sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Leituras de 2016 sobre progresso e inovação

A Amiga Genial (quatro volumes) de Elena Ferrante


A tetralogia A Amiga Genial de Elena Ferrante, pseudónimo da escritora italiana da cidade de Nápoles que se mantém no anonimato, é um dos maiores sucessos literários e de vendas dos últimos anos. 
A obra de Ferrante acompanha a relação de duas amigas, Lila e Lenú, que vivem num bairro pobre de Nápoles, ao longo da segunda metade do século XX. Numa entrevista à revista Paris Review, a autora refere que não pretendeu escrever sobre o processo de transformação económica e social, ou sobre a ascensão social e o peso persistente das origens de classe. Mas reconhece que um tão longo período histórico, com tantas mudanças económicas e sociais, influenciou as escolhas e as vidas das personagens. 
De facto, embora as grandes questões que acompanham as personagens de A Amiga Genial - como viver a vida? como nos relacionamos com os outros? – sejam comuns a muitas personagens de outros grandes romances, a forma como estas vivem a vida e se relacionam com os outros é determinada pelo tempo histórico em que a acção se desenrola. Na história da vida e amizade das personagens a autora dá-nos um grande fresco da Itália do pós-Segunda Guerra, onde as semelhanças com a experiência portuguesa abundam.    
Não é possível ler A Amiga Genial – pelo menos para um economista – sem contextualizar a história no período que ficou conhecido como Os trinta gloriosos (as décadas de 50, 60 e 70), a que muitos historiadores se referem como milagre: a taxa de crescimento duplicou face ao período anterior e a prosperidade que daí resultou permitiu atenuar os conflitos sociais que caracterizaram o período anterior à Segunda Guerra Mundial, estabilizar e legitimar os regimes democráticos e sustentar as transformações sociais associadas à urbanização e à massificação da educação.
Ao longo da obra vamos acompanhando o crescimento das personagens e as transformações da economia e da sociedade: as estradas são alcatroadas; o comércio moderniza-se; um sapateiro da periferia passa a produzir calçado de luxo numa loja do centro da cidade; as pessoas começam a ir à praia, a comprar carro e a ter telefone; as mulheres e os trabalhadores lutam pelos seus direitos, uma luta que resulta muitas vezes em actos violentos. Todas estas transformações e conflitos estão presentes no microcosmos do bairro de Nápoles onde se centra a narrativa. 
Mas a maior transformação naquele período, que atravessa toda a obra, é a da educação. A educação surge como um instrumento para a realização pessoal e como elevador social. Quando eram crianças, Lila e Lenú ambicionavam ser ricas. Serem ricas era a forma de se libertarem da opressão e da exclusão em que viviam os habitantes do bairro. As duas são excelentes alunas, mas as suas famílias não percebiam a utilidade de prosseguir os estudos. Apesar disso, e por pressão da professora, Lenú permanece na escola, com grande sucesso, até concluir a universidade e se tornar escritora. Por outro lado, Lila, que era a melhor aluna e que é excepcionalmente inteligente, não tem qualquer apoio da família, e abandona os estudos com 10 anos. 
Lenú percebe que ser a melhor aluna é a via “para vir a ser qualquer coisa...”, no fundo, para poder quebrar a imobilidade a que todos pareciam condenados no bairro, sobretudo as mulheres. No entanto, vai percebendo que a educação não desvanece todas as barreiras sociais. Por outro lado, o crescimento económico naquelas décadas mudou profundamente a vida do bairro – Lila e o marido, que não estudaram, tornam-se empresários bem-sucedidos de uma empresa informática. Mas os melhoramentos materiais não impedem as misérias morais, que persistem no bairro. 
O percurso muito diferente das duas amigas não as afasta. Lenú continua a voltar ao bairro onde cresceu e percebe que, apesar de toda a mudança, a “ligação entre o passado e o presente na realidade nunca se desfizera...”.   

Os Buddenbrook – Declínio de uma família de Thomas Mann

Durante a leitura da tetralogia de Elena Ferrante fui estabelecendo relações com um outro livro muito importante que li este ano: Os Buddenbrook – Declínio de uma família de Thomas Mann. Este é um dos poucos clássicos da literatura que me lembro de ver citado num manual de economia, o Economics de Paul Samuelson. O primeiro romance de Thomas Mann descreve o declínio da casa comercial de uma família burguesa do Norte da Alemanha, no século XIX. Thomas Buddenbrook herda o negócio do pai, fundado pelo avô, mantendo-se fiel aos velhos códigos. Num mundo em acelerada mudança económica e política, não tem a capacidade de se adaptar aos novos tempos e é ultrapasado pelos novos empresários. 
A questão da sucessão nas empresas familiares, que continuam a ser muito importantes na Alemanha (como em Portugal), é ainda hoje de grande relevância. Em Os Buddenbrook a sucessão na direcção da empresa, como a escolha do cônjuge, era determinada pela tradição. Num mundo em mudança, as escolhas ditadas pela tradição condenaram a empresa à falência e toda a família a um final infeliz. Um tema subliminar em Os Buddenbrook é a impossibilidade de realização de Antonie, a irmã de Thomas, que talvez fosse o elemento da família com o perfil mais adequado para assumir a direcção da empresa. No entanto, dada sua condição de mulher essa possibilidade não se colocava (embora seja verdade que na única intervenção que teve na empresa, propondo a realização de um contrato de futuros, o resultado foi ruinoso). 

Os Inovadores de Walter Isaacson e The Second Machine Age de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee

Os Inovadores de Walter Isaacson e The Second Machine Age de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee são dois livros fundamentais, e cuja leitura se complementa, para compreendermos as origens da revolução digital e as suas consequências para o funcionamento das economias e para a organização das sociedades.
Os Inovadores é candidato a melhor história de sempre dos computadores e da internet ou da revolução digital. Nesta história Isaacson destaca a importância do trabalho em equipa, das equipas interdisciplinares (contando com a presença de alguns génios), das lideranças, de um ambiente favorável à criatividade e à inovação, da colaboração entre o Estado, as universidades e as empresas. Esse ambiente colaborativo levanta muitas questões fundamentais e conflitos relacionados com a autoria e os direitos de propriedade intelectual e industrial ou o uso de recursos públicos para benefício privado. 
Os Inovadores lê-se compulsivamente, porque junta uma visão das grandes mudanças com episódios deliciosos da vida dos inovadores e dos gestores.     
The Second Machine Age de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee complementa a descrição da história da revolução digital de Isaacson, na medida em que dicute o impacto da tecnologia na economia e na sociedade. Brynjolfsson e McAfee estão entre os mais destacados optimistas tecnológicos. Do lado dos pessimistas, destacam-se autores como Robert Gordon e Tyler Cowen, que consideram que a revolução digital não tem a mesma capacidade de gerar crescimento económico que tiveram as revoluções tecnológicas anteriores.  
Apesar de identificarem riscos e efeitos negativos, os autores de The Second Machine Age defendem que a revolução digital aumenta a variedade e quantidade de bens disponíveis para consumo, dando à sociedade mais escolha e mais liberdade. A principal força por detrás desses benefícios é a digitalização de tudo, com custo marginal de reprodução igual a zero, permitindo a difusão de conhecimento de forma instantânea entre mais pessoas.
Os autores reconhecem os efeitos negativos da revolução digital no emprego e na distribuição do rendimento e da riqueza, em particular para os trabalhadores com baixas qualificações. O rendimento e a riqueza concentram-se num pequeno grupo de criadores e inovadores, cuja remuneração do talento beneficia da digitalização e globalização.
Brynjolfsson e McAfee concluem com uma discussão sobre as competências em que os trabalhadores têm vantagem sobre os computadores e as alterações necessárias nos sistemas de ensino. A boa notícia é que a própria revolução digital pode facilitar o acesso à educação necessária para ganhar a corrida com a tecnologia. E defendem também medidas como impostos mais elevados para os rendimentos mais elevados como forma de corrigir as desigualdades geradas pela revolução digital. E não se esquecem de reforçar a importância de preservar um sistema capitalista, isto é, um sistema económico descentralizado com a propriedade privada dos meios de produção.  

Referências:
A Amiga Genial (quatro volumes). Elena Ferrante. Relógio D´Água
Thomas Mann. Os Buddenbrook – O declínio de uma família. D. Quixote. Tradução de Gilda Lopes Encarnação. 
Walter Isaacson. Os Inovadores. Porto Editora.
Erik Brynjolfsson e Andrew McAffe. The Second Machine Age. Norton 

É um facto

De acordo com os dados das estimativas relativas a 2015, a população portuguesa era constituída por 5,440 milhões de mulheres e 4,902 milhões de homens; ou seja, as mulheres representam 52,6% da população. No mínimo, se as mulheres são pelo menos metade do todo, então precisam de ter tanta voz na Praça Pública como os homens.

Quando uma publicação como a Sábado, decide dar voz apenas a homens, então tem de haver uma outra publicação que dê voz apenas a mulheres para que o discurso da Praça Pública seja representativo do que é a população portuguesa. O ideal seria que cada publicação desse representatividade a ambos, especialmente, se o público alvo é ambos os sexos.

É uma questão de matemática e representatividade e é um facto -- já somos suficientemente crescidos para o aceitar, não achem que é uma questão de se fazer um favor às mulheres, nem sequer uma birra das "feministas ululantes", como já vi alguns homens denotar as mulheres que se recusam a estar caladas. Nós, mulheres, não precisamos de favores porque nós existimos e a nossa existência é tão factual como a existência de um homem.

O Senado, o gineceu e a ironia

A capa da Revista Sábado de ontem gerou muita celeuma e discussão acesa. As gordas da dita dizem "As minhas ideias para mudar Portugal" e as fotografias abaixo esclarecem de quem são as tais ideias: Adriano Moreira, António Ramalho Eanes, Diogo Freitas do Amaral, D. Duarte Pio, D. Manuel Clemente e Nuno Vieira Matias. Logo a ausência de mulheres entre as pessoas convidadas a propor uma nova estratégia para o país foi notada e criticada. O mesmo já tinha sucedido com o Público e os dez cronistas seleccionados para prever o que nos trará 2017: gente da política, da ciência e das letras, novos e menos novos, da esquerda e da direita, mas só homens, que isto do pluralismo é muito importante, mas não no que toca ao género. É o chamado feminismo à superfície: o discurso é de promoção de igualdade, as acções revelam o machismo.
Mas não nos fiquemos à superfície no que respeita à Sabado. Passemos da capa para perceber que são "seis senadores" (sic) a discutir a necessidade de uma nova estratégia nacional. Ou seja, são seis personalidades representativas, não de "várias áreas da sociedade" como se afirma, mas do mais arreigado statu quo a falar sobre... mudança!!! Isto não é discriminação das mulheres, isto é um puro exercício de ironia! E, claro, a partir do momento em que se escolheram "senadores", as mulheres deixaram de ter lugar. Aliás, senātus deriva de senex, que significa "homem velho" (e é também a raiz etimológica de senil). Confere. Nada, pois, de mulheres. Ou de jovens.
Claro que o problema não é exclusivo da quadra - podia dar-se o caso de ter sido um esforço de poupar as mulheres a mais uma tarefa, já que nesta altura andam assoberbadas a confeccionar azevias ou a correr todas as lojas em saldo -, é algo a que assistimos ao longo de todo o ano. Estas capas só o tornam um bocadinho mais evidente. Os gineceus formalmente já não existem, o que, curiosamente, até é invocado por alguns machistas mais empedernidos como demonstração da falta de capacidade das fêmeas para estas lides não domésticas. Porque toda a gente sabe que basta a lei para mudar uma mentalidade. Da minha parte, espero que as aparições que por aqui faço sejam testemunho da existência de mulheres pensantes, capazes de argumentar e com ideias para mudar Portugal. O Destreza das Dúvidas tem sido a prova de que há mérito no feminino.

Freedom 2017

Diz o jornal Sol que vai ser possível emigrar para os EUA, perdão, viajar para os EUA por €65 a partir do verão de 2017. Só têm de passar pela Escócia primeiro. Apetece-me ouvir o George Michael: primeiro, o Freedom 90; depois, o Freedom a sério...




Para mim, é sensual, pronto!

Quando se fala nos quadros de Georgia O'Keefe, há sempre alguém que diz que as flores que ela pintava eram uma representação do sexo feminino -- do órgão sexual mesmo. Ela não achava, pois na ideia dela as flores eram grandes e muito detalhadas nos quadros porque era um convite para as pessoas olharem com mais atenção para as flores. Olhar com atenção envolve, então, uma grande proximidade de quem as vê, pois só assim se consegue ter a perspectiva representada nos quadros de O'Keefe.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Nem ideias, nem idade, nem sexo...

Segundo a Sábado, só homens de certa idade têm ideias. Não faço ideia de como o director da Sábado, claramente um idiota, chega a director da Sábado. Mas, claramente, isto é porque sou mulher e não estou na terceira idade, logo, como o resto do pessoal que não é homem e jovem, não tenho ideias...

A democracia da estupidez

A Presidência de Donald Trump, assim como a sua eleição, irá, mais uma vez, demonstrar que a estupidez é uma coisa muito democrática: ataca muita gente, tanto os que se consideram especialistas, como os que se vêem como ignorantes. Ouço frequentemente pessoas dizer que não se sabe o que Trump irá fazer, mas ele é melhor do que teria sido Hillary Clinton. Há informação suficiente para saber o que seria uma Presidente Hillary Clinton e convenhamos que os EUA não se deram muito mal quando Bill Clinton era Presidente, nem sequer o país ficou de rastos com a Presidência de Obama. A dela teria sido uma coisa parecida, mas, por exemplo, ela teria sido mais interventiva na Síria, ao contrário do que Obama foi.

Segundo Madeleine Albright, Hillary Clinton queria que os EUA interviessem em 2011, mas essa não foi a vontade de Obama. Muita gente aponta a situação da Síria como uma falha de Obama e, durante a eleição, era uma falha de Clinton também. Mas esta ideia de não fazer qualquer ideia do que irá fazer Trump, mas achar que ele será melhor do que Clinton, é o cúmulo do absurdo porque não é possível comparar uma coisa que se desconhece completamente com algo acerca do qual se tem muita informação. 

Depois, há também outras coisas absurdas, como acusarem Hillary Clinton de estar envolvida num esquema de tráfico sexual de crianças ou de participar em rituais satanicos com Katie Perry, entre muitos outros escândalos--é por isso que ela seria péssima! Hillary Clinton está constantemente rodeada pelo FBI. Seria impossível ela participar em actividades desse tipo sob vigilância, a não ser que o FBI fosse cúmplice. Se o FBI fosse cúmplice dessas actividades, então a podridão e corrupção do país estariam a níveis tão altos que o Presidente não controlaria nada. Ora, nestas últimas semanas, vê-se que Obama diz uma coisa e Trump diz outra, ou seja, ninguém manda no Presidente, nem sequer no Presidente-Eleito. 

Sendo assim, voltamos à estaca zero: Trump como Presidente será uma caixa de surpresas e é muito difícil gerir a vida quando não se sabe o que vai acontecer no dia seguinte -- isso é verdade tanto para especialistas como para não-especialistas. 


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Descobertas natalícias

Durante anos achei que a expressão sobre serem os miúdos quem nos envelhece reflectia o desgaste que as crianças nos provocam: a privação de sono nos primeiros meses, a constante atenção, a preocupação quando ficam doentes, etc. Como não tenho filhos, estava muito descansada quanto à evolução da minha cutis faciei. Mas a Consoada deste ano fez-se em casa da minha irmã mais velha e descobri que a enteada dela já acabou o curso de Design. Porra!, eu ia jurar que lhe tinha oferecido uns Pinypons há dois anos. (Joana, se há dois anos te ofereci uns Pinypons, peço desculpa pela inadequabilidade de tal prenda à tua faixa etária.) Afinal, isso das crianças nos tornarem velhos é porque é através da idade deles que tomamos consciência da nossa.

Bom, mas não foi esta epifania que me levou a escrever este texto. Depois de descobrir que a Joana é uma recém-licenciada, veio a pergunta natural sobre os seus planos para o futuro profissional. Eu posso estar, afinal, velha, mas ainda conheço termos como Millennials e sei que ela faz parte deles. Sendo designer, vi-lhe boas oportunidades no estrangeiro, onde a criatividade portuguesa tem algum potencial para ser reconhecida. Mas a Joana respondeu com o CEAGP. "Cê-A-Quê?!". "GP, de Gestão Pública. Curso de Estudos Avançados em Gestão Pública." E assim veio a minha segunda descoberta da noite, tão ou mais admirável que a primeira. Parece, então, que existe em Portugal um curso que dá acesso directo a um emprego na função pública. É este: chama-se CEAGP e custa 5000 euros. Ou seja, quem tem 5000 euros pode garantir um emprego público. É ir ao site do INA e descobrir os pormenores. Mas não é muito mais que isto. É preciso ter uma licenciatura (em Design, por exemplo, ainda que possa parecer estranho que o Estado precise de designers); conseguir entrar no curso e completá-lo com média não inferior a 12 valores; e, claro, ter capacidade para pagar 5000 euros. Sou só eu a achar que isto é comprar um emprego na administração pública?! E que é um óbvio exercício de exclusão social?!

Entretanto, o meu nível de indignação reduziu-se bastante e estou muito mais tranquila. Tudo graças à mensagem de Natal do nosso Primeiro-Ministro. Eu sei que ele estava num jardim-escola, mas certamente "a democratização do conhecimento é essencial para reduzir as desigualdades e garantir a todos iguais oportunidades de realização pessoal" é algo que se aplica perfeitamente a este contexto, pelo que 2017 deverá acabar com esta discriminação.

Descansa, pázinho!

Caro 2016,
Já percebemos que és desprezível. Agora levaste a Princesa Leia. Vai de férias, pá! Shooooo... ala, que se faz tarde!!!

Uma forma de detectar um tolo

Aos 42 anos, Marco Túlio Cícero (106 a.C - 43 a.C.),  um dos maiores oradores da Antiguidade, foi eleito cônsul, o mais alto cargo na República. Um feito notável. Conseguiu o supremo imperium (o poder de comandar concedido pelo Estado a um indivíduo), como um "homem novo", sem antepassados, sem ter riqueza, nem a força militar atrás de si. A república caminhava para o fim, afogada em votos. As eleições eram anuais e Cícero costumava dizer que governar o Estado não era mais do que ocupar o tempo disponível entre as eleições. Com Pompeu, o Grande, afastado, em guerra por terras do Oriente, à época o "homem mais importante do mundo", o general e milionário Crasso (o tal do "erro crasso") e o implacável César (um homem assustadoramente temerário e que rivalizava em inteligência, perspicácia e génio com Cícero) haviam congeminado um esquema brilhante e a carreira de Cícero parecia acabada. A capacidade "miraculosa" de recuperação é um dos traços principais de qualquer político bem-sucedido. Como gostava de dizer Cícero, quando estamos sem saída, a única solução é partir para o combate, e é no meio da luta que podemos vislumbrar uma saída possível.
Pois bem, chegou o dia das eleições em Julho e Tirão (o inventor da estenografia), secretário pessoal de Cícero e narrador de "Imperivm", diz-nos como detectar um tolo: 
“Pode sempre detectar-se um tolo: é o homem que diz conhecer qual é o candidato que vai ganhar uma determinada eleição. Porém, uma eleição é algo de vivo, poderá até dizer-se que não existe seja o que for mais vigorosamente vivo, com milhares e milhares de cérebros, pernas, olhos, pensamentos e desejos, que podem ziguezaguear, voltar-se e tomar direcções que ninguém previra, muitas vezes só pelo gozo de provar que os sabichões estavam enganados. Foi uma das coisas que aprendi no dia passado no Campo de Marte”.

Robert Harris in “Imperium”

Isamu Noguchi

Fui ao Smithsonian American Art Museum, onde está exposta uma colecção do trabalho de Isamu Noguchi, um artista e arquitecto paisagístico americano, que se inspira em várias civilizações para criar a sua arte, como os templos do sudeste asiático, México, e Japão, passando pelas praças italianas e as pedras pré-históricas de Inglaterra. As suas peças vão de objectos pequenos e bastante portáveis até à planificação de grandes espaços sociais. Muitos dos trabalhos têm uma função utilitária, para além da estética. Gostei bastante do leque de materiais usados, que incluíam papel, metal, e pedra.

Denúncia pública

Há mulheres que deixam os filhos num caixote de lixo e são justamente punidas por isso.
A minha irmã deitou as filhós num caixote do lixo e foi dormir impune.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O luto pessoal

Na Sibéria, 72 pessoas morreram depois de consumir álcool para uso externo. Não foi declarado luto nacional na Rússia como aconteceu com a queda do avião militar, o que choca alguns, mas outros não se sentem sensibilizados para essas mortes. Eu acho mal que o George Michael tenha morrido tão novo e, na nação do íntimo da Rita, vive-se um luto pessoal profundo, até porque ainda se está de luto pelo Alfred e pelo Prince.

Também penso no Kevin, um miúdo da Venezuela, que morreu envenenado porque foi à procura de raízes para comer no dia do seu aniversário, com a família. Mas há tantos mais por esse mundo fora que morrem todos os dias...

A morte fala muitas línguas diferentes e, às vezes, fala a nossa língua, aquela que só nós conhecemos. Deixo-vos com o coro das vozes dos que morreram.


FYI, 2016

Dear 2016,
Stay the fuck away from Madonna and Tori Amos. 

Sincerely, 
Rita

domingo, 25 de dezembro de 2016

A censura do PC

Isto é do ano passado e é nos EUA, a pátria do Politicamente Correcto, num dos canais mais politicamente correctos. Aprende, Ricardo Araújo Pereira.
Não é o PC que te impede de falar, é mesmo a falta de capacidade de fazer coisas destas. Institucionalizaste-te muito depressa. É pena.

sábado, 24 de dezembro de 2016

A fome

Hoje regressei à National Art Gallery, mas insisti muito e a L. foi comigo. Aproveitou para me dar uma lição da história da União Soviética, levando-me ao Monumento à Fome na Ucrânia, que foi consequência de uma decisão política do regime de Estaline, em 1932-33, e que matou milhões de pessoas. Dizia-me ela "Can you imagine Ukraine, the bread basket of the Soviet Union, having millions of people dying of hunger when there was enough food?" Não, não consigo imaginar. 

Antes da União Soviética cair, não se falava nesta tragédia, mas o seu impacto ainda hoje se sente: ainda hoje muitas das pessoas que vivem nas cidades mantêm um pequeno logradouro no campo, que visitam todos os fins-de-semana e onde cultivam alguma comida. Parte da colheita de vegetais é preservada em picles e a fruta é processada em caldas e sumos e enfrascada para ser consumida no inverno. Suponho que, com a anexação da Crimeia pela Rússia, as pessoas devem ter-se sentido ainda mais justificadas por terem continuado esta prática. 






Feliz Natal


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O meu obrigado

Na Rádio Renascença costumamos gravar o programa às sextas-feiras. por causa do natal e do fim de ano, não gravamos nem nesta nem na próxima semana.
Ao contrário do que pensava, estou mesmo a gostar daquilo. É muito engraçado um tipo ter coisas para dizer e haver quem ouça e mais engraçado ainda quando não se tem nada para dizer e tem de se estudar os assuntos para se ter alguma coisa para dizer.
E estou a gostar tanto que sinto falta da minha dose semanal.
Não sei de quem partiu a ideia de me convidar, mas desconfio (sem ter a certeza) de que foi o José Bastos. Muito obrigado pelo convite e, em especial, pela insistência.

Auguste Rodin

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

National Gallery of Art

Estou em Washington, D.C., e dei um salto à National Gallery of Art. Venham daí... 


Numa das entradas do edifício ocidental, encontram-se informação e fotos acerca da construção da NGA. Tirei algumas fotos dessa área para partilhar convosco. Também tirei fotos da área do café e de uma das lojas. 





A escultura de Mercúrio, na rotunda do edifício ocidental

Um dos corredores que da acesso às galerias

Um jardim interior

A loja no túnel que liga os edifícios ocidental e oriental

A secção de criança da loja










Aos terroristas de Berlim



Vale muito a pena ouvir o tom em que o youtuber Rayk Anders se dirige aos terroristas neste vídeo.

Aqui vai a tradução (directa, incluindo calão):

Há menos de 24 horas aqui em Berlim, na Breitscheidplatz atrás de mim, uma pessoa entrou com um camião no mercado de Natal e, até agora - são 19:18 da terça-feira, 20 de Dezembro - contam-se 12 vítimas mortais. Também neste preciso momento o criminoso está a monte, e provavelmente anda armado. Tanto quanto eu percebo, e de acordo com as informações da polícia, esse criminoso, o homem que estava sentado ao volante, tanto pode estar a caminho de um país estrangeiro como pode estar a passar atrás de mim. Ninguém sabe. Ninguém sabe se essa pessoa é alta ou baixa, velha ou nova, se vem do Afeganistão ou do Paquistão ou da merda do Pólo Norte. Ninguém sabe.

Mas, ó pedaço de merda cobarde que estavas sentado ao volante, independentemente de onde vens e de onde estás agora: escolheste mal a cidade. Sorry! Berlim tem duas guerras mundiais nos ossos. Ainda hoje encontras em qualquer lar de terceira idade em Berlim alguém que te vai contar como os cadáveres estavam empilhados, e como esta cidade foi arrasada. A seguir foi dividida e separada por um corredor de morte com uns cabrões de uns atiradores de elite. Em Berlim, não consegues andar mais de 100 metros sem passar por um memorial contra a guerra, a perseguição e a morte. Ou seja: esta cidade sabe o que é o inferno.    
E agora vens tu, com o caralho do teu camião, aqui, a Berlim, assim, e pensas que consegues desestabilizar as pessoas? Os berlinenses?! Posso dizer-te o que se vai passar, posso dizer-to com exactidão: vamos cuidar dos feridos, vamos enterrar os mortos, e não vamos esquecer nunca. E depois vamos continuar. Os mercados de Natal estiveram fechados por um dia. Um dia. E não foi por medo. Foi por respeito. Em memória das vítimas. Os berlinenses são capazes de aguentar isto, e mais: cagam em ti. Em ti, a pessoa que ia ao volante, e nos possíveis cúmplices ou em qualquer outro que possa vir.

E este mercado de Natal aqui: pareceu-te o alvo perfeito, não foi? No coração de Berlim, junto à mundialmente famosa Igreja da Memória do Kaiser Wilhelm. Mas, será que olhaste bem, ó pedaço de merda? Viste que a torre da igreja está quebrada, viste que as paredes estão danificadas? Não é por acaso. Ó génio, foste atacar justamente o mercado de Natal que fica ao lado de um dos mais extraordinários monumentos que apela à Paz. Não apenas para Berlim, mas para toda a Alemanha. E esta igreja vai estar em todas as imagens que darão a volta ao mundo, lembrando a todos que esta cidade já passou por situações bem piores, já passou por coisas horrorosas, e as pessoas ergueram-se de novo. Já passaram por muito pior, e continuaram a sua vida. É disso que as pessoas se vão lembrar. E é assim que vai ser. Os berlinenses serão livres. Irão rir, irão chorar, irão a festas, irão fazer o seu luto, mas serão livres. Talvez lhes roubes a boa disposição, talvez lhes estragues a leveza da atmosfera natalícia, talvez lhes possas até arrancar uma pessoa boa. Talvez possas fazer isso. Mas nunca lhes roubarás a liberdade.
Berlim é a cidade da liberdade. É o epítome da liberdade. O teu ataque cobarde não a mudou em nada.

[ADENDA: para quem fala alemão, recomendo muito a visita aos comentários deste vídeo. Muito informativo. Para quem não fala alemão: organizem aí um crowdfunding, e eu traduzo. :) ]

Floricultura 5


 É na primavera que floresce, os botões abrem-se um a um como papel de rebuçado.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Hã?

A L. disse qualquer coisa ao gato e pediu-me para repetir. Tentei repetir, mas era difícil e só à segunda vez é que me pareceu algo próximo do que ela disse. Perguntei "What is that? Is that Russian or Ukranian?" Responde-me "It's 'I love you' in Russian." Que horror!

É tão fácil dizer "Amo-te" em português. Penso nos ingleses e nos franceses, sim, é mais fácil para nós do que para eles e, no entanto, é tão difícil ouvir alguém dizê-lo. Repito em russo três ou quatro vezes mas, se passo alguns momentos sem repetir, esqueço-me. "How do you write that?" Escreve-me no caderno:


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Notas breves sobre Berlim

  1. A questão nunca foi o "se" mas o "quando". Há muito que a Alemanha se tornou num alvo para o terrorismo islâmico. Só em 2016 a lista de atentados e ataques conseguidos ou falhados é extensa:
    1. - Leipzig, Outubro: a polícia desmantela um possível ataque a um aeroporto alemão, o suspeito é detido e enforca-se na prisão;
    2. - Ansbach, Julho: 15 feridos na sequência de um engenho explosivo detonado por um refugiado sírio que morreu na mesma;
    3. - Würzburg, Julho: um jovem afegão de 17 anos ataca à machadada uma família de Hong Kong num comboio regional. O jovem com ligações ao IS foi abatido pela polícia;
    4. - Düsseldorf, Maio: 3 suspeitos foram detidos por planearem um atentado no centro da cidade;
    5. - Hanôver, Fevereiro: uma mulher com ligação ao IS esfaqueia um polícia;
  2. A resposta alemã tem sido exemplar. O facto de Alemanha ter vivido os anos de chumbo da RAF dotaram as polícias de instrumentário e experiência para lidarem com a ameaça. Por outro lado, a sociedade civil recusa-se a ceder ao medo e entrar numa histeria generalizada que serve de húmus para outros extremismos. A imprensa, mesmo os tablóides como o Bild, estão a dar lições de piedade, respeito e ética. Numa intervenção serena a chanceler frisou que está indignada e chocada, todavia os actos isolados de alguns não devem "penalizar os milhões que precisam da nossa ajuda".
  3. A resposta à violência é mais democracia e humanidade, não xenofobia e fascismo. Estes não "são os mortos da Merkel" como os nazis da AfD o afirmaram, são as vítimas de uma pessoa ao serviço de uma ideologia assassina.
  4. O condutor do camião foi detido graças à coragem civil de um cidadão que se apercebeu da fuga e correu atrás do atacante mantendo a polícia sempre informada da localização. A identidade deste herói/na é conhecida, mas o seu/a pedido para manter o anonimato foi respeitado.
Nota final: Berlim acordou como se nada fosse porque o medo não vencerá.

Gritar fogo num teatro apinhado de gente

Há quem ache que há palavras demasiado perigosas para poderem ter rédea solta. Daqui decorre o seguinte: a bem da sociedade, é melhor silenciar e punir quem recorre a uma linguagem incendiária. Embora nunca o digam, os “iluminados”, aparentemente os únicos imunes a palavras incendiárias, têm a pior das impressões dos cidadãos que alegadamente querem proteger. Os cidadãos não são vistos e tratados como adultos, mas sim como umas criançolas. Incapazes de pensar pela própria cabeça, impressionáveis e inflamáveis por determinados conteúdos, imbecis, acéfalos, ignorantes, sem discernimento, manipuláveis pelo primeiro demagogo de feira, há que protegê-los de certas palavras como se faz às criancinhas. Os iluminados atribuem um poder mágico às palavras. Pelos vistos, basta aparecer alguém com um discurso de ódio ou uma linguagem incendiária para de imediato as hordas se lançarem numa espiral de violência. Claramente, vivemos numa época em que não abunda a fé na humanidade. Daí o regresso em força do discurso sobre as massas ignorantes, influenciáveis e acéfalas, agora à solta pelas redes sociais, como não se cansam de lamentar alguns respeitáveis comentadores.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Приве́т (Privyet)

De há uns dias para cá, o nosso blogue ficou famoso na Rússia. O post que despoletou o interesse foi do LA-C, com o vídeo da C-Span do Trump a dizer que não era pessoa, mas sim homem. Depois o LA-C meteu o vídeo dos Gato Fedorento e parece que também agradou aos nossos amigos russos. Note-se que ambos os posts têm "PC" no título.

No último mês, a Rússia tornou-se o segundo país com mais visualizações da DdD; na última semana, é o primeiro, à frente de Portugal. Приве́т, darlings!

Nada a esconder

Como nos lembra Mick Hume em “Direito a ofender”, junto com “fobia”, “negacionismo é outra das palavras usadas com mais eficácia para tolher a liberdade de expressão. Primeiro, era usada apenas para os que levantavam dúvidas sobre o Holocausto dos judeus na II Guerra Mundial. Entretanto, o seu uso estendeu-se a outras áreas.  Alterações climáticas, racismo, violações, desigualdades nas suas mil e uma variantes, já para não falar do “negacionismo do negacionismo”. Parece que o debate público está contaminado por “negacionistas”. Gente que ultrapassou o limite de expressar uma opinião honesta e que se recusa a ver a realidade. Enfim, gente em estado de negação e a padecer de uma perturbação psiquiátrica. Não se trata apenas de acusar alguém de questionar a ortodoxia actual, como antes se fazia com os hereges que duvidavam de verdades consideradas sagradas. Não. Uma vez mais, entramos no domínio da psiquiatria, como se alguém estivesse a reprimir factos inquestionáveis sobre o Holocausto e as alterações climáticas – factos considerados verdadeiros por toda a gente e que, por isso, não podem ser questionados.
Sobra uma questão: o que fazer com os “negacionistas”? Prendê-los é uma hipótese. Quer dizer, já é mais do que uma hipótese. Por exemplo, o historiador David Irving foi condenado a três anos de prisão por um tribunal austríaco por negar o Holocausto. Em 2014, um relatório de uma comissão de deputados britânicos exortou a BBC e outros media a não darem tempo de antena aos cépticos sobre as alterações climáticas. Bjorn Lomborg, autor de “O ambientalista Céptico”, tem sido vítima de protestos efusivos por onde passa e impedido de exprimir as suas dúvidas, nomeadamente em universidades, o que torna o seu caso especialmente ilustrativo desta onda de intolerância que, aos poucos, vai tomando conta do espaço público. Repare-se que Lomborg nem sequer nega o aquecimento global, simplesmente acha que esse está longe de ser o maior problema da humanidade.
Tudo isto é grave. Por duas ordens de razões, como explica Mick Hume. Primeiro, por razões de princípio. A liberdade de expressão só faz sentido se a defendermos para as ideias que detestamos. Isto significa que mesmo quando pensamos estar perante mentirosos perversos, os ditos negacionistas, devemos defender o seu direito de exprimir as suas ideias, por mais detestáveis e perversas que nos pareçam. No fundo, trata-se de seguir a máxima atribuída a Voltaire: “Discordo do que dizes, mas defenderei até à morte o direito de o dizeres”. Segundo, por razões práticas. Desde Descartes que a ciência se funda na dúvida metódica. A única maneira estarmos certos de uma verdade é permitirmos que ela seja posta à prova por todo o tipo de argumentos. Se, ao invés, tentarmos silenciar as opiniões supostamente extremistas e falsas, estamos a gerar um efeito contraproducente. O cidadão comum pode, legitimamente, perguntar: será que, afinal, eles têm alguma coisa a esconder?

sábado, 17 de dezembro de 2016

A mania das fobias

Aparentemente, andamos assolados por uma epidemia de fobias. Como sempre, começou nos EUA e depois alastrou ao resto do mundo. No início, havia a homofobia, mas agora há a islamofobia, transfobia, afrofobia, gordofobia e a não-sei-das-quantas-fobia. Ora, uma fobia é um medo irracional ou aversão a alguma coisa. Entramos, portanto, no domínio das perturbações mentais. Acusar de fobia a expressão de ideias e opiniões, supostamente, repreensíveis significa também insinuar que estamos na presença de alguém com perturbações psiquiátricas. É o mesmo que dizer que as minhas opiniões sobre, sei lá, a homossexualidade e o islão são de tal forma inquestionáveis que só um maluquinho as poderia pôr em causa. Conclui-se, por isso, que não vale a pena perder tempo a discutir com este tipo de pessoas e talvez o melhor seja tentar evitar que o resto da sociedade fique infectada por estas ideias perigosas e "doentias". Para quem sabe um bocado de história, esta mania de ver “fóbicos” em todo o lado tem qualquer coisa de arrepiante. Em regimes totalitários, os críticos costumam acabar fechados em instituições psiquiátricas. Sugerir que alguém é meio maluco só por dizer coisas consideradas intoleráveis para alguns é que me parece uma coisa de loucos. É um péssimo modelo a seguir para quem, realmente, quer desafiar preconceitos. Os preconceitos combatem-se com mais palavras e argumentos e não com menos.

A Última Ceia por Herman José e Marcelo Rebelo de Sousa

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. 
Quando Herman José fez um sketch com a Última Ceia de Cristo, também houve muita gente a apelar à auto-contenção.
Tenham cuidado com os argumentos que usam.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Assim se vê a força do PC

O RAP queixa-se de que hoje seria impedido de fazer um sketch destes, por causa da ditadura do Politicamente Correcto.
E é disto que tanto se fala! Vejam a partir do 1m10s. Isto é mesmo bom!!
Desculpem lá, mas o problema do RAP não é o Politicamente Correcto. O problema é que já não consegue fazer sketchs assim. E o mais fácil é dizer que não faz porque não o deixam.

Sobe, sobe, Dow sobe!

O Dow está prestes a atingir um record, no que alguns chamam de Trump rally. Há quem diga que é prova que Donald Trump vai ser um óptimo presidente, toda esta confiança que os investidores colocam no mercado. Só há um problema com esta lógica: para se fazer dinheiro no mercado, compra-se quando o preço está baixo e vende-se quando está caro, ou seja, quem são os investidores que andam a comprar agora? Os menos sofisticados, que costumam ser os que perdem dinheiro, e os especuladores, que gostam muito de risco.


Não é separação; é confusão

Ontem, Donald Trump reuniu-se com representantes de algumas das maiores empresas de tecnologia americanas. Na reunião, comme il faut, estavam também os seus três filhos mais velhos. Acho que Trump não funciona sem os filhos, os negócios dele até ficaram mais rentáveis depois dos filhos crescerem. Imaginem: ele tem cinco, logo podemos ter mais cinco presidentes Trump.

Quem não estava na reunião dos techies era um representante do Twitter porque, diz o pessoal de Trump, não havia lugar na mesa -- será que chamaram gordo ao CEO do Twitter? Também há quem ache que a razão da ausência do Twitter foi ter-se recusado a deixar a campanha de Trump introduzir um emoji para a hashtag #crookedHillary.

Ivanka Trump vai mudar-se para Washington, D.C., com a família e especula-se que irá ocupar o gabinete da Casa Branca que normalmente é usado pela Primeira Dama. Depois da CNN noticiar que Ivanka "assumiria" funções de Primeira Dama, a equipa Trump negou; mas isto é o seu modus operandi, como se pode ver pelos nomes que estão a ser considerados para a administração: primeiro, deixam a notícia escapar, depois vêem a reacção à notícia e, se não gostarem, negam ou arranjam uma notícia nova.

Inicialmente, Ivanka ia tratar dos negócios da família, mas isto da separação dos assuntos familiares e presidenciais parece não estar mesmo no programa. A todos aqueles que se babaram com a ideia de Melania, que até é tão linda, elegante, etc., ser Primeira Dama, olhem, temos pena... Eu também tenho pena porque, se a Melania fosse Primeira Dama, reciclava-se os discursos da Michelle Obama e poupava-se o dinheiro de um "speech writer".

Acho que nem o recreio da minha escola primária era tão dado a confusões como estas Presidenciais.

Dias assim...

Ontem de manhã, quando acordei, tinha a garganta a doer-me. Senti-me febril, cansada, e no corpo havia um formigueiro. Suspeito que o problema era alergias e a fonte das mesmas foi ter levado uma planta para o quarto. Eu sou alérgica a bolor e acho que ter terra húmida no sítio onde durmo não foi uma das minhas melhores ideias. Passei quase o dia inteiro na cama. A cama estava tão confortável, que eu pensei "Gosto tanto da minha cama, está-se aqui tão bem." E depois veio o sentido de culpa, não sei porque razão mereço uma cama confortável quando tanta gente no mundo não tem uma. Que mundo estúpido!

Quando fico doente, só penso palermices; quer dizer, quando fico doente, penso palermices ainda mais palermas do que as que penso quando não estou doente. Pensei naquelas vezes em que, quando era miúda ficava doente e os meus pais cuidavam de mim. Sabia tão bem o mimo dos pais. E pensei que não me recordava, quando eu era miúda, de eles estarem doentes e não cuidarem de mim. Pergunto-me se eu conseguiria cuidar de alguém enquanto doente e deprimida e acho que não. É preciso reconhecer as nossas falhas e eu, quando fico doente, sou uma chata e apetece-me morrer ali mesmo, acabar tudo, e partir para outra. Não é uma questão de auto-pena; é não ter paciência para aturar as limitações do corpo.

Cada dia que passa, fico mais rabugenta e o pior vai ser quando o meu corpo começar a funcionar mal a sério. O mundo estará perdido! Já estou a planear isolar-me para poupar os outros porque ninguém merece ter de me aturar; até eu acho difícil.






Pela calada da noite...

By Wednesday night, Republicans had filed a raft of bills that would significantly curb the power of incoming Gov. Roy Cooper (D), who narrowly defeated Gov. Pat McCrory (R) in November; McCrory finally conceded the race last week, and Cooper doesn't take office until Jan. 1, 2017. Democrats did not know about the new special session, approved Monday, until noon on Wednesday.

The GOP bills would end the governor's control over state and county election boards, require State Senate confirmation of Cooper's Cabinet appointees, strip him of authority to name trustees to the University of North Carolina, and cut to 300 from 1,500 the number of state employees who serve at the governor's pleasure, giving protection to hundreds of upper-level state employees appointed by McCrory, reversing an expansion McCrory approved right after he took over from his Democratic predecessor. Many of the election boards that would now have a bipartisan spilt had cut voting hours, polling locations, and Sunday voting when controlled by Republicans, measures all criticized as aiming to suppress black turnout.

Fonte: The Week

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Novo guia de avaliação

Daveena Tauber acaba de publicar um guia para os novos métodos de avaliação, que serão implementados após Donald Trump se tornar Presidente. Para conveniência das mentes mais burras e simplistas, também conhecidas por não-elitistas, o vocabulário já está adaptado e o guia usa o formato de tabela. Faltam uns erros ortográficos pelo meio, mas não se pode ter tudo.

E, caros leitores, não tomem os meus adjectivos como insultos: na nova ordem, ser simplista, burro, idiota, ignorante, mal-educado, etc., serão grandes elogios e todos deveremos aspirar por nos comportarmos assim. (Estão a ver como sempre estive preparada para uma administração Trumpeta? Eu nasci para isto...)

Diz Daveena:

Dear Students,

Because I can no longer claim with any credibility that reading, writing, and critical thinking are essential skills for 21st-century success, I have revised the grading rubric for your papers accordingly. Effective January 20, 2017.

Sorry for any inconvenience,
Dr. Daveena Tauber


Continua aqui.

Revisão para o dia 15

A 15 de Dezembro, Donald Trump vai anunciar as suas intenções relativamente aos seus negócios privados. Ele já tinha dito que iria "separar as águas", mas depois permitiu a presença da filha Ivanka, que supostamente ficará à frente dos negócios, juntamente com os irmão mais velhos, em reuniões e telefonemas com governantes estrangeiros, o que voltou a confundir o pessoal.

Para nossa conveniência, a Vox fez uma lista dos conflitos de interesse identificáveis de Donald Trump, que podem consultar aqui.

Actualização: acabei de receber uma notificação da Bloomberg a dizer que a conferência de imprensa será adiada para Janeiro.

Paul Ryan dixit

“Any intervention by Russia is especially problematic because, under President Putin, Russia has been an aggressor that consistently undermines American interests,” Ryan said in a statement Monday. “As we work to protect our democracy from foreign influence, we should not cast doubt on the clear and decisive outcome of this election.”

Fonte: Bloomberg

"Depois da casa arrombada, trancas à porta" -- especialmente se o ladrão levou as jóias.

Black guys in hoodies

No NextDoor, uma das minhas vizinhas virtuais postou um aviso urgente. Quando li o aviso, um bocado depressa, fiquei com a impressão que a senhora era sexista. Então a dizer aos homens que não eram o sexo forte, que eram tão vítimas como as senhoras... Dizia ela (a pontuação não é o forte do pessoal):

Urgent Read -- Men it's not only Ladies
My girlfriend shared this ... Age 57-61

She wrote and posted on FB!

sábado, 10 de dezembro de 2016

Em luta contra o PC

O Trump também está em luta contra o Politicamente Correcto. Ele não é pessoa, ele é homem!


Make America greet again

"Agora que Donald Trump vai ser Presidente, o Pai Natal já não pode vir à América porque é um imigrante barbudo que chega pelo ar."
Trevor Noah, The Daily Show

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Dos estalos às estaladas...

No meu último exame médico, a assistente médica que me viu estalou os dedos ao pé dos meus ouvidos e não ouvi estalos no ouvido direito. Não foi a primeira vez, já me tinha acontecido antes, mas eu não fiz nada acerca do assunto. Desta vez, ela achou melhor que eu fizesse um teste de audição para ter uma medida, caso fosse uma situação que se agravasse no futuro. Não ouço muito bem; por exemplo, se há muito barulho, não consigo ouvir certas pessoas a falar, não atendo o telefone com o ouvido direito, e também não consigo ouvir o tic-tac de um relógio de corda no meu ouvido direito, mas ninguém usa relógios de corda. Quando falam comigo e digo que não ouvi ou preciso de me aproximar, as pessoas olham para mim com incredulidade, como se eu tivesse feito de propósito e não lhes ligasse nenhuma. Então, acedi ao pedido da minha assistente médica e fui fazer o exame no mês passado.

O resultado indica que tenho os ossos dentro dos ouvidos danificados, especialmente no ouvido direito; os nervos estão bons. O médico que eu vi trabalha no departamento de otorrinolaringologia, mas especializa-se em cancro e não era otorrino a sério. Deu-me as seguintes opções: ou faço uma operação para reparar os ossos, ou coloco um aparelho. Perguntei quais os riscos da operação e disse-me que eu fazia boas perguntas, mas que eram muito baixos e, como eu ainda sou nova, a operação era preferível ao aparelho. Ficou combinado de eu regressar e fazer um exame CT (computed tomography), que é um raio-X fraquinho para ver anormalidades no tecido ósseo. Depois, com os resultados do exame, ia ver um outro médico especialista mesmo em otorrinolaringologia. Hoje era o dia em que eu tinha marcação para fazer o exame e de seguida ver o novo médico.

Ontem telefonaram-me duas pessoas diferentes: uma a pedir-me para contactar os serviços antes do exame e outra para me dar o custo da minha parte só do exame, um pouco mais de $110. Quando falei com eles, disseram-me que não tinham recebido autorização para me fazer o exame, logo iam ter de marcar para outra data. Depois tive de telefonar para outro lado para cancelar a consulta de hoje, pois não tinha o exame para o médico ver, e marcar para outro dia. Ou seja, fizeram a reserva do equipamento e do pessoal para me ver hoje, mas tive de faltar e deixar aquele gente toda a olhar para a parede, ainda por cima o otorrino só vai àquele gabinete uma vez por mês. Isto custa dinheiro ao sistema de saúde e custa-me a paciência. Então um médico decide que devo fazer o exame e alguém no seguro, que não é médico, tem de dar a autorização apesar de já me terem dito quanto me irá custar, pois está lá na lista que eles dão ao hospital que o exame faz parte das ferramentas de diagnóstico admissíveis.

Fico com a ligeira sensação de que alguém no sistema acha que eu e o médico andamos aqui a marcar exames por gosto. Só à estalada...

Das instituições natalícias...

O catálogo de Natal da Williams-Sonoma.

[...]
And I won’t lie, it was kind of nice to see the fulfillment center, to see just where the (imported, dry-aged Portuguese) sausage (with white wine and fennel) is made. This has not been a pleasant year. Everyone good died. America is now a bad sitcom flash forward episode. And I got a camera up my dick. So it was nice to see all those trucks lined up in Cranbury, each one getting its marching orders to drive out to some pristine house on some pristine cul-de-sac in some pristine suburb. Call it Peppermintbarkville—a place that the rest of the world cannot touch, where even a nuclear holocaust could not intrude upon the bestowing of gold napkin rings and cheese assortments. Life as we know may end, but the Williams-Sonoma catalog, and the army of little Ina Gartens who have seemingly unlimited cash to spend on its wares, will endure. They shall adorn their houses in the finest garlands and pass around only the choicest amuse bouches, and everything will be PERFECT even as the world burns a mile away. OH, IT’LL BE SO GRAND THAT YOU’LL WANNA PUKE.

So come with me now. Let’s forget about our troubles, crack open this year’s W-S Christmas catalog, and lose ourselves in a tartan wonderland. Will there be mug toppers? Oh, you better fucking believe there will be mug toppers. To the catalog…


[...]

Ler mais aqui: Drew Magary, The Adequate Man

Diz-me quanto ganhas relativamente ao teu homem...

Numa peça de opinião do NYT, a Irin Carmon fala das diferentes características das mulheres e das suas preferências de voto. Reza assim:


Fonte: Irin Carmon, NYT

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

“Sou a favor da liberdade de expressão, mas…”

“Sou a favor da liberdade de expressão, mas…”. Este “mas” é hoje o maior inimigo da liberdade de expressão. A liberdade de expressão não se pode defender de forma condicional, com adversativas pelo meio. A melhor maneira de combater argumentos “grosseiros” e “ofensivos” (conceitos sempre subjectivos) não é tentar impedir que sejam expressos, é combatê-los com outros argumentos, por vezes violentos também. O “direito a ofender” é um dos custos da liberdade de expressão. Um custo que vale a pena suportar.  A censura oficiosa, insidiosa, mas violenta dos pseudodefensores da liberdade de expressão é muito pior. Tarde ou cedo, vira-se contra os próprios censores pós-modernos, ditos progressistas, que passam parte do seu tempo a fazer petições online a pedir a cabeça de fulano ou sicrano porque, em seu entender, disseram coisas inadmissíveis - muitas vezes, coisas ditas em privado. Como há sempre alguém susceptível de se sentir ofendido ou agredido com simples palavras, os progressistas acabam por ser vítimas da teia que eles próprios teceram. Hoje, por exemplo, certos grupos de feministas estão proibidos de entrar em universidades anglo-saxónicas porque o seu discurso pode ofender algumas almas mais sensíveis. Idem para homossexuais. Não haja dúvidas: a liberdade de expressão está em perigo no ocidente. Os novos censores agem sempre em nome de um direito qualquer, de uma boa intenção qualquer e, por isso, se torna tão difícil para o cidadão comum alcançar o perigo do que está em jogo. A liberdade de expressão, um pilar da civilização ocidental, construído, durante séculos, com o suor, sangue e lágrimas de muita gente, não está garantido para toda a eternidade, como, aliás, sucede com tudo o que sai de mãos humanas. É uma luta sem fim. Para começar, é bom que tenhamos todos consciência disso. 


PS: aconselho vivamente a leitura do livro "Direito a ofender: a liberdade de expressão e o politicamente correcto" de Mick Hume, que me foi aconselhado pelo meu querido amigo Nuno Amaral Jerónimo.

Leituras

Esta semana, a Bloomberg BusinessWeek publicou a Lista da Inveja 2016: é um rol de artigos e posts publicados em 2016, que eles gostariam de ter publicado. Há muitas coisas giras que me tinham escapado, como uma peça na revista Atlantic, publicada em Agosto, onde se fala da Doutrina Obama. A respeito da Doutrina Obama, ontem, aqui no escritório, um dos nossos vizinhos dizia que nos últimos anos, os EUA tinham-se tornado em "wimps", mas depois à medida que a conversa prosseguiu, admitiu que os EUA iam a todas e isso custava dinheiro. Acho que esta dualidade é muito comum em americanos: queixam-se dos EUA gastarem dinheiro em intervenções militares, mas quando os EUA poupam dinheiro em despesas militares, queixam-se de os EUA não serem mais dominantes.

Por falar em despesas militares, o WashPost malhou no Pentágono esta semana pois publicou uma peça sobre um estudo interno em que se encontrou cerca de $125 mil milhões mal gastos. Os responsáveis tentaram varrer o estudo debaixo do tapete, mas eventualmente caiu no colo dos jornalistas -- um dos autores é o Bob Woodward.

Regressando à Lista da Inveja 2016, há lá uma peça, "The Encyclopedia Reader", publicada na The New Yorker, que é muito bonita e não demora muito tempo a ler. E, claro, não posso deixar de mencionar a peça sobre o solo de guitarra de Prince, na homenagem a George Harrison, que voltei a ler. Acho que uma das minhas resoluções para o Ano Novo deveria ser voltar a lê-la em 2017. A lista termina com "The Lawyer Who Became DuPont’s Worst Nightmare", que é uma história que parece um filme, do estilo "Erin Brockovich".

Sigam o bom exemplo do futebol português

Em muitos aspectos, o futebol português é um bom exemplo que podia ser emulado por outros sectores, que estão muito longe dos níveis de excelência atingidos pelas equipas e pela seleção nacional a nível internacional. Há com certeza várias explicações para esta situação. Uma delas é que as equipas portuguesas estão habituadas a competir internacionalmente há muitas décadas e muitos jogadores portugueses começam a fazê-lo desde pequeninos. Outra razão é que no futebol só interessam os resultados. Na hora da verdade, ninguém quer saber se o Rui Vitória trabalhou muito ou pouco, o que interessa é se os objectivos foram ou não alcançados. Em suma, ao contrário de muitos sectores, o futebol português rege-se pelos princípios e critérios da gestão moderna.
Mas há outro aspecto que me parece curioso. As equipas portuguesas não podem competir com muitas estrangeiras em termos salariais. Por exemplo, o José Mourinho treinou o FCP, mas quando apareceu o Chelsea a oferecer 10 ou 20 vezes mais de salário, o FCP teve de o deixar ir. Isto levou a que o FCP tivesse de procurar novos talentos, como o Vilas Boas e o Vitor Pereira. Estes novos talentos nunca teriam tido a oportunidade de mostrar o que valem se os clubes seguissem a mesma lógica de muitas empresas portuguesas: pagar aos seus gestores de topo salários iguais ou superiores aos praticados nos países mais ricos.
Isto tudo a propósito do excelente artigo da Helena Garrido hoje no "Observador". A baixa produtividade dos países mais pobres deve-se aos gestores e não aos trabalhadores. E, no entanto, por cá, os primeiros são pagos de acordo com os padrões internacionais, com os resultados desastrosos que se conhecem, por exemplo, na banca. Alguma coisa está claramente errada neste cenário. O salário oferecido, pelo governo, aos administradores da CGD só faria sentido se houvesse um concurso internacional que pretendesse atrair talentos raros. Não foi o caso. Por isso, a prática correcta é seguir os exemplos do Benfica, Sporting e FCP, etc.. Quando não se pode pagar a Mourinhos e Guardiolas, paga-se a Espíritos Santos, Vitórias, etc., os quais até podem ser tão bons ou melhores do que os primeiros. E o Estado deve ser o primeiro a dar o exemplo.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

As salsichas, o Twitter, e o Facebook

No programa da Diane Rehm discutia-se hoje a nomeação do neurocirurgião Ben Carson para ficar à frente da HUD (Housing and Urban Development). Quando foi candidato para as primárias Republicanas, os seus assessores queixaram-se de que era impossível treiná-lo para dar respostas inteligentes acerca de política externa, por exemplo.

A meio de Novembro, Carson disse que, não tendo experiência governativa, não estaria disponível para integrar a Administração Trump. Mas Trump mandou um tweet no outro dia a dizer que estava a pensar em Ben Carson para HUD, e Ben Carson disse no seu mural do Facebook que estava interessado, voltando atrás na ideia de que não se achava qualificado para um cargo desse tipo.

Há aquela ideia de que a política é como as salsichas: não convém ver o processo, nem saber como se faz. A administração Trump vai ser uma grande salsicha, quiçá morcela, e todos nós iremos acompanhar a sua produção via redes sociais.

O faroeste

Ontem, um homem armado entrou numa pizzaria em Washington, D.C., porque durante a campanha eleitoral alguém decidiu começar um rumor falso -- o pizzagate -- de que o restaurante estava envolvido numa operação de tráfico sexual de crianças, em que Hillary Clinton estava envolvida. O homem decidiu tomar a justiça pelas próprias mãos e apareceu no restaurante com uma espingarda e ameaçou quem lá estava. Eu sei que isto de homens desatarem aos tiros nos EUA se tornou uma ocorrência normal e, mesmo assim, em termos de violência já houve muito mais do que há agora. A única diferença é que agora há muito mais ênfase mediático e maior visibilidade e parece que estamos a voltar ao faroeste.

Tenho vários amigos aqui que acham que os EUA têm regulação a mais, que é preciso repelir legislação que incomoda as empresas, que é esse o entrave ao crescimento. Na Segunda-feira, uma armazém em Oakland, na Califórnia, ardeu e cerca de 36 pessoas morreram. O armazém estava a ser usado como residência, gabinetes para artistas, e sala de concertos. O edifício operava em condição ilegal, violando várias leis de segurança. Ainda por cima, a Califórnia é um sítio que é conhecido por ser bastante regulado. Não sei até que ponto uma administração Trump irá ser sábia em termos de que leis repelir e de como fiscalizar as que estão em vigor.

Até agora, quando havia estes incidentes, ou catástrofes naturais, e várias pessoas morriam, era esperado o Presidente fazer um discurso a acalmar os ânimos, assegurar que o governo estava a tentar melhorar a situação. Barack Obama é bom a fazer isso; George W. Bush não era. Os americanos têm uma visão do Presidente como uma figura que os lidera em tempos de desgraça, alguém que os inspira. Quando falta a fonte de inspiração, nota-se que as pessoas ficam mais desorientadas e cínicas. É apenas uma questão de tempo até haver uma tragédia nacional que necessite que Trump inspire o pessoal e, por mais voltas que eu dê à cabeça, não estou a ver como é que ele irá conseguir preencher esse papel. Presidência por Twitter e Facebook Live é progresso tecnológico, mas não acho que resulte.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Duas semanas...

Daqui a duas semanas, vota o Colégio Eleitoral. Ou seja, ainda há duas semanas para o Donald fazer burrices e demonstrar que é maluco. Hoje no The New York Times, um membro Republicano do Colégio Eleitoral argumentou que o Colégio Eleitoral deveria rejeitar Donald Trump. Diz ele:


Entretanto, tenho-me divertido no Tumblr, seguindo Trumpgrets, que agrega tweets de votantes do Trump que entretanto se arrependeram. Também fizeram um agregado de Coultergrets, Republicanos que se viraram contra a Ann Coulter, quando esta se virou contra o Trump. A América é tão divertida...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Party-poopers capitalistas...

A CBS não meteu um live-streaming no YouTube para o show das anjinhas hoje à noite. São mesmo uns party-poopers capitalistas: querem que o pessoal pague...


Economia da carne

Em 2012, houve uma grande seca nos EUA, em que parte da área de pasto ficou comprometida. A consequência dessa seca foi um aumento do abate de bovinos, inclusive a redução do rebanho que é mantido para reprodução, e um aumento dos preços de carne de bovino. A produção de bovinos é onde se encontra um ciclo produtivo de maior amplitude: demora seis semanas para produzir um frango, mas uma vaca demora dois ou mais anos. Agora pensem no que é recuperar o rebanho bovino da seca de 2012. Antes de se conseguir produzir uma vaca, precisamos de produzir uma vaca mamã, ou seja, a primeira prioridade é produzir vacas reprodutoras e só depois do rebanho reprodutor recuperado é que se começa a produzir animais para o abate. Só neste ano é que a produção de carne de vaca demonstra uma recuperação mais completa, o que alivia os preços, que durante os últimos quatro anos se mantiveram altos.

Estou aqui a ler uma newsletter e dizem-me que o aumento do consumo de proteínas tem a ver com a melhoria do nível de emprego e o final da eleição americana que foi muito renhida e estou a pensar que isso é irrelevante. O fundamental que está a afectar o consumo de carne é o haver mais carne de vaca no mercado, o que baixa o preço dessa carne de vaca e também de proteínas substitutas, logo aumenta a quantidade consumida. É perfeitamente possível aumentar a quantidade consumida em resposta a um choque favorável da oferta -- uma expansão da curva da oferta --, sem que a curva da procura se modifique. No entanto, as preferências dos consumidores continuam a ser importantes: ainda anda tudo maluco com dietas ricas em proteínas. Apesar das dietas Atkins e South Beach já terem passado de moda, as pessoas não chegaram e reduzir o consumo de carne para períodos pré-dieta, e a dieta paleolítica ainda está em voga; mas nada nos últimos dois meses modificou estas preferências.

Frases famosas 88

Que coisa. Ainda não estou em mim. Fiquei-me para ali, com certeza, entre os cacos e os estilhaços.

Referendo italiano II

Vital Moreira esclarece que o meu texto anterior, no que diz respeito às críticas que tinha feito aos eleitores italianos, estava errado.

domingo, 4 de dezembro de 2016

O referendo italiano

Em Itália está a ser votado um referendo que dará muito mais poder à Câmara dos Deputados, esvaziando os outros órgãos, nomeadamente o Senado.

Acresce que, com as novas regras, é praticamente impossível que não haja maioria absoluta na Câmara dos Deputados, ficando assim o partido do governo com freio livre para fazer o que quiser. 

Junte-se a isto o facto de Itália ser o berço do fascismo, que muito recentemente teve um primeiro-ministro de direita tão populista como Berlusconi e que, à esquerda, tem um Beppe Grillo que não tem nada que o recomende e concluir-se-á que o chumbo da proposta a referendo é o único voto possível para muita gente. Se eu votasse. poderiam contar com o meu voto contra.

Que se faça disto um referendo à participação no Euro e um plebiscito ao governo em funções é um erro. Mas, ao contrário do que diz Vital Moreira, quem está a cometer o erro não é o eleitorado, é a classe política.

Um déspota

Desde que o Alfred morreu, o cão que me resta, de seu nome Chopper, com 8 anos, decidiu que é o dono da casa. Rotinamente, coloca-se à minha frente e começa a ladrar em tom refilão. Não posso sentar-me ao computador porque sua Excelência não aprova. Se ligo a TV para ver algo no Netflix, só estou em paz se lhe apetecer usar-me como travesseiro de aquecimento. Ia agora escrever um post sobre reformados americanos, mas o meu déspota de estimação informou-me logo que tal não era permitido. Talvez queira ir passear, mas esteve todo o dia de chuva. 

Resignei-me a escrever-vos no telemóvel, apesar de já ter dificuldade em ler letras pequenas, ser preguiçosa para usar óculos de leitura e de a App do Blogger ser uma porcaria. O meu iPad, versão 2, está velho e as apps já não funcionam com grande confiança. O laptop está mais velho do que o iPad e já não confio para usá-lo como laptop, logo prefiro tê-lo numa secretária. Estou aqui a tentar decidir-me se tento educar o cão, fechá-lo num quarto sozinho, que acho uma crueldade, ou comprar tecnologia mais moderna. Depois lembrei-me que o IPad e os computadores são feitos na China. 

Após a morte de Fidel Castro, algumas pessoas contrapuseram a ideia de que os americanos são uma corja consumista, o que é pior do que a corja comunista de Cuba. Uma amiga minha italiana disse que esperava que Cuba não se americanizasse e que ficasse como está. É estranho que ela tenha dito isto porque, quando decidiu fazer um post-doc, foi para os EUA que ela veio, não foi para Cuba. Para fazer férias baratas, foi a Cuba. A China pré-americanização era muito mais pobre do que é agora, mas o ocidente aproveitar-se dos trabalhadores chineses baratos é imoral, até porque cria desemprego nos países do Ocidente, que é outra imoralidade.

Pronto, estou presa na terra dos dilemas morais, com a agravante de ter um déspota como cão e um pseudo-déspota como futuro presidente. O melhor é terminar isto porque temo que o post desapareça, se der um ataque de censura à app do Blogger. Se houver erros, os meus olhos estão como a minha tecnologia: obsoletos. 


sábado, 3 de dezembro de 2016

Um triste fim

Já poucos se lembram, mas em 2012 François Hollande apresentou-se ao eleitorado francês como o campeão anti-austeridade. Ele prometia um combate sem tréguas “à política cega da austeridade”, ele ia pôr os mais ricos a pagar a crise. A esquerda europeia rejubilou. Estava encontrado um novo herói. Afinal de contas, o homem era o líder da segunda maior potência europeia. Cinco anos depois, com níveis de impopularidade históricos, anunciou que não se recandidatava a um segundo mandato, facto inédito na V república francesa. A esquerda hoje renega o homem e trata-o quase como um traidor. Entretanto, do Tsípras, o tipo da Grécia, lembram-se?, é melhor nem falar. Desgraçadamente, com o tempo, o poder parece destruir os heróis e campeões anti-austeridade, transformando-os, de caminho, em traidores. É um triste fim.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Ser insignificante

Desde Julho, tenho andado a tomar conta de girinos que nasceram no meu jardim. São criaturas insignificantes, mas para mim são muito importantes. Quando nasceram e vi tanto bichinho, pensei na probabilidade de algum ter uma deficiência. Há uns dias, encontrei o primeiro deficiente: quando a metamorfose começou, reparei que uma das pernas era anormal, faltando-lhe uma articulação. Fora de cativeiro, o meu deficiente já teria morrido, pois a probabilidade de sobreviver quase cinco meses até completar a metamorfose é quase zero.

telemóvel esquecido no quarto

tenho um amigo que é dj há uns 17 anos, e quase não usa discos há uns 15. maquinetas. daquelas de fazer um barulho enorme e abanar as almas. máquinas do caralho, portanto. um dia destes tenho que lhe perguntar o que é que ele põe na declaração de IRS. será que, fiscalmente, ele é igual a um artista de variedades que toque nel monteiro em casamentos, bapizados e bodas de diamante? tinha a sua piada, se ele fiscalmente fosse quase o nel monteiro.
e o IVA das putas? será que devia ir tudo à taxa máxima? é capaz de não ser o mais indicado. um broxe pode ser um luxo um bocado burguês, mas uma punheta está muito perto de ser um bem essencial.

mas o meu amigo dj. disse-me uma vez que tinha conhecido o valter hugo mãe, e que o gajo era um idiota. a minha admiração pela obra do valter hugo mãe deixou-me um bocado desconsolado. mas o meu amigo exagerar era algo longe de ser inédito, por isso acabei por me esquecer do assunto. passado uns tempos comecei a seguir  o valter hugo mãe e os posts dele no facebook - que passam maioritariamente por opiniões disfarçadas de poesia, que não chegam a ser nem uma coisa nem outra. e não que eu desrespeite as opiniões do senhor, mas o valter hugo mãe do facebook estava aos bocadinhos a estragar-me o valter hugo mãe dos livros. e os livros dele são importantes demais para mim. ainda que às vezes lhes tenha que fugir porque a escuridão é um lugar onde se entra de cabeça mas se sai muito devagarinho, por mais bonita que seja. e assim lá se foi o valter hugo mãe do meu mural.

nesse aspecto, como em outros, o valter hugo mãe tem muito em comum com o saramago, imperador absoluto do reino da magia, mas assustador a puxar para o ridiculo quando descarregava o cartuxo politico em direção a um tipo de esquerda que saber fazer contas como eu.

sobra o lobo antunes. que é rude, que não dá entrevistas, e quando as dá está a usar o pulover do meu pai de 1975, a fumar para a camâra e a mandar tudo para o caralho com a violência de quem se está devidamente a cagar para aquilo tudo. porque o universo do génio e a realidade estão a buracos negros de distância e tentar juntá-los há de dar uma trabalheira do caralho, e provavelmente acabar em desastre. e é por isso que ignoro o valter hugo mãe que está  fora dos livros, ou o que o saramago dizia.

e isto tudo porque estava há um bocado um gajo no autocarro a dizer ao outro que um doutoramento em economia não servia de nada porque quem o tinha continuava a não saber nada sobre economia. e achei que em vez de lhe responder, o melhor era dar uma de lobo antunes, acender um cigarro imaginário e manda-lo com este texto a puta que o pariu.

Mera mira moralia

Douglas Murray, na última Standpoint:
"People should live a little more and react a little less."

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Cada cabeça, sua sentença

A Bloomberg tem uma reportagem especial acerca de como os casais gerem e pensam a sua vida financeira. É apenas uma colecção de histórias recolhidas nos EUA. No final, falam de relações poli-amorosas com uma pessoa de uma firma de advogados e, a certa altura, dei-me conta que nunca tinha pensado nestas coisas.

Pensava eu que era uma mulher moderna porque, há 18 anos, tive dois namorados simultaneamente. Não faço ideia como aconteceu, não foi uma coisa propositada, mas também não andei às escondidas de ninguém. Dava muito jeito: com um havia uma vida social muito activa, com o outro havia conversas mais estimulantes. Uma vez, os meus amigos perguntaram aos namorados, à minha frente, porque é que eles me partilhavam sem armar bronca e eles disseram "Because it's Rita". Depois acabaram o curso ao mesmo tempo e foram à vida. Foi um grande choque ir de dois para zero, repentinamente.

Na entrevista, dizia-se que o enquadramento legal tem, mais ou menos, 20 anos de atraso relativamente às dinâmicas sociais. O que virá daqui a 20 anos, pergunto-me.

Dados, música, e sexo

"In addition to surveying 30,000 people around the globe, we used Apple Watches, Nest Cameras, iBeacons and a custom-built app to collect biometric data from people in 30 homes. The pilot experiment yielded a wealth of interesting insights into how music influences what people do and how they interact with each other in the home. People who listened to music together moved closer together. They enjoyed their food more. They had more sex.

In an interview with Forbes, Daniel Levitin, a neuroscientist who helped designed the survey and interpret the data, said “for the first time we’re seeing evidence that the music causes people to feel closer to one another.” The magazine speculated that the experiment could represent the future of how science is conducted."


Fonte: Frank Orrico, Media Decoded

Se calhar, é ao contrário: pessoas que têm mais sexo, ouvem mais música...

Sinais dos tempos

Começámos a semana a tentar reaproximar Espanha e Portugal, com a visita de Filipe VI; hoje estamos a celebrar a ruptura entre Portugal e Espanha, com a queda de Filipe III (IV de Espanha).

O Estado-Regulador Portuguese style

Um modesto contributo meu em defesa da extinção das autoridades reguladoras em Portugal. Pela sua inutilidade.