domingo, 14 de fevereiro de 2016

S. Valentim -- instruções

Feliz dia de S. Valentim. Hoje vou tentar corrigir uma assimetria de informação entre homens e mulheres: vou explicar aos homens como se desaperta um sutiã.

A culpa é do “outro”

Segundo a esquerda portuguesa (e a europeia em geral), a culpa dos nossos fracassos e desgraças é sempre do “outro”. Compreendo. Esse exercício alivia imenso as consciências. Tem até a vantagem de conter sempre alguma verdade, ainda que, por vezes, seja apenas uma pontinha. O problema é que de caminho alimenta uma cultura de desresponsabilização ou irresponsabilidade, que não nos deixa ver claramente algumas das causas mais profundas dos males que nos atormentam. Vejamos um exemplo recente. Há muitas nuvens negras a pairar sobre as economias. Por isso, muitos pediram ao actual governo um OE mais prudente. Temendo o que aí pode vir, a esquerda já começou a arranjar culpados. Podia ser outra vez a Merkel, mas a chanceler caiu agora nas boas graças dos media por causa dos refugiados. Podia ser o presidente do Eurogrupo, mas o holandês levanta dois problemas: é socialista e tem um nome impronunciável em português - Jeroen Dijsselbloem. Podia ser o comissário Pierre Moscovici, mas, afinal, é um importante socialista francês. Até que Wolfgang Schäuble se pronunciou sobre o OE português. Pronto, estava encontrado o bode expiatório perfeito. Tem um nome pronunciável em português, é alemão, poderoso, e não é socialista. E é assim, com meias-verdades (enganam mais e melhor do que as mentiras), que a esquerda quer descalçar a bota em que nos está a meter.


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Nove

Estou em Galveston. O mar está feiinho, cheio de sedimento. À distância contei nove petroleiros; li no outro dia que muitos têm atracado aqui para fazer tempo porque não há sítio onde guardar tanto petróleo. 

Decidi jantar (é cedo, mas eu não comi almoço, apenas me entreti com um pedaço de queijo) num restaurante com pátio, apesar de estar frio -- tem vista para o mar. Pedi fish and chips, apesar de ter mais vontade de comer um hambúrguer, mas não servem. 

Enquanto esperava pela comida recebi uma notificação da Bloomberg: Antonin Scalia, um dos juízes mais conservadores do Supremo Tribunal de Justiça americano acabou de falecer. Se o Presidente Obama nomear um juiz, isto irá mudar significativamente a orientação do tribunal. Eram nove juízes ontem; agora são só oito. 



Frases famosas

40. Ómessa. Tinha muito com que se emborrascar Gentil. Que é como quem diz, tornar-se tempestuoso.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Bem bom!

Os juros estão a subir e agora o adiamento do pagamento do empréstimo ao FMI parece ter sido uma medida excelente. O Mário Centeno é um Ministro das Finanças genial. Viva! Mas ainda não percebo porque é que na primeira proposta do OE2016 ele tinha uma taxa de juro de curto prazo negativa, quando parece que sabia a tempestade nos mercados que por aí vinha. Para quem não é génio, é muito difícil acompanhar estas coisas.

Entretanto, a DBRS diz que está preocupada com a subida de juros da dívida portuguesa, mas mantém-se confortável com o rating de Portugal. Os Esquerdistas acham uma grande vitória a DBRS dizer que está confortável; já os Direitistas acham uma vitória a DBRS dizer que está preocupada. Os gajos da DBRS são bem bons na cama: toda a gente sai satisfeita...

Noutros tempos, isto chamava-se trapalhada, não era?

Os funcionários públicos vão passar a trabalhar 35 horas/semana já, em 1 de julho, no final do ano, garantimos que é este ano, não podemos garantir que é este ano, esta medida não implica mais custos, até se poupa dinheiro, depende dos custos, há custos, não sabemos se há custos, tem de se fazer um estudo sobre os custos, todos têm direito às 35 horas, há um problema com os enfermeiros, temos de fazer um levantamento sector a sector….Chega, já me começa a doer a cabeça.

Frases famosas

50. Se eu soubesse o que sei hoje, exalou Mª da G., que se morria em golfadas de sangue e tripas.

Parar à porta

Escreveu Carlyle “Invent the printing press and democracy is inevitable”. Se, além da imprensa, acrescentarmos os caminhos-de-ferro, o telégrafo, a indústria e a concentração da população em centros urbanos, então alguma forma de governo democrático é inevitável, concluíram outros autores. Não por acaso democracia e Estado-nação passaram a estar associados a partir do século XIX. Por exemplo, o psicólogo social francês Gabriel Tarde escreveu um interessante ensaio intitulado “As leis da imitação” (1890). O homem tem uma tendência irresistível para imitar os outros e, com as tecnologias, essa tendência acelera imenso, não só entre indivíduos, mas também entre Estados. Tarde, à semelhança da maioria dos autores da época, transpirava optimismo e falava mesmo numa "pacificação final" graças aos jornais. Isto não o impediu de concluir que, devido às diferenças linguísticas, os jornais iriam parar sempre à porta das fronteiras nacionais. E, voltando ao Carlyle, se os jornais param à porta de cada país, a democracia também pára.

O valor da prudência

Mas custa assim tanto entender que, com o mundo da finança internacional tão volátil, devíamos estar neste momento a aplicar medidas que reduzissem o défice rapidamente? Melhor ainda, e bem mais fácil, evitar medidas que agravem o défice? Faz algum sentido esperar pelo momento em que sejam necessárias? É quando as taxas de juro dispararem e estiver tudo em pânico que se vão tomar medidas de emergência? Custa assim tanto ser prudente?

Bem sei que no último ano, ano meio de governo PàF a prudência foi posta de lado. Deitaram-se à sombra das políticas do BCE e dedicaram-se a tentar ganhar as eleições. Mas não podemos passar a vida a discutir que a crise não devia ter acontecido. Em algum momento teremos de a enfrentar de frente e com realismo.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Gato escaldado tem medo de água fria

Após Portugal ter entrado em pré-bancarrota em 2011, não faltou quem acusasse a Comissão Europeia de ter estado calada e feito vista grossa aos sucessivos desvios, abusos e aldrabices orçamentais de vários países do eurogrupo. Agora, é acusada do contrário. Fala demais e perturba os mercados, que, como é sabido, são umas criaturas muito sensíveis. Compreendo o argumento. Dirão com certeza que os avisos ou ameaças aos países infractores deviam ser feitos discretamente. De preferência, na sombra dos gabinetes e salas de reunião de Bruxelas. Mas, honestamente, alguém acredita que esse tipo de aviso ou ameaça surtiria algum efeito? Eu não acredito.

Tecnologia dos espirros

Há 100 anos, Einstein com a sua Teoria Geral da Gravidade previu que o universo, ou seja, o tecido Espaço-Tempo, era distorcido por ondas gravitacionais criadas por massa. Hoje foi anunciado que finalmente foram encontradas provas que suportam esta teoria. Conseguiu-se medir estas ondas minúsculas, que ocorreram depois de dois buracos negros colidirem há mais de mil milhões de anos. Isto é verdadeiramente fantástico! (Ler mais na Bloomberg.)

Imaginem se, daqui a mil milhões de anos, houver tecnologia para os seres "inteligentes" de então verem quantas vezes os humanos espirravam e que distorção causavam no espaço-tempo. É que por essa altura nós já estaremos extintos há muito, mas talvez a evidência dos nossos espirros escape...

Floricultura

41
Todos os dias cede o seu lugar no autocarro.

Centeno dixit

"Não tenho essa habilidade de fazer desaparecer 960 milhões de euros de juros da dívida."
Mário Centeno, Parlamento, 10/2/2016

Tradução:
"Não há dinheiro. Qual das três palavras é que não percebeu?"
Vítor Gaspar, Parlamento, 11/2011

Estejam à altura


Tudo foi feito para captar a atenção do mundo financeiro global. Agora que o conseguiram, estejam à altura.

Liguem os pontos

  • Dizem-nos que as receitas de IVA dos produtos petrolíferos desceram por causa da redução do preço da gasolina; a quantidade de gasolina e gasóleo vendida aumentaram 0,6% e 4,3%, respectivamente.
  • As receitas de IVA dependem de duas coisas: quantidade vendida e preço antes de imposto.
  • As receitas dos ISPs, como são calculadas como um valor fixo por litro vendido aumentam e descem directamente em proporção à quantidade vendida, o que faz sentido, pois maior (menor) poluição acontece quando a quantidade consumida aumenta (diminui).
  • Em 2015, os lucros da Galp aumentaram 71,5%, logo podemos deduzir que nem todas as poupanças da descida do preço do petróleo foram passadas aos consumidores.
  • A Galp já admitiu que espera aumentar a venda de combustível em Espanha porque o aumento dos ISPs em Portugal desviarão parte da procura para Espanha.
  • Em Espanha, quem recebe a receita dos impostos sobre gasolina e gasóleo será o estado espanhol; para além disso, a Galp pagará em Espanha impostos sobre os lucros das vendas efectuadas em Espanha.
  • O Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais já admitiu que, caso as receitas de IVA diminuam mais, os ISPs serão agravados, ou seja agravar-se-á também o incentivo para a procura ser desviada para Espanha.
É bom ser espanhol com vizinhos como os portugueses. Sorriam, vocês estão a ser explorados por governantes incompetentes, que não sabem como fazer o país crescer. E nem sequer sabem como aumentar uns impostos sem desviar receitas para outros países, como Espanha. Até para ser Xerifes de Nottingham, os nossos governantes não prestam...