 1995. #weremember #okcnm

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Nota: A árvore mais à direita é a "Survivor Tree"

Que lindo!

Ontem deu-me na telha e fui à J. Crew. Ando a pensar ser como os minimalistas, logo fui comprar mais roupa porque os três armários cheios que tenho são insuficientes para as minhas necessidades. Não é contradição! É que a minha roupa é tipo Energizer bunny e dura, dura... Tenho de fazer uma avaliação e desfazer-me das peças que já não valem a pena -- vou dar a uma loja de caridade.

Ah, mas não era nada disto que eu vos queria dizer. Fui à J. Crew e a montra falava em tecidos portugueses!


Sem apelo nem agravo

O poder tirânico é definido como um poder arbitrário e significava originalmente que o governo não tinha de prestar quaisquer contas. Ainda que seguindo por um caminho diferente, a burocracia chega ao mesmo resultado. Em vez das decisões arbitrárias do tirano, deparamo-nos com procedimentos universais estabelecidos ao acaso, mas contra os quais também não há apelo. Segundo Hannah Arendt, do ponto de vista dos súbditos, a rede de normas em que se encontram presos é muito mais perigosa e mortal do que a simples tirania arbitrária.

País das cavernas

Há uns tempos, estava eu e o meu colega Miguel Portela a analisar uns dados sobre o Mercado de Trabalho em Portugal para perceber melhor a origem das desigualdades salariais entre homens e mulheres, quando nos apercebemos que dentro de alguns sectores sujeitos a contrato colectivo de trabalho, para a mesma categoria profissional, os homens ganhavam mais do que as mulheres. Estranhámos: como era possível que essa desigualdade não violasse o contrato colectivo? Com certeza que nenhum sindicato aceitaria isso. A nossa intuição dizia-nos que os dados tinham de estar errados.

Continua aqui

terça-feira, 18 de abril de 2017

O poder da exclamação!

"Little Un, if you think this American president is stable like his predecessors, I refer you to his Twitter account. He has sent 13,321 tweets with exclamation points, 864 tweets with two exclamation points, 432 with three, 146 with four and 57 with five (the last one, in August: “#WheresHillary? Sleeping!!!!!”). Trump’s single greatest exclamation in recent years — 15 points — was in 2014: “This cannot be the the [sic] Academy Awards #Oscars AWFUL!!!!!!!!!!!!!!!”

Now he’s turning his punctuation on you. Until the past couple of years, the extent of his public commentary on your country was to say he wouldn’t go. “Dennis Rodman was either drunk or on drugs (delusional) when he said I wanted to go to North Korea with him. Glad I fired him on Apprentice!” he tweeted in 2014.

But this time Trump is in a position to fire missiles, not the former Chicago Bulls forward. And he has been treating the crisis with the gravity we’ve come to expect from him. At the White House Easter Egg Roll, where he was joined by the Easter Bunny, Trump said North Korea “gotta behave” and, if not, “you’ll see.” There is still a chance that his advisers will talk him down. The most sensible one is Defense Secretary Jim Mattis. His nickname: “Mad Dog.”"


Dana Milbank, The Washington Post

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Justificação fraca

Numa das nossas saídas a propósito do festival de comédia francesa que foi exibido no MFAH, fui pela primeira vez a casa da JB, que se mudou recentemente para um apartamento. Uma das paredes da sala está inteiramente ocupada por estantes cheias de livros, muitos dos quais de culinária. Pensava eu que tinha bastantes livros de cozinha -- tenho mais de 100 --, mas a minha colecção está bem aquém da da JB. Temos poucos livros em comum, mas fiquei espantada  por um deles ser sobre comida dinamarquesa: a JB comprou o dela em Copenhaga; eu comprei o meu provavelmente em Fayetteville, AR. Nenhuma de nós tinha cozinhado nada do livro, logo sugeri fazermos um jantar com receitas da Dinamarca, dado que já tínhamos feito um com o tema da Irlanda. 

Acabei por não usar esse livro para a minha receita, preferindo selecionar uma do meu livro sobre hygge, que terminei de ler na semana passada. Escolhi almôndegas com molho de caril -- o Meik diz que aquilo é popular na Dinamarca. Se calhar, foi um pouco precipitado escolher uma receita de um fulano que não é profissional de cozinha, visto ele recomendar 2 Kg de carne picada para quatro pessoas. Ou talvez eu, que mal meço metro e meio, não perceba muito bem as necessidades calóricas dos altarrões da Dinamarca. Só fiz um Kg e, mesmo assim, demorou-me bem mais de duas horas, quando o autor dizia que levaria pouco mais de hora e meia. 

Faltava 20 minutos para a JP me vir buscar para o jantar quando entrei no duche e, apesar de ter sido rápida, ainda estava de toalha na cabeça e meia despida quando ela bateu à porta. Disse-lhe que estava atrasada e ela foi fazer tempo com os vizinhos do outro lado da rua, que lhe mostraram um vídeo do filho. A JP disse-lhes que estava à minha espera para irmos a um potluck de mulheres Democratas (isto é um grupo de mulheres que foi à Marcha das Mulheres, mais duas senhoras que não marcharam porque já têm idade avançada: 87 e 92). 

O vizinho era Republicano e disse que votou Trump porque tinha medo que lhe tirassem as armas: ele é caçador. Entretanto, saio porta fora e a JP afastou-se deles, mas ainda ouviu a esposa do vizinho dizer-lhe que era uma justificação muito fraca para votar num idiota. 

A salada de pepino com aneto estava mesmo boa. A sobremesa foi feita pela JP e ela levou uns puzzles muito giros para nós fazermos antes de comer o bolo. As peças estavam dentro de uns ovos de plástico grandes, por sua vez guardados numa embalagem de cartão de ovos, como as que compramos no super-mercado. Os puzzles tinham todos imagens de pratos de ovos, mas eram um pouco difíceis porque não tinham fotos de referência e tinham contornos irregulares: uns tinham colheres a sair do prato, outros tinham a asa da frigideira, etc. Não terminei o meu porque faltava uma peça, mas mesmo assim serviram-me sobremesa. Aqui está a prova...



sábado, 15 de abril de 2017

Ex-FCP

Este post não é enquanto adepto do Braga, mas sim como adepto do Benfica e é sobre o FCPorto.
Como qualquer pessoa com 40 anos, habituei-me a temer o Porto. Ao longo dos últimos 30 anos, fosse com que equipa fosse, o Porto não entrava em campo a pensar no mal menor.

Isto para dizer que se o FCPorto perder o campeonato perdeu-o na semana passada na Luz. O FCPorto ir à Luz com menos um ponto e ficar satisfeito com um empate não é o Porto. O FCPorto que me habituei a respeitar, depois de recuperar da desvantagem na Luz logo no início da 2ª parte e quando estava por cima do jogo, não descansava enquanto não marcasse mais um golo. Não quando tinha um ponto de desvantagem.
A alegria dos jogadores do Porto no fim do jogo com o SLBenfica é uma afronta ao Porto. Se perderem o campeonato este ano, merecem perdê-lo pela satisfação que tiveram com esse empate.

(Se vierem a ganhar o campeonato, tudo bem, não há vencedores injustos, mas espero que para o ano a atitude competitiva seja melhor.)

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A insensibilidade* do outro António

How insensitive
I must have seemed
When she told me that she loved me To refuse to kneel to all of them
How unmoved and cold
I must have seemed
When she told me so sincerely To ignore he's a paraplegic, so completely

Why she you must have asked
Did I just turn and stare in icy silence speak something oh so stupid
What was I to say,
What can you say,
When a love affair is overWhen one might be of no honor

Now she's gone away I feel no shame
And I'm not alone
With a memory of her last look Everyone I know is a crook
Vague and drawn and sad So inept at math
I see it still I often doubt
All her heartbreak in that last look They could even read a book
How she you must have asked
Could I just turn and stare in icy silence still govern amid such ignorance?
What was I to do?
What can one do,
When a love affair is over When I'm supported with such fervor?

* Ou será insensatez?


Perder tempo

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Um exemplo a seguir...

O comunista João Oliveira acha que o Equador é um país cujo exemplo Portugal deve seguir. Fui então à Wikipédia informar-me do exemplo a seguir e de como o Presidente do Equador, Rafael Correa, gere o país:

"Taking office in January 2007, he sought to move away from Ecuador's neoliberal economic model by reducing the influence of the World Bank and International Monetary Fund. He declared Ecuador's national debt illegitimate and announced that the country would default on over $3 billion worth of bonds; he pledged to fight creditors in international courts and succeeded in reducing the price of outstanding bonds by more than 60%.[1] He oversaw the introduction of a new constitution, and was re-elected in 2009. Correa was re-elected in the 2013 general election. Ecuador was able to achieve political stability.

During Correa's presidency, he was part of the wider Latin American pink tide, a turn toward leftist governments in the region, allying himself with Hugo Chávez's Venezuela and brought Ecuador into the Bolivarian Alliance for the Americas in June 2009.[2] Using populist policies and its own form of 21st century socialism that was less radical than in Venezuela, Correa’s administration increased government spending, initially reducing poverty, raising the minimum wage and increasing the standard of living in Ecuador until 2014.[2][3][4] By the end of Correa's tenure, reliance on oil, overspending and earthquake caused Ecuador's economy to enter a recession, resulting in government spending being slashed, the layoff of thousands of public workers, as well as predictions by analysts stating that Ecuador would be left with further economic difficulties.[2][3][4][5] Eventually, some Ecuadorians had also grown disenchanted with corruption, as well as Correa's confrontational behavior with media organizations.[2][5] However, according to Transparency International, corruption decreased under Correa's government.[6]

Between 2006 and 2016, poverty decreased from 36.7% to 22.5% and annual per capita GDP growth was 1.5 percent (as compared to 0.6 percent over the prior two decades). At the same time, inequalities, as measured by the Gini index, decreased from 0.55 to 0.47."[7]

Fonte: Wikipedia

Grande exemplo: têm petróleo e moeda própria, mas conseguem ser mais corruptos, mais pobres, e com mais desigualdades sociais do que Portugal e o Presidente deles já está no poder desde 2007. Eu pensava que se devia escolher exemplos a seguir que fossem melhores do que o nosso. Afinal, o exemplo a seguir é pior. Viva a mediocridade!

Novidades na educação?

Não me tenho sentido muito bem por causa das longas ausências na DD. Afinal, fui eu que sugeri, ao iniciar a minha colaboração, que se adicionasse o tema Educação aos que já figuravam no cabeçalho – o mais interessante dos quais era (e é) “Laser Alexandrite”. Ora a verdade é que tenho falhado completamente no que pensei poder ser a minha contribuição no campo de actividade que foi, e é, o meu.

Deixando de lado possíveis razões para a parca assiduidade, relevarei hoje um tema que tem sido aflorado nos últimos tempos e que se insere na política de reversão de medidas tomadas em governos anteriores e que foi anunciada como “flexibilização curricular”.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Era um álbunzito, sff

Já que estamos nos bens e serviços pedidos, gostaria que editassem livros-áudio de poesia e que os disponibilizassem no iTunes americano para eu comprar. Gracias...

P.S. A sério que meti isto no Instagram ontem!


O mercado da saudade

Portugal é um dos países do mundo com maior percentagem de nacionais a viver no estrangeiro. A coisa é de tal modo exagerada que mesmo quando são considerados números absolutos, a quantidade de emigrantes portugueses a viver em alguns países europeus compara com o número de emigrantes de outros países muito maiores, como Espanha ou Itália. Como toda a gente sabe, e há pouco a acrescentar, a nova vaga de emigração é, grosso modo, altamente qualificada e tem um poder de compra elevado.

Há várias formas de tomar proveito deste fenómeno. O chamado "mercado da saudade", que escoa quantidades surpreendentes de produtos alimentares através das mercearias e restaurantes das comunidades portuguesas no estrangeiro, é um excelente exemplo disso. Ora, se há várias formas de aproveitar o fenómeno, há apenas uma, repetida inúmeras vezes, de o ignorar por completo. Já nem vou falar na falta de atenção que algumas instituições públicas votam aos emigrantes, que tem nos consulados a face mais visível. Mesmo os privados ignoram muitas vezes o filão de consumidores ao seu dispor.

Tenho dois exemplos com que me confronto regularmente, em ambos os casos de setores ditos em decadência, em que os seus intervenientes se queixam amiúde de fazerem cada vez menos dinheiro.

O primeiro é o mercado do livro em Portugal. Um setor particular, altamente protegido, que merecia um post por direito próprio. Este setor protegido mas decadente tem agora ao seu dispor uma geração de centenas de milhares de emigrantes qualificados, e dá-se ao luxo de o ignorar por completo. O principal site de venda de livros, a wook, cobra quase 12 euros para enviar um livro para Inglaterra. Ora isto, enquanto estratégia comercial, parece-me só muito, muito, muito pouco inteligente. 

O segundo é o mercado dos conteúdos televisivos. Os principais canais de televisão portugueses têm plataformas que permitem ver episódios dos seus programas online. A primeira crítica que faço é que, muitas vezes, os gestores das plataformas levam demasiado tempo a pôr disponíveis os episódios mais recentes. A outra crítica que faço é que as próprias plataformas beneficiariam de ser atualizadas. Nenhuma delas tem integração com o Google Chromecast, algo que seria tão fácil de fazer. O Google Chomecast, que eu e vários milhões de pessoas usam, permite transmitir no ecrã da televisão os episódios das plataformas de vídeos online. O youtube, por exemplo, faz isso. 

Vá, mexam-se. 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Modas...

A Economia Keynesiana está na moda, escreve o Noah Smith. Para ser adequado implementar o que chamam de Economia Keynesiana -- diminuição de impostos, aumento de gastos públicos -- tem de existir uma falha na procura agregada e a economia não pode estar próximo do pleno emprego ou até em pleno emprego; esses detalhes são frequentemente ignorados.

A economia americana está perto do pleno emprego. Repare-se que a Reserva Federal começou a contrair a política monetária há três anos e a taxa de desemprego não aumentou, logo não é evidente que a economia esteja em recessão, necessitada de estímulo fiscal; mas quando se tem apenas um martelo, tudo parece um prego.

A participação dos trabalhadores no mercado de trabalho está baixa, mas a longevidade dos americanos está em alta por enquanto; as gerações mais jovens já têm esperanças médias de vida mais curtas. O número de anos que se frequenta a escola também, especialmente porque, por causa da Grande Recessão, muitas pessoas regressaram à universidade para estudar. Havendo mais americanos reformados e um maior número de estudantes, o pressuposto ceteris paribus é violado e torna-se difícil comparar os dados actuais de participação no mercado de trabalho com os de gerações anteriores.

No entanto, há sub-emprego e desemprego local, mas o que também há é um nível de mobilidade da força laboral que está a mínimos históricos, uma tendência que se agrava há décadas, apesar de haver muitas empresas que não conseguem encontrar trabalhadores que queiram trabalhar (ler o livro The Hillbilly Elegy, por exemplo), quanto mais pessoas qualificadas para trabalhar -- fala-se em skills gap: um desencontro entre as qualificações que a economia precisa e as qualificações dos trabalhadores.

Este desencontro tornar-se-á mais pronunciado durante a próxima recessão que, muito provavelmente, se irá dever a mudanças estruturais causadas pela Internet. O sector de vendas a retalho americano está prestes a entrar em colapso; atrás dele cairá o imobiliário comercial. Este ano, quase todas as semanas, há uma cadeia comercial a fechar lojas ou a entrar em falência. (O sector automóvel também está fraco; falar-vos-ei disso noutro dia.)

O rácio de área comercial per capita nos EUA é alto, quando comparado com outros países (EUA: 7,3 metros quadrados; Japão e França: 0,16; Reino Unido: 0,12), fruto da expansão que ocorreu antes de e durante a Grande Recessão. Só que, entretanto apareceu o Pinterest, o Instagram, os blogues dos influenciadores, o Like to Know It, as empresas chinesas que vendem directamente pela Internet via eBay ou publicidade no Facebook (muitos casos são fraudulentos), a Amazon, que foi a grande responsável por esta revolução, etc.

Nos acessórios e nas roupas, não é preciso comprar tudo por causa da chamada economia de partilha (share economy): pode-se alugar (e.g., Rent the Runway, Bag Borrow or Steal), existindo mesmo serviços em que nós damos o nosso número, o nosso estilo, e alguém faz toilettes e envia para nossa casa em troca de uma mensalidade, quando nos fartamos mandamos de volta. Outra tendência crescente é o minimalismo, que tem um documentário, e também tem influenciadores, como aquela senhora que durante três meses apenas usou 33 peças de roupa e acessórios para fazer as suas toilettes de trabalho e ninguém topou (ver projecto 333).

Mesmo a área da mercearia e hortaliças está diferente. Há empresas que entregam os ingredientes para fazer refeições directamente em nossa casa, já acompanhados da receita (ver Blue Apron, Hello Chef, etc.). As mercearias tradicionais começaram a fazer entregas ao domicílio e algumas oferecem compras via Internet que se vão buscar à loja empacotadas pelos empregados. Em Portugal, o Continente já fazia entregas ao domicílio há mais de 10 anos; as modas nos EUA por vezes demoram a instalar-se, mas quando se instalam costumam ter um carácter mais compulsivo e destruidor.

Este ano será, no mínimo, interessante.

A vingança da verdade

 Hobbes acaba o seu Leviatã defendendo que “uma verdade que não se opõe a nenhum interesse ou prazer recebe bom acolhimento de todos os homens.” Trata-se de uma afirmação evidente. Todavia, fora as verdades matemáticas ou racionais, não existe nenhuma verdade que seja bem acolhida por todos os homens. Hobbes não ignorava essa evidência e adverte mesmo que até os livros de geometria seriam lançados à fogueira se a igualdade entre os três ângulos de um triângulo e os dois ângulos de um quadrado fosse contrária “ao direito de um homem à dominação ou ao interesse dos homens que detêm a dominação”. Aquele que diz uma “verdade de facto” corre um risco quando essa verdade vai contra os interesses ou prazeres dos que têm os meios para punir. O risco aumenta quando é o próprio povo que não quer ouvir a verdade e prefere os “não-factos” ou “factos alternativos” que encaixam melhor numa narrativa cor-de-rosa.
Como relembra Hannah Arendt num pequeno ensaio intitulado Verdade e política, publicado em 1968, as relações entre a política e a verdade são bastante más e ninguém “contou alguma vez a boa fé no número das virtudes políticas”. Regra geral, o mentiroso é mais convincente do que aquele que diz a verdade. A verdade constrange (porque é o que é) e o mentiroso, ao invés, é livre de acomodar os seus «factos» ao seu benefício e prazer ou às simples esperanças do público. O mentiroso terá inclusive “a verosimilhança do seu lado; a sua exposição parecerá mais lógica, por assim dizer, pois que o elemento surpresa – um dos traços mais importantes de todos os acontecimentos – desapareceu providencialmente.”

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Um helicóptero, dois helicópteros...

Ontem e hoje notei que havia uns helicópteros a passear pelo ar. Ontem, eram quatro que sobrevoavam uma das circulares de Houston e iam de um lado para o outro. Hoje de manhã, eram apenas dois, que sobrevoavam a área ao pé de minha casa enquanto eu passeava o Choppinho. Estes helicópteros por cima de minha casa causaram-me um certo pânico, pois, pensava eu, e se alguém dispara por acidente -- toda a gente no Texas tem uma arma menos eu -- ou caem em cima de mim? Vocês ficariam orfãos das minhas patetices e o mundo ficaria bem mais pobre.

Choques financeiros pessoais

A Bloomberg tem uma pequena notícia acerca de um estudo do JPMorgan Chase Institute acerca de choques financeiros pessoais, como despesas médicas não planeadas, arranjos de carros, perda de emprego. A conclusão é que muitas pessoas não estão preparadas para estes choques, especialmente se tiverem uma natureza persistente. Mesmo quem ganha um bom salário precisa de uma almofada de protecção -- activos líquidos -- significativa. As despesas da saúde são um dos maiores riscos aos quais os americanos estão expostos.

The greatest amount turned out to be a $5,300 monthly variation, for households of people between the ages of 35 and 54 with household income above $104,600. The $5,300 is the cash that household would need to have on hand if its income declined by 30 percent and its spending increased by 30 percent in the same month.

[...]

"Health care, auto expenses, and taxes were often behind the spikes the analysts found in spending data. The report notes that "four in 10 families make an extraordinary payment of roughly $1,500 related to medical services, auto repair, or taxes in a given year." The money for that may come from tax refunds: The think tank found that April is when medical bills were paid most frequently.

To judge whether the various households had the liquid assets to cover their fluctuations, the think tank used data from the U.S. census (which don't match up perfectly with its own age and income ranges). One conclusion: The $5,300 wouldn't be a big issue for the households with income above $104,600.

The institute also measured for an even worse storm, to see if households had liquid assets to meet the challenges posed by the 90 percentile of "adverse income and spending fluctuations" measured. The high-earning households could meet that demand, too, but they'd be covering that extreme exposure by a thin margin. The cash cushion needed was $13,800; the liquid assets on hand, $13,500."

[...]

Paying big medical bills had a lasting impact on financial stability. Many families have to turn to credit card debt to cover big medical payments. "A year after the extraordinary medical payment families still have 9 percent more revolving credit card debt and 2 percent lower cash reserves than baseline levels," according to the report.


Fonte: Bloomberg

Geme para mim...

[Chorus]
I'm so addicted to
All the things you do
When you're going down on me
In between the sheets
Oh the sound you make
With every breath you take
It's not like anything
When you're loving me

[Verse 1]
Oh girl let's take it slow
So as for you, well, you know where to go
I want to take my love and hate you till the end
It's not like you to turn away
From all the bullshit I can't take
It's not like me to walk away


~ "Addicted", Saving Abel

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Call for papers 5

 Abstract: Pretendo nesta comunicação encontrar o meu eu.

Imigração neoliberal

Em 1971, os EUA tiveram o seu primeiro défice comercial no século XX. As industrias japonesas e europeias haviam recuperado e passaram a concorrer directamente com os americanos em sectores como o aço e os têxteis. A seguir, viria o choque petrolífero de 1973. Era a machadada final no liberalismo do new deal, iniciado nos anos 30 na administração de Roosevelt, e que durante cerca de 40 anos constituiu o consenso dominante no establishment americano. Os anos 70 foram marcados pela estagflação (estagnação + inflação). As receitas keynesianas da procura deixaram de funcionar. A solução parecia passar agora por uma “economia pelo lado da oferta”, assim inicialmente designada, e posteriormente cunhada de “neoliberalismo” por politólogos americanos de esquerda. Este novo consenso, que se estava então a desenhar, nasceu no seio dos republicanos, onde os grupos de negócios encontraram sempre maior acolhimento. Com o tempo, os democratas foram interiorizando e aplicando as novas regras. Desregulação financeira, liberalização das leis do trabalho, enfraquecimento dos sindicatos, acordos de comércio livre, imigração legal e ilegal. Basta pensar que na maioria das eleições presidenciais americanas das últimas décadas as diferenças entre republicanos e democratas residiram apenas em questões como o aborto, o controlo das armas, impostos mais ou menos progressivos, mais ou menos despesas sociais, e pouco mais. Reagan, recorrendo a uma metáfora de Kennedy, dizia que “uma maré cheia erguerá todos os barcos”. Na Europa, a partir dos anos 80, com Thatcher, foram dados passos no mesmo sentido. A inflação elevada e o crescimento anémico pareciam não deixar alternativas. A inversão de política de Mitterrand a partir de 1982 foi tão ou mais decisiva na viragem europeia do que as políticas de Thatcher. O consenso social-democrata do pós-guerra, partilhado, por essa Europa fora, pelos partidos do centro-direita e centro-esquerda, começou a desmoronar-se.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Portugal out

Estou chateada com a Autoridade Tributária, mas isso não é novidade pois eu já estava antes. Agora tenho nova dose de razões pela qual me chatear. Há semana e meia recebi correspondência do meu procurador fiscal, pois alguém na Repartição de Finanças que trata da minha declaração do IRS decidiu que havia um problema com a declaração de 2013. Diz que eu disse que tinha um prédio recuperado e faltava uma declaração da Câmara Municipal a explicar a recuperação.

Ora eu não tenho prédio recuperado nenhum, mas fui ver do que se tratava e é o quadro 5 do formulário F. Eu não devia preencher esse quadro porque não tenho prédio recuperado, mas se eu não preencho esse quadro, o software não aceita a minha declaração. Não percebo o quadro, não percebo a pergunta ("Opta pelo englobamento dos rendimentos relativos a estes imóveis?"), mas respondo que sim porque faz-me uma pergunta referente aos rendimentos declarados e tenho de dar uma resposta, pois se eu não der, não consigo entregar a coisa. Agora alguém decidiu andar a ver o IRS de 2013 em 2017, quando em 2014, na altura de eu submeter a coisa e de me pedirem o dinheiro do IRS, ninguém acusou problema nenhum.

Enviei um e-mail à dita Repartição de Finanças e não obtive resposta, mas porque o seguro morreu de velho, enviei uma outra mensagem ao e-balcão no Portal das Finanças a perguntar o que fazer. Mandaram-me submeter uma declaração de substituição para esse ano e para os anos em que fiz o mesmo erro. Depois de andar às voltas com o Java, lá consegui abrir a secção onde se submetem declarações de substituição, só que, quando eu selecciono 2013, não aparece a opção de seleccionar a declaração de 2013, mas sim a de 2014. Tentei também outros anos a ver se consigo não responder ao quadro marado, mas não me deixam.

Estou farta da bur(r)ocracia portuguesa e estou farta da Autoridade Tributária. Querem que os portugueses que estão fora e as empresas sediadas no estrangeiro voltem para Portugal para quê? Para se sujeitarem a estas patetices? Tenham vergonha. Gerem mal o país e ainda antagonizam os cidadãos.

Ah, falta a cereja no topo do bolo! A cereja é o Primeiro Ministro a fazer discursos a dizer que só aceita uma Europa a várias velocidades se estiver no pelotão da frente. Alguém diga ao nosso ilustre Primeiro Ministro, que deixe de dizer coisas estúpidas. Quem garante que Portugal fica no pelotão da frente é a competência do governo, não é a União Europeia. Se o governo é incompetente, é lógico que o país não reúne condições para estar no pelotão da frente.

Pobretes, mas alegretes

Hoje, de uma ponta à outra de Portugal, as câmaras municipais transformaram-se em organizações de eventos. Feira do chouriço ou da alheira, feira medieval ou tecnológica, feira da agricultura ou do turismo, feira de produtos tradicionais ou do futuro, Natal, passagem de ano, o Calvário de Cristo (palavra de honra), o diabo a quatro, tudo serve de pretexto para mais um “evento”. Algumas almas mais avisadas perguntarão se não haverá maneiras mais inteligentes de os nossos autarcas espatifarem o nosso dinheiro. Com certeza que sim, mas isso dá muito mais trabalho e não dá tanto nas vistas como o foguetório. Entretanto, o povo "diverte-se", os autarcas mostram “obra”, alguém se farta de ganhar dinheiro e o contribuinte, como de costume, paga a conta e apanha as canas. Não temos emenda.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Estatísticas importantes

Como ficar pobre

Depois da crise financeira de 2008 e de ter ficado sem emprego duas vezes, concluí que todos nós que dependemos do nosso trabalho para ganhar a vida, estamos a um ou dois eventos de ficar pobres. Nos EUA, em particular, isto é bastante real. Mesmo que sejamos qualificados, trabalhadores, com um bom CV, basta ter um azar e toda a nossa vida muda completamente. Esta minha tendência para pensar no pior não me ganha muitos amigos; pouca gente quer pensar em coisas tristes e, de vez em quando, dizem-me que sou um bocadinho chata, pessimista, obcecada por dinheiro, etc.

Muita gente não percebe que está tão próximo da pobreza porque o normal é não haver grandes azares na vida da maior parte das pessoas e depois há a questão da visibilidade: enquanto que alguém de sucesso é reverenciada, aparece em jornais, mostra a sua boa sorte nas redes sociais, quem tem azar é muito mais discreto voluntária ou involuntariamente. A pobreza não é sexy, a não ser que acabe em riqueza.

Só quem tem um stock de riqueza acumulado é que tem maior probabilidade de estar resguardado do risco de acabar na pobreza; mas, mesmo assim, é preciso ter um estilo de vida que não exausta essa riqueza ou essa riqueza tem de gerar retorno que compense o estilo de vida, o que requer algum conhecimento de gestão financeira. Afinal, há bastantes pessoas que conseguiram acumular boas fortunas e depois as perderam. Mesmo os que ganham a lotaria frequentemente acabam mais pobres do que antes de a ganhar.

No Washington Post, a Michelle Singletary, colunista de Finanças Pessoais, aconselha as pessoas a serem um bocado mais humildes, porque ninguém está livre de acabar pobre depois de um azar, ou mais, e recomenda a leitura de um texto de William McPherson, um jornalista do WashPost que ganhou o Prémio Pulitzer, nunca tinha sido pobre, mas acabou na pobreza porque decidiu trabalhar por conta própria em vez de manter o emprego, teve um ataque cardíaco, etc.

"McPherson says he miscalculated his money and financial skills. In 1987, at 53, he decided to leave The Post and write about Eastern Europe as a freelance journalist.

“I chose retirement because I was under the illusion — perhaps delusion is the more accurate word — that I could make a living as a writer and The Post offered to keep me on their medical insurance program, which at the time was very good and very cheap,” he writes. “The pension would start 12 years later when I was 65. What cost a dollar at the time I accepted the offer, would cost $1.44 when the checks began.”

He had investments — a 401(k), a Keogh — money from some real estate ventures, and even some inheritances. It would all have been enough.

Except, it wasn’t.

He spent more than he should have in Europe, and the cost of recovering from a major heart attack further drained his finances."


Fonte: Michelle Singletary, The Washington Post

quinta-feira, 30 de março de 2017

Era só um milagrito!

Hoje matei um esquilo pela primeira vez, enquanto conduzia. Fiquei capaz de morrer. É verdade que, de vez em quando, estas criaturas me chateiam porque escavacam as minhas plantas no pátio. Não percebo porque implicam com o meu pátio, pois eu até lhes deixo nozes de vez em quando, num buraco de uma árvore. E aquela vez que, em Memphis, tive de pagar mais de $1.000 a alguém porque os esquilos tinham conseguido entrar na estrutura da minha casa? Fiquei chateada com o custo das reparações, mas o serviço também incluía apanhar os esquilos malandrecos e mudá-los de sítio, para longe de onde eu vivia. Ninguém os matou.

Dizia eu que, hoje de manhã, ia eu devagar, quando um esquilo aparece a sair de uma valeta, a correr para a estrada. Não tive tempo para fazer nada, pois se travasse era capaz de o passar a ferro -- foi a única coisa que me ocorreu. Talvez devesse ter acelerado, mas era difícil para mim avaliar em que sítio do meu carro o bicho estava. Olhei para o retrovisor e ele estava deitado na estrada, os pelinhos da cauda esvoaçavam com a brisa. Virei o carro para voltar atrás, estacionei, fui buscar um pano que trago na mala, e fui auxiliar o esquilo. Se estivesse vivo, levá-lo-ia ao hospital dos animais.

Não passei por cima dele; julgo que bateu contra uma das minhas rodas e, com o impacto, teve uma hemorragia interna, pois tinha a boca com sangue. Peguei no bichinho, abanei-o a ver se ainda se mexia, mas nada... Levei-o para uma zona mais recatada, debaixo de uma árvore, e deitei-o no chão. Fiz-lhe festinhas, falei com ele, e pensei que seria bom se ele só tivesse desmaiado, mas estava morto. Resignei-me e regressei ao carro.

Este era um macho, mas fez-me recordar daquela vez em que vi um esquilo fêmea morto na estrada. Notava-se que estava a amamentar e os filhotes devem ter morrido. Hoje podia ter sido pior, podia ter matado uma mãe-esquilo. E depois pensei no valor da vida dos esquilos, se matar um macho era preferível a matar uma fêmea. É uma pergunta parva, mas ocorreu-me.

Quando fui almoçar olhei para o sítio onde o deixei, pensei que talvez tivesse havido um milagrito, mas ainda estava lá. Não vale a pena gastar milagres em esquilos.

A erosão do intelecto

“We should only be working on two things, health and the freaking environment. The last thing we need is another freaking browser and app -- those things are eroding our national intellect.”

~ George Yancopoulos, Regeneron Pharmaceuticals Inc. co-founder

O Vito Gaspar

Ontem, enquanto passeava o Choppinho ao final da tarde, e me entretinha a observar os estragos da tempestade que tivemos de manhã (Aviso de tornado, pessoal! A coisa ficou mesmo preta -- literalmente! Entre as 10:30 e as 11 da manhã ficou escuro como breu. Chuva, trovoada, vento...), ouvi o podcast mais recente do Bloomberg Surveillance. Surpreendentemente foi curto, mas o Willem Buiter, de quem gosto bastante, foi entrevistado e um tal de Vito Gaspar também -- o Tom Keene não sabe dizer Vítor.

Pois é, era o Vítor Gaspar, que foi falar de um relatório em que foi um dos autores e que analisa a relação entre dívida e política. Percebe-se que o nosso antigo Ministro das Finanças é um grande fã de Alexander Hamilton. Será que ele tem a banda sonora de Hamilton, o musical da Broadway, que tem sido usada para ensinar economia e história?

Depois, queixem-se

Para que o populismo floresça, tem de haver uma oferta e uma procura. Quando os nossos analistas dizem que não há populismo em Portugal, estão a olhar apenas para o lado da oferta. Esquecem-se do lado da procura. Até ver, não há de facto líderes ou partidos políticos que utilizem o discurso populista por excelência, do “nós, o povo real e puro, contra a elite corrupta, que pensa apenas nos seus próprios interesses”. Mas só um cego é que não vê sentimentos populistas no seio da população, sentimentos, aliás, bastante antigos e com uma longa tradição. A ideia de que “eles” não estão lá para governar, mas para se governarem está bem entranhada na sociedade portuguesa. Este sentimento populista pode estar adormecido, ser apenas latente, mas está lá, disso não tenhamos dúvidas. Para que seja activado, são necessárias duas ou três coisas. Primeira, que apareça a tal oferta, sob a forma de um líder ou partido ou movimento populista. Segunda, que se espalhe e interiorize, por exemplo, a ideia de que existe uma corrupção sistémica e que não há consequências, ou seja, o sentimento de que a justiça é forte com os fracos e fraca com os fortes. Por isso, neste momento, o desempenho da justiça é mais importante do que nunca. Mas há outros rastilhos.

Os partidos tradicionais portugueses (em especial o PS), à semelhança do que aconteceu por essa Europa fora, andam a brincar com o fogo. Quando as coisas correm bem, os méritos são do governo; quando correm mal ou não podem cumprir certas promessas, a culpa é da União Europeia, que os obriga a fazer coisas contra a sua vontade. Esta atitude não é séria. Ao invés, os partidos deviam admitir claramente as limitações do seu poder e explicar que essas limitações advêm de concessões feitas à EU por esses mesmos partidos no passado. Mas não. Com o objectivo de ganhar votos no presente, estão inadvertidamente a alimentar ressentimentos futuros em relação à UE. E é deste tipo de ressentimento que se alimenta em grande parte o actual populismo na Europa. Depois, queixem-se.

A minha Fruta Feia

Hoje foi dia de receber o meu saco da Fruta Feia aqui do burgo. É entregue à minha porta, semana-sim/semana-não (foi essa a frequência que escolhi, em vez de semanalmente), à Quarta-feira, num saco térmico que tem uma garrafinha de água congelada para manter a temperatura. Há uns meses, o serviço começou a enviar SMSs no dia anterior para nos lembrar para deixarmos o saco vazio da semana anterior à porta, mas eu já tinha colocado um lembrete no meu telefone, pois, por vezes, cheguei a acumular dois e três sacos, o que me chateava um bocado.

Eu compro o chamado "medium bushel", que custa $27.99 e tem 5 a 7 itens diferentes. Esta semana recebi beterraba Chioggia, que é uma beterraba às riscas (as rodelas parecem um chupa-chupa; nunca tinha visto), com a respectiva verdura; cenouras e respectiva verdura -- acho que vou tentar fazer pesto --; um molho pequeno de couves; alface; 4 laranjas; e cerca de meio quilo de batata doce.

Para além de ser conveniente receber o saco em casa, evito gastar tempo e gasolina para ir à mercearia e não caio na tentação de comprar coisas de que não preciso. Uma outra vantagem é que acabo por ter uma dieta mais variada e que muda com o que está na época. Muitos dos ingredientes que recebo são coisas que não costumo comprar ou desconheço; mas há produtos que dei instruções para não me enviarem: quiabo (okra), sálvia (costumo ter no jardim), e beringela. 

Aqui está a foto desta semana:




quarta-feira, 29 de março de 2017

Se dependesse de mim, todos os aeroportos do mundo chamar-se-iam Marilyn Monroe.

terça-feira, 28 de março de 2017

Consolos

Quando eu andava no primeiro ano do ciclo, actual quinto ano, tive hepatite, julgo que no terceiro trimestre. Apanhei porque a minha vizinha, que era um ano mais nova do que eu, ficou doente: eu apanhei dela e a minha irmã apanhou de mim umas semanas mais tarde. Durante dias fiquei de cama, julgo que faltei à escola cerca de três semanas. Detesto estar de cama e, para passar o tempo, li o meu livro de inglês, pois esse era o primeiro ano que aprendia inglês. De vez em quando, um senhor de idade, nosso vizinho, vinha visitar-me. Ele costumava ensinar-me Matemática na escola primária porque eu não dava nada para a caixa em contas. Se a escola fosse apenas Língua Portuguesa e Meio Físico e Social, o meu mundo seria muito melhor. Só no oitavo ano é que eu aprendi a gostar de Matemática, mas não é que eu não gostasse, apenas era indiferente àquilo.

A minha mãe falava com as vizinhas acerca da minha doença e do que havia de me dar de comer. Uma delas, uma senhora já de muita idade, viúva, sempre vestida de preto, e que vivia sozinha mais acima na nossa rua, aconselhou a minha mãe a dar-me arroz branco acompanhado de frango temperado só com sal e preparado numa placa grelhadora em cima do fogão a gás. Essas refeições foram das mais consoladoras que alguma vez comi, o que é estranho porque são das coisas mais simples que há. Já no outro dia me tinha recordado delas, mas hoje vi que Portugal está a sofrer um surto de hepatite A e lembrei-me outra vez.

Depois de ficar boa, regressei à escola e tive imediatamente um teste a inglês, uma das coisas que saía no teste era como se perguntava e dava as horas. Tive 84% sem ter estudado para o teste; apenas tinha lido o livro para não morrer de tédio. Foi a segunda nota mais alta e a minha professora deu-nos, a mim e à minha amiga Cláudia, que teve a nota mais alta, uma borracha de cheiro em forma de guarda chuva, verde com um centro cor-de-rosa. Guardei a minha até sair de Portugal; depois os meus pais apoderaram-se do meu quarto e não sei onde foi parar a borrachinha.

A minha professora preferida era sem dúvida a de inglês, que era extremamente criativa: desenhava coisas em ponto grande em cartolina, pintava, recortava, e levava-as para a aula, afixando-as ao quadro com Fun-Tak (uma massa parecida com plasticina, que serve para aderir coisas à parede). Foi assim que aprendemos a identificar comida, roupa, etc., com ela a apontar para os seus desenhos no quadro e a dizer-nos o que as coisas se chamavam. Eu nunca tinha visto Fun-Tak em Portugal, mas decerto que ela a tinha comprado no estrangeiro, pois quando vim para os EUA, toda a gente usava aquilo na universidade para aderir posters e outras coisas à parede e decorar quartos e gabinetes. Em homenagem à minha professora de inglês, também comprei Fun-Tak e colei coisas na parede.

Não me recordo do nome da minha professora, o que acho estranho, mas ela gostava muito de mim e chegou a perguntar à minha mãe se eu tinha aulas de inglês fora da escola. Não tinha; o inglês aparecia naturalmente na minha cabeça, sem que eu fizesse grande esforço para isso. Para mim, o inglês sempre foi um grande refúgio. Muitos anos mais tarde, já depois de eu ter vindo para Houston, um amigo meu ao ouvir-me falar em inglês, disse que tinha sido um erro cósmico eu ter nascido em Portugal; eu pertencia aos EUA.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Belas contas...

Quando o défice em percentagem do PIB melhora sensivelmente à mesma velocidade do ano passado, mas a dívida em percentagem do PIB, que desacelerava, passa a acelerar, conclui-se que cálculo diferencial não é o forte da dupla Centeno/Costa.


Extra kiss...

Na Sexta-feira, o "fechador" de negócios não fechou o negócio do "Trumpcare", mas hoje já temos mais um negócio alinhado: Jared Kushner vai liderar um novo gabinete que irá simplificar a burocracia do governo americano, usando princípios do mundo de negócios. (Se chamassem a isto Simplex, até seria engraçado, porque a simplificação burocrática deu um resultadão em Portugal. A partir daí, o país cresceu que nem uma erva daninha.)

Kushner é um homem de negócios muito experiente e sábio. Por exemplo, vendeu a sua parte na "Torre Kushner" quando o sogro ganhou as Presidenciais e o timing foi perfeito, pois o 666 Fifth Avenue está quase falido, com uma taxa de ocupação de 70% em Setembro passado, quando precisa de pelo menos 91%. A família Kushner, sem o Jared, está a ver se arranja $850 milhões de empréstimos através do programa EB-5 para refinanciar a dívida do edifício e endireitar a coisa.

O EB-5 é o programa de "vistos dourados" dos EUA, em que investindo $500.000 em imobiliário americano, um estrangeiro pode obter um visto de investidor. O Congresso está a considerar aumentar o investimento mínimo para $1,35 milhões. Aguardemos o contributo de Jared Kushner para a máquina estatal americana, pois daria bastante jeito para a economia e para os negócios Kushner, apesar de não se saber se o Jared está envolvido nas negociações do financiamento da Torre Kushner.

Hoje, também, e para demonstrar que é um homem de boa vontade, Jared Kushner irá voluntarimente submeter-se às questões do Senate Intelligence Committee acerca das alegadas ligações da Campanha de Donald Trump à Rússia.

E mais uma vez se confirma que o Prince é que tinha razão: "You don't need to watch Dynasty to have an attitude"; basta acompanhar a saga Trump.

Vem nos livros

A democracia per se pode ser definida como uma combinação da soberania popular com a regra da maioria. Neste sentido, basta que haja eleições livres e justas para que um regime seja considerado democrático. A chamada democracia liberal vai além desta definição. Exige também a criação de instituições que garantam a defesa de direitos fundamentais como a liberdade de expressão e a protecção das minorias. O grande desafio é conseguir um equilíbrio harmonioso entre o governo da maioria e os direitos da minoria. Na prática, este equilíbrio é complicado ou mesmo impossível de alcançar. Basta pensar nas leis antidiscriminação, que, amiúde, vão contra o princípio da maioria. Os populistas exploram estas tensões e, às vezes, diga-se de passagem, as elites políticas põem-se mesmo a jeito ao ignorarem com desdém as inquietações de largas franjas da população. O populismo, nas suas mil e uma variantes, pode ser compatível com a democracia per se, mas é incompatível com a democracia liberal, pois nada deve constranger a vontade do povo puro. Entidades independentes como o sistema judicial e os meios de comunicação tornam-se alvos preferenciais a abater. Como seria de esperar, Donald Trump assestou as suas baterias nessa direcção. Afinal de contas, os inimigos do povo, internos e externos, não param de conspirar a fim de sabotar o trabalho "fantástico" do governo. É, por isso, necessário estar sempre alerta e denunciar os conspiradores ao mundo. Vai ser assim até ao fim, com o nível de paranoia a aumentar, provavelmente, de dia para dia. 

sábado, 25 de março de 2017

Putin: o 28.º Estado-Membro da UE

A tentação imperial de Putin não é nova. Porém, vem encontrando no actual momento político-económico e social o mais favorável “caldo” para se desenvolver. A História ensina-nos que o equilíbrio de poderes do pós-Guerra Fria só na aparência foi resolvido a favor dos EUA, dado que o gigante apenas adormeceu estrategicamente. Passada a fase da Comunidade de Estados Independentes, reconfigurada a Federação Russa, eleito um ex-operacional do KGB para o Kremlin, sabia-se que o espaço de influência continuaria.
Confrontada com maus desenvolvimentos económicos, limitando a sua capacidade de manutenção e renovação militar, o regime de verdadeiro “czariato” de Putin fez alianças com a China e foi namoriscando os EUA, que foram no logro de que o desequilíbrio económico seria suficiente para manter a política externa moscovita dentro de aceitáveis margens de controlo.
Puro engano. Não apenas o Presidente russo, mas boa parte da população, por entre os frangalhos de uma ex-URSS todo-poderosa e um desejo de afirmação e expansão de império, co-natural àquele povo, depois de ameaçarem a UE e a OTAN em virtude do despautério do alargamento a Leste, anexaram a Crimeia. Um primeiro grande teste de resistência a que Putin quis submeter a dita “comunidade internacional” e no qual passou com louvor e distinção. O controlo sobre uma boa parte do gás que abastece a Europa central, em especial a Alemanha, a ainda existente ameaça militar e uma personalidade que contrasta com um apagamento das lideranças do Velho Continente, conduziram a reacções pífias e inconsequentes.
E assim foi nascendo um novo “movimento dos não-alinhados”, com Putin e Erdogan, a que se vai aliando, pontualmente, o pragmatismo da política externa chinesa, mais apostada no poderio económico, bem visível no montante dos créditos que detém quanto à dívida pública norte-americana. Com a habitual subtileza da China, após a governação por tweets de Trump, bastou uma pequena lembrança deste facto para que o inefável homem que marca a moda da altura das gravatas se virasse mais para os bad hombres e para as investigações do FBI que o podem chamuscar.
O dito “movimento dos não-alinhados” não tem uma verdadeira massa unificadora que não seja a vontade de afrontar o Ocidente e o que ele ainda representa. Entendamo-nos: por certo é de todo respeitável que a Rússia deseje aumentar a sua influência no mundo a todos os níveis. Os outros fazem o mesmo e não é por serem russos que uma política expansionista passa necessariamente a ser má. Esta junção de pequenos e grandes ódios, de interesses económicos estratégicos, de demonstração ao mundo globalizado que se pode viver como uma espécie de “ilha”, levam a um reforço do dito “movimento anti-globalização”. Putin deseja ficar para a História como o hábil político que dilatou o império, de preferência sem disparar uma bala, bastando-se com as malas diplomáticas. O eixo turco-russo está, assim, interessado em explorar uma Europa em devaneios populistas, fragmentada pela crise dos migrantes, com exigências de indicadores económicos quase sempre irreais e que perdeu uma ponte com os EUA através do Brexit. E isto mesmo que o Reino Unido fique a perder mais que o conjunto dos demais países da UE, o que ficou claro com os atentados em Westminster.
Daí que a recepção a Marine Le Pen como se de uma estadista se tratasse, bem como de outros líderes populistas e xenófobos, seja uma evidente forma de legitimar o que está em contradição com o núcleo duro dos valores europeus. Resta é saber se Le Pen não terá arriscado em demasia. Sabemos que as mais recentes sondagens apontam para a sua vitória nas presidenciais francesas, como não desconhecemos a operação de cosmética que ela e o seu partido têm feito no sentido de adocicar o discurso. Donde, a colagem a Putin e a legitimação através dele podem bem jogar contra os interesses eleitorais de Marine. É certo que se escreveu já que o financiamento da sua campanha está difícil e que existiria um empréstimo de um banco russo que estaria a pressionar a respectiva liquidação. Ora, pode especular-se quanto à mão estendida de Putin…
Mas não seria o custo político desse empréstimo demasiado elevado? Gostaria bem que sim, pois o respirar de alívio com a Holanda é sol de pouca dura. Mais eleições se avizinham por essa Europa fora e comprovado está que Putin vai sempre ser um player importante. Arrisco-me a dizer que a Federação Russa quase pretende substituir o papel de enfant terrible do Reino Unido. Continuaríamos, então, a ser 28 Estados. Apesar de este, descontado o equívoco geográfico, porventura não cumprir com a Carta dos Direitos Fundamentais da União. Mas, all in all, poderá a UE, no actual momento, dar-se ao “luxo” de ser uma comunidade de valores?

sexta-feira, 24 de março de 2017

Mais um défice

O Papa aprovou a canonização dos pastorinhos videntes Francisco e Jacinta Marto. E vem aí mais uma santa portuguesa: o processo de canonização da irmã Lúcia também parece estar bem encaminhado. De qualquer maneira, em nove séculos de história, Portugal produziu, salvo erro, 10 santos. O que dá mais ou menos um por século. Estamos seguramente abaixo da média comunitária. Enfim, mais um défice que nos persegue há séculos. Donde vem este défice de santidade? Não sei se Deus nos abandonou e deixou ao deus dará. Não sei se os copos e as mulheres são a nossa perdição, como aventou esta semana um socialista holandês. O facto é que não é fácil ser santo neste país.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Os idiotas da objectividade

Quando há ataques terroristas, costuma aparecer alguém a lembrar que morrem muito mais pessoas em acidentes de viação. São “os idiotas da objetividade”, como lhes chamava o Nelson Rodrigues. Imaginem que é dito aos residentes de uma cidade que há dois bombistas prontos a atacar. E é dito aos de outra cidade que há apenas um bombista. O seu risco é inferior em metade, mas acham que alguém se vai sentir mais seguro por cauda disso?

quarta-feira, 22 de março de 2017

Perspetiva

Foto de Luis Gaspar.

Há quem lhe chame fleuma britânica, mas eu chamo-lhe perspetiva. Quando cheguei a casa, e enquanto metia o frango e os noodles no wok, a BBC1 passava um documentário sobre a resistência dos aviões modernos aos embates com pássaros, e o channel 5 estava a dar um programa sobre polícias em bairros manhosos. O channel 4 era o único, dos generalistas, a falar do ataque de umas horas antes. 

Em 2015, houve 118 assassinatos em Londres, e mais de 10 mil violações. Tenho a certeza que, se for ao Google, encontro atentados em África esta semana que mataram mais pessoas. Quero com isto dizer que o incidente de hoje é uma coisa sem importância? Não, é claro que não quero dizer nada disso. Isto mexe comigo, a nível pessoal e emocional. Vivo nesta cidade, apanho transportes públicos, ando nos mesmos sítios - a foto ali em cima é na ponte de Westminster, num dia de primavera, há uns anos. Mas é preciso ver as coisas em perspetiva, sempre. O terror - como o interpretamos e como reagimos a ele - também é, em grande medida, um problema de perspetiva. 

A solução para tudo

Era um Dijsselbloem job, não era?

Esopo

Esopo foi um fabuloso fabulista grego, que disse coisas como:
  • Um pedaço de pão comido em paz é melhor do que um banquete comido com ansiedade.
  • Exibição exterior é um pobre substituto para o valor interior.
  • Até mesmo os poderosos podem precisar dos fracos.
  • A gratidão é a virtude das almas nobres.
  • Quem trama desventuras para os outros estende armadilhas a si mesmo.
  • Nunca confies no conselho de um homem em apuros.
  • De nada vale possuir uma coisa sem desfrutá-la.
  • Não se podem censurar os jovens preguiçosos, quando a responsável por eles serem assim é a educação dos seus pais.
  • O hábito torna suportáveis até as coisas assustadoras.
  • Depois de tudo o que é dito e feito, mais é dito do que feito.
(Ver mais no Citador)

Ah, e viram que Esopo era grego? Nada mau, vindo de um grego...

Educação infantil


Fonte: Fábulas de Esopo, Biblioteca do Congresso

Jeroen Dijsselbloem, o frustrado

"Na crise do euro, os países do norte da UE mostraram-se solidários com os países em crise. Enquanto social-democrata, considero a solidariedade extremamente importante. Mas quem a exige, também tem deveres. Não posso gastar todo o meu dinheiro em aguardente e mulheres e a seguir ir pedir-lhe apoio".

Jeroen Dijsselbloem, traduzido por Helena Ferro de Gouveia, publicado no mural do LA-C

Não percebo por que razão os portugueses enfiaram a carapuça de gastarem o dinheiro em mulheres e aguardente. É que o Jeroen apenas disse que era um moço que precisava de pedir apoio, mas tinha vergonha de o pedir se antes tivesse gastado dinheiro em mulheres e aguardente. É óbvio que não se referia aos portugueses; se se referisse, não mencionaria aguardente, mas sim vinho.

Tu também, Bruto?

O Benfica queixa-se da justiça desportiva. A Federação Portuguesa de Futebol abre-lhe um processo disciplinar. Por ingratidão, presume-se.

terça-feira, 21 de março de 2017

Kiss me, I'm Irish!

Para celebrar o St. Patrick's Day, fizemos um jantar em minha casa, no Domingo. Aproveitei a ocasião para usar os meus pratos feitos em Portugal: pensei que os pratos da Olfaire, verdes a imitar folhas de couve, fossem adequados e gostei bastante de os ver sobre os pratos de jantar da Mikasa, colecção Firenze (são os que têm os floreado pintado à mão a azul). A colecção Firenze foi feita pela SPAL e é o serviço de jantar que recebi quando me casei.

A toalha de mesa foi comprada na minha última visita a Portugal, em Guimarães, na Chafarica, e foi uma enorme sorte encontrá-la, pois mesas quadradas do tamanho da minha são um bocado invulgares e nunca encontro muitas opções em toalhas de jantar. Tenho uma ou duas da April Cornell, redondas, mas não gosto muito da forma como as costuras da barra ficam nos cantos da mesa e as cores não davam com o motivo do nosso jantar. A toalha da Chafarica, que tem tons neutros, foi o fundo ideal para a louça.

Intersecção: procrastinando

 Adio,delongo, difiro, posponho, prorrogo, protelo, protraio, retardo, postergo, demoro, atraso.

Símbolos filosóficos

Simone de Beauvoir