segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Uma profissional

Margaret Thatcher passou à história como uma política de fortes convicções. E, no entanto, vários estudos mostram que a “dama de ferro” antes das eleições de 1979 (e 1983) utilizou todas as modernas e inovadoras técnicas do marketing político. Por exemplo, Jennifer Lees-Marshment designou a actuação dos tories nessa época de market-oriented party. Essa orientação para o mercado traduziu-se em várias acções.
Antes de chegar ao poder, a dama de ferro encorajava o debate interno. Muitas das discussões dentro do partido assentavam em estudos do Centre for Policy Studies e do Institute of Economic Affairs. Com uma enorme paciência, Thatcher ouvia os senadores do partido e os membros de um gabinete sombra. Foram criados 50 grupos de trabalho para elaborar políticas, constituídos por dirigentes partidários e especialistas externos. O partido recorreu a sondagens do Opinion Research Centre para apurar as políticas com maior probabilidade de receberem apoio popular. Foi contratada a agência de publicidade Saatchi and Saatchi, a qual recorreu às conhecidas técnicas do focus group e da entrevista em profundidade para definir as estratégias mais eficazes de comunicação e de campanha.

A estatística boa

Diz-me um tal de Nuno Costa Santos, na Sábado, que entrámos na ditadura da Pordata e somos escravos das estatísticas, sem que saíamos para ver o país real. Tenho a sensação que estatística não é o seu forte. Portugal é um país que tem muito poucas estatísticas e até se dá ao luxo de não publicar informação, se tal não dá vantagem aos governantes. É por isso que há falhas nos dados, variáveis que não são recolhidas, etc. Por exemplo, Portugal tem muito poucas estatísticas que possam ser usadas por gestores de empresas para orientar a sua actividade: (1) há um foco maior em variáveis da macroeconomia do que nas de microeconomia porque a maior parte das estatísticas servem para satisfazer requisitos da UE; e (2) há uma preferência por variáveis de carácter social, que permitem delinear políticas sociais redistributivas, mas não permitem orientar o investimento privado.

Abri o Público hoje e diz que os doentes no SNS esperam 16 meses para fazer uma ressonância magnética. Antes que pensem que isto é mau, reconsiderem: é que o tempo de espera é uma estatística e, no português actual, a estatística deve ser ignorada ou relativizada. Não interessa que demore tanto tempo; interessa é que eventualmente seja feito. Também fazem mal em pensar na qualidade de vida da pessoa que espera tanto tempo para receber cuidados de saúde, pois isso implicaria que a qualidade de vida seria uma coisa medível, mas medir coisas é estatística.

Pode ser que haja uma estatística boa. Por exemplo, se o governo usar a proposta do OE 2016 como base, então as despesas com a educação no OE 2017 aumentam; se usar os valores mais realistas do que tem gasto em 2016, então há uma redução, o que é mau. Imaginem o potencial disto! É que, agora, o governo pode dizer aos funcionários públicos que lhes vai reduzir o salário em 5%: por cada €100 passa a pagar €95 e depois paga o que pagaria antes do anúncio, ou seja os tais €100. Mas, porque prometeu a redução, pode dizer que houve um aumento de (100-95)/95, ou seja, um aumento de 5,26%. Que mais querem? Os funcionários públicos até tiveram um aumento de salário superior ao corte e tudo!

Disciplina e método


Amanhã e durante 48 horas, vai estar disponível no Snapchat, na feed "Good Luck America" uma entrevista com Barack Obama, cujo objectivo é mobilizar a geração de "Millenials" para votar em Hillary Clinton. Uma das perguntas da entrevista é quais as coisas que Clinton pode fazer melhor do que Obama. Na resposta, Obama refere que ela tem mais capacidade de negociar com Republicanos do que ele e também diz que que a esperança é que nos primeiros dois anos permitam progredir em algumas áreas, como investimento em infra-estrutura pública.

A referência aos primeiros dois anos de uma Presidência Clinton é reveladora da estratégia subjacente aos Democratas: eles não estão apenas investidos em eleger um Presidente; o objectivo é também alterar o equilíbrio de poder no Congresso, ou seja, conseguir uma maioria no Senado, sabendo que provavelmente a perderão daqui a dois anos, quando 33 lugares do Senado estiverem sujeitos a eleição. Obama não é apenas um homem carismático; revela também ser bastante disciplinado e metódico, qualidades que faltam aos Clinton. Ele é o cérebro por detrás da campanha dos Democratas.

Floricultura 11

Depois de mais de seis décadas a usar um cravo branco na lapela, o senhor Almeida resolveu sair de casa sem flor.

domingo, 30 de outubro de 2016

You give MORALS a bad name

O Bloco de Esquerda era aquele partido que ia fiscalizar a moralidade da Geringonça. Afinal, com mais esta história dos licenciados que não são licenciados, estamos num vórtice de moralidade igual ou pior ao do PSD porque se Miguel Relvas é mau, os fulaninhos do PS têm prerrogativa moral de ser tão maus ou piores. A ir por este caminho, Portugal regressará à Idade da Pedra um dia destes. Se é para nos darem música, ao menos sejamos fiéis ao espírito governativo da República...

Shot through the heart, and you're to blame, darling
You give love MORALS a bad name

An angel's smile DEMAGOGUERY is what you sell
You promise me US heaven then put me US through hell
Chains of love STRONGER MORALS, got a hold on me WE THOUGHT WE'D SEE
When passion's POWER'S a prison you can't break free

You're a loaded gun SICK BAD PUN, yeah
There's nowhere to run
No-one can save me US, the damage is done

Shot through the heart, and you're to blame
You give love MORALS a bad name
I WE play my OUR part and you play your game
You give love MORALS a bad name
You give love MORALS a bad name

You paint your smile SHITTY EXCUSES on your lips
Blood red nails on your fingertips YOU'RE JUST ALL FREAKING GODDAMN CREEPS
A school boys NATION'S dream, you act so shy SLY
Your very first kiss was your first kiss goodbye MAYBE SOON, WE'LL TELL YOU GOODBYE

You're a loaded gun SICK BAD PUN
There's nowhere to run
No-one can save me US, the damage is done

Shot through the heart, and you're to blame
You give love MORALS a bad name
I WE play my OUR part and you play your game
You give love MORALS a bad name
You give love MORALS

Shot through the heart and you're to blame
You give love MORALS a bad name
I WE play my OUR part and you play your game
You give love MORALS a bad name

Shot through the heart and you're to blame
You give love MORALS a bad name
I WE play my OUR part and you play your game
You give love MORALS a bad name
You give love MORALS a bad name

You give love MORALS
You give love MORALS a bad name
You give love MORALS
You give love MORALS a bad name
You give love MORALS
You give love MORALS a bad name


sábado, 29 de outubro de 2016

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Só há isto...

Hoje as musas não estão comigo, mas de manhã -- a minha, não a vossa -- um post do LA-C, no Facebook, fez-me abrir o Amor Ilhéu do Cristóvão de Aguiar para ir procurar um poema assim...

Nostalgia da mais baixa burrice

Certo dia, Sartre voltava de uma viagem à Índia. De entre uma multidão de jornalistas, alguém perguntou sobre a literatura de lá. O génio recuou dois passos, avançou e soltou esta frase: “Nenhuma literatura vale a fome de uma criancinha”. Silêncio. Claro está que nem um idiota seria capaz de dizer tamanho disparate. Mas “a maior inteligência do século” disse-o. Não nos devíamos espantar. Como explica o genial Nelson Rodrigues: “os mais altos espíritos têm, por vezes, a nostalgia da mais baixa burrice”.



Votar em quem?

Do dia 24 de Outubro a 4 de Novembro, podemos votar no Texas. Nestas eleições, há muita gente a concorrer e, aqui no Texas, até há mais do que em outros sítios porque nós também elegemos juízes (nem todos os estados os elegem), District Attorneys, County Attorneys, xerifes, etc.

As organizações ligadas à League of Women Voters, para facilitar a nossa tarefa, enviam questionários aos candidatos e depois publicam as suas respostas ipsis verbis para os podermos comparar. Em Houston, onde eu vivo, a League of Women Voters of the Houston Area e a League of Women Voters of Houston Education Fund (partilham a mesma página de Internet) organizam a informação, num panfleto com 48 páginas. Note-se que muitos dos candidatos nem sequer respondem, logo se todos respondessem, o documento seria ainda maior. Aqui está uma imagem com as respostas de Donald Trump vs. Hillary Clinton.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Estamos assim tão diferentes?

Sou sempre bastante céptica em relação a argumentos temporais. Sempre que leio um artigo (científico, de opinião, de jornal, etc) que parte da premissa que o mundo, a política - e, de certa forma, a nossa natureza humana - mudaram para pior, tendo a rolar os olhos e a desconfiar. (e estes artigos são muito frequentes)
Duvido que a política nos anos 50 fosse melhor do que agora, porque olho para trás e me parece que Joseph McCarthy é bastante pior do que Trump (ou, pelo menos, igualmente mau). Olho para os anos 60 à distância, e parece-me que ter uma grande fatia da população norte-americana abertamente contra os direitos civis de outra grande fatia da população não é melhor do que agora. Olho para os anos 70, e os crimes de Nixon parecem-me piores que qualquer alegação até hoje feita contra Clinton. Olho para os anos 80 ou 90, e eleger um actor de Hollywood como presidente dos EUA em plena guerra fria ou ter outro presidente a receber sexo oral na sala oval parecem-me distracções nacionais tão ridículas como tanta coisa que já vimos nesta campanha. Olho para os anos '00, e a ingenuidade dos op-eds a defender a invasão e ocupação do Iraque parece-me muito similar à ingenuidade civilizacional de tantas outras épocas.
Da mesma forma, duvido que tenham ocorrido alterações fundamentais na nossa natureza humana, na forma como nos sentimos cidadãos e como nos sentimos em relação aos outros cidadãos. Penso que somos tão egoístas e altruístas, tão desconfiados e simplificadores, tão protectores dos nossos por medo (do movimento histórico, social, político, económico), e tão movidos por circunstâncias pessoais e sociológicas na nossa existência como cidadãos, como sempre fomos naquelas décadas de 50, 60, 70, 80, 90 e 00. Lamento, mas não consigo ver alterações fundamentais.

O Ministro Sol(o)

No meu artigo no jornal ECO, A austeridade não tem cor nem sexo, sugeria que discutíssemos o que importa para a economia portuguesa:
1. Como ser competitivo num mundo que vive mais uma revolução tecnológica? 
2. O que fazer para que desta vez ela não nos passe ao lado? Por que diminui o investimento desde o início do século XXI? 
3. Por que razão a força de trabalho mais qualificada de sempre não aparece nas estatísticas da produtividade?

Os Ministros das Finanças ganharam uma importância e um relevo que não deviam ter (e que não merecem). Têm-no porque os mercados estão sempre a olhar para eles. A centralidade que lhes damos na discussão pública é só mais uma forma de submissão à lógica de curto prazo dos mercados.

No fundo, o que eu sugeria com o meu artigo era que centrássemos a nossa discussão nos trabalhos dos Ministros da Economia, da Educação, das Infraestruturas, do Mar, do Ensino Superior, da Trabalho e Segurança Social, da Modernização Administrativa...

Mas, infelizmente, como mostram as decisões sobre a prestação de contas (ou a falta dela) da administração da Caixa ou a informação em falta no Relatório do OE, o Ministro das Finanças, qual Sol, faz tudo para estar no centro do palco. 

E com isto tudo, onde está o escrutínio sobre a actividade que verdadeiramente importa para o futuro do país, isto é, sobre a actividade dos outros ministros? 





Criaturas metafísicas 14

Tudo pertence aos deuses, e os deuses são amigos dos sábios,

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sub-culturas

Em Cleveland, a 4 de Novembro, quatro dias antes das eleições, Jay-Z vai dar um concerto para aliciar os Afro-Americanos a votar a favor de Hillary Clinton.

Stevie Nicks, aquela minha Deusa, em entrevista ao New York Times em 6 de Setembro, disse que Hillary Clinton irá ganhar por uma "landslide" e que irá reunir todos os artistas que já interpretaram o tema Landslide para celebrar a vitória -- não é um tema mexido, mas é sentido. Quem cantou o Landslide foram as Dixie Chicks de Lubbock, Texas, aquela banda de gajas que declarou guerra a George W. Bush. Don't mess with Texas women, y'all...

Go Texas!

No NextDoor, uma das vizinhas postou esta mensagem hoje:


Trigo limpo, farinha Amparo!

Hoje, quando vim dar o almoço ao Alf e ao Chops recebi um telefonema a respeito do IndyMac Bank, que foi um dos bancos que contribuiu para a crise financeira. O IndyMac foi o banco que comprou ou geria as nossas primeiras hipotecas.

Em 2004, eu e o meu marido decidimos comprar casa, mas apesar de termos "bom crédito", não tínhamos 20% do preço da casa para dar de entrada, logo um banco normal não nos financiava a casa. Como não queríamos pedir dinheiro emprestado aos pais porque já éramos pessoas crescidas, fomos falar com uma empresa que faz o que os americanos chamam de "originação" de hipotecas (mortgage origination), que se especializa em hipotecas de maior risco do que as hipotecas convencionais. O nosso empréstimo foi financiado com dois empréstimos: uma hipoteca convencional, por 80% valor do empréstimo, e uma linha de crédito que cobria o resto.

Na altura, as hipotecas convencionais eram garantidas pelo governo americano, por isso é que só financiavam até 80% do capital. Depois da crise financeira, quando os bancos deixaram de emprestar dinheiro, o governo permitiu que se financiasse empréstimos apenas com 3% de entrada, mas para obter esses empréstimos, as pessoas tinham e têm de ter crédito muito bom, prova de rendimento, poupanças pessoais, e eles verificam muito mais informação, como dívidas a cartões de crédito e história de pagamento dos mesmos, outros empréstimos, os últimos 12 meses de extractos bancários, tendo-se que justificar depósitos e levantamentos mais avultados, etc.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Não se aborreçam!

Se estiverem muito aborrecidos a ouvir discussões do OE2017, que são muito pouco produtivas, podem sempre ir brincar com os gráficos da Divisão da População da ONU. Lá verão que, neste momento, em Portugal, para cada pessoa com 65 anos ou mais, há cerca de três pessoas com idade entre os 20 e 64 anos (idade activa). Mas entre 2030 e 2035, está projectado que haja apenas duas pessoas em idade activa para cada pessoa com 65 anos ou mais. Ou seja, imaginem que impostos irão ser inventados numa economia estagnada para conseguir pagar os custos de saúde e as reformas dos idosos.

Portugal não tem um plano de curto prazo, quanto mais de longo prazo, mas anda tudo muito preocupado com os malucos dos americanos que se dão ao luxo de ter Trumps e Clintons, mas também têm planos, que cobrem várias décadas, para lidar com o evelhecimento da sua população, para além de a geração dos baby-boomers ser a mais afluente de toda a humanidade. Os americanos têm folga orçamental para ser malucos; os portugueses não têm folga orçamental para geringonças mal-amanhadas.


Um bicho novo

A UTAO diz que o governo irá falhar a meta do défice estrututal proposta no OE2017, que é linguagem politicamente correcta para dizer que os números não batem certo, ou seja, os multiplicadores não multiplicam o suficiente. Então aparece-nos a ideia de que a devolução do IRS, que era para ser uma medida de estímulo à economia, quer dizer, que era para aumentar o consumo e fazer a economia crescer à la Bloco de Esquerda, poderá ser feita de forma faseada e, desta forma, passa a ser encarada como uma ferramenta de consolidação orçamental. Então em que ficamos, é estimulo ou consolidação orçamental? É um bicho novo...

O que é claro é que o plano rosa, que prometia aquele crescimento absurdo, não era sustentável, pois não gerava crescimento para sequer se pagar a si próprio. Em vez de crescimento, temos uma redistribuição de receitas provenientes de mais impostos e de novo endividamento. Aceitam-se apostas para que novos impostos irão ser inventados em 2017, mas sejam criativos. Ah, sim, têm razão, antes de se aumentar os impostos temos de arranjar maneira de argumentar que o PIB potencial tem mais potencialidades.

Sem paralelo...

Se leram o meu texto no Observador, antes do primeiro debate presidencial, talvez se recordem de eu ter dito que o uso de análise de dados pela campanha de Hillary Clinton era do mais sofisticado que há. Também vos disse, há uns dias, que a máquina democrática americana está tão avançada que os Republicanos terão de ter uma aprendizagem muito rápida para conseguirem competir daqui a quatro anos.

Hoje, na Bloomberg, há um texto que sumariza bem a situação actual, especialmente a granularidade dos dados e o uso de segmentos-alvo: os Democratas identificam as residências onde há um Republicano não muito ferrenho, que vive com alguém que não tem filiação partidária, ou seja, o objectivo é com o mesmo esforço conseguir dois votos. O teste final será o resultado das eleições e o desempenho dos democratas candidatos ao Congresso.

"“The Hillary Clinton team has been a tide that is raising all the boats for every candidate up and down the ballot,” said Brad Crone, a Raleigh-based Democratic strategist. “The turnout mechanism that she has run is unprecedented, I think more sophisticated than President Obama ran in 2008.” Crone said the difference is Clinton’s use of data, and that the campaign has targeted “soft Republican” voters, including registered Republicans who live in the same household as an unaffiliated voter."

Fonte: Bloomberg

domingo, 23 de outubro de 2016

Os intelectuais, os comentadores e o seu país

Na sequência do regresso de Vasco Pulido Valente ao espaço público, não resisto a colocar aqui uma das minhas passagens preferidas a respeito do tema "os intelectuais, os comentadores e o seu país." É o excerto final do texto que o António Araújo publicou no seu blog, o Malomil, há já alguns anos e intitulado "A cultura de direita em Portugal." Subscrevo inteiramente o excerto que aqui transcrevo.

"Na verdade, a geração anterior era cosmopolita nas universidades em que se doutorava mas profundamente provinciana, pois a ida para o estrangeiro, ao invés de abrir horizontes, encerrou-a numa visão diletante e snobe da realidade portuguesa. Essa geração, aliás, teve o extremo da presunção: achava que, por nascimento ou por talento possuía uma espécie de direito natural a um estatuto privilegiado, academicamente, socialmente, mediaticamente, financeiramente. Se não tivessem esse estatuto, Portugal não os merecia – e isso seria mais outro sintoma do atraso nacional. Sendo tão clarividentes nas suas crónicas de análise do país, não perceberam o que estava a acontecer em seu redor e, esse é o seu maior «crime». Limitaram-se à crítica puramente intelectual e especulativa, totalmente maldizente, nada fazendo em concreto para evitar os rumos que criticavam. No fundo, era a crítica, a pura crítica, que os animava e mantinha. O balanço final, como é evidente, não podia correr bem. Não admira, pois, o «vencidismo» dessa geração, patente na acidez desgastada das crónicas de Vasco Pulido Valente, lidas muito mais pela inquestionável elegância formal do seu estilo do que pela substância das opiniões nelas expendidas.   
Contudo, esse «vencidismo» já se começa a projectar em alguns jovens intelectuais de direita que, sendo novos, envelheceram rápida e interiormente, devido a Portugal, o «da vidinha» de O’Neill,  o Portugal «questão que tenho comigo mesmo». São muito mais cosmopolitas do que a geração precedente (já nem encomendam livros na Amazon, lêem-nos directamente no Kindle), falam e escrevem à vontade em inglês, a língua franca universal, têm redes de sociabilidades à escala mundial, tiveram experiências de estudo mais ou menos prolongadas na Europa «civilizada» ou nos Estados Unidos. Mas, à semelhança de todos os intelectuais do passado, é uma fatalidade serem incapazes de se libertarem de Portugal, feira cabisbaixa, mesmo quando se fixam no estrangeiro. Assim, como o horizonte que olham é sempre o da pátria, pátria onde não se revêem mas de que não escapam, o seu destino será idêntico, ou pior, do que o da geração precedente. É que esta última ainda tinha empregos seguros no Estado e, agora, pensões de reforma, talvez não tão seguras. Agora, a pulsão da raiva geracional será muito forte. Portanto, é provável que estes jovens tenham a mesma sorte de um Miguel Esteves Cardoso ou de um Paulo Portas. Na melhor das hipóteses, vão acabar a escrever colunas em jornais ou irão tornar-se ministros de Estado. Entre um e outro destino, não sabemos qual será o melhor – ou o pior."

Floricultura 30


As flores carnívoras não são flor que se cheire. Tanto moralmente, pois são manhosas. Como materialmente, ou seja, cheiram mesmo mal.

sábado, 22 de outubro de 2016

A Segurança Social Americana

Hoje gostaria de vos falar sobre de como é contribuir para a Segurança Social, nos EUA. De vez em quando, vejo que há pessoas que invocam o exemplo dos EUA para questões relativas a Portugal, mas fico com a impressão de que as pessoas não conhecem muito bem o sistema americano. Espero que o meu post esclareça algumas questões e ilustre um bocadinho melhor a maneira como os americanos gerem informação, educam os cidadãos, e planeiam o futuro.

Os impostos da Segurança Social são normalmente retidos na fonte, se nós trabalhamos para outrém; se trabalhamos por conta própria, somos responsáveis por os pagar. Não é assim tão simples como parece, pois o processo pode ser complicado, dependendo do estatuto do empregador, como podem ver pelo que aconteceu a Timothy Geithner, antigo Secretário da Tesouraria dos EUA, como vos relatei antes.

Há dois impostos que caem nos impostos de Segurança Social:
  1. o que financia pensões que recebemos da Segurança Social e que incide sobre o nosso rendimento até $118.500 (este valor é actualizado todos os anos). Este imposto é 12,4% do rendimento, se trabalharmos por conta própria; se trabalharmos por conta de outrém, então pagamos 6,2% e o nosso empregador paga outros 6,2%. Há várias pensões financiadas por este imposto: a reforma, as de sobrevivência, e a de incapacidade.
  2. o que financia o Medicare, que é o plano de saúde das pessoas com 65 anos ou mais. Este imposto incide sobre todo o rendimento, ou seja, não há limite máximo. Se trabalhamos por contra própria, pagamos a taxa total, que é 2,9%; se trabalhamos por conta de outrém, pagamos metade e o empregador a outra metade. Há uma sobre-taxa de 0,9% para pessoas com rendimento superior ou igual a $200.000/ano ou casadas que auferem rendimento combinado superior a $250.000/ano e escolhem submeter os impostos juntas (estes valores são actualizados todos os anos).
Podem consultar o histórico das taxas destes impostos desde 1937, na página da Segurança Social americana. Os impostos não mudam muito frequentemente. A última vez que as taxas mudaram foi quando os cortes nos impostos da Segurança Social, passados pela administração Bush e prolongados durante a administração Obama, expiraram. Quando George W. Bush fez campanha, em 2000, havia um excedente na Segurança Social, isto é, durante várias décadas, havia dinheiro para pagar 100% dos benefícios prometidos. Uma das promessas eleitorais de Bush, foi devolver aos contribuintes o excedente acumulado durante a administração de Bill Clinton, através de cortes temporários nos impostos da Segurança Social.

Happiness is a book

I went to Barnes & Noble yesterday to look for Alan Greenspan's new biography by Sebastian Mallaby. It came out on Oct 11, although it wasn't in the featured titles or the new realeases, but I found a Twin Peaks book. I could not find it under Biographies either. 

When I asked for help, the girl did not know the book and, as I waited for her to look it up on the computer, I realized that she and I were in different generations and I was the older generation, the boring one, the one that thinks biographies of Alan Greenspan are exciting. She informed me that it was under Business Biographies and, for the life of me, I did not get it: he is not a business man! I did not even know there was such a category, but that means that this book is only interesting to an even smaller group of people than I thought. 

I walked around the store a bit lost. I hadn't been there in such a long time that I'd forgotten my favorite sections. Lately, I've been drawn to poetry, but I am trying to read the books I have at home before I buy more, so I stayed away. What else do I like? Cooking books! I went to that section and fell in love with a book about Persia. I thought of a friend who has done a documentary on the importance of art for Armenians -- it hasn't been released yet, but I've seen it and I love it --, and I instinctively knew that she would have liked this book: I heard her in my head say "Buy it!" There was another book that caught my eye, a list of influential American restaurants. 

I went to the check out line and another girl asked me if I had my BN member card. I always have it, but I could not remember if I had kept up with my membership, but it's automatically renewed via credit card, so I must have. As I was thinking all this, she tells me "These are gorgeous books." Yes, they are! And she's from the younger generation. I felt happy that she noticed!


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

TGIF!*

Rita: "Play Moon Taxi playlist."
Siri: "I didn't quite get that."
Rita: "Play playlist Moon Taxi"
Siri: "Sorry, Rita, I didn't quite get that."
Rita: "Play Moon Taxi."
Siri: "Sorry, I did not get that."
Rita: "Restart iPhone!!!"
Siri: "Sorry, I did not get that, Rita."
[Rita presses button several times in despair. The Cure starts playing "Friday I'm in Love"]
Rita rolls her eyes and thinks: "It's Friday, just go with it..."


(Ah lembram-se do concerto dos Moon Taxi ao qual fui? Foi fantástico, como podem ver...)

Estão convidados!

Para ver os discursos humorísticos do Alfred E. Smith Memorial Dinner, no qual Donald Trump e Hillary Clinton tentaram ser engraçados. Não que o Donald precise de tentar muito, mas, para ser original, também foi vaiado.

"The dinner’s namesake, Smith, was New York’s 42nd governor and the nation’s first Catholic presidential candidate. He was known as “the Happy Warrior” for the good humor with which he railed against political adversaries.
As has been the custom, the audience of 1,500 was dressed in white-tie formal attire. They paid $3,000 to $15,000 per person, raising about $6 million for Catholic charities that will give services to impoverished New York children, according to Joseph Zwilling, spokesman for New York’s archdiocese."


Fonte: Bloomberg

Na peça da Bloomberg, a parte mais engraçada -- para mim -- foi esta:

"They dined on a “seafood trio” of king crab salad, lobster cocktail and lobster roll, followed by beef, “cheesy polenta” and red cabbage and desserts that included red velvet cupcakes and dark chocolate praline. Clinton sipped chamomile tea and left a lipstick mark on her cup; Trump had glasses of Coke. Neither ate their desserts."

Fonte: Bloomberg

Alguns factos sobre a proposta de Orçamento de Estado


Num artigo deste tipo, o principal objectivo é apresentar algumas das medidas que julgamos mais emblemáticas da proposta de Orçamento de Estado (OE) para 2017, sem prejuízo de alguns comentários pessoais.
A proposta apresenta um incentivo ao alojamento local, essencial ao turismo, o qual vai representando uma relevante fatia das nossas exportações. Assim, prevê-se a possibilidade de, por opção dos respectivos titulares, serem tributados como rendimentos prediais, aplicando-se um coeficiente de 0,35 na determinação do rendimento tributável ao abrigo do regime simplificado (actualmente, 0,15). Acresce a criação de um novo coeficiente para a actividade de exploração de estabelecimentos de alojamento local, na modalidade de moradia ou apartamento, correspondente a 0,35 dos respectivos rendimentos (actualmente: 0,04).
No que toca aos cidadãos portadores de deficiência, desagrava-se a tributação dos rendimentos das categorias A e B, auferidos por sujeitos passivos, de 90% para 85%. A carga fiscal de casados e unidos de facto altera-se, na opção de tributação conjunta, a qual pode ser efectuada mesmo que as declarações sejam entregues fora do prazo, quando actualmente: só o podem se entregues no prazo legal. Por outro lado, a actualização dos limites máximos dos escalões da tabela de IRS de acordo com a inflação aponta para uma tributação máxima de 48%. A gratificação aos bombeiros é incentivada.
Em sede da tão celebérrima sobretaxa de IRS, a proposta prevê a extinção gradual da retenção na fonte, de acordo com o seguinte calendário: ao 2.º escalão será aplicável a retenção na fonte até 31/3, ao 3.º até 30/6, ao 4.º até 30/9/2017, e ao 5.º até 30/11/2017. Nos pagamentos especiais por conta, retira-se os rendimentos isentos da base de cálculo, passando a considerar-se apenas o volume de negócios correspondente ao valor das vendas e dos serviços prestados geradores de rendimentos sujeitos e não isentos. Ficam também dispensados de efectuar o pagamento especial por conta os sujeitos passivos que apenas aufiram rendimentos não sujeitos ou isentos.
Por certo com o intuito de combate à fraude e evasão fiscais, para as sociedades comerciais ou civis que possuam estabelecimento estável em Portugal, é prevista a obrigação de dispor de capacidade de exportação de ficheiros, nos termos e formatos a definir por portaria do Ministro das Finanças, e não apenas para as que organizem a sua contabilidade com recurso a meios informáticos, conforme hoje vigora.
Na senda da aposta nos impostos indirectos, como forma de compensar a perda de receitas fiscais, altera-se a base de incidência do imposto sobre o álcool e as bebidas alcoólicas, já elogiada pelo Comissário Europeu da Saúde, de modo a que o consumo final se torna mais caro. É também uma forma de incentivo à adopção de estilos de vida mais saudáveis, tanto mais que esta receita é consignada à sustentabilidade do SNS.
Provavelmente não se esperaria, num OE das esquerdas parlamentares, que, em sede do IMI, seja revogada a verba que estipulava a aplicação de uma taxa de 1% a título de imposto de selo aos imóveis com um valor patrimonial tributário igual ou superior a um milhão de euros. Uma medida pouco amiga dos emigrantes e de estrangeiros com habitação em Portugal é a não inclusão na isenção de IMI, de carácter automático, dos prédios de reduzido valor patrimonial. De elogiar é o adicional ao IMI, o qual constitui receita do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social. Ainda em sede deste imposto, é de saudar que os sujeitos passivos casados ou em união de facto que optem pela tributação conjunta procedam à soma dos valores patrimoniais dos prédios urbanos de que sejam titulares, beneficiando de uma dedução no valor de € 1.200.000, ou seja, o dobro da dedução estipulada para as pessoas singulares individualmente consideradas. A reabilitação urbana, essencial em várias cidades do nosso país, não foi esquecida: estabelece-se que a isenção de IMI seja automática no caso de prédios ou parte de prédios urbanos habitacionais construídos, ampliados, melhorados ou adquiridos a título oneroso, destinados a habitação própria e permanente do sujeito passivo ou do seu agregado familiar, cujo rendimento colectável, para efeitos de IRS, no ano anterior, não seja superior a € 153.300. No âmbito da dita “fiscalidade verde”, introduz-se um aumento de 15% para 25% da possibilidade de redução da taxa de IMI a aplicar aos prédios urbanos com eficiência energética.
O incentivo às assimetrias entre o litoral e o interior, em um Estado cada vez mais a tombar para o mar, faz-se por via do benefício fiscal para as PME que exerçam, directamente e a título principal, uma actividade económica de natureza agrícola, comercial, industrial ou de prestação de serviços em territórios do interior, as quais podem beneficiar de uma taxa de IRC de 12,5% (em vez de 17%) para os primeiros € 15.000 de matéria colectável. No domínio do apoio à inovação, a proposta de OE contempla a criação de um incentivo fiscal ao investimento por parte de particulares em negócios criados no seio de novas start-up. Os investidores pessoas singulares podem deduzir à colecta do IRS, até ao limite de 40%, um montante correspondente a 25% dos investimentos elegíveis efectuados em cada ano.
De entre outros, são prorrogados até 31/12 os benefícios fiscais referentes a criação de emprego, contas poupança-reformados, planos de poupança em acções, swaps e empréstimos de instituições financeiras não residentes, depósitos de instituições de crédito não residentes, prédios integrados em empreendimentos a que tenha sido atribuída a utilidade turística ou benefícios destinados a colectividades desportivas, de cultura e recreio.
A discussão está ainda no início, mas para princípio de conversa, é nossa convicção que este é o Orçamento possível em face do difícil equilíbrio entre as exigências do Pacto de Estabilidade e Crescimento e as bandeiras dos partidos à esquerda do PS que, bem vistas as coisas, não saem tão fortalecidos como se vem propalando. É, portanto, no essencial, um orçamento do partido no Governo. Para o bem e para o mal, a “geringonça”, de momento, parece manter Costa ao leme.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Os génios

Barack Obama é um político com um instinto genial. O maior erro dos Republicanos é terem tanto desprezo pelo que ele representa que não prestam atenção ao que ele faz e, por isso, têm vários anos de atraso em termos de gestão de marketing político -- subestimaram um oponente, mesmo depois de ele os derrotar duas vezes. Dado que Obama ainda é um homem relativamente jovem e saudável, se ele continuar envolvido nas campanhas dos Democratas, os Republicanos terão cada vez mais dificuldade em ultrapassar a vantagem comparativa da organização de Obama.

Obama é o editor convidado da edição de Novembro da revista Wired. Facilmente, ele consegue impressionar americanos de diferentes gerações e origens. Bill Clinton também tem o instinto político e o allure, como podem ver num perfil de 2006 elaborado pela The New Yorker. Alan Greenspan acha que Bill Clinton foi o melhor presidente republicano que os EUA tiveram recentemente, mas toda a gente se recorda de Clinton a tocar saxofone em programas como o de Arsenio Hall e de, no seu Baile de Inauguração, reunir uma banda fracturada, os Fleetwood Mac, em palco para tocar "Don't Stop", o hino da sua campanha. Ao fazer uma campanha "suja" contra Obama em 2008, Bill Clinton ficou manchado e perdeu algum do estatuto de "rock star" que tinha. Hillary Clinton nunca possuiu carisma, ela não é tanto uma figura que inspira, é mais uma que transpira: o que os americanos chamam um "workhorse", arregaça as mangas e trabalha, mas não o faz com graciosidade.

Obama, ao escolher Clinton para sua Secretária de Estado, ajudou-a a tornar-se no candidato a Presidente mais qualificado de sempre, nas palavras que ele próprio usou na Convenção dos Democratas, em Julho passado. Não é completamente clara a motivação de Obama para a escolher em 2008. Será que tinha apenas o valor simbólico de reunir uma equipa de rivais, tal como tinha feito Abraham Lincoln? Ou será que ele achou que, ao tê-la a seu lado, o génio político de Bill Clinton poderia ser-lhe útil, como foi durante a campanha para o segundo mandato, na qual Bill Clinton foi a pessoa que conseguiu formular a apologia mais forte para Obama ser reeleito? Talvez passados oito anos, Obama precisasse de alguém que continuasse a sua visão para os EUA e assegurasse que, nos livros de história, ele tivesse a mesma auréola que hoje tem FDR?

Os Clintons são considerados uma pseudo-família real americana, o que ficou claro pela forma como o casamento de Chelsea Clinton, transformada de pato feio num magnífico cisne, foi seguido na Comunicação Social. O nascimento dos filhos de Chelsea têm direito a cobertura mediática semelhante aos de William e Kate, da família real inglesa. Num futuro próximo, serão as filhas de Obama que irão alimentar estas fantasias. As filhas de George W. Bush, que eram muito mais vistosas do que Chelsea Clinton, cuja aparência física foi gozada publicamente por pessoas como Rush Limbaugh e John McCain, não fazem os americanos sonhar.

Antes de Obama, foi Bill Clinton que deu um abanão no Partido Democrata e afastou os tradicionalistas do partido. Tanto Clinton, como Obama, eram pessoas estranhas ao aparato partidário: o mesmo papel que Donald Trump teve no Partido Republicano nestas eleições. No entanto, o efeito que Trump está a ter no Partido Republicano é oposto aos que Clinton e Obama tiveram nos Democratas. Trump destroi, mas não constroi, levando o partido para um beco sem saída; Obama e Clinton são destrutores criativos, abrem novas possibilidades dentro do partido. Agora são ambos insiders em Washington, D.C., o que irá dar uma outra dimensão mediática a uma Presidência de Hillary Clinton.

P.S. Alan Greenspan é outro homem com um instinto político muito aguçado. Podem apreciar a sua argúcia na nova biografia de Greenspan, escrita por Sebastian Mallaby, que foi publicada no dia 11 de Outubro.

Sumário executivo

Durante o terceiro e último debate, Hillary Clinton deu o melhor sumário de toda esta eleição, pelo menos até ao momento:

"And on the day when I was in the situation room, monitoring the raid that brought Osama bin Laden to justice, he was hosting The Celebrity Apprentice."

Gimme a beat!

Donald Trump chamou nasty a Hillary Clinton durante o debate. Alguém comprou a morada NastyWomenGetShitDone.com e ligou-a a HillaryClinton.com. Os Estados Unidos são um país espectacular!

Ah! #nastywomen e #nastywomengetshitdone são as hashtags do momento no Twitter e no Facebook. And you know what else is nasty?

"My first name ain't baby, it's Hillary - Madam President if you're nasty."





O terceiro e último debate entre Clinton e Trump está prestes a começar. Donald Trump convidou o meio-irmão de Barack Obama para este debate, que se realizará em Las Vegas. Remember, what happens in Vegas, stays in Vegas! 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O espanto

“O espanto compreende-se. É quase meio milhão por ano”

Durante a audição, Mariana Mortágua, deputada do BE, reconheceu que a crítica ao valor dos salários da administração da Caixa “tem de ser feita”. Isto porque “é muito dinheiro quando comparado com os salários médios e mínimos” praticados na economia portuguesa. Por isso, disse a deputada, “o espanto compreende-se”.

Para a bloquista, a alternativa é “limitar os salários dos gestores das empresas públicas aos do primeiro-ministro”. Mariana Mortágua lembrou que o PCP até tem uma proposta nesse sentido. Só assim, argumentou, existiria uma verdadeira alteração de regime face à política de remunerações praticada pela Caixa.


Fonte: Eco (o novo jornal online de Economia -- vejam lá se a Física tem um jornal novo...)

Eu estou espantada por Mariana Mortágua não propor um imposto novo. Ou será que o tal meio milhão por ano não é susceptível de acumulação...

Portugal precisa de outra direita

O OE17 apenas veio confirmar aquilo que todos sabemos – o país está estagnado e condenado a impostos, cortes orçamentais, taxas e taxinhas durante muitos anos. Portugal precisa de mudar de vida ou de encarar um empobrecimento sustentado. Mas para mudar de vida, o país precisa mesmo de uma direita reformista (que me desculpem os puristas da linguagem, mas no meu léxico “direita” é todo o espaço politico à direita do PS). O PS é naturalmente o partido do status-quo, a matriz fundamental do regime. Dele não podemos esperar qualquer reformismo. Os partidos à sua esquerda defendem reformismo, mas de outra espécie, da espécie que não nos interessa (salvo para quem tem a Grécia, Cuba ou Venezuela como modelo). Resta, pois, a direita como movimento reformista. Sem reformismo, o país não muda. E se a direita não muda, não há reformismo possível.

A “atual” direita não tem votos, não tem programa e não tem visão. 

Comecemos pelo óbvio. Se a direita tivesse votos, governava. Se está na oposição, é porque lhe faltaram os votos necessários nas eleições do ano passado. Mais concretamente, 700 mil. A“atual” direita está reduzida a uma expressão eleitoral mínima, os tais 2 milhões de votos que nunca lhe falham. As sondagens mostram que, mesmo assim,continua a perder votos. E os resultados dos Açores apenas confirmam isso …entre o ano passado e o domingo passado passou de 37,5 mil votos para 35,5 mil votos. Mas há pior. Há a nova geografia eleitoral. Com a abstenção crescente do eleitorado infiel (que desistiu de votar), cada vez mais as eleições são decididas pela mobilização do eleitorado fiel. Acontece que, se votam apenas os fiéis, a direita é sociologicamente minoritária (2 milhões contra 1,9 milhões de PS/BE e 400 mil da CDU).

A “atual” direita não tem programa. Amortizado o discurso ridículo da legislatura roubada (que anima apenas os convencidos), resta a oposição leviana, o bota-abaixo, quando não os insultos e a boçalidade da claque. Já defendi o espírito de Ofir. Propostas para abrir uma reflexão, a construção de um programa reformista, os Estados Gerais da direita não faltam (ver os documentos do Pedro Braz Teixeira e do Norberto Pires, por exemplo). Mas a “atual” direita insiste na velha receita – dizer mal do governo e esperar pelo seu natural apodrecimento. Desta vez, suspeito que não vai chegar.

Dois exemplos:

(1) A CRESAP foi uma boa ideia, mas totalmente destruída pelos aparelhos partidários do PSD e do CDS. Sabemos agora que o PS naturalmente optou pela solução de continuidade. Seria bom que a direita pensasse como reformar a CRESAP, afastando definitivamente os seus aparelhos partidários. E se não é possível, então que tenha a coragem de defender a sua extinção.

(2) A direita defende, e bem, um modelo de Estado-regulador em detrimento do Estado-intervencionista do PS. Infelizmente o Governo PàF pouco fez pelos reguladores. Menosprezou (AdC, ERSE), governamentalizou (BdP), ignorou (CMVM, ANACOM, ERC). Fez uma lei-quadro que nada mudou (apenas para troika ver) e com um conjunto de princípios dos quais fugiu na primeira oportunidade (reconduzindo o Governador do BdP). Com as recentes nomeações para o BdP e CMVM, também já percebemos que o PS opta pela continuidade. Seria bom que a direita tivesse uma proposta de reforma profunda dos reguladores. E, se tal não existe, que tenha a coragem de defender o regresso do modelo das direções-gerais, porque o atual ordenamento não serve para nada e sempre poupávamos na despesa.

A “atual” direita não tem visão. As duas vezes que governou, em 2002-2005 e 2011-2015, ambas nos “intervalos” do PS, foram oportunidades fracassadas, porque insistiu que é possível mudar a economia sem mudar as instituições. Deveria ter aprendido a lição. Para mudar as instituições é preciso ter um programa consistente e exigente, uma equipa, credibilidade, confiança e liderança. E um mandato claro. Sem mudar as instituições, não há mudança da economia. E sem mudança da economia, o país não muda.

O país precisa urgentemente de uma direita com votos, com programa e com visão. Precisa certamente de “outra” direita.

The biggest losers...

"Finalmente, com o fat tax vamos conseguir perder peso. No próximo verão seremos um sucesso na praia: We wil be the biggest losers!"

Clinton vs. Trump: terceira ronda

O terceiro e último debate presidencial entre Hillary Clinton e Donald Trump realiza-se em menos de 24 horas, às duas da manhã de Quinta-feira, em Lisboa; 21 horas de Quarta-feira, em Nova Iorque. Podem acompanhar aqui na DdD em directo; o live-streaming está no fim deste post. Deixo-vos um apanhado dos últimos dias.

Desde o último debate, surgiram notícias na revista People e no NYT relatando supostas situações em que Trump agrediu mulheres sexualmente, de forma semelhante à que descreveu no vídeo discutido no segundo debate. Hoje, seis pessoas identificaram-se e corroboraram o relato da jornalista da revista People.

A campanha de Trump tem-se organizado melhor, mas não tem discutido o programa eleitoral do candidato. Em vez disso, tem-se focado em atacar a idoneidade da Comunicação Social e Trump acusa que a eleição irá ser viciada contra ele. O Presidente Obama disse a Donald Trump para parar de choramingar e desacreditar o processo eleitoral.

Esta semana, houve um atentado à bomba a um gabinete da campanha do GOP, na Carolina do Norte, em que os atacantes deixaram a mensagem "Nazi Republicans leave town or else". Os suspeitos ainda não foram identificados, nem encontrados.

Melania Trump finalmente foi entrevistada e perdoou ao marido os comentários ofensivos do vídeo da conversa de balneário; negou que o marido se tenha comportado como descreveu e como foi acusado, e pediu aos eleitores para ignorarem as calúnias de que ele é vítima.

Não tem grande havido grandes notícias da campanha de Hillary Clinton, ela não tem feito grandes eventos, o que indica que está a tentar passar despercebida enquanto Donald Trump dá tiros nos pés.

Para o debate de amanhã, Donald Trump convidou a mãe de um soldado que pereceu em Benghazi e que é uma pessoa muito crítica de Hillary Clinton, pois culpa-a da morte do filho. Deste convite de Trump, julgo razoável presumir que ele irá introduzir este tópico na conversa de amanhã.

Os candidatos serão entrevistados por Chris Wallace sobre seis tópicos: imigração, dívida e despesa com programas sociais, o Supremo Tribunal, a economia, política externa, e aptitude para ser Presidente. Podem ler mais acerca do formato do debate na página Politico.com.


Cobertura mediática

Alguns dos nossos leitores sugeriram que se tinha dado pouca cobertura mediática às falhas dos Clinton em comparação com as falhas de Donald Trump. Decidi fazer uma pequena experiência que, apesar de não-científica, indica que há bastante cobertura mediática de ambos.

Fui ao Google e meti algumas palavras chave acerca de tópicos mais controversos associados com Clinton e Trump. Apenas vi o número total, não fiz nenhuma triagem por período específico, mas se estão interessados em perder mais algum tempo do que eu, podem pedir ao Google para apenas procurar num período de tempo específico. Fiz estas buscas entre as 20:00 e as 20:30 horas de Houston, do dia 18 (02:00 e 02:30 de Lisboa, do dia 19). Fiz buscas gerais e buscas dentro do subgrupo notícias. Note-se que é impossível saber se todos os resultados são a favor ou contra os candidatos, apenas podemos ver que tiveram tracção na Internet.

Os tópicos vencedores para Trump são os impostos e o racismo; para Clinton, vencem os e-mails e a corrupção.