sábado, 23 de fevereiro de 2013

"Soma"

Em 1932, Aldous Huxley publicou o livro “Brave New World” (Admirável mundo novo, na tradução portuguesa). A história passa-se em 2500. O autor pretendia descrever com cinco ou seis séculos de antecedência a sua visão da evolução da sociedade, ciência e economia. Todavia, no prefácio da 2.ª edição em 1946, o autor considerava que a realidade se tinha aproximado com incrível rapidez da ficção, estimando que bastariam mais três ou quatro gerações para que coincidissem.
No “Admirável mundo novo”, os anos são contados a partir de (Henry) Ford, o inventor da sociedade de consumo: “Quanto mais altos forem os salários, mais fácil será a venda.”O planeta é governado por uma oligarquia. Reina a técnica e a ordem. Graças à genética, realizaram-se grandes “progressos”. A família desapareceu. A reprodução faz-se por clonagem. A promiscuidade sexual é desenfreada. O sistema cultiva o horror da beleza e do gratuito. As crianças são ensinadas a detestar os livros e as flores. Como é necessário ter tudo controlado, em caso de desânimo receita-se um tranquilizante infalível: o “soma”.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Cata-Ventos e “immobiles”


Em França, no outono de 1815, no rescaldo da derrota de Napoleão em Waterloo, um editor livreiro parisiense, Alexis Émery, teve a ideia de publicar um “Dictionaire des girouettes”. Ia-se na décima segunda mudança brutal de regime e de poder desde a revolução de 1789. O Dictionaire reunia as notas biográficas de homens políticos conhecidos, de altos funcionários, de académicos, de bispos ou de generais em actividade desde a revolução. Essas notas baseavam-se nos discursos e nos juramentos de toda essa gente ilustre na sequência de várias reviravoltas. Era atribuído um “cata-vento” por cada renegação. O Dictionaire contava um milhar de nomes. Entre eles, Talleyrand, Fouché e o académico Fontanes contabilizavam cada um o número recorde de doze cata-ventos, ou seja, haviam mudado de campo ou posição pelo menos 12 vezes no período em análise. A média era três. O livro teve um êxito enorme - fizeram-se três edições até ao final de 1815. Atraído por estes resultados, um concorrente teve a ideia de confeccionar um “Dictionaire des immobiles”, ou seja, dos personagens que não tinham renegado as suas convicções. Teve a maior dificuldade em encontrar 30 nomes, dos quais só um era conhecido, o marquês de la Fayette.
Trinta imutáveis contra mil cata-ventos: uma lição interessante.