quarta-feira, 1 de abril de 2015

Finalmente, uma razão para ir a Londres...

Nunca fui a Londres a sério, apenas passei uma noite perto do aeroporto de Heathrow durante uma layover. Acho que foi nessa viagem que vi a Donatella Versace no Heathrow. Coitada, as cirurgias plásticas não a ajudaram nada, e ela é baixinha e magrinha que nem um espeto. Se ela é sexy, eu sou a coisa mais un-sexy que existe e fico feliz por isso.

Pseudo-Londres foi assim: quando aterrei em Londres, estava nublado e eu tinha partido de um Portugal com um sol radiante, então perdi toda a vontade de ir ou voltar a Londres. Fui a um pub comer fish and chips. Não é como o nosso peixe, caramba! Um carapau frito é bem mais saboroso. Também percebi uma coisa muito importante a meu respeito: eu devo ter uma sensibilidade qualquer à luz e não sobreviveria num sítio como Seattle, onde está sempre nublado e chove a potes, ou Londres. O sul dos EUA é bom para mim e Portugal também. Adoro chuva, tempestades, núvens, etc., mas não posso exagerar, senão fico triste e deprimida. Preciso de sol...

Há pessoas que pensam que eu sou triste e deprimida por natureza porque eu sou muito calada. Confundem a minha introversão com muita coisa, até dizem que eu sou uma pessoa aborrecida, pouco interessante, preconceituosa, insegura... A opinião dos outros a meu respeiro diverte-me bastante porque eu acho que dentro da minha cabeça há um mundo muito interessante, que me excita imenso. Talvez seja por isso que eu seja introvertida. Ou talvez ser introvertido seja ser uma espécie de camaleão, nós somos coisas diferentes com diferentes pessoas; ou será qualquer coisa inversa a isto, do tipo "Nós não vemos as coisas como elas são; nós vemos as coisas como nós somos." (in "The Seduction of the Minotaur" de Anaïs Nin)? Há uma teoria que diz que a introversão é uma característica de auto-preservação resultante do processo de selecção natural da espécie humana. As pessoas introvertidas ou tímidas são menos ameaçadoras e, como tal, menos susceptíveis de ser atacadas, logo isso aumenta a sua probabilidade de sobrevivência.

Depois, há a minha aparência física. Para a minha cara, que é bolachuda (isto é óptimo para a prevenção das rugas), eu tenho uma boca muito pequena, logo não tenho um sorriso género Whitney Houston. Uma boca pequena também não dá muito jeito no dentista, ainda por cima porque eu vomito com muita facilidade. Lembrei-me, no outro dia, que deveria ser obrigatório os dentistas dizerem o tamanho das suas mãos antes de nos aceitarem como pacientes. Os meus lábios são muito pequenos, apesar de carnudos, e a sua forma natural faz um arco virado para baixo, género :-(. E como eu sou mais baixa do que a maioria das pessoas, elas vêem a minha boca de cima, o que exagera o arco. Então, concluem que eu sou uma pessoa triste ou que estou chateada e não quero estar com elas. Note-se que nós também temos a tendência a identificar líderes como sendo pessoas mais altas do que o normal. Por exemplo, há estudos que indicam que homens altos têm mais sucesso do que homens baixos. Por esse prisma, estou, naturalmente, lixada.

O meu modo de ser e a minha aparência física têm grandes repercussões na minha vida profissional. Quando eu vou a entrevistas, presumem que eu não sou uma pessoa dinâmica e que não estou interessada no emprego. Não é assim que eu funciono, porque eu só me candidato a empregos que eu acho interessantes. Mas quem não me conhece não tem essa informação--a bem dizer, até quem me conhece, não me conhece. Para além disso, eu interesso-me por muitas coisas, o que implica que quem vê o meu CV não identifica nenhuma especialização em particular, logo não entende muito bem o que eu sou profissionalmente. Por exemplo, um dos Vice-Presidentes no meu emprego anterior, quando me apresentava a clientes, dizia que eu era, género, "pau para todo o serviço". Mais ninguém tinha os meus talentos em análise quantitativa, línguas, e afinidade com pessoas de backgrounds diferentes. Mas a pessoa que me contratou apreciou-me mais pela análise quantitativa, que era o que lhe interessava. Por acaso, ele conseguiu identificar isso do meu CV.

Quando me convidaram para eu considerar o meu emprego actual--note-se que eu trabalho para uma mulher e eu já tinha trabalhado para ela antes--, eu perguntei porque é que ela estava interessada em mim e não numa das outras pessoas que trabalhavam na nossa equipa no outro emprego. E a minha futura chefe, que também foi minha chefe no passado, disse que uma das razões foi que o emprego anterior era um emprego dominado por homens e eu entrava numa reunião, numa sala cheia de homens (20 e 30 homens), e não me deixava intimidar por nenhum. Às vezes, quando há clientes que nos visitam, a minha chefe diz-lhes que eu sou uma pessoa muito serena, mas que sou muito sagaz, logo para eles não se deixarem enganar pela minha serenidade. Para ela, a minha introversão é vista como uma forma de serenidade.

Como estamos em Abril, há pessoas que estão a preparar-se para acabar o curso e já estão a enviar CVs para arranjar emprego. Quando forem a entrevistas, lembrem-se de que a entrevista não é, normalmente, um sítio onde se vê a capacidade técnica de alguém--há entrevistas que podem incluir a resolução de testes ou case studies, que envolvem uma avaliação técnica, mas a maior parte não. Uma entrevista profissional é um concurso, não para Miss/Mr. Universo, mas para Miss/Mr.Simpatia. O concurso de Miss/Mr. Universo foi na escola. Quando as pessoas acabam o curso, sabe-se que reúnem o mínimo de qualificações técnicas necessárias. O que não se sabe é se se irão dar bem com os colegas, se conseguem contribuir para a equipa, se conseguem adaptar-se bem à carga de trabalho, se são responsáveis, se têm bons valores éticos, etc. A maior parte dos empregos não é tão tecnicamente exigente como ter de passar exames num curso universitário. E não tentem passar a ideia de que vocês irão ser os mais competentes e espertos da casa. Ninguém quer contratar uma pessoa que vá demonstrar que o seu chefe é tecnicamente incompetente. Sorriam muito, mas não exagerem. Antes de chegarem ao local da entrevista, façam uns sorrisos forçados, só para relaxar os músculos faciais, e esse exercício afectará também o vosso estado de espírito durante a entrevista. Assim, quando cumprimentarem as pessoas, que vos irão entrevistar, já estarão mais à vontade.

Pela minha parte, estou a ponderar ir a Londres. Apesar de o tempo lá continuar a ser uma coisa enfadonha, há um professor de matemática italiano, Pietro Boselli, na Universidade de Londres, num curso de engenharia mecânica, e eu gosto de aprender como as coisas funcionam. Infelizmente, este Pietro não tem pêlos, mas eu amarro-o a uma cama até eles crescerem. E depois Londres tem muita arte, o que me agrada muito, logo há bastante para fazer enquanto os pêlos do rapaz crescem. Talvez eu o besunte com vaselina para os pêlos crescerem mais depressa...

Ah, sim, claro, o Pietro também tem outro charme: eu, como boa portuguesa, tenho uma ligeira obsessão por Pedros--quem precisa de um Romeu, quando podemos ter um D. Pedro I? Até escrevi um poema à estátua de D. Pedro I, em Cascais:

Pedro das pedras do chão,
Frias, rugosas, de granito,
Ponho em ti a minha mão,
Sinto-me perto do infinito

Lá, onde a noite já é madrugada,
Onde o mar frio banha a costa,
Nesse norte de alvorada,
Encontro em ti perguntas sem resposta.

terça-feira, 31 de março de 2015

Celebremos!

A Bloomberg tem um artigo acerca da Alemanha, que diz o seguinte:
"Germany’s gain comes from being a relatively strong economy locked into a currency union with weaker partners including one, Greece, that could tear the bloc apart."

[...]

“All in all, the ECB-induced depreciation of the euro is finding more fertile ground in Germany than in the rest of the euro zone, which is still having to grapple with debt overhang and falling house prices,” Kraemer said last week.

Quer dizer, o estímulo do BCE está a ir para a economia que menos precisa. É bom ter uns parvos no sul da UE, ou não é?

O artigo está cheio de pérolas, como esta

"The inflation rate climbed to 0.1 percent in March, after two months below zero [...]"
ou esta
"What’s good for Germany should be good for the region as a whole."
Esta última é particularmente engraçada dado que a última década, que foi boa para a Alemanha, foi péssima para o sul da UE. Mas porquê perturbar a fantasia com um pedaço de realidade? Iupi, soltem o champanhe! Não, alto! Não podemos ajudar os franceses... Passem um copinho de gewürztraminer, em vez do champanhe. E não se enganem--o gewurztraminer não serve, porque esse é francês.

Da minha manhã para a vossa noite

Hoje o meu cão Alfred faz 10 anos. Já está comigo desde as 11 semanas. Estou muito orgulhosa dele: é bem comportado, carinhoso, sensível, gosta de me proteger quando sente que eu preciso, mas também é um cão independente e não tem paranóias. É a coisa mais próxima de um filho que eu tenho e terei, dada a minha idade. Claro que hoje, a primeira coisa que eu fiz, depois de desligar o despertador, foi dar festas ao Alfred e abraços. Enquanto o abraçava, vi o que tinha acontecido no Instagram e no Facebook. No Facebook encontrei o texto do Zé Carlos sobre o futuro e promessas e fiquei ainda mais feliz por poder ler uma ideia tão bonita logo ao início do dia.

Às vezes, de manhã, abro um livro de poesia numa página ao calhas, mas tem de ser numa que tenha um poema curto, pois não tenho muito tempo. Hoje, depois de ler o Zé Carlos, apeteceu-me ler outra coisa que me inspirasse. Abri o livro do Nuno Júdice, "O Fruto da Gramática", e foi mesmo nesta página. Fotografei-a porque quis levá-la comigo, o que é contra as regras. E agora violo as regras outra vez, mas é por uma boa causa porque quero partilhar o texto convosco. Talvez faça a vossa noite um pouco melhor, como se passou com a minha manhã. Talvez algum de vós vá comprar uns livros do Nuno Júdice e a minha alma seja parcialmente redimida. Vale tanto a pena lê-lo. É um privilégio poder ler português porque nós temos uma língua mágica e alguns dos nossos escritores captam essa magia.

Desejo-vos uma boa noite...

Orgulhosamente medíocre, apesar de austríaco

Diz um deputado austríaco que só os alemães e os austríacos trabalham e que, por trabalharem, o resto dos europeus, inclusive os portugueses, goza com eles. Tenho um amigo que me costuma dizer de certas pessoas "Aquele tipo nunca saiu do mesmo código postal.". Parece-me uma conclusão apropriada acerca deste deputado. E nós não devemos ser levados a sério porque só temos 1,60 m, continua ele. Enganou-se redondamente! Eu só tenho 1,53 m e trabalho e levam-me a sério. E se não me levam a sério, arrependem-se.

Por acaso, eu não conheço muitos austríacos; mas, no meu primeiro ano nos EUA, um dos alunos no mesmo programa de intercâmbio que eu era austríaco. Chamava-se Georg, e nós tínhamos uma aula juntos: era a aula de International Economics [ou era International Business ou International Trade, já nem sei o nome exacto] que era ensinada por um grego, se não estou em erro, de nome o Andreas Savviddes.

O malandreco do Georg, que tinha mais do que 1,60 m, fartava-se de faltar à aula. Note-se que numa universidade americana, não é muito bom faltar às aulas. Depois, lá vinha ele todo dengoso, pedir-me os apontamentos e eu dava-lhe porque eu gosto de partilhar. Uma vez, eu não fui à aula porque fiquei doente e pedi-lhe os apontamentos. Ele recusou, respondeu-me que estava tudo no livro. Ah, little fucker... Se ele partiu uma perna entretanto, foi do mau karma que cultivou nesse dia.

Podem crer que eu, que trabalhava no Gabinete de Relações Internacionais, comentei a falta de etiqueta do meu colega austríaco com as pessoas que geriam o nosso programa de intercâmbio. Eu não sou vingativa, mas também não sou estúpida, e a expectativa nos EUA é que as pessoas se ajudem umas às outras, especialmente se estão em circunstâncias semelhantes, o que era o caso, pois eramos todos participantes no mesmo programa. Para além disso, o Gabinete de Relações Internacionais tinha reuniões com todos nós, simultaneamente, para nós nos conhecermos e nos relacionarmos.

Já sei que um sujeito austríaco não é representativo de nada. Mas eu estou farta de ver generalizações negativas acerca de portugueses, mulheres, pessoas baixas, economistas, etc. E eu sou todas essas coisas: orgulhosamente portuguesa, orgulhosamente mulher, orgulhosamente baixa, orgulhosamente economista! E, por ser isso tudo, não sou uma confluência de mediocridade; pelo contrário, sou melhor do que muita gente. E não me venham com a história de falta de humildade. Humildade não é vergar-nos quando nos humilham.

E, só para verem como há austríacos que me agradam, deixo-vos as palavras de um dos meus poetas preferidos, Rainer Maria Rilke. E vocês deviam ler "Cartas a um jovem poeta".

Uma ideia tosca...

Vou plantar uma ideia tosca na vossa cabeça, não vos vou dar toda a teoria, mas apenas uma curiosidade. Talvez algum de vós se interesse por aprofundar o tema.

Pensar em risco é pensar em incerteza e, muitas vezes, pensa-se nas probabilidades associadas com diferentes resultados. Risco é uma coisa complicada e nós, frequentemente, arranjamos simplificações para tomar decisões. Uma dessas simplificações é o valor esperado que é uma média ponderada dos diferentes resultados, em que a probabilidade de cada resultado serve como peso no cálculo da média. Note-se que, se não há risco, então todos os resultados possíveis têm o mesmo peso no cálculo da média, logo é uma média simples.

Mas usar o valor esperado é muito problemático porque tem uma grande limitação. Um resultado com grande impacto e pouca probabilidade pode ter o mesmo valor esperado do que um resultado com menor impacto e maior probabilidade. Por exemplo, um evento que cause danos de €1.000.000 e que aconteça com uma probabilidade de 0,001%, ou seja, acontece, em média, uma em 100.000 vezes tem um valor esperado de €10; um evento que cause danos de €1.000 e aconteça com uma probabilidade de 1%, ou seja, uma em 100 vezes, em média, também tem um valor esperado de €10. Note-se que têm o mesmo valor esperado, mas não são de todo comparáveis por causa do perfil de risco.

A maneira como nós processamos o risco é uma coisa muito pessoal. Há pessoas que ignoram, logo, dizemos que são risco-neutras; outras que são muito avessas a risco; e outras que gostam de arriscar (amantes de risco). Vocês já pensaram na vossa atitude relativamente ao risco?

Costa não é Seguro

No tempo de Seguro, o PS apresentava entre 36 a 38% das intenções de voto nas sondagens. No tempo de Costa, o PS apresenta entre 36 a 38% das intenções de voto nas sondagens. Estes valores eram o “caminho das pedras” de Seguro. Na comunicação social, eram vistos como um sinal de fracasso e uma prova irrefutável da mediocridade e vacuidade do homem, que andava na política desde pequenino e não tinha feito mais nada na vida. Curiosamente, estes mesmos valores não suscitam os mesmos sentimentos e interpretações em relação Costa, que também anda na política desde pequenino e não fez mais nada na vida.

Costa tem a vantagem de disfarçar melhor o vazio de ideias, com um discurso redondo, mas que espremido vale zero. E nem os pouco mais de 11% obtidos anteontem pelo PS (em coligação com uma série de grupúsculos) nas eleições da Madeira parecem perturbar quem quer que seja. Se alguma lição o PS pode retirar deste episódio madeirense, é que não basta a Costa sentar-se em cima do desgaste do governo e esperar tranquilamente que o poder lhe caia em cima da cabeça.

Verdade que a comunicação social, aqui e acolá, fustiga Costa e o PS já dá sinais de ansiedade. Todavia, dá a sensação que parte da intelligentsia alimenta a secreta esperança de que, num dia de nevoeiro, Costa há-de aparecer cheio de propostas concretas, alternativas à política do governo. É só uma questão dos assessores acabarem de fazer as contas e rever os “cenários macroeconómicos”. Então sim.

De Seguro, nunca ninguém esperou muito. De Costa, muitos esperaram muito; agora, apenas alguns esperam alguma coisa. Por este andar, há-de chegar o dia em que já ninguém espera nada.

A importância da promessa

O futuro é por definição um mar de incertezas e o Homem precisa de algumas ilhas de segurança. Obrigar-se através de promessas, prometendo e cumprindo o prometido, sempre foi a solução para a caótica incerteza do futuro.

segunda-feira, 30 de março de 2015

A imprensa de referência

Primeiro foi o Público a dar voz, por diversas vezes, a homeoparvos.*
Hoje, temos o Diário de Notícias a dedicar duas páginas à vacinação, dando voz em igualdade de circunstâncias a quem é contra a vacinação.** Chega a pôr o presidente de uma associação de vendedores de banha da cobra lado a lado com um prestigiado pediatra.
A nossa imprensa de referência corre o risco de se tornar numa merda.

* Ver, por exemplo, aqui, aqui e aqui
** Link, apenas disponível para assinantes, aqui.

Tenho medo do beijo...

Quando li esta notícia da Sic acerca dos quatro pastéis que foram penhorados pelo fisco a um restaurante, lembrei-me da canção da Lena d'Água: "dou-te um doce em troca de um beijo salgado". Beijar o Big Brother português parece-me uma coisa assustadora, mesmo tendo os cofres cheios. Caramba, os cofres estão prestes a ficar cheios de formigas...

A próxima epidemia, diz Bill Gates

Num artigo no The New England Journal of Medicine, diz Bill Gates que não estamos preparados para a próxima epidemia. O ébola foi um bom exercício para demonstrar a nossa falta de preparação. A meu ver, também foi um grande exercício para demonstrar mais uma vez que Einstein tinha razão: não há limites para a estupidez humana. Diz Gates que o sarampo ou a influenza/gripe são bons candidatos a causarem grandes perdas de vida humana. Contrastem isto com a nova mania de que vacinar as crianças é uma opção. Atravessar a rua sem parar e olhar para os dois lados da rua também é uma opção e até poupa bastante tempo, mas julgo não ser uma opção que se ensine voluntariamente às crianças.

Estas coisas das epidemias são como o terramoto que irá atingir Portugal: é incerto quando, mas é certo que irá acontecer. Vocês podem dizer que é uma probabilidade muito baixa de acontecer, mas as probabilidades dizem-nos que acontece, sim! E nestas coisas dos terramotos e das epidemias nós temos a certeza que acontece porque já aconteceu. Quando a probabilidade é baixa, isso quer dizer que acontece raramente; não quer dizer que nunca irá acontecer.

Há quem pense que estar preparado para eventos de grande impacto e pouca probabilidade é caro; há outros que dizem que não há nada a fazer. O custo de não fazer nada também é muito caro, apesar de ser reconfortante pensar que ontem ainda não foi o dia em que tivemos de pagar esse preço.

Falta de sentido de oportunidade vai custar a Costa a maioria absoluta

António Costa enganou-se no timing e avançou cedo demais. Se Seguro ainda fosse hoje o secretário-geral do PS, e depois dos resultados eleitorais vergonhosos na Madeira, a contestação seria tão grande que não lhe restaria outra alternativa que não demitir-se ou convocar eleições primárias. Quase de certeza que optaria por esta última e iria enfrentar António Costa no terreno.

Como já estamos quase em Abril, essas eleições primárias decorreriam no fim de Maio. Costa ganharia e tomaria posse em meados de Junho. Entre a entronização de Costa e as legislativas teríamos o Verão pelo meio.

Ou seja, Costa ficaria sem hipóteses de mostrar aquilo que vale e, nessas condições, a maioria absoluta seria quase garantida.

Discutir salários

Parece que finalmente se descobriu a pólvora: a economia americana não irá crescer sem que os salários reais também cresçam. Isto devia ser completamente óbvio antes da crise financeira, mas havia a ilusão que mudar de casa era por si só um motor de crescimento. E também havia a ideia de que diminuir impostos para os mais ricos gerava riqueza. Saiu tudo furado! Finalmente, está mais enraízada a ideia de que tem de haver crescimento nos salários reais para se sair do marasmo económico onde se entrou.

O Walmart, a TJ Maxx, e a Gap já anunciaram aumentos de salários; a Starbucks antes já tinha anunciado um programa com melhores benefícios para os seus empregados. Os aumentos parecem altos, especialmente os do Walmart, mas quando se pensa que a estagnação do salário real já dura há 30 anos, mesmo aumentos dramáticos não compensam o que que foi perdido. Mas, pelo menos, discute-se salários acima do salário mínimo e tem-se a nocão de que ter um país em que uma fatia cada vez maior dos trabalhadores ganha apenas o salário mínimo é um país condenado ao fraco crescimento económico.

Em Portugal costuma-se discutir muito o salário mínimo como se isso fosse realmente uma vitória para os trabalhadores. Não é e não será. E será um grande insulto para os portugueses, que os políticos neste ano de eleições queiram usar o salário mínimo para ganhar votos. É preciso dizer aos nossos políticos que nós queremos ganhar mais do que o salário mínimo. Ganhar o salário mínimo deve ser uma coisa temporária, que acontece a quem entra no mercado de trabalho e não tem muita experiência, nem qualificações.

Uma empresa que paga o salário mínimo à maioria dos seus empregados não é uma empresa bem gerida. Essa foi mesmo a admissão do Walmart: eles pagavam o salário mínimo e as pessoas não ficavam no emprego, o que aumentava o custo de treinar os empregados e reduzia a produtividade do trabalho. Aumentar o salário dos seus empregados não terá grande efeito nos custos, pois aumentará a retenção de empregados e a duração do emprego, logo reduz o custo de treinar empregados.

Muitas vezes, nem o salário mínimo é pago em Portugal porque há uns empresários que também pensam que descobriram a pólvora:

  • Uns dizem que não é preciso pagar bem porque de onde veio um empregado, vêm muitos mais e, muitas vezes, atrasam-se no pagamento dos salários aos empregados porque usam a sua pequena empresa para financiar estilos de vida que estão muito acima do que seria aconselhável. O que estes empresários fazem com os lucros da empresa é com eles, mas atrasar-se no pagamento de salários porque usam as receitas para proveito próprio antes de pagar os salários, já é não é apenas com eles.
  • Outros empresários quando contratam dão opção ao trabalhador para não se declarar com as finanças e oferecem um salário. Depois ao fim do mês, não pagam o que prometem, mas como o trabalhador não está colectado é irrelevante. Para além disso, como é difícil arranjar emprego, um empregado sem outras fontes de rendimento não tem quase nenhum margem de manobra ou negociação. Está o empregado sujeito a aturar esta gente que pensa que é importante porque veste um fato ou tem um crocodilo na lapela.
  • Outros quando oferecem salários a mulheres oferecem um salário baixo, muito abaixo do salário mínimo; se a mulher diz que é muito pouco, eles informam-na que a expectativa é que ela viva com alguém (um marido, namorado, pais, etc.) que ajuda a pagar as contas. É a mesma porcaria que faziam no McDonald's onde os empregados que ganhavam o salário mínimo telefonavam para a linha de recursos humanos da corporação e eram informados em como conseguir subsídios do governo federal (food stamps).

Mas há uma diferença: a comunicação social americana saltou em cima da McDonald's e a imagem da companhia ficou severamente comprometida e as vendas nos EUA não estão muito famosas. Envergonharam os gerentes e a corporação! E será que há alguém que tenha a delicadeza de informar a Sra. Ministra das Finanças de que os cofres não estão assim tão cheios? Parece que um rato fez uns buracos no sistema Big Brother e aquilo anda um bocadinho roto e há muito dinheiro que nem sequer chega a entrar no cofre...

A blogger is born

O Ben Bernanke tem um blogue novo e chama-se, obviamente, Ben Bernanke's Blog. Mas acho que não será BBB. Está estacionado no Brookings Institute e hoje saíram os dois primeiros posts. Isto vai ser giro. O primeiro post foi aquecimento, o segundo já é mais "feisty", como se diz deste lado do Atlântico.

O segundo post comentou o estado das taxas de juro e, não só implicou com os senadores Republicanos (note-se que Ben Bernanke é Republicano), como deu uma canelada ao Jean-Claude Trichet ao mencionar que certos bancos centrais aumentaram as taxas de juro antes da economia ter recuperado. Bem, o Sr. Trichet não só diagnosticou mal a recuperação, como nem se apercebeu que a UE estava moribunda.

Ben Bernanke promete falar da estagnação dos salários reais a seguir. Não percam os próximos capítulos...

Como eu sou idiota...

Já que o Zé Carlos introduziu o tema e insiste, vou descrever-vos a minha idiotice mais recente. Alguém postou um vídeo de uma vaca a chorar na Nova Zelândia--não consigo encontrar o dito, senão mostrar-vos-ia. A vaca ia ser levada numa carrinha e começou a chorar. Afinal não ia para o matadouro, ia para um refúgio de gado bovino.

Quando eu vi a vaca a chorar, lembrei-me dos meus cães, mas foi ainda pior do que isso, porque os meus cães não choram assim: esta vaca chorava como se de uma pessoa se tratasse. E eu pensei que não me estava a apetecer comer mais carne. E depois pensei "É pá, os hambúrgueres do Bernie's Burger Bus são tão bons e a porcaria do restaurante é mesmo aqui perto. Até dá para eu lá ir a pé. E há carne no frigorífico da minha casa, não pode ser desperdiçada. Há bacon, há carne de bisonte moída para fazer chili ou molho de esparguete." Mas a imagem da vaquinha a chorar é forte. Tenho de me esforçar, decidi...

Hoje de manhã quando fui passear os meus cães, vi que os meus vizinhos tinham deitado um candeeiro fora. A parte de metal estava boa e não era feio de todo, logo eu levei para casa para ver se funcionava e, sim, estava perfeito. Comecei a pensar que podia comprar um quebra-luz de conchas de capiz. Notem que eu comprei um candeeiro de conchas de capiz na sexta-feira da Pottery Barn, mas é branco e acho que não vai ser o ideal para a minha sala, mas ficaria bem no meu quarto. E ter conchas no meu quarto calha sempre bem. Estava eu a sonhar com quebra-luzes que capiz e lembrei-me que a Pier One vende uns. E a Pier One, que fica na Rice Village, fica mesmo ao pé da Victoria's Secret. Ah! E eu tinha uns vales de desconto da Victoria's Secret. Hmmm, isto tudo a alinhar-se, que bom...

Saí de casa um bocadinho antes da hora de almoço, pois assim o pessoal ainda estava na igreja, logo haveria menos movimento e mais sítio onde estacionar. Cheguei ao meu destino e comecei a pensar no almoço. Tantas opções! Havia o Croissant Brioche onde eu me farto de ir, mas não é um restaurante a sério e lá há mil folhas e aquilo é uma tentação... Também havia o Le Peep, onde eu ainda não fui e que tem comida francesa, e eu comecei a pensar num bom croque Madame. Quando eu vivia em Oklahoma City costumava ir ao La Baguette, cujos proprietários são franceses, para o brunch ao domingo e eles tinham uns croque Madames divinais! Só que o croque Madame tem carninha e a imagem da vaquinha a chorar apareceu no meu pensamento. Ok, então decidi ir ao Shiva que é indiano e tem comida vegetariana. Almocei o bufete e, sim, escolhi tudo vegetariano. Muito bom, era saboroso e nenhuma vaquinha chorou dentro de uma carrinha.

Fui ao Pier One e os quebra-luz de capiz estavam em muito mau estado, com muitas conchas partidas. Pensei então que talvez no Cost Plus World Market estivesse em stock, mas isso era noutra parte da cidade. Fui à Victoria's Secret prestar os meus respeitos à roupa interior feminina e é claro que vim de lá aviada com um sutiã de renda, porque agora ando com a pancada dos sutiãs de renda sem forro. E tinha de comprar calcinhas que combinassem, e as calcinhas estavam em promoção--compre duas, leve quatro--e eu tinha um cupão para uma calcinha grátis, então já tenho mais uma semana de trabalho disponível em calcinhas. Quer dizer, é seguro afirmar que neste momento tenho lingerie suficiente para não ter de lavar roupa interior por pelo menos dois meses. Nunca se sabe quando chega o fim-do-mundo e eu vivo numa zona de furacões, logo tenho de estar preparada. E depois há os axiomas de preferência de Von Neumann-Morgenstern: mais lingerie é sempre preferível a menos lingerie, especialmente porque eu tenho as curvas certas!

Abandonei a Rice Village e fui à caça do capiz no World Market, e digam lá se não é conveniente, mas lá também vendem produtos da Castelbel. Comprei um sabonete e três loções made in Portugal, of course, o quebra-luz de capiz, chá Mango Ceylon da Republic of Tea (é um dos chás mais saborosos e eu adoro chá), salmão fumado, e dois chouriços tipo espanhol.

Depois vim para casa para tentar descobrir como é que eu vou afixar o quebra-luz, que é de pendurar no tecto, ao candeeiro. Percebi que tenho mesmo de comprar um conversor ou adaptador, logo dei um pulo ao Lowe's mas não tinha lá nada que me ajudasse. De saída parei para cheirar os cravos, que eram as flores preferidas da minha avó, e agarrei num vaso deles e fui comprar. No regresso a casa, na rádio estavam a falar da importância de nós brincarmos uns com os outros, de nos rirmos, e do papel que isso tem para estimular a imaginação, criar laços de empatia e confiança, etc. "Olha, porreiro!", pensei eu. "Eu já pratico estas coisas e nem sabia que estava na vanguarda da ciência!"

Quando cheguei a casa plantei os cravos num vaso. E foi nessa altura que eu me dei conta que tinha comprado chouriços e não tinha pensado na vaquinha a chorar. Ah, sou uma grande idiota! Que vegetariana falhada que eu sou, nem sequer uma tarde sobrevivi. E desatei a rir à gargalhada...

domingo, 29 de março de 2015

Ainda o lado idiota

Numa passagem de "As ligações perigosas" de Choderlos de Laclos, alguém pergunta sobre um intelectual. A resposta foi, e cito de memória: "Como todos os intelectuais, ele era imensamente estúpido."