sábado, 4 de julho de 2015

Nokia, Skype e Mateus Rosé

Paul Krugman tem escrito vários posts sobre o colete de forças que é o Euro. A situação da Finlândia é um dos seus temas recentes, como pode ser lido aqui e aqui. Espera-se mesmo que no final de 2015
o PIB per capita português esteja mais próximo do seu nível pré-crise que o da Finlândia. Será que os estónios acham os seus vizinhos do norte preguiçosos, corruptos e irresponsáveis?

κωμῳδία

Apesar de usar ele próprio com frequência a paródia e a sátira nos seus escritos, Platão escreveu, nas Leis, que a comédia deveria ser representada por escravos e estrangeiros:
«(...) De maneira a evitar fazer ou dizer alguma coisa ridícula através da ignorância, quando não o devemos fazer; imporemos essas imitações aos escravos e estrangeiros, e nenhuma atenção séria lhe deverá ser dada, nem nenhum homem ou mulher livres deverão ser vistos a aprender tais artes, e deverá haver sempre uma novidade nos seus espectáculos. Assim sejam, então, as regulações para todos os divertimentos risíveis a que chamamos 'comédia'.» (7:816e)
Caros senhores Juncker, Draghi, Lagarde, Merkel e outros, o parágrafo em epígrafe serve para chamar a vossa atenção. Sendo Platão um dos gregos preferidos da esquerda intelectual, a seguir a Varoufakis e Zorba (a Nana Mouskoris foi retirada da lista quando foi deputada pela Nova Democracia), se calhar, por muito que Tsypras queira parecer um Cléon, quem anda a fazer a figura do tolo somos nós.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Pseudo-feriado

Amanhã é o dia da independência americana. Como o feriado calha a um Sábado, temos a Sexta-feira de folga. Quando o feriado calha a um Domingo, tira-se a Segunda-feira. Nem todas as companhias observam esta convenção, mas dado que a Chicago Mercantile Exchange observa, eu não trabalho hoje porque a minha companhia segue o calendário da CME. 

Aqui há uns anos, falou-se em adoptar uma medida semelhante em Portugal, mas as pessoas acharam que era uma coisa que não tinha jeito nenhum. Eu acho muito jeitosa esta medida dos capitalistas exploradores do proletariado.

Estou na Rice Village, numa pastelaria francesa chamada Croissant-Brioche, onde servem a minha marca de café preferida, Danesi, que é italiana. Quando quero tomar uma bica de jeito--aqui chama-se espresso--, venho aqui. Ao Domingo também servem uns mil-folhas muito bons, mas eu tento não vir cá ao Domingo porque a tentação é muita. Aqui vai uma foto daqui. O décor é "French Country", que é um bocado passé, apesar do estabelecimento ter apenas pouco mais de um ano. 



Ah, e como estamos na Rice Village, não poderia deixar de partilhar convosco uma pequena curiosidade. Numa das esquinas, encontra-se um pequeno graffitti: uma referência ao episódio de Rosa Parks, uma figura muito importante no movimento dos direitos civis americano. 

Bom fim-de-semana...






Poesia em andamento

Ontem, 5ª feira, a minha filha estava bastante excitada, porque o melhor aluno de inglês ia receber umas coisas quaisquer. Perguntei-lhe se ela era a melhor e respondeu-me que só ia saber hoje, 6ª feira, mas que tinha esperanças e estava muito nervosa.

Expliquei-lhe que, caso não ganhasse, devia ficar contente pelo amigo ou amiga que ficasse com o prémio. Expliquei-lhe ainda que, mesmo que não ficasse contente, devia fingir que estava contente.

Hoje, ao deixá-la na escola, a Laura disse-me: "Papá, estou muito curiosa para saber quem vai ganhar o prémio de inglês. Se não for eu, vou fingir muito bem que estou contente por quem ganhar."

Enfim, às vezes acho que sou um mau pai. Mas estou com Pessoa, o poeta é um fingidor, e as minhas filhas são poesia.

Não se aprende nada?

Esta crise, que dura há vários anos e que começou nos EUA, é, em muitos aspectos, terreno desconhecido para todos nós. Sendo assim, é natural que muitos de nós tenhamos errado em diversos pontos nas nossas análises passadas e que tenhamos omitido opiniões de que hoje discordamos. É um sinal de inteligência reconhecer erros passados.

Foi com um espanto imenso que ontem ouvi, numa entrevista a Maria de Flor Pedroso, Carlos César dizer que hoje voltaria a assinar o Manifesto dos 74. Maria de Flor Pedroso, talvez por não acreditar na resposta, insistiu na pergunta sublinhando a palavra hoje. Carlos César manteve a resposta. Estamos a falar do presidente do Partido Socialista, não estamos a falar de um syrizico qualquer que esteja no PS, em vez do BE ou do Livre, por engano.

Vale a pena lembrar os dois principais riscos que foram apontados ao Manifesto dos 74, no ano passado. Primeiro, foi dito que gritar aos quatro ventos que não se podia/queria pagar a divida podia levar a uma subida das taxas de juro, com todas as consequências trágicas para a sustentabilidade da dívida que daí poderia vir. O que vemos na Grécia sugere que este risco não era despiciendo. Segundo, alertou-se para o risco de o Banco Central Europeu deixar de aceitar a dívida como colateral dos bancos, pondo em causa a muito frágil estabilidade do sector bancário. Mais uma vez, o que vemos na Grécia devia-nos fazer lembrar que estes riscos eram bem reais.

Esse manifesto foi também subscrito por 74 economistas estrangeiros. Entre os 74, estava uma das estrelas do actual governo grego: o ministro das finanças, e especialista em Teoria dos Jogos, Yannis Varoufakis. Não que Varoufakis seja má companhia, mas parece-me que já deu provas suficientes dos riscos que as suas estratégias encerram.

O presidente do Partido Socialista dizer que, se fosse hoje, tornava a assinar tal manifesto mostra que o PS é liderado por pessoas empenhadamente levianas.

Δύσκολος

Continuo a pensar que o que faz falta para resolver os problemas do mundo é conhecer melhor o teatro ateniense das festas dionísicas e leneias. Para a crise da Grécia contemporânea, veja-se o caso de Μένανδρος (Menandro, ~342 / ~290 a.C.), um dos autores mais prolíficos da Nova Comédia grega. No que se conhece das suas peças, o casamento entre ricos e pobres, como forma de distribuição de riqueza, é uma situação recorrente - o que dá aos culebrones latino-americanos um atestado de classicismo. Varoufakis, em vez de uma beta da Acrópole, devia ter casado com uma camponesa muçulmana da Trácia Ocidental.
Na única peça de Menandro que é hoje conhecida quase na totalidade, Δύσκολος (O Díscolo, ou O Misantropo), Sóstrato (um beto que se casa com uma bimba) explica ao pai a importância de distribuir a riqueza de forma virtuosa e moderada, numa atitude a que Aristóteles chamava o uso liberal da riqueza (por oposição à avareza e à prodigalidade).
"Falas de riqueza, uma coisa insegura. Pois se sabes que todas estas coisas deverão permanecer ao teu lado durante toda a tua vida, trata de não repartir nada que seja teu. Mas, daquelas que não és dono e só as obtens através da fortuna, não invejes, Pai, nada destas. A fortuna atribuirá tudo novamente a outro, talvez a alguém indigno. Por isso te digo, enquanto fores dono, é necessário que te sirvas generosamente, Pai, que ajudes todos, que facilites a vida, tal como é a tua, a muitos mais. Pois isto, sim, é imortal, e em tropeçando em certa ocasião podes de novo aproximar-te de quem ajudaste e eles ali estarão para ti."
À conta deste solilóquio, o pai de Sóstrato deixou a filha casar com outro pelintra.
Moral da história? Quando o teu filho começar com merdinhas, dá-lhe uma chapada.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Re: Não se pode "desinventar" o euro?

Dois posts atrás, o José Carlos Alexandre afirma que "hoje já ninguém tem dúvidas de que o euro foi mal desenhado, e a zona euro tem-se revelado negativa para quase todas as partes envolvidas". Eu, que europeísta me confesso, reconheço que houve erros de concepção. Mas, ao contrário do que ele parece sugerir, eu acho que o projecto pecou por defeito. Na minha opinião, a moeda única devia ter sido criada conjuntamente com uma série de instrumentos que não estiveram presentes no seu nascimento (e muitos continuam sem estar). Em particular, um orçamento comunitário digno desse nome, ou seja, capaz de desempenhar uma função estabilizadora. Obviamente, isso implicaria transferir competências numa área sensível, secularmente ligada à afirmação da soberania. Não foi possível. E percebe-se que não tenha sido. Há duzentos anos, britânicos e prussianos eram aliados na luta contra as pretensões hegemónicas da França napoleónica. Há cem, franceses e ingleses combatiam juntos uma Alemanha invasora. Com esta História, um sentimento de pertença a algo comum é difícil de forjar. Somos portugueses, austríacos, finlandeses antes de sermos europeus. E, por isso, em alternativa, forjou-se uma moeda única, um pouco à revelia dos cidadãos, numa fuga para a frente. O euro nasceu coxo.

Se a convivência fica facilitada pela prosperidade ou pela existência de um inimigo partilhado, quando estes desaparecem, o que nos separa torna-se mais visível. O euro nasceu numa época em que o mundo ocidental começava a perceber que China e Índia não iam, uma vez trazidas para o jogo do comércio internacional, conhecer revoluções liberais a curto prazo - e ocorridas num prazo curto, porque agora os acontecimentos sucedem-se mais velozmente. Na verdade, a China consegue a proeza de ser simultaneamente comunista e capitalista, que é coisa que muito deve ter admirado os membros da OCDE. O quadro mental é outro (tal como era o africano, que quisemos à força modificar, com os resultados que estão patentes). E, portanto, o rendimento do Oriente tem vindo a aproximar-se do do Ocidente, mas numa lógica de vasos comunicantes. E isso explica, a meu ver, a constatação que o José Carlos faz, já na parte dos comentários, de que, desde a introdução do euro, as taxas de crescimento têm sido desoladoras.

Este processo atingiu especialmente países como Portugal. Desde logo, porque tinha um padrão de especialização muito trabalho-intensivo. Comparados com os luxemburgueses, os salários portugueses são bastante baixos. Mas aquilo que se ganha para lá dos Urais é outro campeonato, onde não podemos - nem queremos! - competir. Portanto, não nos teria restado outra opção senão reestruturarmos a nossa economia. Tivemos 10 anos para o fazer; não sem custos, não sem sacrifícios, mas com mais calma e em melhores condições. Mas, como bem diz a Rita Carreira (também num comentário), "há uma tendência em Portugal de pensar que a resolução dos problemas vem de fora". E miraculosamente, acrescento eu. É a nossa queda para o sebastianismo. Por isso, não nos preparámos devidamente para o enorme desafio que teríamos de enfrentar.

Tal como não preparámos a entrada no euro. A consolidação orçamental que nos permitiu cumprir o critério do déficit resume-se facilmente a receitas de privatizações combinadas com poupanças em juros da dívida pública, cujas taxas desceram nas perspectiva da adesão ao então ECU. E, uma vez admitidos no clube da moeda única, tratámos de não aproveitar o privilégio. Ou seja, sou capaz de concordar que o euro não foi para nós, mas por culpa própria. Porque nos comportámos como aqueles alunos que vão para uma escola manhosa, onde as notas são inversamente proporcionais à exigência e ao saber transmitido, só para conseguirmos a média necessária à entrada na faculdade de elite; e, uma vez nesta, em vez de percebermos que íamos ter de estudar muito mais porque nos faltavam as bases, achámos que estava tudo feito. Só precisávamos de topar quem eram os bons alunos que nos iam deixar colocar o nome no trabalho para termos a nota. Surpresa: o professor fez-nos perguntas na apresentação! E, afinal, a balança de pagamentos não tinha deixado de ser irrelevante e, afinal, não tínhamos todos o mesmo risco aos olhos dos mercados.

O depravado sexual...

Em 2011, Dominique Strauss-Khan, à frente do FMI, disse que a Grécia estava "in deep shit". Ele viu que demasiada austeridade conduziria o país ao colapso económico e discordava fundamentalmente da receita do BCE de Trichet e da Alemanha de Merkel. Quando Strauss-Khan foi apreendido em Nova Iorque, acusado de atacar sexualmente uma empregada de um hotel, a única pessoa que via o poço de merda funda onde a UE estava prestes a enfiar-se saiu de jogo.

Entre os moralistas virtuosos europeus e o depravado sexual francês, eu escolho sempre o depravado sexual. Ele não só não teve vergonha de admitir que gosta de sexo, como é capaz de identificar merda quando a vê. Poucos políticos têm estas qualificações.

Adenda: O NAJ zangou-se comigo porque parece que eu gosto de um homem que bate em mulheres. Deixem-me clarificar o que eu queria dizer: eu acho uma perversão esta coisa do sado-masoquismo, mas acho intrigante que o fulano que se excita ao bater em mulheres tenha sido o que demonstrou mais preocupação em encontrar uma solução que fosse menos punitiva e mais pró-crescimento.

Temos homem...

No editorial da Bloomberg, no qual se discute a situação da Grécia, há duas coisas giras:

  1. A primeira é a sugestão de que os líderes da UE devem demonstrar magnanimidade e visão política. Se há coisa que falta aos líderes actuais da UE, são estes dois atributos.
    "It hasn't been resolved, so Greeks have to choose the lesser evil. They should vote yes -- and, if they do, Europe should respond with the magnanimity and political vision that have been so utterly lacking in its dealings up to now."
  2. A segunda é o plano de acção caso os gregos votem "Sim". Diz a Bloomberg que, caso os gregos votem "Sim", a UE deve oferecer o que o Sr. Tsipras pediu. Note-se que, para clarificar as ideias dos gregos, o Sr. Tsipras, apesar de dizer para os gregos votarem "Não", tem passado esta semana a demonstrar as consequências devastadoras de um "Não", ou seja, pelas suas acções está a aumentar a probabilidade de um "Sim".
    "However, it's vital that the EU's leaders be ready, in the case of a yes vote, to make amends for what Greece has had to endure. In short, they should prepare to give Greece, post-Tsipras, most of what Tsipras has been asking for: a milder profile of fiscal consolidation, greater latitude in putting the program in place and debt relief."
O Alexis Tsipras é um génio! Se os gregos votarem "Não", demonstram que o apoiam e que escolhem uma austeridade auto-imposta com perfeita noção do que isso implica; se os gregos votarem "Sim", a UE vai com toda a certeza fazer o que ele tem pedido desde que chegou ao poder: menos austeridade e alívio de dívida.

Da falta de previdência

Maquiavel dava muita importância à “fortuna”, que ele via como a expressão do resíduo irracional, do imponderável, do imprevisto, da margem de inexplicabilidade que se encontra em toda a história. Maquiavel achava que a fortuna é senhora de metade dos nossos actos, mas que nos deixava governar a outra metade. Maquiavel compara a fortuna a um daqueles rios impetuosos, que “enfurecidos, inundam as planícies, derrubam as árvores e as casas, arrastam montes de terra de um lado para o outro: todos fogem diante deles, todos cedem à sua fúria, sem poderem resistir-lhes.”
Embora os rios sejam de tal sorte, os homens previdentes, em períodos de calmaria, podem construir “resguardos e diques”, de modo que os rios, se voltarem a transbordar, se escoem por um canal ou a sua fúria não seja tão “desenfreada e ruinosa”.
No período de calmaria, nenhum génio na Europa se lembrou de construir “resguardos e diques” para poder escoar por um canal as crises do euro e tornar menos ruinosas e desenfreadas as fúrias dos mercados e dos povos. Só agora, com as planícies inundadas, com as árvores e as casas a abanarem, é que se lembraram da importância dos “resguardos e diques”. A isto chama-se imprevidência.

Não se pode “desinventar” o euro?

Em Portugal, desde o início, a criação da moeda única foi recebida pelos partidos maioritários com expectativas bastante positivas sobre os seus efeitos. Além disso, era vista como indispensável ao processo de reforço da integração europeia. Como escreveu Medeiros Ferreira no seu último livro, “Não há mapa cor-de-rosa. A história (mal) dita da integração europeia”: “A oligarquia portuguesa foi europeísta com a mesma mentalidade acrítica com que fora colonialista até à exaustão.”
Foi, por consequência, sem grande debate interno que, em Abril de 1992, Braga de Macedo, o Ministro das Finanças do Governo de Cavaco Silva, fez o escudo entrar no Sistema Monetário Europeu e, a 10 de Dezembro de 1992, a Assembleia da República aprovava, para posterior ratificação pelo Presidente da República, o Tratado da União Europeia ou Tratado de Maastricht. Esse documento definia o caminho para a moeda única. A consequência lógica destas decisões era a adesão ao euro, processo concluído por Sousa Franco, Ministro das Finanças de António Guterres, em 1999.
A 1 de Janeiro de 2002, o euro era lançado em circulação. Em Portugal, na imprensa, regra geral, o tom foi de celebração e euforia com “este simples e prodigioso testemunho (…) legado por uma geração ímpar de homens convictos e corajosos” (Público, 02-01-02).
Aqui e acolá, vislumbravam-se algumas sombras, mas o lançamento do euro em Portugal gerou um enorme consenso mediático.
A crise financeira internacional, a quase bancarrota de Portugal em 2011, o subsequente pedido de “ajuda internacional” em maio desse ano, as consequências do “programa de ajustamento” colocaram em questão a integração na zona euro. Hoje já ninguém tem dúvidas de que o euro foi mal desenhado, e a zona euro tem-se revelado negativa para quase todas as partes envolvidas. Curiosamente, os alemães, que não desejavam nenhuma moeda única, foram dos poucos a sair, até ao momento, beneficiados nesta história, e a Alemanha assumiu finalmente um domínio político proporcional ao seu poderio económico, coisa que antes nunca tinha acontecido.
O euro foi um erro crasso. Pela calada, os políticos entregaram de bandeja grande parte da soberania do país, da qual a moeda é o seu símbolo por excelência. Como escreveu João Ferreira do Amaral em “Porque devemos sair do euro”: “Foi a maior capitulação do país desde as cortes de Tomar de Abril de 1581, que consagraram o domínio de Filipe II de Espanha sobre Portugal.”

É possível acabar com esta geringonça chamada euro sem abalar o edifício todo? Ninguém sabe. A culpa da embrulhada em que a Europa se meteu não é dos “manga-de-alpaca” que hoje nos pastoreiam por essa Europa fora. Os principais culpados são os “grandes líderes” do passado recente, os tais visionários geniais, que também não fazem a mínima ideia de que como é que se resolve o problema que nos arranjaram.

Draghi, pode correr, mas não se pode esconder.

Possivelmente, Mário Draghi salvou o Euro. Teve, no entanto, sempre muito cuidado para não exceder o seu mandato. Por isso, nos seus programas de compra de dívida pública, nunca tratou a dívida portuguesa como a restante dívida europeia, nem tratou a dívida pública grega como tratava a portuguesa. A razão é simples, comprar dívida que tem fortes probabilidade de não ser paga não é fazer política monetária, é fazer política fiscal à escala europeia. Afinal de contas, caso a dívida detida pelo BCE não seja reembolsada, ou seja vendida a preço de saldo no mercado secundário, o prejuízo é suportado pelos contribuintes de todos os países da Zona Euro.

Mas chegará o momento em que Draghi não poderá mais fugir a decisões políticas. Os tratados europeus não prevêem forma de obrigar um país a sair da moeda única. E, na verdade, não há. A única instituição com capacidade para obrigar um país a sair do Euro é mesmo o BCE. Se este fechar o garrote aos bancos gregos, os custos impostos serão tão grandes que a Grécia não terá alternativa que não a de abandonar o Euro.

Ou seja, a mais importante das decisões políticas dos próximos tempos estará nas mão de Mário Draghi, que apenas tem mandato para fazer política monetária.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Quem é que se vê grego?

No próximo Domingo, os gregos são convidados a dizer se querem ou não aceitar o acordo que lhes foi proposto pelos credores. Varoufakis diz que o plebescito não é sobre a permanência no euro. E, de facto, não será essa a pergunta escrita, mas diferentes respostas têm diferentes implicações. E a rejeição de um acordo dificilmente resultará num final que não seja o regresso da Grécia a uma moeda própria. Uma que o Governo helénico possa estar a imprimir noite e dia, em notas de triliões como no Zimbabwe, por exemplo, para pagar os mais de 2 mil milhões que gasta mensalmente em vencimentos e pensões. Nesse sentido, aquilo que no Domingo não será decididamente objecto de pergunta é a austeridade. Porque a austeridade não se define através daquilo que se recebe, mas sim daquilo que se consegue comprar com o que se recebe. Os últimos dias devem ter ajudado a clarificar ideias. E o exercício não é de imaginação, é de memória: basta recordar os casos da Argentina ou da Venezuela, por exemplo.

Na verdade, o único modo de os gregos escaparem a anos difíceis é conseguirem convencer os seus parceiros da zona euro a perdoarem-lhes a dívida e a continuarem a financiar-lhes o nível de vida sem reivindicações. Uma ideia que deveria ser referendada junto dos alemães; e dos finlandeses, austríacos, espanhóis e portugueses, já agora. Sim, porque desde 2012, aquando do haircut, que a dívida grega é quase toda institucional. Ou seja, em caso de incumprimento, são os contribuintes dos países da zona euro quem fica sem o dinheiro. Portanto, pergunte-se-lhes se se querem ver gregos. A bem da democracia. [Já agora, os "malvados" mercados também são feitos de pessoas; não foi só o BES que arruinou poupanças de uma vida, há quem tenha ficado sem elas por as ter convertido em títulos helénicos.]

Nem carne, nem peixe...

Não somos bons, nem somos maus. Parece que vamos estar entalados entre os Países Baixos e a Alemanha. Mas com esta história da Grécia, sabe-se lá o que irá sair...

Fonte: Bloomberg

A Grécia elegeu uma Merkel

Alexis Tsipras instituiu controle de capitais e racionamento das pensões na Grécia. Os reformados, que normalmente levantariam €600 euros das suas pensões, só podem levantar €120.

Se isto não é uma dose maciça de austeridade, então não sei o significado da palavra. Nem a Angela Merkel conseguiria implementar uma coisa tão draconiana na Alemanha, um povo que deve ter servido de inspiração para o Dan Brown criar o Silas n'O Código de DaVinci.