sábado, 19 de Julho de 2014

Algumas reclamações credibilizam os avaliadores

Há declarações assassinas e há declarações suicidas. Já tinha ficado mal impressionado com o artigo de opinião Maria de Lurdes Rodrigues a atacar, em causa própria, a avaliação do seu centro de investigação  o Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) , que apenas teve classificação de BOM.

Agora, numa grande reportagem do Público sobre o assunto, leio novamente isto:
João Sebastião [director do CIES] cita indicadores que contrariam qualquer ideia de perda de qualidade: a publicação de artigos em revistas científicas indexadas passou de 39 para 84 entre 2008 e 2012.
É pá desculpem, mas isto é ridículo e ainda é mais ridículo que não se apercebam do ridículo. A única explicação para tamanho choque é acharem que Bom é uma nota demasiado alta. Se há alguma coisa incompreensível é que no quinquénio anterior, com 39 publicações, tenham conseguido 'Excelente'.

terça-feira, 15 de Julho de 2014

sexta-feira, 11 de Julho de 2014

Uma análise das avaliações das unidades de investigação pela FCT

Eu e o Pedro Magalhães perdemos algum tempo a olhar para os os dados do estudo bibliométrico encomendado pela FCT no âmbito da avaliação das unidades de avaliação. Fizemos também algumas contas.

domingo, 6 de Julho de 2014

Re: Erros grosseiros, ignorância e preconceito

Eu considero que a actual avaliação dos centros de investigação levada a cabo pela FCT está cheia de falhas graves, para não dizer gravíssimas. O próprio sistema de avaliação que agora foi desenhado é um disparate pegado. Assim, naturalmente, concordo com muito do que aqui está escrito.

Mas, sinceramente, apresentar o número de 100 artigos publicados em revistas indexadas como sendo algo digno de registo é um pouco confrangedor. 100 artigos em 5 anos num centro que se gaba de ter mais de 100 investigadores é muito pouco. É menos de um artigo por investigador a cada 5 anos. Bem sei que há muitas outras formas válidas de investigação e de apresentação de resultados. Mas, em ciências, a publicação da nossa investigação em revistas com peer review tem de ser o formato preferido. Um artigo de 5 em 5 anos é muito, muito pouco, lamento.  
Podem dar as voltas que quiserem, podem queixar-se do imperialismo anglo-saxónico, queixar-se dos efeitos perversos do publish or perish, queixar-se dos preconceitos. Enfim, queixem-se de tudo. 

Mas falar de 100 artigos em 5 anos num centro que conta com mais de 100 investigadores é não se dar conta ridículo. Mais valia nem o ter referido. E se, como diz a autora, no quinquénio anterior foram 39 artigos então o 'Excelente' que tinham era, pelo menos, tão escandaloso como o 'Bom' da actual avaliação.

sábado, 5 de Julho de 2014

Vítor Bento no BES

Declaração de interesses: sou suspeito porque o conheço e por ele sempre tive o máximo respeito. Foi a primeira pessoa a contratar-me profissionalmente. Na minha primeira entrevista de emprego, perguntou-me se, perante uma expectativa de descida das taxas de juro, se deveria aumentar ou reduzir a Duração de uma Carteira de Títulos. Respondi mal. VB deu-me uma segunda oportunidade e perguntou-me se eu estava a pensar numa carteira de activos ou passivos. E eu tornei a dar a resposta errada. Deve ter sido o nervosismo da minha primeira entrevista. Mesmo assim, VB deu-me uma terceira oportunidade e contratou-me na mesma.

Mas, como dizia, sou suspeito porque gosto muito de VB e aprecio imenso o seu empenho cívico. Gostaria de dizer que quem fala e escreve sobre VB como se ele fosse um ponta de lança ou do PSD ou do Governo ou do Banco de Portugal no BES está redondamente enganado. Às vezes, as explicações mais simples são mesmo a mais lógicas. Muito provavelmente, VB foi contratado para estas funções no BES porque é dos poucos em Portugal que tem um curriculum à altura dos desafios que esta função exige. É esta a minha opinião.

segunda-feira, 30 de Junho de 2014

Econometria sem teoria é gaita que não assobia

Há uns anos, uma revista feminina fez um inquérito às suas leitoras. Mais de metade delas acreditava que se fosse mais sexy teria mais facilidades na sua carreira profissional. Terão razão? Provavelmente sim. Tal como terão razão os homens que pensem o mesmo. Há vários estudos econométricos que o confirmam. A evidência é esmagadora. Daniel Hamermesh, professor de Economia no Texas, tem vários artigos científicos sobre o assunto. Por exemplo, num estudo publicado em 1994, na American Economic Review, concluiu o seguinte relativamente ao mercado de trabalho norte-americano:
Pessoas feias ganham menos do que pessoas normais que, por sua vez, ganham menos do que as bonitas. O custo de se ser feio é 5 a 10%, um pouco mais do que o prémio de se ser bonito. O efeito nos homens é, pelo menos, tão grande como nas mulheres. Mulheres pouco atraentes participam menos no mercado de trabalho e casam-se com homens com menos capital humano. Pessoas bonitas têm tendência a trabalhar onde a beleza é produtividade; mas o impacto da beleza individual é razoavelmente independente da profissão, sugerindo pura discriminação por parte dos empregadores.
É duro mas é geral, também se aplicando aos professores. O mesmo Hamermesh concluiu, num outro estudo, que professores mais bonitos são os preferidos pelos estudantes. Enfim, parece que a fealdade tem custos em vários mercados.

Mas será verdade que os resultados de Hamermesh implicam, obrigatoriamente, que haja discriminação por parte dos empregadores? Façamos uma experiência conceptual. Suponham que na Universidade do Minho existem quatro tipo de professores: (1) feios e burros, (2) feios e inteligentes, (3) bonitos e inteligentes e (4) bonitos e burros. Partindo do princípio que a Universidade premeia o intelecto e não o físico, os inteligentes terão salários maiores do que os burros, independentemente de serem feios ou bonitos.

Mas agora admitam que abre uma agência de modelos em Braga, para quem beleza é produtividade, e que a agência paga aos modelos bonitos o mesmo que a universidade paga aos professores inteligentes. O que vai acontecer em Braga? 

Os professores bonitos e burros vão mudar de profissão, dado que são mais bem pagos na agência de modelos. Os bonitos e inteligentes ficam na universidade, estimulados pelos seus fantásticos alunos de Economia. Já os feios, sejam burros ou inteligentes, não podem mudar porque a agência só quer bonitos. Ou seja, todos os professores bonitos são inteligentes. Professores feios tanto podem ser inteligentes como burros. Finalmente, na agência de modelos são todos burros. Mas, e este é o motivo desta entrada, o que diria Daniel Hamermesh se viesse a Braga? 

Primeiro, concluiria que o salário médio dos modelos é superior aos dos professores universitários e que há uma tendência dos mais bonitos para trabalhar em mercados onde beleza é produtividade. Segundo, concluiria que, em média, os professores mais bonitos ganham mais do que os feios. Como corolário, concluiria que, independentemente da profissão, os bonitos ganham mais do que os feios. Finalmente, com base neste último resultado, concluiria que existe discriminação pura por parte dos empregadores em relação aos feios. 

Esta última conclusão estaria totalmente errada. Nos mercados que descrevi, todos os salários estão de acordo com a produtividade. Moral desta história? Por melhor que seja o trabalho econométrico, ele não vale nada sem um bom modelo teórico. Outra moral da história é que devem ouvir atentamente os académicos bonitos.

Versão de um texto escrito originalmente para a Revista Anual d'Economia
do Núcleo de Alunos de Economia da Universidade do Minho

domingo, 29 de Junho de 2014

A Lei de Goodhart e a Dívida Pública Portuguesa

Em 1975, Charles Goodhart, conselheiro do Banco de Inglaterra, enunciou uma regra sobre os efeitos da intervenção do Estado: any observed statistical regularity will tend to collapse once pressure is placed upon it for control purposes. Esta regra, que ficaria conhecida como a Lei de Goodhart, costuma ser enunciada da seguinte forma: when a measure becomes a target, it ceases to be a good measure. Arriscar-me-ia a enunciar esta lei de uma forma mais aplicada aos nossos problemas:
Mal um indicador económico se torna um objectivo de Política Económica, imediatamente esse indicador perde a sua relevância enquanto instrumento condutor de política.
Pelo menos desde o Tratado de Maastricht, assinado em Fevereiro de 1992, que o rácio da dívida pública face ao PIB tem um valor político de referência: 60%. A Lei de Goodhart diz-nos que a partir desse momento o valor contabilístico da dívida pública deixou de representar o seu verdadeiro valor.

Maquilhar de contas públicas tem, pelo menos, dois problemas. O mais óbvio é o da falta de transparência: contabilizada ou não, a dívida pública existe. Mas há um problema mais subtil: ao não usar a sua forma preferencial de financiamento a crédito ― a emissão de títulos de dívida pública ―, o Estado recorre a esquemas mais onerosos. O uso e abuso das parcerias público-privadas, inaugurado com a construção da Ponte Vasco da Gama, é um dos mais comuns. Mas há outros. Por exemplo, a compra de submarinos em leasing permitiu evitar, temporariamente, a contabilização dessa dívida.

Quando se espoletou a crise financeira, em 2007-2008, Portugal apresentava, oficialmente, uma dívida pública de 70% do seu PIB. Valor bastante razoável, se verdadeiro. Infelizmente, havia dívida escondida em diversas gavetas, desde empresas públicas a regiões autónomas passando, evidentemente, por diversas PPPs. Assim, ficámos sujeitos àquilo a que chamamos self-fulfilling prophecies, profecias auto-sustentadas, ficando à mercê da crise das dívidas soberanas que assolaria a Europa pouco depois e que, em Portugal, desembocaria na chegada da Tróica.
Introdução ao meu artigo deste mês nos Cadernos de Economia.

PS Reparei agora que este número dos "Cadernos de Economia" conta com a colaboração de três associados da Destreza: eu, o João Cerejeira e o Manuel Cabral. É quase como se fôssemos uma delegação blogosférica da Ordem dos Economistas.

segunda-feira, 23 de Junho de 2014

Você não entende nada / Cotidiano - Caetano Veloso e Chico Buarque (ao v...

A propósito dos 70 anos de Chico Buarque de Hollanda, anda muita gente a falar no seu top 10 de canções de Buarque.

Sobre esse assunto tenho várias coisas a dizer. Para já, quero dizer apenas três coisas.

Primeiro, qualquer top 10 do Chico Buarque tem, necessariamente, de incluir pelo menos 25 canções. Segundo, qualquer top 10 que não inclua este "Você não entende nada/Cotidiano" junto com Caetano é um top feito por alguém que "não entende nada". Terceiro, se tiver tempo, escreverei mais sobre o assunto num futuro próximo.

domingo, 22 de Junho de 2014

O estranho acto ilocutório de Lídia Jorge

Em entrada anterior, admirei-me com a ideia da Lídia Jorge acabar um parágrafo com um acto ilocutório. Afinal, parece que houve um erro da revista. O acto ilocutório é de Almeida Faria. Passemos a palavra ao escritor:
Lembro-me perfeitamente, tenho a certeza absoluta. Tencionava voltar a abordar o assunto a que me referia nesse parágrafo, daí essa referência.
Esta declaração dele é importante. A ser verdade o que o escritor diz, então estamos mesmo perante um “acto ilocutório compromissivo” e não assertivo. Ou seja, a correcção oficial do exame está correcto.

PS desde que começaram a engendrar o novo acordo ortográfico que os nossos técnicos da língua andam loucos.

sábado, 21 de Junho de 2014

O lançamento do livro “O Coração da Memória”

O CORAÇÃO DA MEMÓRIA
NA FESTA DA AMIZADE

Vou procurar ser breve, como convém neste momento solene. As pala­vras já pouco dizem ou tornam-se inábeis para retroverter ou traduzir os sentimentos que se me guerreiam no íntimo. O meu Amigo José Manuel Medei­ros Ferreira não ti­nha o di­reito de nos dizer adeus tão cedo – faz hoje preci­samente três meses que foi restituído à terra. Nem ele nem o Viri­ato, que ainda teve mais pressa e lá se foi há mais de três anos… Fui um privilegiado em ter en­contrado e convi­vido muito de perto com o M. Ferreira. Com ele e com o Vi­riato, formáva­mos o trio da Biblioteca. Aí passámos muitas ho­ras feriadas, sentados no estrado ao fundo, o do piano, ou­vindo o Viriato re­ci­tando poesia ou lendo páginas de Eça de Queirós…

No estreito convívio diário que mantivemos até ao último ano do Curso Comple­mentar de Letras, tornei-me mais rico e com ele fui ama­durecendo intelectualmente ao longo dos lentos, muito lentos anos dos estudos e da adolescência. Escu­tava-o nas suas sérias e simultanea­mente chisto­sas prelecções cuja temá­tica abar­cava os mais desvairados assuntos – da política à História, do fute­bol à Filosofia, do cinema ao humor. Humor que lhe brotava natu­ral como uma fonte que se abre em rocha bíblica tocada por uma vari­nha de condão. Cultivava-o, buri­lando-o, com a um dia­mante bruto, e apri­morava-o com a seriedade com que esta superior capaci­dade do espírito hu­mano merece ser tra­tada.

Ele sabia muito bem que rir é uma coisa séria, para utilizar uma expres­são que serve de título a um livro cujo Autor agora me escapa… E as­sim se desanuvia­ram muitas das som­bras teimosas que me pairavam sobre o motor da mente… À beira do Medei­ros Ferreira, não ha­via, nem po­dia ha­ver lugar para som­brias triste­zas, muito menos lamechas… Fomos cole­gas e ami­gos ínti­mos entre dois pólos da vida: 1956 e 2014, isto é, entre o ano primeiro da sua en­trada no então Liceu Nacional de Ponta Delgada, vindo desta Vila, onde con­cluiu o segundo ano do Externato, e o ano último da sua vida, ocorrido no dia 18 de Março do corrente ano.

Apesar da sua intrínseca alegria e boa disposição, também era capaz de uma lágrima comovida. Vou con­tar-vos um episó­dio passado em 2 de Maio de 1991. Tínha­mos chegado dias antes, a con­vite do Conse­lho Directivo da já Escola Secundária de Antero de Quental. Vínhamos proferir uma conferên­cia so­bre o tema que nos fora antecipadamente sugerido: “A Aprendizagem In­sular da Cul­tura”, integrada no 1.º Centenário da morte de Antero de Quental. O evento cultural realizou-se no Salão Nobre da Biblioteca, em 29 de Abril, e repe­tiu-se no dia seguinte. Viéramos ambos e mais três escritores da Ilha, antigos alunos e há muito fixados no Continente, apresentar contas do destino que havíamos dado ao que aprendêra­mos durante os anos que vivêramos na Ilha e no Liceu. Lembro-me de que a dada al­tura da sua comuni­cação o Medei­ros Ferreira, em homenagem ao se­nhor Augusto Moura, professor de ginástica, citou-lhe uma frase lapidar: «Passa a bola, Ferreira; olha que a bola corre mais depressa do que o ho­mem…» E a bola com que a vida e o tempo se entretêm a jo­gar ou a jogar-nos também cavalga muito mais cé­lere do aquele que a vai vi­vendo.

Fiz sem querer um desvio no caminho. Estava con­tando que o meu Amigo Medeiros Ferreira, ape­sar de galhofar e de rir e de ironi­zar e de fazer os outros rir, era também capaz de uma lágrima emocionada. Aconteceu no dia 2 de Maio, no dia seguinte ao do fune­ral do Doutor Ruy Galvão de Carvalho, professor de História e Filosofia. Durante os dois dias das conferências, ocorreu o reencon­tro dos três ami­gos do peito: o Viri­ato, o Fer­reira e eu. Não nos encontrávamos assim de uma assen­tada havia cerca de trinta anos. Por mo­mentos senti ou quis sentir ou fingi que senti que, afi­nal, poderia a vida ofe­recer-nos um retorno... E viemos os três à Vila, a esta mesma onde agora nos encontramos e que deve­ria, em devido tempo, ter subido à categoria de ci­dade. Viemos, aqui, em romagem afectiva, que o Ferreira passara aqui parte da sua infância e adolescência, e desejava reencon­trar-se nas ruas que cal­correara e nos sítios onde convivia com os seus colegas com quem jogava ao futebol… Fomos per­correr os seus luga­res sagrados, cujas raízes aprumadas lhe ficaram fincadas na recordação, palavra que significa chamar ao cora­ção. Até nos foi mos­trar o largo portão de madeira, a tinta verde já descas­cada, con­tra o qual chutava a bola para trei­nar o pé e o remate antes de se ir juntar aos companheiros das renhidas partidas de futebol. Não sei se ele se encontrou, mas é de crer que não! Não lhe pergun­tei. Há perguntas que se não fa­zem, sobretudo quando se pressente ou se vê um rosto perturbado pela emo­ção e se sente nele uma saudade contida. Dessa vez, não tivemos aldân­cia de subir até ao alto da Senhora da Paz. Cansaço de tantas emoções? É natural… À socapa, acenei-lhe eu cá de baixo, e Ela sorriu-me do seu trono de altura. Senti que nos tinha per­doado o pecadilho de não termos ido lá a cima cum­primentá-la...

À tarde, na derradeira digres­são ao longo da Avenida Margi­nal da Cidade, antes da despedida e do destro­çar, desfez-se o que ainda sobejava das muitas ilusões que nos haviam habitado nesse já longínqua tarde na Vila... Um chuvisco de tristeza transformado em lágri­mas que teimaram em aflorar, decerto para lavar uma má­goa que não tinha nome. Fiquei, ficámos fragilizados, um nevoeiro ensopado toldando os olhos. Afinal, pensei eu, não há retornos, tudo o que passa se torna irremediável!

Terá sido a última vez que o trio da Biblioteca se reuniu. Encontrávamo-nos, sim, mas em separado. Ora com um, ora com o outro. Não há retornos, ouço-me de novo. E recolho-me. O fu­turo já não me existe…

sexta-feira, 20 de Junho de 2014

É por isso que, para além do culto que a obra de Eça legitimamente merece, por mérito próprio e grandeza genuína, se deve reconhecer, para sermos justos, que muita da admiração totalitária que Eça desencadeia nasce porventura duma espécie de preguiça e lentidão em entender, ainda nos nossos dias, a linguagem diferente daqueles que lhe sucederam. O que não parece vir a propósito, embora venha. Como um dia veremos. -- Texto de Lídia Jorge que saiu no exame de Português.
Pelo que percebo da notícia,os especialistas não concordam sobre se "Como um dia veremos" é um “acto ilocutório assertivo” ou um “acto ilocutório compromissivo”. Foda-se..., ainda dizem que matemática é difícil.

PS Onde é que a Lídia Jorge tinha a cabeça para rematar este parágrado com um "acto ilocutório".
PPS Não se deve dizer nem escrever:...para além; além basta, porque já contém o "para"!
Os grandes escritores também escrevem e dizem asneiras. O pior é que o erro crasso saiu num ponto de exame de Português... Registe-se. (Este Post-Post-Scriptum é da lavra de Cristóvão de Aguiar.)

terça-feira, 17 de Junho de 2014

As nossas cores são feias mas são nossas.

A Lauríssima tem acompanhado os jogos da Copa comigo. Segue uma estratégia simples para maximizar a sua utilidade e que consiste em adaptar a sua função de utilidade às circunstâncias. Por exemplo, começou o jogo de Espanha com a Holanda a apoiar a Espanha (penso que por ter uma amiga com mãe espanhola) mas ao terceiro golo da Holanda passou a ser uma fervorosa adepta da laranja mecânica.

Ontem, quando a fui buscar ao colégio, sou surpreendido com as cores de Portugal estampadas na sua cara. No caminho para casa expliquei-lhe que contra a Alemanha muito provavelmente íamos perder, mas que, como era Portugal, ela não podia apoiar os vencedores. Expliquei-lhe que fosse qual fosse o resultado teria de estar sempre do lado português e não ver nisso qualquer embaraço.

Para me mostrar que percebeu, disse-me:
― Papá, eu só mudo de equipa quando não é Portugal. Com Portugal, mesmo que estejamos a perder por dois, continuo a apoiar Portugal.

Não contente com esta afirmação de patriotismo, acrescenta:
― Mesmo que esteja a perder por três, continuo a ser por Portugal

E antes de chegar a casa ainda vai a tempo de dizer:
― Mesmo a perder por quatro, Portugal é o melhor.

Felizmente, não teve tempo para mais prognósticos. Mas, no fim, é isto mesmo. A única coisa a fazer é levantarmos a cabeça e ir para cima dos americanos e dos ganeses com o que temos.

Se chegarmos aos oitavos, uma nova etapa começa e todos voltamos a estar em igualdade de circunstâncias. Se não chegarmos, paciência. Objectivamente, isto só tem a importância que lhe dermos e só faz sentido dar-lhe importância se ganharmos.

Austeridade técnico-táctica

Mensagem de Passos Coelho deixada no voice mail de Angela Merkel: "Eu não lhe disse, Frau? O Paulo Bento não é nenhum Joaquim Sousa Ribeiro."

domingo, 15 de Junho de 2014

Para reduzir as rendas das PPP

De acordo com o PÚBLICO, o Governo pretende aprovar rapidamente a lei que altera o regime de pensões, bem como aprovar a nova tabela salarial dos funcionários públicos. O objectivo é simples: ter tempo suficiente para que estas leis sejam ratificadas pelo Tribunal Constitucional antes de entrarem em vigor em 2015. Evita-se assim o absurdo em que se tem tornado o Orçamento do Estado dos últimos três anos.

Considero esta ideia simplesmente excelente. Lamento apenas que não se tenham lembrado dela mais cedo. Ter-se-ia evitado tanta instabilidade no rendimento das pessoas. Porém, agora que tiveram essa brilhante ideia, seria bom que a aproveitassem a sério, em vez de a usarem apenas para pensionistas e funcionários públicos. Explico.

Como é mais ou menos do conhecimento público, a dificuldade de renegociar algumas das rendas obscenas que se pagam nas Parcerias Público-Privadas (PPP) tem a ver com contratos blindados que prevêem qualquer alteração unilateral possível penalizando fortemente o Estado. Até indemnizações compensatórias contra possíveis aumentos de impostos estão previstas nesses contratos. Essa blindagem faz com que o poder negocial esteja todo do lado dos privados. É, simplesmente, demasiado arriscado para o Governo forçar alterações unilaterais, pagando rendas menores. E, evidentemente, qualquer solução negociada a que se chegue tem sempre o acordo dos privados, pelo que dificilmente favorece o Estado e o interesse público.

A solução encontrada para reduzir pensões e salários pode ser aplicada exactamente da mesma forma às rendas das PPP. Basta ao Governo criar uma nova lei que permita reduzir fortemente as rendas pagas e, simultaneamente, anular as indemnizações compensatórias. Se essa lei for preventivamente enviada ao Tribunal Constitucional para que a sua constitucionalidade seja aferida, não há qualquer risco. Se o Tribunal autorizar tal lei, o que é provável se se garantir uma taxa de rendibilidade razoável ao parceiro privado, fica o Estado protegido e fica a força negocial do lado do Governo, podendo este, finalmente, defender o interesse público nesta matéria.

Em suma, o meio encontrado para fazer os ajustamentos que o Governo considera necessários às pensões e aos salários da função pública pode, com a mesma facilidade, ser usado para finalmente reduzir as rendas pagas às PPP.

É só uma ideia.

segunda-feira, 9 de Junho de 2014

Cartas dos Açores

O RESPLENDOR DAS GUERRAS DO ALECRIM E DA MANJERONA


Cristóvão de Aguiar


Tivesse António José da Silva, o Judeu, por um toque de magia, tido conhecimento da nova e carnavalesca batalha de flores que deflagrou, nas últimas semanas, na Avenida Marginal de Ponta Delgada, por ter sido despoletada uma granada defensiva, cujos estilhaços quase atingiram o resplendor da imagem do Ecce Homo, e teria acrescentado mais uma parte, a 3.ª, à sua ópera joco-séria, Guerras do Alecrim e da Manjerona, a fim de lhe dar um final apoteótico e de maior comicidade.

Nesta jihad islâmica ou, traduzindo para português de lei: nesta guerra santa de uma nova cruzada, ou guerrilha idólatra, têm entrado na liça padres de duas nature­zas: os néscios ultramontanos e os que sabem o que fazem e o que dizem. Um deles, pertencente à hoste fundamen­talista e ultramontana, brindou, num jornal, o Bispo de Angra e demais Ilhas dos Açores com um epíteto digno de quem veio: uma besta-quadrada... Têm também dado a sua achega ilumi­nados sociólogos, alguns ele­mentos do Povo, mas sobretudo certa fidal­garia (os lídimos carregadores açorianos do andor e donos consu­etudinários do resplendor) que des­cende, em linha recta, da família da Senhora Dona Joana Tomásia da Câmara Albuquer­que, herdeira, por não ter havido filho varão, do Condado da Ribeira Grande.

Talvez fosse útil, neste momento, refrescar a memória dos que, bea­tificamente, falam em dessacralização do resplendo­r da imagem milagrosa, acaso seja exposto no Museu de Arte Antiga, e reler a parte da Bíblia que reza assim: […] “Não faças para ti ídolos, nenhuma repre­sentação daquilo que existe no céu e na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra; não te prostres diante des­ses deuses, nem os sirvas…] ”; o Bezerro de ouro que Moisés, na descida do Monte Sinai, pôs em cacos…

Nesse longínquo con­dado vigorou e acho que vigora ainda o chamado alqueire de vara pequena, para que os ricaços do tempo aumentassem as suas terras e ficassem mais ricos, assim podiam ascender ou aceder ao posto de morgado. As sacra­mentais aldrabices contabilísticas ainda muito em voga no nosso tempo, sobretudo nos orçamentos do Estado e outros cambalachos, dando razão ao Eclesiastes: Não há nada de novo debaixo da rosa do Sol!
Esta 2.ª Condessa da Ribeira Grande casada com um tio, Guido Augusto da Câmara e Ataíde, foi quem ofereceu o valiosíssimo resplendor à imagem do Santo Cristo, decerto para pagar alguma promessa e receber em troca benefícios espirituais, que essa gente nobre nunca deu almoços grátis…

Causas próximas desta guerrilha ou batalha de limas carnavalesca, que terá o seu armistício em breve: a ida temporária do referido resplendor para Lisboa, a fim de figurar numa exposição no Museu de Arte Antiga, onde já estiveram peças ainda mais valiosas, quer do País, quer do estrangeiro, Oriente incluído, e, que se saiba, ninguém desses países fez cenas próprias de uma barbárie elitista... Do mesmo modo, também lá esteve, em exposição, a Custódia de Belém, e ela não se dessacralizou pelo facto de terem caído olhos profanos, atónitos, sobre a maravilha que Mestre Gil Vicente concebeu. Trata-se de uma singular obra de arte, que, como todas, deve ser fruída com emoção estética, independentemente das crenças religiosas de quem as aprecia.

São Miguel, porém, cioso de que lhe roubem a preciosidade, como freirinha egoísta que esconde a receita de um doce conventual, bate o pé, diz que não, faz cordões sanitários, humanos e desumanos, abaixo-assinados ridículos, porta-se como menino birrento que se recusa a que lhe mudem as fraldas borradas do espírito e da mente, enfim, representa, no Campo de São Fran­cisco, um triste espectáculo que o Santo Cristo, o verda­deiro, não o feito de madeira e recamado de ouro, não aprovaria: primeiro, porque é inteligente; segundo, porque aborrece burridades e brutezas pseudo-intelectuais de certas cria­turas que se dizem cultas e crentes fervorosas, mas são tão-só fanáticas e pesporrentes elevadas à quinta casa…

O mais avisado será arranjar um Bispo novo, doméstico, domesticado, dócil, que feche os olhos ao que qualquer bicho-careta apeteça fazer, destituir o actual pre­lado (sugiro que seja substituído pelo sacerdote que desfei­teou o actual Bispo de Angra), transferir a diocese para Ponta Delgada, como já houve ameaços em tempos recuados, tornar a Ilha independente, mesmo que os Americanos não estejam pelos ajustes, como há pouco foi escrito por um ex-reitor, e deixem lá o resplendor da ima­gem ir a Lisboa, ao Museu de Arte Antiga. Garanto-vo-lo que será muito bem tra­tado e o Santo Cristo genuíno não se importa, até agradece, e a imagem também, sem­pre fica mais aliviadi­nha por uns tempos do peso sobre a cabeça, ima­gem de madeira fina, que pode criar caruncho, ofere­cida pelo Papa Paulo III ou Clemente IV a umas freirinhas da Caloura que viajaram até Roma com a finalidade de pedir autorização ao Papa para edifi­car um Convento na terra onde se cultiva o melhor vinho de cheiro da Ilha...


Ilha do Pico, 8 de Junho de 2014