sexta-feira, 31 de julho de 2015

O Estado não tem mãos

Em Portugal, apesar dos progressos, continuamos a ter um “Estado patrimonial” muito forte, para usar a famosa expressão de Max Weber. Ou seja, as elites políticas vêem o Estado como uma forma de enriquecimento pessoal. A esquerda radical, com razão, não se tem cansado de denunciar a corrupção, a promiscuidade de interesses públicos e privados, etc.. Mas essa mesma esquerda, se pudesse, nacionalizava tudo. Supostamente, dessa forma, os ganhos seriam equitativamente distribuídos pelos trabalhadores e consumidores, em vez de ficarem nas mãos dos capitalistas exploradores.
Se confundir o Estado com o governo é um erro, tratá-los como entidades completamente distintas é também um absurdo. É neste segundo tipo de erro que a esquerda cai.
A esquerda gostaria que as empresas (pelo menos, as “estratégicas”) estivessem nas mãos do Estado. O problema é que o Estado não tem mãos, quem tem mãos são os indivíduos. A esquerda fala como se o governo pudesse ser incompetente ou corrupto, mas o Estado, vá-se lá saber porquê, estivesse naturalmente investido de nobreza e dignidade e pairasse sempre acima das fraquezas e dos vícios humanos. Infelizmente, o Estado não é nada disso. O Estado são pessoas, muitas vezes escolhidas e nomeadas pelo tal governo “incompetente e corrupto”.

Balança ideológica

Visito uma livraria. Compro o Livro de Leitura para a 4ª Classe, de 1961. Para equilibrar, compro também Born to Be Gay - Uma História da Homossexualidade.

Conselho à PAF




Não há dúvida que acompanhar os números do desemprego é importante. Mas qualquer discussão fica coxa se não olharmos estes números em conjunto com os do emprego. Se taxa de desemprego se aproxima dos níveis verificados do início do programa ajustamento (a última vez que o desemprego esteve mais baixo que os 12,4% atuais foi em junho de 2011, com 12,3%), os níveis de emprego estão um ano atrasados em termos da sua recuperação: o nível atual aproxima-se do valor verificado em 2012.
Se a PAF quiser fazer uma campanha sem demagogia, aconselharia antes a destacaram a evolução da produtividade: está 8% acima dos valores observados em março de 2009 e 2% acima dos valores do início do programa de ajustamento.





Contra o capitalismo



Cartaz na Praça do Chile, em Lisboa --- via Carlos Vaz Marques, no twitter

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Conclusão: daqui a uns tempos vamos enriquecer todos na bolsa


A súmula impressionante de disparates que está contida no artigo linkado acima, e que acaba com o disparate mor que é a declaração de que os economistas vão deixar de errar nas suas previsões económicas, confirma o que há muito penso. Não são, verdadeiramente, os economistas que acreditam nas previsões económicas e não são os economistas que olham para a Economia como uma ciência tão infalível como a Física.
Tipicamente, quem comete estes erros é alguém, como este tipo doutorado em Física, que nada percebe de economia mas que se dedica à economia.

terça-feira, 28 de julho de 2015

O poder limitado das baionetas

Um dia Talleyrand explicou a Napoleão: "Com as baionetas, Sire, pode-se fazer tudo, menos uma coisa: sentar-se sobre elas." Até quem pretende governar com os soldados depende da opinião destes e da que tenham sobre estes os restantes habitantes. Na verdade, não se manda com os soldados. Como explicou Ortega y Gasset, mandar não é uma questão de punhos, é uma questão de nádegas. "Trono, cadeira curul, banco azul, poltrona ministerial". Mandar é sentar-se. Tranquilamente.

Loucura megalómana e revolucionária

Aqui está a transcrição de grandes partes da conversa de Varoufakis a explicar como planeava, com mais quatro pessoas, criar um sistema bancário paralelo na Grécia depois de piratear os dados dos números de contribuinte. O tipo nem sequer parece ter noção da enorme operação de logística informática que o seu plano envolveria.

Para quem ainda não acredita nas notícias, pode ouvir o homem de viva voz aqui.

Podemos, todos, finalmente, concordar que o tipo é louco, megalómano, radical e revolucionário?

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Números do desespero

Oiço na TVI 24 um economista da Universidade Nova (penso que se chama Luís Rato) enumerar meia dúzia de factos sobre o “Estado social” português. Exemplos. Nos últimos três anos, foram transferidos do Orçamento do Estado (OE) 3,4 mil milhões de euros para cobrir os défices da segurança social. O fundo de estabilização (um subsistema de capitalização da segurança social) cifrava-se em 2014 em pouco mais de 3 mil milhões, o suficiente para pagar seis ou sete de meses de pensões em caso de emergência. Além disso, foi necessário transferir, em 2014, mais de quatro mil milhões do OE para a Caixa Geral de Aposentações. Neste momento, há 1,5 activos para 1 pensionista. Segundo um estudo recente da Comissão Europeia, em 2060, mantendo-se as actuais tendências (e consideraram nesse estudo uma taxa média de 8% de desemprego), cada português receberá apenas 30% do seu último salário.
Não falta muito tempo para que haja apenas um activo para um pensionista, ou seja, não tarda muito que cada pensionista receba, grosso modo, apenas os cerca de 34% do salário (correspondente à chamada TSU) de cada activo (ou 26%, se o PS, caso ganhe as eleições, avançar com a sua proposta abstrusa de cortar 8 pontos na TSU, 4 para os trabalhadores e 4 para as empresas).
Atenção, e estes números do desespero existem apesar de todas as medidas e reformas que foram tomadas nos últimos 15 anos: introdução de um factor de sustentabilidade (na reforma de Vieira da Silva em 2007) e o concomitante aumento da idade da reforma (o tal economista, que aparenta estar na casa dos 40, fez os cálculos e só se poderá reformar aos 68,4 anos), a contribuição extraordinária de solidariedade, etc.
Estes números esclarecedores, que bastam para fazer disparar todos os alarmes, não parecem, todavia, preocupar muito comentadores/pensionistas como Bagão Félix ou Manuela Ferreira Leite, que desvalorizam o problema. Percebe-se. Também se percebe que os partidos não queiram falar no assunto. Os pensionistas votam e os que vão receber a reforma em 2060 andam por aí a estudar, a divertir-se ou a tratar da vida e têm mais que fazer do que se preocupar com o futuro daqui a meia dúzia de meses quanto mais daqui a 10, 20, 30 ou 40 anos.
Esta gente (partidos e a maioria dos comentadores), uma cambada de irresponsáveis, com o argumento de que discutir o problema equivale a alimentar um conflito geracional, está a empurrar com a barriga e a arranjar um conflito geracional explosivo no futuro. 

Delfins, versão desalinhada*

Na banheira de meus pais
Senti ao longe bacon para comer
Perguntaste porque o cheirava
Olhei para ele, não me pude conter

Vejo o mar do comboio,
Encontrei velhos quadros
De selvagens que o Miró soube escolher.


Eu pinto esta banheira assim
A Pantone não é para mim
Nesta banheira eu descobri
Tanto lixo em cima de mim

Só, nu, cais,
Vais recordar esse teu malhar,
Cu dorido no lar.

Lembro o bar, onde aos tombos,
Fui deixar, lá no adro,
Uma grade depois de a beber.

(desalinhado = que não diga respeito à  Linha do Estoril, de Cascais ou lá o que é)

Ode ao Fisco

Há quase duas semanas, ouvi uma entrevista de um professor de economia grego, que trabalha no American College of Greece. Uma das coisas que ele disse foi que os gregos têm de melhorar a colecta de impostos. Para o fazer, ele sugeriu que a Grécia pedisse ajuda aos EUA para ver como é que o Internal Revenue Service (IRS) controla a evasão fiscal; também falou em obrigar as pessoas a pagar electronicamente todas as transacções de valor superior a €50.

Eu abanei a cabeça. O que ele quer não tem nada a ver com os EUA. Os americanos usam muito o sistema de honra para pagar impostos. Há lojas que até passam recibos à mão. O que ele quer é o sistema português. E isto é uma oportunidade para Portugal brilhar. Porque é que o governo português não partilha o que aprendeu em Portugal nestes últimos anos com a Grécia? Aliás, o que o Ministério das Finanças devia fazer era escrever um case study de como Portugal modernizou a colecta de impostos. Apesar de eu detestar e ser contra a invasão de privacidade, acho que o sistema português deve ser dos mais modernos do mundo. Podia ser melhorado, mas ainda não está acabado, logo quem sabe o que nos aguarda amanhã?

Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa relativo ao Processo nº 1/09.3F1STC.L1-9

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Outbreak

Não desapareci, mas em Portugal há Wi-Fi em muito lado e funciona em lado nenhum--mas aposto que, se eu fosse a um Starbucks, funcionaria. Tenho de gerir o meu acesso à Internet via telemóvel e a Vodafone até nem é má de todo. Estou tão feliz por não ser cliente da NOS... (Ninguém me pagou para dizer isto, eu é que pago pelo serviço da Vodafone que eu uso.)

No meu segundo voo para Portugal mudaram-me de lugar porque disseram que eu estava a separar uma família. Quando cheguei ao meu novo lugar, já estava ocupado por outra pessoa porque eu estava a separar outra família. Aquele voo tinha muitas famílias e, por uns momentos, pensei que talvez a desaceleração do crescimento da população fosse exagerada, mas era um voo dos EUA para Portugal. O que eu encontrei foi crianças que hoje estariam em Portugal, mas que estão nos EUA porque os seus pais emigraram para lá. Dois dos meninos levavam camisolas da seleção nacional de futebol, mas só falavam inglês. Ainda não falavam português, mas talvez aprendessem algumas coisas nestas férias. Talvez tivessem 4 e 5 anos e notava-se que gostavam muito de Portugal. Era a família deles que eu estava a separar. 

Pediram-me para trocar de lugar e eu troquei imediatamente. Fiquei sentada ao lado de um senhor que não falava nada. Presumi que fosse médico pois estava a ler um artigo dos Centers for Disease Control (CDC) no computador. Como era um voo noturno, tentei descansar o mais possível, mas não cheguei a dormir. 

Quando aterrámos em Lisboa, o meu companheiro de voo estava um bocadinho frustrado por demorarmos tanto tempo a sair do avião. Ele estava em ligação para ir para outro sítio, mas não reparei para que aeroporto se dirigia. Meti conversa. Disse-lhe que seria terrível, se ele tivesse de ficar desterrado em Lisboa. Ele sorriu e relaxou. Depois perguntei-lhe se ele era médico. Ele disse que era epidemiologista, trabalhava para os CDC, em Atlanta e ia em trabalho para algures na Europa porque havia um pequeno outbreak e tinha sido pedida a intervenção dos CDC. Não me disse o que era, nem onde era, apenas consegui saber que era num país desenvolvido e não era Portugal. No entanto, o voo era uma operação conjunta da United Airlines e da Lufthansa, o voo dele foi comprado à Lufthansa, logo talvez fosse algures para o norte da Europa. 

Falámos também sobre os modelos que ele usava e que eram feitos em R, que é o que eu uso para estimar os meus modelos. É uma linguagem muito poderosa, observámos ambos, é muito flexível e dá para sermos extremamente criativos. É o que se chama uma linguagem de quarta geração e é "object-oriented". Para quem se interessa por investigação quantitativa e análise de dados, vale a pena investir na sua aprendizagem. No entanto, é preciso ser teimoso porque tem uma curva de aprendizagem com uma inclinação muito acentuada. 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Sadismo-masoquismo

[Um título destinado a aumentar a "audiência" deste blog, sem dúvida.]

Ontem, numa maratona legislativa, foram aprovadas, em Portugal, alterações à lei da interrupção voluntária da gravidez (IVG). Segundo me informei, estas consistiram na introdução de taxas moderadoras, na obrigatoriedade de aconselhamento psicológico e social e de consultas de planeamento familiar para as mulheres que decidam fazê-la e no fim do registo dos médicos objectores de consciência.

Até aqui, a IVG esteve isenta de taxas moderadoras por ser considerada um cuidado materno-infantil. Reconheçamos o paradoxo: havia isenção por estar grávida, mas a intervenção era para deixar de o estar. Segundo me consta, uma colonoscopia tem uma taxa moderadora de 14 euros. É obviamente preciso pôr a malta a pagar o exame, caso contrário estariam semana-sim-semana-não de rabo para o ar (literalmente), a enfiar um tubinho ânus acima, que é sempre uma coisa agradável e um bom pretexto para só comer gelatina 3 dias seguidos. O mesmo para um aborto. Nesse sentido, não me choca a introdução de taxas moderadoras. Não me surpreende, digo melhor. Faz parte de uma ideia de que os portugueses são masoquistas - o que, vendo certas coisas, é capaz de não ser completamente disparatado... E, portanto, há que moderá-los na algaliação, nos pensos a amputação com necrose e, claro, no aborto.

Já a obrigatoriedade de aconselhamento psicológico e social tem ar de coisa de sádicos. Uma espécie de bullyingzinho sobre mulheres que tomem a opção - inimaginavelmente difícil - de terminar uma gravidez. Os defensores da proposta falam num direito das mulheres. Assim muito de repente, parece-me que o direito se acaba onde entra a obrigação. Eu acho, sem sombra de dúvida, que a decisão deve ser feita com acesso à informação. Informação que deve ser disponibilizada, não impingida. Mas, já agora, por princípio, acho que as nossas decisões devem ser todas tomadas em consciência. Que me dizem de termos vegans eco-freaks nos talhos do supermercado?! Para que optemos informadamente por carne ou legumes. Ou sermos obrigados a ir a vários templos antes de adoptarmos uma religião. Tudo a nosso bem, claro.

Quanto ao fim do registo dos médicos objectores de consciência, nada a obstar. Como defensora incansável do direito à privacidade, apoio. Só acho curioso que os mesmos que a aprovaram queiram os nomes de pedófilos escarrapachados.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Uma ideia que não brilha

Hoje, a União Europeia provoca pouco ou nenhum entusiasmo à maioria dos europeus. Ao invés, espalhou-se uma sensação de inquietação, mal-estar, desilusão; as resistências são consideráveis e justificadas. As causas deste sentimento são muito diversas. A primeira, e talvez a mais grave, é a ignorância mútua dos povos europeus e a sua falta de simpatia recíproca e admiração. Isto, misturado com uma preocupante ignorância histórica, impede uma imaginação colectiva, uma “ideia de Europa”, uma projecção do futuro, capazes de mobilizar os europeus numa empresa comum.
A redução de tudo à economia também não ajuda nada. Os funcionários e burocratas que têm nas suas mãos a Europa e os políticos limitam-se a segregar regulações, normas, proibições. Enquanto teoricamente defendem a liberdade e a livre iniciativa, na prática condenam a espontaneidade, a imaginação, a variedade que sempre foram a riqueza da Europa.
Pela calada, e bem nas costas dos cidadãos europeus, os iluminados que nos têm pastoreado deram passos atrás de passos sempre com o argumento da inevitabilidade: completada a União Aduaneira (em 1967), era fundamental um mercado único (concretizado em 1993) e este não poderia sobreviver sem uma moeda única. Pelo menos, este é o discurso dos “sábios”, que também se estão, e sempre estiveram, nas tintas para a opinião do canalizador polaco, do operário alemão ou do pescador português.
Infelizmente, não basta que uma “ideia de Europa” brilhe na cabecinha de alguns iluminados, é necessário que brilhe em milhões de cabeças. Só assim o projecto europeu poderia aguentar todos os embates. Hoje, a “Europa” está mergulhada numa crise e desfaz-se em disputas, conflitos, questões mesquinhas. Desgraçadamente, no reino da economia, onde a “Europa” se acantonou, não é possível acender o entusiasmo num número suficiente de almas dispostas a lutar por uma “ideia”.

terça-feira, 21 de julho de 2015

O paradoxo do estatismo

A história não nos dá a solução para os problemas do presente, mas pode ajudar-nos a não cair nos velhos erros do passado. Hoje, conhecer a história do império romano pode ter alguma utilidade.
O Estado imperial romano foi uma máquina admirável, muito superior como artefacto ao velho Estado republicano das famílias patrícias. Todavia, mal chegou ao seu máximo desenvolvimento, começou a cair o corpo social. No século II, a sociedade começa a ser “escravizada” pelo Estado. A vida burocratiza-se. A burocratização da vida leva ao seu declínio. A riqueza diminui e as mulheres têm cada vez menos filhos. Como reacção, o Estado força ainda mais a burocratização da existência humana. A militarização da sociedade acentua-se. O aparato bélico torna-se a maior urgência do Estado, porque o Estado (convém não esquecer) é, antes de tudo, um produtor de segurança. A miséria aumenta, a fertilidade cai ainda mais. Começam a faltar soldados. Depois dos Severos (de origem africana), em meados do século III, começa-se a recrutar soldados estrangeiros.
Moral da história? O “estatismo” é um processo paradoxal e trágico. A sociedade, para viver melhor, cria, como um utensílio, o Estado. Com o tempo, o Estado sobrepõe-se à sociedade e esta começa a viver para o Estado. No fim, a sociedade fica faminta e o Estado esquelético.



O problema francês ou o privilégio exorbitante

Desde pelo menos os anos 60, a França procurou combater o privilégio exorbitante de utilizar a política monetária de que (ainda) beneficiam os Estados Unidos e de que a Alemanha beneficiou nos anos 80 e 90. A expressão, utilizada por Valéry Giscard D’Estaing, Ministro das Finanças de Charles De Gaulle, capta a vantagem de um país, numa economia aberta, poder utilizar a política monetária para promover a sua competitividade.
A pressão que a França colocou na criação da moeda única europeia deve ser entendida como uma via para fortalecer a soberania da França, dado que a sua política económica se encontrava cada vez mais condicionada pela globalização comercial e financeira. Isto é, o euro era visto como uma forma de mitigar a submissão da sua política económica à política económica da Alemanha. É importante lembrar este facto no momento em que a França avança com a proposta de criação de uma governação da zona euro pelos países fundadores da CEE.
A França não tem hoje os meios, que teve nos anos 90, como a questão da reunificação alemã, de condicionar a Alemanha. No  entanto, esta proposta francesa terá muitos apoiantes entre os países do norte da Europa. Portugal e os outros países não fundadores têm de se opor veemente a este projecto francês, que nos tornaria parceiros de segunda ordem da UEM e acentuaria a clivagem norte/sul na UE.   
O projecto francês de então e de agora é muito bem descrito no livro de Jean-Paul Fitoussi, O Debate-Tabu, publicado em 1995:
“A União Económica e Monetária Europeia é, com efeito, para muitos países europeus, incluindo a França, o meio de recuperar uma soberania perdida. Mais vale co-pilotar um navio livre na sua rota do que estar sozinho ao leme de um navio teleguiado por outros. 
De facto, a moeda única oferece a possibilidade de equilibrar os poderes monetários na Europa, de perspectivar de novo as relações entre a Alemanha e o resto da Europa, num sentido que nos seja mais favorável.”


segunda-feira, 20 de julho de 2015

Pois é, dava um filme...

Correu quase tudo bem, mas cheguei ao aeroporto George Bush e a minha mala tinha excesso de peso. Queriam $200 porque tinha mais de 23 KG. Não paguei tanto, acabei por fazer o check-in de uma segunda mala por $100. Por acaso, desta vez nem me lembrei de pesar a mala. Ultimamente, tenho viajado com bagagem mais pequena e nunca me acontece. Como levo uma mala maior, descuidei-me. No grande esquema das coisas, $100 é menos do que o que eu costumo gastar quando vou aos correios enviar dois pacotes para Portugal. 

Dirigi-me para a zona de fazer o controle de passaportes e segurança. De repente, ouço gritos. Uma mulher que chamava "bitch" a alguém, não sei quantas pessoas a tentar controlar uma outra, e eu não sabia muito bem o que pensar. Demorou alguns segundos para eu perceber que a zona tinha sido vedada e não se podia entrar daquele lado. Uma multidão acumulava-se a assistir à cena, algumas pessoas tiravam fotos e vídeos. Já deve estar no Twitter e no Facebook... Uns agentes dirigiram-nos para o outro lado, fiz o controle de passaporte e cheguei à porta de embarque. 

No meu voo de hoje, fiquei no lugar 35C, a última fila. Fiquei, mas não fiquei, porque um americano mal-educado decidiu que o meu lugar, que dava para o corredor, era melhor do que o dele, e, quando eu lá cheguei, o gajo já estava sentado no meu sítio. E para cúmulo dos cúmulos, tirou a revista e os panfletos educativos desse lugar e meteu-os no lugar do meio, que deveria ser o dele, mas que ele queria que fosse o meu. Como eu estava com uma dor de cabeça fenomenal, deixei que ele ficasse com o meu lugar, nem lhe disse nada, apenas me diverti a chamar-lhe nomes na minha cabeça. Não era preciso dizer uma coisa que tanto ele e eu sabíamos. Sentei-me no meio e tentei encontrar maneira de enfiar os meus dois sacos debaixo do banco da frente. Consegui! Eu adoro puzzles. 

A senhora que estava sentada à janela era uma indiana pequenina, que vive em El Paso, olhava para o todo lado, e a certa altura me diz, à guisa de desculpa, que era uma pessoa muito curiosa. Como ela estava um bocado irrequieta, eu perguntei se ela estava bem. Sim, estava apenas um bocado preocupada porque levava uma coisa muito preciosa com ela: tinha as cinzas do irmão na bagagem que tinha enfiado por cima dos bancos. Eu perguntei de onde ela era e ela diz-me que era de Portugal, mas a família tinha saído de Portugal há centenas de anos e foram para a Índia. Pois é, as coisas que me acontecem... 

O seu sobrenome era Desouza. Depois disse-me que ia para Bombaim--agora é Mumbai--; ia levar as cinzas do irmão para fazerem o funeral, apesar de o irmão já ter morrido em Abril. O irmão tinha síndrome de Down e morreu com 62 anos, uma coisa extremamente rara porque as pessoas que sofrem da doença têm uma esperança média de vida muito curta. Dizia-me ela que tinha muita sorte por ter um irmão assim, pois ele era muito simpático com toda a gente e ela gostava muito dele. Eu disse-lhe que uma vez tinha feito voluntariado numa instituição onde ensinava uma menina com síndrome de Down a cozinhar. Também lhe disse que tenho uma amiga minha que tem uma filha pequenina com a doença. 

Conversámos durante o voo. Quando eu escolhi a comida, o hospedeiro mandou-me sorrir. Ele notou que eu estava mal-disposta. E a minha amiga indiana também. Imaginem! Eu, mal-disposta... Relaxei e ri-me e ela disse-me que eu estava melhor do que quando tinha chegado. 

Notava-se que ela gostava muito de Portugal e tinha mantido muitas das tradições portuguesas, porque falava em "nós", no sentido de nós, os portugueses. É uma católica muito devota. Quando me falou no Santo António, eu disse-lhe que era o santo padroeiro de Lisboa. Ela perguntou-me se eu sabia de onde era o Santo António, eu não sabia. Ela achava que era originário de algures em Portugal, talvez Coimbra. Eu disse-lhe que eu era de Coimbra. Surpreendeu-me que ela soubesse o nome da minha cidade. Olha o factor sorte, que é tão giro... 

Perguntou-me se eu já tinha ido a Fátima, eu disse-lhe que tinha sido há muito tempo e já não me lembrava. Afinal, acho que, para além dessa vez que fui com a minha avó, também fui em 1998, quando levei uma amiga minha americana aí. Ela perguntou-me se eu tinha notado que me tivesse acontecido algum milagre. Eu disse que não. Quando eu lhe disse que eu tinha o nome de duas santas, uma delas a Rainha Santa Isabel, ela sabia que a Rainha Santa era originária da Espanha. Eu disse-lhe que uma vez fui ver a mão da Rainha Santa, ela perguntou-me se dessa vez tinha havido milagre. Eu disse que não. 

Quando aterrámos, ela viu um avião da TAP e mostrou-mo logo. Eu tentei ver se o avião tinha algum nome de uma pessoa conhecida, mas não consegui encontrar. Expliquei-lhe que alguns aviões tinham o nome de pessoas famosas, ela perguntou-me se também tinham nomes de santos. Eu disse que achava que não. 

Foi uma conversa engraçada. A meio do voo pensei que até foi bom o americano ser mal-educado, pois assim eu fiquei ao pé dela e ela parecia muito contente por poder falar de Portugal com alguém. Disse que um dia gostaria de ir visitar Portugal. Talvez possa ir brevemente, agora que já não tem de cuidar do irmão.

P.S. Escrevo isto do telemóvel. Peço desculpa pelos erros. Estou cansada. É verdade, eu falo com toda a gente--ou toda a gente fala comigo... 😜



Náufragos

A segunda temporada de "True detective" é ainda melhor do que a primeira. Três detectives de três diferentes polícias (local, estadual e federal) juntam-se para deslindar um homicídio. Pelo meio, há políticos mafiosos, mafiosos que querem deixar de o ser, mas que são arrastados pelas contingências para as origens. Todas as personagens andam perdidas no mundo. No quarto episódio, um dos detectives (Taylor Kitch) desabafa para o colega (Colin Farrell):
- Não sei viver neste mundo.
- Olha lá para fora. Olha para mim. Ninguém sabe.



Este desabafo de um “true detective” fez-me lembrar uma das ideias centrais da “teoria geral da vida humana” (ou metafísica) de Ortega y Gasset. A vida é um caos onde cada um está perdido. O homem suspeita dessa verdade, mas aterroriza-o ficar cara-a-cara com essa terrível realidade. Procura ocultar a realidade com uma “cortina fantasmagórica”. No fundo, sente que as suas “ideias” não são verdadeiras, mas utiliza-as como trincheiras para se defender da sua vida e afugentar a realidade. Ao contrário, um homem lúcido e de “cabeça clara” é aquele que se liberta das “ideias fantasmagóricas” e observa de frente a vida; percebe que tudo nela é problemático e difícil, e sente-se perdido. Aquele que não se sente verdadeiramente perdido está condenado a perder-se e jamais se encontrará. Como isto é a mais pura das verdades – a saber, que viver é sentir-se perdido – aquele que o aceita já começou a encontrar-se e a descobrir a sua realidade autêntica. Instintivamente, como um náufrago, procura agarrar-se a alguma coisa. Esta “visão trágica, peremptória, absolutamente verdadeira, porque se trata de salvar-se, far-lhe-á ordenar o caos da sua vida.” Estas são as únicas ideias verdadeiras: as ideias dos náufragos. O resto, dizia Gasset, é retórica, pose e farsa. 

domingo, 19 de julho de 2015

Amoras imorais...

Disseram-me esta semana que nós, economistas, reduzimos tudo a dinheiro. Fiz auto-análise para ver o mérito da acusação. É verdade--eu até vos expliquei como calcular o valor da vista para o mar num hotel. 

Concluí que, como economista, devo ser imoral ou amoral, mas o que eu queria ser era mesmo uma amora, daquelas rechonchudas e carnudas muito doces, que rebentam na boca. É por isso que eu me interessei por economia agrária...

Comprei grego, mais ou menos...

Antes de mais, um aviso: eu sou teimosa!

Hoje comprei grego outra vez. Fui comprar umas linhas de costura e calhou que a cor mais parecida com o que eu queria arranjar era uma marca alemã fabricada na Grécia. Havia outras alternativas, mas as linhas de poliester eram feitas na Alemanha. 

No outro dia comprei Fage--acho que já vos tinha dito--; por acaso é o meu iogurte preferido. Quando estava em Washington, DC, fui a uma mercearia  mediterranica e comprei um chá grego. Isto vai indo! Baby steps...

É no interesse da Grécia e de Portugal que a Grécia produza mais e exporte. Lembram-se dos pastéis de nata? O que funciona para Portugal, também funciona para a Grécia. Mas nós temos de fazer a nossa parte, que é comprar o que eles produzem. 

Se a Grécia recuperar, há uma probabilidade que é um número entre 0 e 1 deles pagarem o que devem; se a Grécia não recuperar, essa probabilidade é nula (0). O comportamento óptimo para reavermos o dinheiro será que todos contribuam e comprem grego quando têm a oportunidade. Eu tive oportunidade, logo comprei. Podem analisar o problema através do dilema do prisioneiro. Pois é, é óptimo cooperar, em vez de competir, para maximizar o bem estar de todos. 

 


sábado, 18 de julho de 2015

No Fundo

No fundo, eu ando muito preguiçosa e tenho descurado a leitura e o sonhar acordada. Também não tenho consumido muita poesia e esta falta corrompe a minha alma. Aqui vai um poema, só porque hoje estou um bocado introspectiva. OK, é mentira, eu sou introspectiva!

No fundo azul
no espelho de uma delicada tristeza
que os meus olhos reflectem:
vês-me?
vês-me como eu sou?
vês-me como algo que se descobre
na acrobacia da imagem?

Na sensual tranquilidade da palavra
o poeta tenta uma arriscada ordem
e entre a fábula e a reportagem

simula mentir
para atingir
a superior verdade.

~ Ana Hatherly


Torso
1932
granito
William Zorach
(n. 1889, Lituânia; m. 1966, EUA)
Smithsonian American Art Museum

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Exportações da Grécia

uma série de gráficos que comparam a Grécia antes e depois da entrada no euro, na Bloomberg. Para mim, o gráfico mais interessante é o das exportações para a zona euro vs. resto do mundo.

Depois de adoptar o euro, as exportações para o resto do mundo subiram muito mais depressa após 2006. Para a zona euro subiram um bocadinho; depois, em 2008, tropeçaram e nunca mais recuperaram o nível que tinham nesse ano. Já as do resto do mundo, vê-se o efeito da crise financeira internacional, depois uma forte recuperação e, em 2013, as coisas começaram a correr mal. Os problemas com as exportações são claramente pré-Syriza.

Como é que se explica que os parceiros da UE não comprem mais à Grécia? Parte da explicação são as políticas de austeridade, mas essas políticas afectam mais os rendimentos das pessoas nos países mais pobres da UE. As pessoas nos países mais ricos não perderam assim tanto nível de vida.

Poderei inferir, então, que eram os países pobres que contribuíam mais para o crescimento das exportações gregas dentro da UE? Ou será que houve uma clara intenção dos países ricos não comprarem mais à Grécia? Ou nem pobres, nem ricos, querem consumir grego?

Tão próximos e tão distantes

Estava a ler um pequeno texto na Bloomberg acerca da situação na Grécia estar a deteriorar-se tão rapidamente. Na peça há um gráfico que me fez dar umas gargalhadas. Sim, eu sei que os alemães ganham mais do que os gregos, mas mesmo assim não deixa de ser engraçado que, em termos de dívida pública per capita, estejam tão próximos uns dos outros.

Mas, mesmo rindo-me, há sempre uma coisa no fundo do meu pensamento: a Grécia é um país que pertence ao clube dos países mais ricos do mundo. Se este bloco não consegue encontrar uma solução para o problema sem destruir completamente a Grécia, então que esperança podemos ter para o resto do mundo?

Missionários e pecadores

Telefonei ao meu banco para o meu cartão de crédito ter permissão para ser usado em Portugal. A senhora com quem falei ficou muito feliz quando eu a informei que ia a Portugal. Disse-me que tinha uns amigos missionários em Portugal e eles adoram estar aí. Será que Portugal os converteu? Don't mess with the missionary man, people!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Por falar em tingir bigodes...

Ontem, houve uma grande discussão entre mim e um amigo meu por causa da Grécia e da Alemanha. Eu acho que digo que a Alemanha faz parte do problema e ainda não se decidiu a fazer parte da solução. Ele diz que eu odeio alemães e que há uma alta probabilidade de eu atacar algum durante a minha visita a Portugal.

Eu respondo que ele não percebe nada do que eu digo. Ele acha que eu sou engraçada e, assim, à laia de me desmascarar, pergunta se eu conheço algum alemão. Eu digo que tenho uma amiga japonesa que é casada com um alemão. Ele pergunta se eu conheço o marido. Eu digo que não e noto que ele fica quase todo vitorioso; acrescento que também tive uma penpal alemã, mas não funcionou bem. Ele não se convence...

É óbvio que eu não atacaria nenhum alemão que estivesse a gastar dinheiro em Portugal, dado que é exactamente isso que eu quero que eles façam não só em Portugal, como na Grécia--duh!

No meio disto tudo, esqueci-me completamente do Peter, que é o meu cabeleireiro. Hoje tive uma marcação com ele para ir pintar o cabelo, ou "tingir", como diria o Camilo. O Peter gosta muito de mim, chama-me "buddy", porque eu sou descontraída, rio-me muito, e sei conversar sobre a Europa. Ah, o Peter é filho de um italiano e de uma alemã, tem a cidadania alemã, mas já vive nos EUA desde 1983. Disse ao meu buddy Peter que ia a Portugal e ele deu-me um corte de cabelo todo giraço.

Como de costume falámos de cidadanias e passaportes porque ele nunca adoptou a cidadania americana--diz ele que, como está, pode andar em 28 países, não precisa da americana. Depois, quando eu estava a pagar, mostrei-lhe o meu cartão de cidadão português. Ele disse que nunca tinha visto um. Disse que tinha tido um cartão de identidade da Alemanha, mas quando veio viver para os EUA, os alemães obrigaram-no a entregar o cartão. Se ele não está lá para pagar impostos, não tem direito a um cartão, que é para não ir lá usar os serviços de saúde e segurança social. Só o deixam ter o passaporte.

Depois de se tornar residente permanente americano, o Peter passou cinco anos na Alemanha; quando regressou, os EUA obrigaram-no a pagar os impostos mínimos da Segurança Social para os anos todos que esteve fora, cerca de $10.000 de uma vez só. Digam lá se a América e a Alemanha não são países simpáticos? Eu acho que Portugal nem sabia do meu paradeiro durante anos a fio, depois de eu vir para os EUA.

Eu não me importaria se Portugal me desse a opção de eu contribuir um X todos os anos para poder ter acesso a serviços de saúde depois de eu ter 65 ou 70 anos. Por exemplo, só podia receber cuidados depois do 65 ou 70 anos e pagava €600/ano (actualizados anualmente por causa da inflação) durante um mínimo de 20 anos antes da idade em que começaria a receber cuidados e continuaria a pagar depois dessa idade. Se eu morresse antes dessa idade, podiam ficar com o dinheiro. Parece-me uma ideia interessante para diluir os custos fixos de manter o serviço de saúde nacional. E também serviria de incentivo para eu ir para aí gastar a minha reforma. Claro que, depois dos 65, eu também receberia cuidados nos EUA, logo Portugal não assumiria todo o risco da minha saúde.

Quando ao meu rendez-vous com o alemão, nenhum alemão foi magoado no evento; já a minha carteira levou um rombo de $185 mais $35 de gorgeta. Com que então eu odiava alemães?!?

Blogues, segundo o romantismo

"Oh! Os bigodes tingem-se; mas as frases - madeixas do espírito - são refractárias ao rejuvenescimento dos vernizes."
(Camilo Castelo Brano, A Brasileira de Prazins)

Preços hedónicos

Na próxima semana vou a Portugal. Como marquei com uma amiga que vive em Londres encontrar-me com ela em Lisboa, ontem reservei um quarto num hotel em Carcavelos. Havia várias opções de tipos de quartos, mas cada tipo de quarto podia ser reservado com vista para o jardim ou com vista para o mar. É claro que escolhi um com vista para o mar. A diferença no preço do quarto com vista para o mar e o do quarto com vista para o jardim era de $17 (reservei numa website americana). Fica-se, assim, a saber que o preço hedónico da vista para o mar é de $17/noite/quarto no dia da minha estadia. Se quiséssemos saber o valor total daquela vista num ano, bastava calcular a diferença entre a receita dos quartos com vista para o mar e a dos que têm vista para o jardim.

Hedonic pricing ou hedonic valuation (preços hedónicos ou valorização hedónica) é um dos métodos de valorização de bens ou recursos ambientais, mas também pode ser usado para avaliar características não ambientais. Por exemplo, é muito usado em avaliar características do imobiliário, mas nesse caso convém fazer uma análise mais precisa do que apenas olhar para a diferença dos preços, pois é preciso controlar o efeito de várias variáveis ao mesmo tempo. No caso do meu quarto de hotel, estava praticamente tudo controlado e a única diferença entre os quartos era a vista. O objectivo do método é encontrar um valor para coisas que não são comercializadas em mercados privados. Não se pode comprar apenas uma vista para o mar ou uma localização ao pé do Marquês de Pombal, mas pode-se comprar isso associado a outro bem como uma casa, um apartamento, um quarto de hotel. Ao ver as diferenças de preços entre os bens comercializados com e sem a característica de interesse, podemos isolar o valor da característica.

Há vários outros métodos de valorização de bens não comercializados no mercado, como por exemplo os recursos naturais. Cada método tem vantagens e desvantagens e é adequado para certos tipos de bens e/ou situações. Podem ler mais sobre os métodos de valorização aqui.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A floresta e as árvores

Há uma expressão idiomática americana que diz "you can't see the forest for the trees", quer dizer, há pessoas que prestam tanta atenção às árvores, que não conseguem ver a floresta. Parece-me que esta expressão é muito adequada no caso da Grécia e da UE. Fala-se muito no Tsipras e no que ele faz e não faz. O que ele faz é barulho, mas não tem grande margem de manobra, nem sequer poder de negociação. Quem tem todo o poder de negociação é a Alemanha. Se a Alemanha quisesse que a UE oferecesse um resgate diferente à Grécia, não teria problemas nenhuns em fazê-lo.

Posto isto, não faz sentido falar na credibilidade de Tsipras porque quem não tem dinheiro, nem opções, faz o que lhe deixam, não faz o que quer. Pode tentar fazer outra coisa, pode dizer que vai tentar fazer outra coisa, mas quem sabe avaliar a distribuição de poder na relação, pode muito bem ver quando há bluff e quando não há. Vale a pena, no entanto, pensar na credibilidade de quem tem mais poder porque esses têm poder de negociação e margem de manobra. E quando se tem poder, não faz sentido fazer bluff, especialmente se não há a intenção de seguir em frente com a ameaça porque, se o bluff for chamado e não se fizer o que se disse, a credibilidade vai ao ar. É o caso de Angela Merkel.

Primeiro, a Sra. Merkel dizia que a UE não estava a atravessar crise nenhuma, depois que a crise estava contida e não havia possibilidade de contágio dos problemas da Grécia, depois o problema da Grécia estava resolvido e nem se punha a questão do país sair do euro, depois se os gregos votassem "Não" ao referendo, era provável que saíssem do euro. Ou seja, em que ficamos, Sra. Merkel?

Já defendi aqui que a Grécia não sai do euro por pressão dos EUA. Enquanto Schäuble não quer saber da posição dos EUA na equação, Merkel, apesar de mandar bocas aos americanos, é fiel aos EUA. Henry Kissinger uma vez perguntou "Who do I call if I want to call Europe?" Vladimir Putin também foi confrontado com essa questão quando um avião cheio de europeus foi abatido sobre a Ucrânia. A resposta de Putin: "Barack Obama". É um bocado diferente da forma como José Manuel Barroso tinha interpretado a questão de Kissinger.

Ontem foi um dia histórico para Barack Obama, pois foi anunciado o acordo dos EUA com o Irão. A notícia foi tão inesperada e importante que o drama da Grécia foi relegado para segundo plano. Agora pensem bem nisto: na segunda-feira é anunciado um acordo com a Grécia; na terça-feira é anunciado um acordo entre os EUA e o Irão; na quarta-feira o FMI diz que não quer participar no acordo da Grécia, sem que haja cortes significativos na dívida (esta postura do FMI é interessante porque claramente indica que o FMI não confia na Alemanha).

Estou mesmo a imaginar a conversa entre Obama e Merkel:

Obama: "Querida Angela, se os EUA podem chegar a um acordo de compromisso com o Irão, explica-me porque é que a UE não pode chegar a um acordo de compromisso com a Grécia que seja favorável a ambas as partes?"
Angela: "Não subsidiamos vagabundos."
Obama: "Então explica-me porque é que os cidadãos americanos, que têm seguros de desemprego miseráveis e têm o sistema de saúde mais caro do mundo civilizado e com piores resultados, têm de pagar para proteger a UE militarmente? Não foste tu que sugeriste que os EUA deviam gastar menos em despesas militares e mais no bem-estar dos seus cidadãos? A propósito, não é a Alemanha que tem as forças militares em ruínas? Ouvi dizer que os soldados alemães têm de fazer de conta que cabos de vassoras são metralhadoras durante os exercícios da OTAN. Ainda não gastaste um euro sequer com a crise da Grécia no orçamento alemão, apenas te comprometeste no papel. E já agora, não é a Alemanha o país que mais beneficiou com o euro, ou seja, não tiveram vocês um "free lunch"? "
Angela: "Hmmm?!?"

Pois, eu também não sei a resposta. O que eu sei é que o mandato de Angela Merkel chega ao fim em 2017 e, daqui a cinco meses, celebra-se o seu décimo aniversário no poder. Se a Grécia sai próximo do seu mandato, há bronca na UE, e o projecto europeu se desintegra, toda a sua administração será eclipsada pelo desastre.

Tsipras desafia: “Quem tiver uma solução alternativa que avance e diga qual é”

Este desafio do primeiro.ministro grego é fantástico. Nada como chegar a a uma posição de responsabilidade para se perceber que há muitas alternativas. São é piores. Uma coisa é um esforço para que se faça um debate construtivo na Europa. Outra coisa é a política económica que um pequeno país pode seguir, que está extremamente condicionada pelas restrições externas e pelas restrições orçamentais. Podemos discutir ritmos e pormenores, podemos pedir mais inteligência, mas o que não é razoável é exigir uma política radicalmente diferente.
Lembro-me de em 2012, num debate no Prós e Contras, o Fernando Alexandre ter-se queixado que nunca lhe tinham mostrado alternativas. O seu opositor de debate, um syrizico de que não me lembro o nome retorquiu-lhe que "havia alternativas, mas que não estavam sistematizadas". E andamos nisto há anos.

E, nestes anos, houve muita gente que esteve sistematicamente errada. Assinaram manifestos inoportunos e levianos. Alguns, como Nicolau Santos, até figura de palhaço fizeram. Um deputado do PS defendeu que as pernas dos alemães tremeriam se ameaçássemos não pagar. Viu-se como tremem as pernas.

É natural que quem tantos disparates disse continue a aparecer no debate público. Nem eu desejaria o contrário. Mas, para ganhar credibilidade, seria bom que reconhecesse as tontices que defendeu e dar graças a Deus por ninguém o ter ouvido.

Brincar aos políticos

Chegou-se ao ridículo, em Portugal, do nosso Primeiro Ministro sugerir que Portugal é responsável pelo "sucesso" do acordo da UE com a Grécia. António Costa responde e diz que Passos Coelho só ajudou na 25a hora e com tecnicalidades.

Ter um acordo com a Grécia não é coisa da qual nos devamos vangloriar. Já houve vários acordos com a Grécia e a situação piorou, logo chamar a si responsabilidade por um acordo cujo sucesso não está garantido é uma posição de risco. Se o acordo falhar, o falhanço extender-se-á a Pedro Passos Coelho. Como todos os acordos prévios falharam, a probabilidade deste--que nem sequer foi aprovado nos parlamentos nacionais--suceder é quase nula.

E era este o ponto fraco que António Costa devia ter explorado, mas decidiu que a melhor estratégia era menosprezar o "contributo" de Pedro Passos Coelho. Não percebo como é que este argumento tão fraco prevalece sobre o argumento muito mais forte que eu apresentei.

O nosso Presidente da República, por sua vez, diz que a Grécia fez um "erro estratégico de negociação" do acordo. Também não percebo esta atitude de altivez. O governo grego não tem margem de manobra. Sempre que um acordo é rejeitado, o que a UE oferece a seguir é pior. Como é que eles saberiam que ao rejeitar um, o que viria a seguir seria pior? Só rejeitando...

Os gregos também não têm credibilidade e quem não tem credibilidade tem pouco poder de negociação. Parece que já nos esquecemos que quando nós tivemos a nossa intervenção, tivemos um acordo muito pior do que o que poderia ter sido. Nós também fizemos "um erro estratégico de negociação". Talvez o nosso PR queira elaborar o porquê do nosso acordo ter sido pior do que o que poderia ter sido. Depois do nosso acordo, demorou muito tempo e muitos sacrifícios até a credibilidade de Portugal ser reabilitada. Mas nós divertimo-nos na mesma, pois tivemos uns flirts com o masoquismo: o fiasco da TSU, a demissão de Vítor Gaspar, e a pseudo-demissão de Paulo Portas. Nós eramos tão bons a criar desvantagens como o Syriza, só que fomos um bocadinho mais lentos. A nossa lentidão tem explicação: o actual governo português administrou o nosso bail out logo desde o início, mas o Syriza quando tomou posse herdou a administração anterior, logo começou de um ponto muito menos vantajoso porque os cofres já estavam quase vazios outra vez.

Mesmo que o Syriza fosse o partido e o governo ideal, os que vieram antes dele tiveram um peso muito maior em determinar a forma como os gregos são tratados. E mais: a credibilidade que não foi destruída pelos próprios gregos foi destruída pelos bitaites da Alemanha. O objectivo é duplo: castigar a Grécia e usar a Grécia "pour encourager les autres". Portugal faz o papel de um dos ajudantes do bully da UE.

Rui Moreira, o Presidente da Câmara do Porto, tem razão: Portugal, especialmente o governo, fala demais sobre a Grécia estando o nosso país numa situação precária. Só espero que quando chegar a altura de nós levarmos pontapés outra vez, nos console aqueles que demos aos outros.

Relatividade e preguiça

Não sei se ouviram, mas Jeb Bush meteu o pé na argola. Jeb Bush é o irmão de George e o terceiro Bush a candidatar-se à presidência dos EUA. Sugeriu ele que, para os EUA crescerem a 4% ao ano (Ora, digam lá se ele não é um candidato presidencial ambicioso?), os americanos deveriam trabalhar mais horas.

As pessoas ficaram ofendidas porque os americanos já trabalham muitas horas. Depois ele clarificou, dizendo que queria dizer que os americanos que trabalham a horário parcial deviam trabalhar mais horas. Presume ele que quem trabalha a horário parcial preferia trabalhar a tempo inteiro; se não têm esta preferência são preguiçosos. Nestas discussões, o que se segue é a óbvia constatação de que o trabalho paga impostos mas o tempo de lazer não, logo a solução é reduzir os impostos sobre o trabalho, especialmente sobre o trabalho dos mais ricos, que pagam taxas de impostos mais altas porque também ganham mais dinheiro.

Como eu já estive desempregada involuntariamente várias vezes--a crise financeira foi um "óptimo" exercício de resistência emocional e financeira--, acho esta discussão interessante, mas um bocado aérea. Sim, o trabalho paga impostos e o lazer não, mas o lazer tem o custo de usarmos as nossas poupanças, mais vários custos de oportunidade, como o salário que se prescinde porque não se trabalha e os juros que prescindimos porque temos de usar as nossas poupanças.

Os desempregados involuntários, quando têm direito, têm um seguro de desemprego muito baixo e não dá para ter o nível de vida de um salário normal; para além disso só dura no máximo seis meses (durante a crise financeira, houve extensões). Ainda por cima, sem emprego não há seguro de saúde; tem de se comprar com o nosso próprio dinheiro e agora é obrigatório ter ou então pagamos uma multa. (Mesmo com emprego, nem todas as companhias oferecem seguro de saúde.)

As férias de trabalho normais nos EUA são 10 dias, i.e. duas semanas, mas há companhias que dão um pouco mais ou aumentam o número de dias de férias com o número de anos que se trabalha para a empresa. Note-se que os americanos têm mais feriados do que os portugueses, mas a lei não obriga a que sejam pagos, depende do acordo entre trabalhador e patrão.

Quando eu conto aos meus amigos em Portugal o que é trabalhar nos EUA, toda a gente fica horrorizada, mas gostam dos salários. Quando eu conto aos americanos como é trabalhar em Portugal, os americanos ficam horrorizados com tanto lazer e regalias, e detestam o salário.

Os americanos acham os europeus pessoas muito preguiçosas, pouco ambiciosas, e paparicadas pelo estado. É mais ou menos a ideia que os europeus têm dos gregos.

terça-feira, 14 de julho de 2015

À deriva

Em 1930, Ortega y Gasset publicou o seu livro mais famoso: “A rebelião das massas”. É impressionante a actualidade de algumas das suas intuições. O objectivo de Gasset era fazer um diagnóstico do “nosso tempo”, da “vida actual”.
Para Gasset, o facto mais importante da vida europeia é o advento das massas. A rebelião das massas consiste na obliteração das almas médias. O homem-massa não é tonto; ao invés, tem ideias taxativas sobre tudo, perdeu o sentido da audição, não tem referências, não respeita nada nem ninguém, não tem interesse nenhum pela história - segundo Gasset, é a história que nos distingue dos outros animais ao permitir-nos não ter que começar sempre do zero. O homem-massa só tem direitos e nenhuma obrigação, e está muito satisfeito consigo próprio. É um menino mimado. Isto leva à barbárie no sentido literal do termo: ausência de normas e de possível recurso. Gasset define ainda a subespécie dos “bárbaros especialistas”, pessoas que, por dominarem uma pequena parcela do saber, falam com petulância e autoridade sobre tudo o que desconhecem.
Curiosamente, Gasset achava que a unidade da Europa era inevitável. As nações haviam-se tornado insuficientes e pequenas, era por isso necessário integrá-las numa Europa Unida. Gasset não fazia ideia que tipo de Estado europeu nasceria, mas falava de uma supernação que manteria a pluralidade. De qualquer maneira, Gasset ficaria decerto horrorizado com a actual burocracia europeia, que dedica o tempo a normalizar o tamanho das gaiolas dos grilos e outros assuntos que tais. Talvez volte um dia à visão de Gasset sobre uma "Europa unida", mas não é isso que me interessa agora (uma pessoa começa a escrever com uma ideia e quando dá conta já está a caminho da China).
Gasset achava que viver é “sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo”. É, pois, falso dizer que são as circunstâncias – as possibilidades do mundo - que decidem. Pelo contrário: “as circunstâncias são o dilema, sempre novo, perante o qual temos de decidir. Mas é o nosso carácter que decide.”
Esta ideia aplica-se também à vida coletiva. As escolhas feitas pela sociedade dependem do seu carácter ou do tipo de homem dominante nela. No nosso tempo, domina o homem-massa: “é ele quem decide.”
Especialmente nos países em que o triunfo das massas é mais evidente (nos países mediterrânicos segundo o autor), a vida política é vivida ao sabor dos acontecimentos diários. O poder está nas mãos dos representantes das massas. Estes são tão poderosos que aniquilam qualquer oposição.
O poder público, o governo, vive sem programa de vida, sem projecto. Não sabe para onde vai, porque, em rigor, não vai a lado nenhum, não tem um caminho definido, uma trajectória perceptível. Este poder público não evoca o futuro, refugia-se no presente e assume que o seu modo anormal de governo é imposto pelas circunstâncias. Isto é, pela urgência do presente e não por avaliações em relação ao futuro. Daí que a acção do poder público se reduza a esquivar-se dos conflitos e dos problemas de cada dia ou de cada hora. Não se trata de resolver os problemas, trata-se de escapar aos problemas de cada momento. Para o efeito, recorre-se a todos os métodos e expedientes necessários, mesmo que isso implique acumular problemas e conflitos maiores para o dia de amanhã ou para a hora seguinte. O poder público é sempre assim quando é exercido pelas massas: “omnipotente e efémero”. Segundo Gasset, o “homem-massa não tem projectos, anda constantemente à deriva.”

Irão ou não?

Os EUA se calhar vão ter um acordo executivo com o Irão para limitar o programa nuclear iraniano. Em troca, aliviar-se-ão as sanções ao Irão. Os Republicanos não gostam; acham que é um péssimo acordo, que o Irão irá violar o acordo, e que Barack Obama subverte a Constituição porque quer um tratado sem submeter o documento aos requerimentos de um tratado.

Vale a pena ver qual a diferença entre um tratado e um acordo na lei americana e que pode ser consultada na página do Departamento de Estado americano. De acordo com a Constituição, um tratado é um acordo internacional que obtém uma maioria de dois terços no Senado. Os acordos que não obedecem a essa maioria, mas que são implementados por força constitucional, são "acordos internacionais" ou comummente designados por "acordos executivos". [Note-se que o Congresso americano é composto por duas câmaras: o Senado, que tem 100 senadores, e a Casa dos Representantes, que tem 435 representantes. Cada estado americano tem dois senadores; o número de representantes por estado depende da população de cada estado, que está dividida por distritos.]

Uma parte integrante deste acordo é a inspecção permanente das instalações nucleares iranianas. Estas inspecções serão não só detalhadas, como muito frequentes. Segundo o que foi dito no programa da Diane Rehm, para o Irão construir uma arma nuclear, i.e. violar o acordo, teria de o fazer no espaço de semanas. Qualquer indicação de violação do acordo traria imediatamente a imposição de novas sanções ao Irão.

Os efeitos mais imediatos deste acordo ser conseguido serão no preço do petróleo. De acordo com Neil Atkinson, citado no blogue do Houston Chronicle dedicado ao petróleo, o Irão pode disponibilizar cerca de 40 milhões de barris de petróleo num curto espaço de tempo, ou seja, o preço do petróleo tem o potencial de baixar. O West Texas Intermediate pode baixar para $50/barril; neste momento está a $52.89.

Falta de profissionalismo

Eu não tenho paciência para falta de profissionalismo e, nesse aspecto, prefiro viver nos EUA do que em Portugal. Eu sei que há maus profissionais nos EUA e bons profissionais em Portugal, mas há certas coisas que não devem acontecer nos EUA e, quando acontecem, há consequências. Quando somos mal-tratados por uma companhia nos EUA, como eu fui pela NOS em Portugal, tenho a opção de processar a companhia e os potenciais ganhos compensam o incómodo. Em Portugal isso não existe. Quem processar uma companhia, mesmo tendo razão e ganhando o processo, pode não ser totalmente compensado por todo o incómodo.

A nível pessoal, há uma coisa que se faz em Portugal que é muito estúpida, mas que já me aconteceu várias vezes. Quando não gostam do que eu digo, dizem que eu estou bêbada ou ando enfiada no vinho. Por vezes, dizem a coisa a brincar; outras vezes é mesmo para insultar. A última vez que me aconteceu foi hoje. Como eu afirmei que a estratégia da Alemanha pode ser óptima, mesmo destruindo a Grécia, alguém, que eu respeitava profissionalmente, diz-me "Rita, deixa o vinho e volta aos iogurtes." Que refutem as minhas ideias com argumentos minimamente lógicos, eu aceito. Que sugiram que eu estou embriagada num espaço público--o Facebook--, onde há um rastro do que é dito, é uma ofensa séria à minha reputação profissional.

Vocês podem achar que eu estou a exagerar, mas não estou. Os clientes para quem eu trabalho incluem companhias e indivíduos que exigem um certo nível de reputação. Por exemplo, os meus clientes passados incluem uma das maiores companhias da Arábia Saudita, uma das maiores companhias petrolíferas do mundo, uma multinacional japonesa, etc. Sugerir sequer que eu estou embriagada, quando estou a discutir um assunto de forma séria, afecta a minha pessoa--é difamação--e afecta a reputação das companhias para quem eu trabalho. Eu compreendo que em Portugal, um país pequeno, não se tenha noção da escala das coisas, mas eu não trabalho em Portugal. Eu trabalho na economia global.

Depois, há a questão de género. Eu sou mulher; é difícil para uma mulher conseguir singrar no mundo dos negócios. Um homem que se embriaga é um garanhão; uma mulher que se embriaga é uma vadia incompetente. O universo dos profissionais onde eu trabalho tem cerca de 100 pessoas nos EUA--sim, só há para aí 100 pessoas que fazem o que eu faço num país de mais de 300 milhões. A maior parte são homens, eu sou uma das poucas mulheres. Uma piada que para um homem é inofensiva, para uma mulher pode destruir a carreira. Até literalmente porque eu sou uma Carreira.

Não digam que eu não tenho sentido de humor. Eu tenho muito sentido de humor; mas também tenho muita noção das consequências das coisas. Há coisas que não são engraçadas; são estúpidas.

Adenda: Isto não é dirigido a uma pessoa em particular. É apenas o culminar de vários episódios que me aconteceram.

Partidos políticos

"Um idiota é um idiota.
Dois idiotas são dois idiotas.
Dez mil idiotas são um partido político."

~ Franz Kafka

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Um dia excelente!

Então a Grécia tem um acordo, que é completamente maluco. Quando o drama (re)começou, a minha chefe perguntou-me o que é que eu achava que ia acontecer. Eu disse que ia haver barulho e depois um acordo à moda do costume. E eu estava 100% correcta, ou seja, justifiquei o meu salário. Gosto!

A cereja no topo do bolo é que na Bloomberg acabaram de chamar aos dirigentes da UE de loucos. E usaram a citação do Einstein. Ah, pá, foi o que eu postei no outro dia.

Eu sei que em Portugal temos de ser humildes, especialmente se formos mulheres. Que se lixe a humildade. Hoje foi um dia óptimo para mim...

Afinal era "business as usual"

Sra. Merkel, podia ter dito há mais tempo que toda esta luta de gatos assanhados era normal. Diz Angela Merkel que o acordo em Bruxelas não foi "nada de especial", apenas envolvia muito dinheiro.

Será que posso acreditar em si? Não foi você que anunciou o fim da crise há vários anos e que a saída da Grécia estava fora de questão? O problema das coisas normais é que tendem a recorrer com alguma frequência...

Por falar em normalidade, depois de cinco anos de crise permanente--acho que uma crise permanente de cinco anos deixa de ser crise para ser status quo; mas divago, como de costume--, já observámos alguns comportamentos recorrentes. Acho que o que vem a seguir a um acordo com a Grécia é alguém na Alemanha se virar para Portugal e dizer que nós não andamos muito bem e que podemos muito bem ver-nos gregos!

Caros colegas do Syriza

Tsipras Faces Syriza Mutiny After Capitulating to Demands -- on Bloomberg.

Paralisia moral

“Ser de esquerda é, como ser de direita, uma das infinitas maneiras que um homem pode escolher para ser um imbecil: ambas são, com efeito, formas de paralisia moral.”
Ortega y Gasset (1883-1955), in “A rebelião das massas”


domingo, 12 de julho de 2015

Tragédia grega

Os demagogos foram os estranguladores de grandes civilizações. As civilizações grega e romana sucumbiram às mãos desta fauna repugnante. É muito difícil salvar um povo quando chegou a hora do poder dos demagogos.

De acordo

Carlos V terá dito um dia de Francisco I: “Eu e o meu primo Francisco estamos completamente de acordo: ambos queremos Milão.”

Show me love

Don't let me show cruelty
Though I may make mistakes
Don't let me show ugliness
Though I know I can hate
And don't let me show evil
Though it might be all I take

Show me love
Show me love
Show me love

Don't let me think weakly
Though I know that I can break
Keep me away from apathy
While I am still awake
And don't let me think too long
Of the one I'm bound to face

Show me love
Show me love
Show me love

~ Hundred Waters

A silly season ataca de novo...

Ontem e hoje, o que se tem discutido em Portugal é se a esposa do nosso Primeiro Ministro usou o seu cancro como manobra política. Eu fico boquiaberta com a criatividade de certos portugueses para ideias imbecis; só não percebo como é que não a usam para coisas que dêem dinheiro ao país.

Quando conversava com um amigo sobre o caso de Laura Ferreira, ele mencionou a falta de equidade no tratamento de tragédias. A esposa do Primeiro Ministro de um partido de direita aparecer em público sem uma peruca é aproveitamento eleitoral; a queda da esposa do fundador de um partido de esquerda e antigo Presidente da República, já é uma tragédia nacional. Agora vocês dizem-me que não são coisas comparáveis porque Maria Barroso infelizmente faleceu; a Laura Ferreira ainda está viva. E depois, não se escolhe cair, mas escolhe-se sair à rua sem peruca. E eu retorquirei com dois argumentos:

  • O primeiro não é meu; é da minha mãe. Dizia-me ela: "o único requisito para morrer é estar vivo." E digo-vos eu: respeitem as vítimas de cancro; têm coisas muito mais importantes para tratar do que lidar com argumentos idiotas. Já não basta ter de ser envenenada para combater o cancro, também tem de sofrer o calor de usar peruca em pleno verão ou então não pode sair de casa.
  • O segundo é que, entre a data da queda de Maria Barroso e a da sua morte, passaram alguns dias e ninguém sugeriu que a sua tragédia dava jeito ao PS em véspera de eleições.
Nesta altura, vocês já estão a chamar-me todos os nomes maus que vos vêm à cabeça por sequer sugerir a ideia; eu acho bem, sabem porquê? Porque eu também já chamei esses nomes todos a quem insiste que as mulheres que fazem quimioterapia devem sair à rua de peruca, especialmente se o seu marido está prestes a participar numa eleição. Estão a ver como é fácil reconhecer ideias estúpidas...

E, já agora, quem se incomoda de ver mulheres sem cabelo durante tratamentos de quimioterapia devia ter o mesmo descontentamento para com os homens que perdem o cabelo quando fazem quimioterapia. Ou será que um homem careca já é sexy e não incomoda ninguém?

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Ou almoças com o pai, ou vais preso!

Pelo menos, distraímo-nos dos gregos e chineses. Diz o Washington Post:
"Three Oakland County children who refused to go to lunch with their father, as part of a bitter divorce and custody battle between their parents, are spending their summer in the county’s juvenile detention center, according to court records."
É tão bom viver num país totó...

Isto promete!

Um tweet do Ian Bremmer, president do Eurasia Group:

Uma op-ed de Mohamed El-Erian a dizer que o Tsipras pode muito bem ser brilhante; para já demonstra um talento fascinante para manobras políticas:

Alexis Tsipras, Greece’s charismatic prime minister, has shown a fascinating talent for political maneuvering.

When an impressive electoral victory carried him to office in January, he inherited a horrid economic and financial situation. He initially struggled to gain control, and relations with creditors collapsed in an acrimonious mess. But as Greece teetered on the edge of an economic and institutional abyss, he repeatedly caught everyone off guard by taking charge of a narrative that was slipping away both at home and abroad.

Now, he may be able to deliver what many (including me) thought improbable: a policy deal that is acceptable to the majority of Greeks, the country’s European partners and the International Monetary Fund. Yet, as brilliantly as he appears to have navigated the crisis so far, he still faces an uphill battle that will determine his political legacy.

Justiça disfuncional

Não sei o que vai acontecer a Armando Vara. Mas, a julgar pelo que se tem visto em quase tudo o que envolve a Operação Marquês, muito provavelmente, vai ficar preso.

E, mais uma vez, fico parvo com o nosso sistema jurídico, judicial e penal. Neste momento, existe uma sentença de um tribunal que o condena a 5 anos de prisão efectiva. E, apesar dessa sentença, não está preso. Hoje, arrisca-se a ficar preso por causa de algum crime de que nem sequer foi acusado.

Best. Silly Season. Ever.

Não, este post não é sobre a Grécia, por isso continuem a ler por vossa conta e risco.

Esta entrada é um mergulho na psicose histérica que assola o futebol entre duas temporadas: aquelas curtas semanas entre a final da liga dos campeões e a supertaça cândido oliveira, em que a verdade e a mentira, o boato e o facto passeiam de mãos dadas pelas capas dos nossos jornais (e sites) desportivos. O que este ano faz a diferença é que a verdade e a mentira compraram um cabaz inteiros de cogumelos, e o boato e o facto consumiram mais LSD numa segunda de manhã que os Beatles e os Pink Floyds juntos na década de 60. Preciso de corrigir. Isto não é uma entrada, isto é uma ode ao que de mais patético e fascinante existe no nosso futebol: aquela parte do ano que não pertence a época nenhuma, mas que ainda assim consegue ser a única em que o futebol se discute com o mesmo fervor, seja Terça Feira ao meio dia ou Domingo ao fim da noite, seja a fonte da notícia um comunicado à CMVM, uma coluna do Correio da Manhã ou uma boca mandado por um tio meio bêbado na festa de anos do baptizado do nosso primo mais novo.

Para aqueles que ainda não perceberam o teor épico-trágico-patético desta parte do ano, aqui fica uma dissecação completamente ao calhas dos eventos mais relevantes das últimas semanas.

Capítulo Primeiro: Sporting, o Renascido


O Sporting começa a silly season de bomba atómica em punho e vai buscar o JJ que, aparentemente sempre foi sportinguista, e nem sequer olhou ao dinheiro (que ninguém sabe muito bem de onde veio). O único senão desta jogada de mestre foi o Sporting se ter esquecido que ainda tinha um treinador sob contracto por mais umas épocas. Um tipo jeitoso que até ganhou a taça e fez mais pontos com o Sporting que qualquer outro treinador este século.Mas a coisa lá  se resolveu: primeiro iam despedi-lo por justa causa por ter usado um sobretudo do Sporting num jogo da taça em Fevereiro mas depois lá o entalaram o suficiente até o homem não ter solução que não fosse rescindir por mútuo acordo de modo a não por em causa o seu próximo emprego (em termos de convenções da Organização Internacional do Trabalho, só não quebraram duas!) Tudo tranquilo.

De qualquer forma o Sporting tem o melhor treinador que passou por Portugal desde o Mourinho e por isso torna-se imediatamente mais perigoso - assumindo que o petróleo não seca e começam a ter que pagar em chiclas o ordenado do JJ a partir de Dezembro.

Mas a parte melhor é quando nos apercebemos agora que depois deste episódio épico, o melhor estava ainda para vir: 
O Sporting etretanto muda o Inácio de funções para abrir a vaga para elemento que claramente faltava para formar o tridente mais entusiasmante da história do futebol português: o grande, o único, o temível Octávio Machado, que andava tão afastado do futebol que da última vez que teve um cargo assinalável no futebol o símbolo da Adidas ainda era uma flor e os jogadores ainda usavam todos calções à John Stockton! Para os que ainda não perceberam esta adição, reza a lenda (isto é, diz o próprio Octávio) que foi ele o primeiro a falar do "Sistema". 
Mas porque chamar tridente ou santíssima trindade não é muito Sporting, o Bruno de Carvalho, qual matador, finaliza o hino ao futebol que foi a reformulação da estrutura do futebol do Sporting nas últimas semanas com o único coup de grace possível - contratando para a direção do departamento de scouting (ou departamento de olheiros para os mais tradicionalistas/portugueses), nas palavras do próprio Bruninho, "o pior funcionário que já vi no Sporting". Senhoras e senhores, do Alvaláxia para o Mundo, os Cinco Violinos do século XXI: Bruno de Carvalho, Octávio Machado, Augusto Inácio, Manuel Fernandes e Jorge Jesus!!! Se não ficam com uma lágrima no canto do olho ao ler estes nomes todos na mesma frase não são adeptos dignos do futebol português.

Infelizmente nem tudo são rosas para os lados de Alvalade, e aparentemente não vai ser possível ouvir o JJ a tentar dizer van Wolfsinkel todas as semanas, o Ewerthon já foi contratado e operado, e o Porto "roubou" o Danilo ao Sporting, naquilo que tudo indica foi um exercício de aquecimento enquanto se praparam para roubar o Maxi nas próximas semanas ao Benfica. (Ca%#$es!)

Neste momento o Sporting ganhar os próximos 6 campeonatos seguidos ou declarar falência nos próximos 6 meses são eventos não só de igual probabilidade, mas com probabilidades significativamente diferentes de zero. Só por isto a próxima época já vai valer a pena!


PS: Entretanto o Sporting contratou o Bryan Ruiz, um dos nomes mencionados naquela que é normalmente conhecida como a festa com menos drogas de sempre na história do futebol português. Junte-se isso ao Tanaka, e se calhar o  Bruno de Carvalho é menos original do que se pensa e o plano desde o início era fazer exactamente o que o Futre anunciou, mas com um bocadinho mais de bom senso e um bocadinho menos de piada (e/ou drogas).


Capítulo Segundo: O Benfica, de Ressaca


No meio disto tudo, os benfiquistas que tanto odiavam o JJ ficaram de boca aberta, e entretanto já fomos buscar um treinador com nome de águia, com fama de apostar em miúdos tal como o presidente promete desde 1963, e benfiquista a sério. - com esta tendência, é uma questão de tempo até o Pinto da Costa apresentar provas que o pai do Lopetegui o fez sócio do Porto assim que ele teve idade para aprende a cantar músicas dos Quinta do Bill.

O resto da pré-época tem sido bastante menos agitada que para os lados de Alcochete. O maxi está ameaçar dar uma de JJ e ir para o porto, mas os benfiquistas estãos mais ansiosos para ver a reacção dos adeptos do porto  se isso acontecer do que propriamente tristes, embora eu me sinta muito honestamente mais atraiçoado pelo Maxi do que pelo JJ, e eu fui (e sou) um defensor acérrimo do Jesus.

O Benfica tem tido a pré época mais aborrecida dos três grandes, e isso pode ser bom sinal (depois de ter escrito isto o Rangel veio dizer o mesmo, e fez-me pensar que se calhar percebo mais disto do que eu pensava). 
Além do mais há  claros sinais de encorajamento para os lados da Luz, como a contratação de dois marroquinos que prometem ser uma mistura da dupla Tahar/El Hadrioui (no que ao talento diz respeito) e da dupla Yuran/Kulkov (no que concerne à responsabilidade fora dos relvados)..
Para ajudar à festa o LFV mantém a promessa de apostar no Seixal na mesma semana em que o Benfica anuncia a contratação de 10 jogadores à CMVM de uma só vez. Acusem o presidente do que quiserem, mas não o podem acusar de não ser consistente. #LFV4ever

PS: Parece que "apostar no Seixal" tem sido mal interpretado, e na verdade se refere a vendas por valores exagerados de miúdos da equipa B que nunca se afirmaram na equipa A. Cavaleiro no mónaco por 15 milhões vai dar luta à venda do Cancelo - que segundo alguns sites está avaliado em UM milhão de Euros - na corrida pela prata na competição "negócio manhoso que um dia alguém vai ter que explicar" (Roberto, o ouro será para sempre teu!)


Capítulo Terceiro: No Porto, "business as usual"


Semana: I - O Porto vai ficar sem o Casemiro, o Danilo, o Torres. Com jeitinho o Alex Sandro e o Jackson saem, e lá se vai a espinha dorsal da equipa. O Lopetegui vai ter que construir meia equipa outra vez enquanto nós ainda não vendemos ninguém. #RumoAo35

Semana II - Parece que o Jackson sai mesmo. Pimba. Maxi no Porto? Nem pensar, isto são jogos de bastidores do agente dele...O porto vai pagar 20 milhões por um gajo do Marselha. O campeonato é nosso!

Semana III - Olha, roubaram o novo William ao Sporting mesmo debaixo das garras deles. Isto quando é aos outros tem muita mais piada! E o gajo do Marselha parece que é mesmo craque, e só vem para o Porto por desentendimentos em Milão...tu queres ver que estes filhos de uma... Casillas?! O quê!??! Tá tudo tolo???

Semana IV -  Isto do Casillas é a sério. E o maxi parece que vai mesmo acabar lá. Queres ver que vamos ficar em terceiro? Calma, respira, abre o site da bola, e relembra-te que o Varela renovou por três anos, porque é um jogador à Porto, com experiência da casa, na linha de lendas como Jorge Costa, Vitor Baía ou Bruno Alves. Mas em melhor, porque no ano passado conseguiu representar monstros do futebol europeu como o WBA e o Parma (que entretanto faliu).  E pode ser que o Maxi no Porto leve amarelos, e que o Casillas seja uma maçã podre no balneário com um salário 10 vezes maior que os outros. A esperança é a última a morrer!!

Capítulo Quarto: Cenas aleatórias que não cabiam nos três primeiros


Primeiro, em jeito de conclusão, este pode ser o campeonato mais nivelado por cima de que há memória. Mas como bom benfiquista quero é que o nivelamento se f%#a, desde que dê para a malta dar um saltinho ao marquês em Maio.

O Conceição, solidário com o Marco Silva depois de terem comido uma chouriça no Jamor a seguir à final da taça, lá conseguiu arranjar maneira de ser despedido por justa causa também. Entretanto o Paulo Fonseca já o substitui nesse grande clube que é o Futebol Clube de Braga.

Neste defeso clubes da primeira liga já transacionaram jogadores com nomes tão incríveis como: Esfoma, Alef, Bebé, Bazzoffia (a sério que não inventei este!), Roniel, Billal, Gideão, Crislan, Imbula, Nené Bonilha, Erick Irágua ou o grande Marco Baixinho!

Entretanto ,lá fora...

...o Chile ganhou em casa, o Messi continua em branco pela seleção, mas o único destaque da competição é obviamente a notícia: "Jara pode ser banido da Copa América por meter o dedo no rabo do Cavani". Será que lhe deram medalha na mesma?

Já os nossos miúdos perderam a final contra a Suécia, mas depois desta entrevista é díficl achar que os suecos não mereceram ganhar. Convém relembrar que este é o mesmo país que o Zlatan decidiu abençoar com a sua nacionalidade. Ganda Suécia!

E Julho só começou agora. Se isto na Grécia der mesmo pro torto, o Bruno de Carvalho vai andar a rir-se do Marco Silva o resto do mandato. Como diriam uns amigos nossos, é "um clube diferente"!