quarta-feira, 28 de março de 2012

Os anos vão passando

Este é um bom vídeo dado que contextualiza a carga policial, mostrando os três minutos que a antecederam. É triste ver como os anos passam, mas a nossa polícia continua a besta de sempre. Começa a carga logo a espancar um jornalista. Não há como disfarçar, muitos dos nossos polícias são uns criminosos:

domingo, 25 de março de 2012

Endividamento e colapso

Niall Ferguson em Civilização, o Ocidente e os Outros relembra que os colapsos de países ou impérios são, regra geral, “precedidos de desequilíbrios agudos entre as receitas e as despesas, bem como por dificuldades de financiamento da divida pública”. São vários os exemplos adiantados pelo autor.

No século XVI, a Espanha, durante a monarquia dos Habsburgos, estava atolada em dívidas – por exemplo, em 1543, quase dois terços das receitas ordinárias destinavam-se a pagar os juros dos empréstimos, em 1559 os juros já excediam as receitas e em 1584 a situação não era muito melhor, com os juros a engolirem 84% das receitas. Verificava-se um problema semelhante nas vésperas dos Bourbons serem apeados do poder e de lhes cortarem a cabeça em 1793 na guilhotina - uma das invenções da revolução francesa de 1789. A título ilustrativo, refira-se ainda o caso do império Otomano no século XIX ou da Grã-Bretanha entre 1945 e a crise do Suez em 1956, que provou definitivamente que não podia continuar a desafiar os Estados Unidos no Médio Oriente.

Entre 2001 e 2011, a dívida federal americana passou de 32% para 66% do PIB. De acordo com projeções do Congressional Budget Office, “a dívida poderá subir acima dos 90% do PIB até 2021 e chegar aos 150% até 2031 e 300% até 2047." Pior ainda: estes números não incluem “os estimados 100 biliões de dólares de passivo não financiado do Medicare e da Segurança Social, nem incluem os défices estaduais, nem o crescente passivo dos regimes de pensões dos funcionários públicos”. Tudo somado, a posição fiscal dos EUA era pior do que a da Grécia em 2009, com um rácio dívida/receita de 312%.

Estes números são assustadores. Mas, no reino da estabilidade financeira, o papel da percepção é fundamental. Por várias razões, em 2010, Portugal, a Grécia e a Irlanda perderam a credibilidade perante os investidores em títulos. Até ao momento, os mesmos investidores continuam a acreditar na capacidade dos EUA se desenvencilharem da alhada em que se meteram. Esta complacência pode até persistir por um período bastante longo – afinal de contas, os EUA não conseguiram converter os brutais défices fiscais dos anos 1980 em superavit nos anos 1990? Para quê preocupar-se agora? O problema é que esta fé pode desparecer de um momento para o outro. Basta uma má notícia, aparentemente irrelevante – sei lá, uma descida do rating, declarações de responsáveis chineses, enfim, ninguém sabe –, e, de repente, deixarão de ser apenas meia de dúzia de especialistas a preocuparem-se com a viabilidade da política fiscal americana. Subitamente, essa preocupação poderá alastrar a todos os americanos e, pior, aos investidores.

Niall Ferguson manifesta muitas dúvidas sobre as famosas teorias de ascensão, crescimento e queda de civilizações e impérios. Os impérios não costumam cair depois de um longo torpor, mas sim subitamente – o Império Romano desfez-se numa geração e o Soviético “caiu de um penhasco” em vez de entrar suavemente em declínio. Apesar dos historiadores gostarem de retrospetivamente apurar as múltiplas causas e determinantes de quedas e colapsos, Ferguson acredita que as civilizações, como todos os sistemas complexos, podem caminhar subitamente da estabilidade para a instabilidade: “as civilizações são sistemas complexos que mais tarde ou mais cedo sucumbem a avarias súbitas e catastróficas em vez de percorrerem um ciclo modorrento da Arcádia ao Apogeu e do Apogeu ao Armagedão”.

O elevado endividamento colocou os EUA numa posição de alto risco e a administração Obama anda a brincar com o fogo ao seguir políticas expansionistas. Niall Ferguson não se tem cansado de alertar para os perigos que isso encerra, tendo inclusive entrado em polémicas violentas com Paul Krugman. Quando se brinca com o fogo, corre-se o risco de provocar um incêndio, que neste caso teria dimensões catastróficas.

‘Thinking, Fast and Slow’ de Daniel Kahneman

Já li cerca de dois terços do livro de Daniel Kahneman. O livro é, de certa forma, uma autobiografia científica do autor. Conduz-nos ao longo de 4 décadas de investigação científica sobre a Teoria da Decisão.
O livro é denso. Não que seja difícil de ler, mas é cheio de sumo. Por exemplo, o que Malcolm Gladwell nos diz num livro inteiro, Blink, é explicado com bastante mais profundidade por Kahneman em apenas um capítulo. Apesar de pontuado com algumas pequenas histórias pessoais, em cada página é descrita pelo menos uma experiência, levada a cabo por ele ou não, bem como as suas conclusões e implicações. Kahneman tem também capacidade para mostrar que, por mais que lhes tente escapar, todos os ‘erros’ e irracionalidades que as pessoas cometem também se aplicam ao leitor. É um livro que nos faz pensar e questionar a nossa inteligência a cada página. Deve ser desesperante para quem se tem em grande conta.
As implicações da investigação de Daniel Kahneman para a teoria económica são profundas. O prémio Nobel da Economia que recebeu, o segundo entregue a um psicólogo, é de uma justiça inquestionável. Devo dizer que a forma como a investigação de Kahneman foi aceite na ciência económica deixa ficar bem a comunidade académica. O próprio autor confessa-se admirado com a facilidade com que publicou nas melhores revistas de economia (Econometrica e American Economic Review) resultados que tinham a potencialidade de abalar os alicerces da Economia. Numa época em que a academia de economistas é tantas vezes acusada de ser monolítica e de não aceitar visões heterodoxas e contributos das outras ciências, é bom verificar que não é assim. Ou, pelo menos, nem sempre. No caso de Kahneman, e como tantas vezes aconteceu, o paradigma neoclássico parece capaz de absorver e incorporar as críticas que recebe.
Independentemente destas minhas considerações sobre a comunidade académica, e que são, obviamente, discutíveis, o livro é mesmo bom e vale mesmo a pena ler. As primeiras 100 páginas são um pouco monótonas, pois visam dotar o leitor dos instrumentos teóricos que lhe permitam ter grelhas de leitura para tudo o que vem a seguir. E o que vem a seguir é fascinante. Ou não fosse Daniel Kahneman uma das pessoas que melhor percebe o funcionamento da mente humana.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Um feliz Dia do Pai


A todos os autores e leitores da Destreza com descendência desconhecida ou incógnita, desejo-vos um bom Dia do Pai.
Faço-o em nome dos vossos filhos que vocês desconhecem e em nome dos filhos que vocês conhecem, mas que chamam pai a outro.

O Monstro

Tive imensas dificuldades em encontrar o artigo d’o Monstro, de Cavaco Silva. Foi um aluno que mo deu. Pelos pedidos que recebi, percebo que outras pessoas gostariam de ter este artigo e não o conseguem encontrar. Assim sendo, disponibilizo aqui o artigo.

O Monstro 
Cavaco Silva, Diário de Notícias, 17 de Fevereiro de 2000

Na ciência económica há um modelo explicativo do crescimento das despesas públicas em que o estado é visto como um monstro de apetite insaciável para gastar mais e mais. É o modelo do Leviatão. São várias as razões apresentadas para justificar o apetite do monstro: 
- os ministros estão convencidos de que mais despesas públicas trazem-lhes mais popularidade e votos, porque assim podem distribuir mais benesses e ser simpáticos e generosos com os grupos que comem à mesa dos orçamentos dos seus ministérios; 
- os burocratas, os directores da Administração Pública, lutam pelo aumento das despesas controladas pelos seus departamentos, porque isso lhes dá poder, influência e estatuto; 
- os grupos que beneficiam directamente com os gastos do Estado estão melhor organizados do que os contribuintes que pagam os impostos e pressionam os políticos para mais despesa pública; 
- muitas pessoas pensam que os serviços fornecidos pelo Estado não custam nada, porque sofrem de ilusão fiscal e não se apercebem de que as despesas têm sempre de ser financiadas com impostos, presentes ou futuros.

Há indicações de que hoje, em Portugal, o monstro anda à solta, atinge um tamanho alarmante e está incontrolável. O orçamento para o ano 2000, em discussão na Assembleia da República, é a prova disso. As despesas públicas apresentam um crescimento enorme e correspondem a mais de metade da produção nacional no ano. Pensa-se, contudo, que a dimensão do monstro é ainda maior que a retratada no orçamento apresentado pelo Governo. Com efeito, muitas despesas públicas fogem ao orçamento votado pela Assembleia da República, Esta parte escondida do monstro não é desprezível, devendo atingir centenas de milhões de contos.

Por outro lado, é amplamente reconhecido que o crescimento das despesas do Estado tem alimentado desperdícios e não se tem traduzido em melhoria dos serviços públicos prestados à população. Repare-se, por exemplo, nos relatórios do Tribunal de Contas que têm sido divulgados, onde sobressaem as ineficiências e fraudes na utilização dos dinheiros públicos. O aumento da despesa pública tem servido, acima de tudo, para satisfazer o apetite voraz do monstro e alargar a sua camada de gordura.

Quer isto dizer que mais de metade da produção que os Portugueses realizam é hoje desviada para alimentar o monstro. Os benefícios do aumento das despesas do estado que resultam dos serviços públicos (como educação, saúde ou segurança) ou da redistribuição do rendimento são claramente inferiores aos custos que os indivíduos suportam através do pagamento de impostos.

Durante algum tempo, as forças políticas mais à esquerda apoiaram o crescimento das despesas do Estado, convencidas de que daí resultava uma redução das desigualdades. Essa ilusão foi destruída pelo fenómeno da globalização e da integração económica e financeira. A liberdade dos movimentos de capitais com o exterior e a concorrência fiscal entre os países fizeram com que o crescimento das despesas seja financiado principalmente com impostos sobre o trabalho e não à custa dos rendimentos do capital. Hoje não há dúvidas de que o crescimento do monstro destrói riqueza e agrava as desigualdades na distribuição do rendimento. Penso que o Ministério das Finanças está consciente de tudo isto e está cheio de medo do monstro. Já o anterior Ministro das Finanças, no final do seu mandato, confessava, desalentado, que não tinha conseguido controlar o crescimento das despesas correntes do estado, porque dentro do Governo havia fortes lobbies a favor do monstro. A própria Comissão Europeia, no seu «Relatório sobre a Situação em Matéria de Convergência e respectiva Recomendação com Vista à Terceira Fase da União Económica e Monetária», salienta que Portugal foi o único país da União em que o monstro cresceu na caminhada para o euro. Não tenho dúvidas de que alguns membros do Governo do actual Ministério das Finanças conhece bem o perigo que o monstro representa para a economia nacional e é provável que o seu silêncio e olhar triste seja não só um sinal de medo, mas também um apelo para que os ajudem a enfrentar a besta. O próprio ministro confessou há dias que tinha adiado para o próximo ano o combate ao monstro. Não me surpreende esta atitude, porque eu próprio a tinha antecipado num artigo que tinha publicado no DN no início da presente legislatura, em que me pronunciava contra a decisão de reunir sob o comando de um só ministro as áreas das finanças e da economia. O retrato do monstro que emerge do orçamento para o ano 2000 é a demonstração inequívoca de que foi uma decisão errada.

Mas o apelo mais lancinante chega-nos da Senhora Ministra da Saúde: «Mais dinheiro para a saúde só piora a situação do sector.» A Senhora Ministra sabe do que fala, conhece o monstro, pois foi Secretária de Estado do Orçamento e é uma reputada especialista de finanças públicas.

No ponto em que nos encontramos, só os partidos da oposição podem responder a estes apelos angustiantes, mas igualmente corajosos, e ajudar o Ministério das Finanças a enfrentar o monstro. Não devem deixar de fazê-lo, porque a situação é grave. Os interesses meramente partidários devem ficar de lado. Deixar o monstro continuar à solta é contribuir para destruir a riqueza nacional, prejudicar o crescimento económico do País, agravar as injustiças e impedir que o nível de vida dos Portugueses se aproxime da média europeia. A urgência em conter o crescimento das despesas do Estado sobreleva tudo o mais.

Há três contributos que a oposição pode dar para ajudar o Ministério das Finanças: 
- votar contra o aumento da carga fiscal que o orçamento para o ano 2000 inclui, por forma a reduzir o fluxo de combustível que alimenta a fúria do monstro; 
- impedir que as receitas das privatizações sejam utilizadas para financiar as despesas públicas, não tanto porque isso seja ilegal face à legislação portuguesa e comunitária, mas para impedir que o monstro, para além de devorar mais de metade da produção nacional, engula também património acumulado ao longo dos anos. 
- pedir ao Senhor Ministro das Finanças que elabore um novo orçamento, dando-lhe a garantia de que pode contar com o apoio dos partidos da oposição no combate pelo emagrecimento do monstro. O ministro sentir-se-á então com mais força para desembainhar a espada e cortar-lhe a camada de gordura, eliminando alguns desperdícios nos gastos do Estado. Deve exigir-se que seja um novo orçamento, mas verdadeiro, sem artifícios contabilísticos e défices ocultos.

É perigoso adiar este combate. Se no primeiro ano da legislatura, e sem que ocorram eleições autárquicas, o Governo prevê que as despesas correntes do Estado aumentem a uma taxa dupla da do produto, o que não será quando nos aproximarmos das eleições?

Receio bem que o monstro atinja uma tal dimensão que o combate, depois, não se faça sem muitos feridos quer do lado do Governo, quer do lado dos partidos da oposição, sem falar nos estragos causados à economia nacional e ao bem-estar dos Portugueses.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Empobrecer ao sol

É mais fácil ser pobre quando há sol, dizia o injustamente esquecido Albert Camus.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A nossa Cassandra bem teima em avisar-nos

Medina Carreira andou durante anos a pregar sozinho (ou quase) no deserto. Era visto pelas luminárias cá do sítio com um certo desdém e soberba. Enfim, era o maluquinho da aldeia que ninguém levava a sério. Eis senão quando o mundo nos caiu em cima, ainda antes do anunciado pelas suas piores profecias. Agora, o povo temente ouve-o com atenção. E ele não desilude a plateia.

Na TVI, fala todas as semanas das pragas que nos assolam e convida, para o efeito, reputados especialistas na matéria. E a verdade é que às vezes Medina Carreira até parece mais moderado do que os convidados de honra. Ontem, o tema era as parcerias público privadas (PPP). O Prof. Avelino Jesus explicou que esta praga está concentrada em projectos de rodovias (80%) e irrompeu em 1992 com Cavaco Silva. Alastrou pouco nos governos de Guterres, mas nos últimos três anos - já, portanto, em plena crise – a coisa tornou-se sinistra, com o governo de José Sócrates a assinar um terço do total das PPP existentes.

Avelino Jesus acusou o Tribunal de Contas de inércia, uma vez que passou vistos prévios favoráveis a todas estas negociatas. Um dos problemas é que estes contratos assinados pelo Estado são quase indecifráveis para o comum dos mortais e, desgraçadamente, para a maior parte dos quadros da função pública. Mas não para os técnicos dos "parceiros" privados, que se preparam e arranjaram entretanto os melhores especialistas no assunto. Não se sabe neste momento ao certo quanto é que o Estado terá de pagar nas próximas duas ou três (?) décadas em rendas por esta aventura ruinosa – fala-se entre 50 a 85 mil milhões de euros. Estima-se que a taxa de rentabilidade dos "parceiros" privados é de 16 a 17%, uma brutalidade, sobretudo para os tempos que correm.
De qualquer maneira, e independentemente dos constrangimentos legais, as PPP terão forçosamente de ser renegociadas, ainda que pelos piores motivos: o Estado não tem dinheiro e seria socialmente insustentável continuar a espremer o Zé Povinho sem beliscar os “parceiros” privados.

Houve muita imprudência e incompetência do Estado nesta história e sabe-se lá que mais. Não por acaso Medina Carreira aproveitou para anunciar que o tema da próxima semana é a responsabilidade criminal dos políticos. Manifestamente um tema que merece ser discutido.

sábado, 10 de março de 2012

História do futuro

Só existe uma amostra da história humana. Além do mais, as “partículas” desta vasta experiência têm consciência, uma consciência enviesada por toda a espécie de preconceitos cognitivos. Isto significa que o seu comportamento ainda é mais difícil de prever do que se fossem partículas rodopiantes, insensíveis e negligentes. Uma das muitas subtilezas da condição humana é as pessoas terem evoluído para aprenderem de forma quase instintiva com as suas experiencias. Por conseguinte, o seu comportamento é adaptativo, muda com o tempo. Não vagueamos, caminhamos por trilhos e o que encontramos vai determinando a nossa escolha de direção a cada bifurcação.

Sendo assim, o que podem os historiadores fazer? Em primeiro lugar, emulando os cientistas sociais e apoiando-se em dados quantitativos, os historiadores podem estabelecer “leis de cobertura” conforme são definidas por Carl Hempel: afirmações gerais sobre o passado que parecem cobrir a maioria dos casos (por exemplo, quando o poder fica nas mãos de um ditador em vez de um líder democrático aumentam as probabilidades de o país entrar em guerra). Ou então – embora as duas abordagens sejam mutuamente exclusivas -, o historiador pode comunicar com os mortos reconstruindo de forma imaginativa as suas experiencias (…) Estes dois modos de investigação histórica permitem-nos converter as relíquias do passado em história. Um corpo de conhecimento e interpretação que ordena e ilumina retrospectivamente a condição humana. Toda e qualquer afirmação preditiva séria sobre futuros possíveis baseia-se, de forma implícita ou explícita, num desses procedimentos históricos ou em ambos. Caso contrário, vale tanto como um horóscopo de jornal.

Niall Ferguson, Civilização - O Ocidente e os outros

O passado é indispensável

O ex-presidente da universidade onde ensino confessou uma vez que, quando estava no Instituto de Tecnologia do Massachussets, a mãe lhe tinha implorado que fizesse pelo menos uma disciplina de história. O jovem e brilhante economista retorquiu petulantemente que estava mais interessado no futuro do que no passado. Com o tempo descobriu que era uma preferência ilusória. Não existe futuro, existem futuros. É certo que existem múltiplas interpretações da história, nenhuma delas definitiva, mas só existe um passado. E embora o passado seja algo de terminado, há duas razões que o tornam indispensável para compreendermos o que estamos a vivenciar e o que nos espera amanhã e depois. A primeira é que a população mundial é aproximadamente 7% de todos os seres humanos que já viveram. Por outras palavras, há mais mortos do que vivos, catorze para um, e é perigoso ignorarmos a experiencia acumulada de uma maioria tão grande da humanidade. Segundo, o passado é a nossa única fonte de conhecimento verdadeiramente fiável sobre o presente fugaz e sobre os múltiplos futuros que temos pela frente, dos quais somente um se concretizará.

Niall Ferguson, Civilização - O Ocidente e os outros

segunda-feira, 5 de março de 2012

O ruído do mundo

Sábado, José Pacheco Pereira (JPP) no seu artigo do Público relembrava a velha regra de Max Weber: a maioria das acções dos políticos “tem resultados exactamente opostos ao pretendido. Aplica-se também aos economistas a fazer política.”

Uma verdade confirmada repetidamente pela história. Um exemplo. Nos idos anos 1990, Cavaco Silva e o grosso dos economistas indígenas acreditavam que a adesão de Portugal à moeda única aumentaria a competitividade nacional. O raciocínio era simples. As empresas seriam forçadas a centrar a sua competitividade nos ganhos de produtividade, uma vez que ficariam sem a muleta das desvalorizações cambiais. Como é sabido, não foi nada disso que aconteceu. Os grandes grupos, como a Sonae, direccionaram, muito racionalmente, os seus negócios para os chamados bens não transaccionáveis (consumo interno), até porque o euro fez subir o preço das nossas exportações, ou seja, tornou-nos menos competitivos.

Em contrapartida, a adesão ao euro provocou uma bebedeira de crédito e, por consequência, de endividamento público e privado devido à descida acentuada das taxas de juro.

Retrospectivamente, parece incrível que ninguém – ou quase ninguém – tenha previsto a catástrofe. É o “ruído do mundo” que provoca este desacerto entre as intenções (e previsões) e os resultados obtidos, relembra-nos uma vez mais JPP.

Se as actividades das sociedades de mercado resultassem apenas de leis económicas, a ciência económica poderia prever e agir. Mas manifestamente não é esse o caso. Há de facto demasiado “ruído no mundo”.

Só num ponto JPP parece estar equivocado. Os economistas – pelo menos, os que merecem esse epíteto - estão fartos de saber disso.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Vivências a Norte

Vou ter a minha casa invadida por portistas para verem o Benfica-Porto. Este é o tipo de merdas que só no norte acontece.

The office

Vi há alguns anos todos os episódios da série inglesa The Office. Só muito recentemente comecei a ver a versão americana, que começou em 2005 e já vai na oitava série. Para minha surpresa, esta consegue superar a original. O genial Richy Gervais continua a ser o autor, mas os actores são melhores, destacando-se Steve Carell, provavelmente o melhor actor de comédia da actualidade.

A meu ver, não é exagero considerar The Office a coisa mais original que apareceu, em termos humorísticos, desde os Monty Phython. Steve Carell é Michael, um chefe incompetente e idiota que tenta ser um gajo porreiro e engraçado como forma de compensar a sua inépcia. O problema é que as suas piadas e brincadeiras são um desastre, ofendendo constantemente os outros. E não há nada mais triste do que querer ser engraçado e não ter graça nenhuma. Curiosamente, o segredo da série está aí e na grande probabilidade de todos nós já termos tropeçado nalgum Michael e companhia.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Pedido

Caros leitores,
Será que alguém me consegue arranjar o famoso artigo de Cavaco Silva, sobre o Monstro, publicado no Diário de Notícias em finais de 2000?

PS Entretanto um leitor já me enviou o artigo. Muito obrigado a todos os que ajudaram.