quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

As salsichas, o Twitter, e o Facebook

No programa da Diane Rehm discutia-se hoje a nomeação do neurocirurgião Ben Carson para ficar à frente da HUD (Housing and Urban Development). Quando foi candidato para as primárias Republicanas, os seus assessores queixaram-se de que era impossível treiná-lo para dar respostas inteligentes acerca de política externa, por exemplo.

A meio de Novembro, Carson disse que, não tendo experiência governativa, não estaria disponível para integrar a Administração Trump. Mas Trump mandou um tweet no outro dia a dizer que estava a pensar em Ben Carson para HUD, e Ben Carson disse no seu mural do Facebook que estava interessado, voltando atrás na ideia de que não se achava qualificado para um cargo desse tipo.

Há aquela ideia de que a política é como as salsichas: não convém ver o processo, nem saber como se faz. A administração Trump vai ser uma grande salsicha, quiçá morcela, e todos nós iremos acompanhar a sua produção via redes sociais.

O faroeste

Ontem, um homem armado entrou numa pizzaria em Washington, D.C., porque durante a campanha eleitoral alguém decidiu começar um rumor falso -- o pizzagate -- de que o restaurante estava envolvido numa operação de tráfico sexual de crianças, em que Hillary Clinton estava envolvida. O homem decidiu tomar a justiça pelas próprias mãos e apareceu no restaurante com uma espingarda e ameaçou quem lá estava. Eu sei que isto de homens desatarem aos tiros nos EUA se tornou uma ocorrência normal e, mesmo assim, em termos de violência já houve muito mais do que há agora. A única diferença é que agora há muito mais ênfase mediático e maior visibilidade e parece que estamos a voltar ao faroeste.

Tenho vários amigos aqui que acham que os EUA têm regulação a mais, que é preciso repelir legislação que incomoda as empresas, que é esse o entrave ao crescimento. Na Segunda-feira, uma armazém em Oakland, na Califórnia, ardeu e cerca de 36 pessoas morreram. O armazém estava a ser usado como residência, gabinetes para artistas, e sala de concertos. O edifício operava em condição ilegal, violando várias leis de segurança. Ainda por cima, a Califórnia é um sítio que é conhecido por ser bastante regulado. Não sei até que ponto uma administração Trump irá ser sábia em termos de que leis repelir e de como fiscalizar as que estão em vigor.

Até agora, quando havia estes incidentes, ou catástrofes naturais, e várias pessoas morriam, era esperado o Presidente fazer um discurso a acalmar os ânimos, assegurar que o governo estava a tentar melhorar a situação. Barack Obama é bom a fazer isso; George W. Bush não era. Os americanos têm uma visão do Presidente como uma figura que os lidera em tempos de desgraça, alguém que os inspira. Quando falta a fonte de inspiração, nota-se que as pessoas ficam mais desorientadas e cínicas. É apenas uma questão de tempo até haver uma tragédia nacional que necessite que Trump inspire o pessoal e, por mais voltas que eu dê à cabeça, não estou a ver como é que ele irá conseguir preencher esse papel. Presidência por Twitter e Facebook Live é progresso tecnológico, mas não acho que resulte.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Duas semanas...

Daqui a duas semanas, vota o Colégio Eleitoral. Ou seja, ainda há duas semanas para o Donald fazer burrices e demonstrar que é maluco. Hoje no The New York Times, um membro Republicano do Colégio Eleitoral argumentou que o Colégio Eleitoral deveria rejeitar Donald Trump. Diz ele:


Entretanto, tenho-me divertido no Tumblr, seguindo Trumpgrets, que agrega tweets de votantes do Trump que entretanto se arrependeram. Também fizeram um agregado de Coultergrets, Republicanos que se viraram contra a Ann Coulter, quando esta se virou contra o Trump. A América é tão divertida...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Party-poopers capitalistas...

A CBS não meteu um live-streaming no YouTube para o show das anjinhas hoje à noite. São mesmo uns party-poopers capitalistas: querem que o pessoal pague...


Economia da carne

Em 2012, houve uma grande seca nos EUA, em que parte da área de pasto ficou comprometida. A consequência dessa seca foi um aumento do abate de bovinos, inclusive a redução do rebanho que é mantido para reprodução, e um aumento dos preços de carne de bovino. A produção de bovinos é onde se encontra um ciclo produtivo de maior amplitude: demora seis semanas para produzir um frango, mas uma vaca demora dois ou mais anos. Agora pensem no que é recuperar o rebanho bovino da seca de 2012. Antes de se conseguir produzir uma vaca, precisamos de produzir uma vaca mamã, ou seja, a primeira prioridade é produzir vacas reprodutoras e só depois do rebanho reprodutor recuperado é que se começa a produzir animais para o abate. Só neste ano é que a produção de carne de vaca demonstra uma recuperação mais completa, o que alivia os preços, que durante os últimos quatro anos se mantiveram altos.

Estou aqui a ler uma newsletter e dizem-me que o aumento do consumo de proteínas tem a ver com a melhoria do nível de emprego e o final da eleição americana que foi muito renhida e estou a pensar que isso é irrelevante. O fundamental que está a afectar o consumo de carne é o haver mais carne de vaca no mercado, o que baixa o preço dessa carne de vaca e também de proteínas substitutas, logo aumenta a quantidade consumida. É perfeitamente possível aumentar a quantidade consumida em resposta a um choque favorável da oferta -- uma expansão da curva da oferta --, sem que a curva da procura se modifique. No entanto, as preferências dos consumidores continuam a ser importantes: ainda anda tudo maluco com dietas ricas em proteínas. Apesar das dietas Atkins e South Beach já terem passado de moda, as pessoas não chegaram e reduzir o consumo de carne para períodos pré-dieta, e a dieta paleolítica ainda está em voga; mas nada nos últimos dois meses modificou estas preferências.

Frases famosas 88

Que coisa. Ainda não estou em mim. Fiquei-me para ali, com certeza, entre os cacos e os estilhaços.

Referendo italiano II

Vital Moreira esclarece que o meu texto anterior, no que diz respeito às críticas que tinha feito aos eleitores italianos, estava errado.

domingo, 4 de dezembro de 2016

O referendo italiano

Em Itália está a ser votado um referendo que dará muito mais poder à Câmara dos Deputados, esvaziando os outros órgãos, nomeadamente o Senado.

Acresce que, com as novas regras, é praticamente impossível que não haja maioria absoluta na Câmara dos Deputados, ficando assim o partido do governo com freio livre para fazer o que quiser. 

Junte-se a isto o facto de Itália ser o berço do fascismo, que muito recentemente teve um primeiro-ministro de direita tão populista como Berlusconi e que, à esquerda, tem um Beppe Grillo que não tem nada que o recomende e concluir-se-á que o chumbo da proposta a referendo é o único voto possível para muita gente. Se eu votasse. poderiam contar com o meu voto contra.

Que se faça disto um referendo à participação no Euro e um plebiscito ao governo em funções é um erro. Mas, ao contrário do que diz Vital Moreira, quem está a cometer o erro não é o eleitorado, é a classe política.

Um déspota

Desde que o Alfred morreu, o cão que me resta, de seu nome Chopper, com 8 anos, decidiu que é o dono da casa. Rotinamente, coloca-se à minha frente e começa a ladrar em tom refilão. Não posso sentar-me ao computador porque sua Excelência não aprova. Se ligo a TV para ver algo no Netflix, só estou em paz se lhe apetecer usar-me como travesseiro de aquecimento. Ia agora escrever um post sobre reformados americanos, mas o meu déspota de estimação informou-me logo que tal não era permitido. Talvez queira ir passear, mas esteve todo o dia de chuva. 

Resignei-me a escrever-vos no telemóvel, apesar de já ter dificuldade em ler letras pequenas, ser preguiçosa para usar óculos de leitura e de a App do Blogger ser uma porcaria. O meu iPad, versão 2, está velho e as apps já não funcionam com grande confiança. O laptop está mais velho do que o iPad e já não confio para usá-lo como laptop, logo prefiro tê-lo numa secretária. Estou aqui a tentar decidir-me se tento educar o cão, fechá-lo num quarto sozinho, que acho uma crueldade, ou comprar tecnologia mais moderna. Depois lembrei-me que o IPad e os computadores são feitos na China. 

Após a morte de Fidel Castro, algumas pessoas contrapuseram a ideia de que os americanos são uma corja consumista, o que é pior do que a corja comunista de Cuba. Uma amiga minha italiana disse que esperava que Cuba não se americanizasse e que ficasse como está. É estranho que ela tenha dito isto porque, quando decidiu fazer um post-doc, foi para os EUA que ela veio, não foi para Cuba. Para fazer férias baratas, foi a Cuba. A China pré-americanização era muito mais pobre do que é agora, mas o ocidente aproveitar-se dos trabalhadores chineses baratos é imoral, até porque cria desemprego nos países do Ocidente, que é outra imoralidade.

Pronto, estou presa na terra dos dilemas morais, com a agravante de ter um déspota como cão e um pseudo-déspota como futuro presidente. O melhor é terminar isto porque temo que o post desapareça, se der um ataque de censura à app do Blogger. Se houver erros, os meus olhos estão como a minha tecnologia: obsoletos. 


sábado, 3 de dezembro de 2016

Um triste fim

Já poucos se lembram, mas em 2012 François Hollande apresentou-se ao eleitorado francês como o campeão anti-austeridade. Ele prometia um combate sem tréguas “à política cega da austeridade”, ele ia pôr os mais ricos a pagar a crise. A esquerda europeia rejubilou. Estava encontrado um novo herói. Afinal de contas, o homem era o líder da segunda maior potência europeia. Cinco anos depois, com níveis de impopularidade históricos, anunciou que não se recandidatava a um segundo mandato, facto inédito na V república francesa. A esquerda hoje renega o homem e trata-o quase como um traidor. Entretanto, do Tsípras, o tipo da Grécia, lembram-se?, é melhor nem falar. Desgraçadamente, com o tempo, o poder parece destruir os heróis e campeões anti-austeridade, transformando-os, de caminho, em traidores. É um triste fim.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Ser insignificante

Desde Julho, tenho andado a tomar conta de girinos que nasceram no meu jardim. São criaturas insignificantes, mas para mim são muito importantes. Quando nasceram e vi tanto bichinho, pensei na probabilidade de algum ter uma deficiência. Há uns dias, encontrei o primeiro deficiente: quando a metamorfose começou, reparei que uma das pernas era anormal, faltando-lhe uma articulação. Fora de cativeiro, o meu deficiente já teria morrido, pois a probabilidade de sobreviver quase cinco meses até completar a metamorfose é quase zero.

telemóvel esquecido no quarto

tenho um amigo que é dj há uns 17 anos, e quase não usa discos há uns 15. maquinetas. daquelas de fazer um barulho enorme e abanar as almas. máquinas do caralho, portanto. um dia destes tenho que lhe perguntar o que é que ele põe na declaração de IRS. será que, fiscalmente, ele é igual a um artista de variedades que toque nel monteiro em casamentos, bapizados e bodas de diamante? tinha a sua piada, se ele fiscalmente fosse quase o nel monteiro.
e o IVA das putas? será que devia ir tudo à taxa máxima? é capaz de não ser o mais indicado. um broxe pode ser um luxo um bocado burguês, mas uma punheta está muito perto de ser um bem essencial.

mas o meu amigo dj. disse-me uma vez que tinha conhecido o valter hugo mãe, e que o gajo era um idiota. a minha admiração pela obra do valter hugo mãe deixou-me um bocado desconsolado. mas o meu amigo exagerar era algo longe de ser inédito, por isso acabei por me esquecer do assunto. passado uns tempos comecei a seguir  o valter hugo mãe e os posts dele no facebook - que passam maioritariamente por opiniões disfarçadas de poesia, que não chegam a ser nem uma coisa nem outra. e não que eu desrespeite as opiniões do senhor, mas o valter hugo mãe do facebook estava aos bocadinhos a estragar-me o valter hugo mãe dos livros. e os livros dele são importantes demais para mim. ainda que às vezes lhes tenha que fugir porque a escuridão é um lugar onde se entra de cabeça mas se sai muito devagarinho, por mais bonita que seja. e assim lá se foi o valter hugo mãe do meu mural.

nesse aspecto, como em outros, o valter hugo mãe tem muito em comum com o saramago, imperador absoluto do reino da magia, mas assustador a puxar para o ridiculo quando descarregava o cartuxo politico em direção a um tipo de esquerda que saber fazer contas como eu.

sobra o lobo antunes. que é rude, que não dá entrevistas, e quando as dá está a usar o pulover do meu pai de 1975, a fumar para a camâra e a mandar tudo para o caralho com a violência de quem se está devidamente a cagar para aquilo tudo. porque o universo do génio e a realidade estão a buracos negros de distância e tentar juntá-los há de dar uma trabalheira do caralho, e provavelmente acabar em desastre. e é por isso que ignoro o valter hugo mãe que está  fora dos livros, ou o que o saramago dizia.

e isto tudo porque estava há um bocado um gajo no autocarro a dizer ao outro que um doutoramento em economia não servia de nada porque quem o tinha continuava a não saber nada sobre economia. e achei que em vez de lhe responder, o melhor era dar uma de lobo antunes, acender um cigarro imaginário e manda-lo com este texto a puta que o pariu.

Mera mira moralia

Douglas Murray, na última Standpoint:
"People should live a little more and react a little less."

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Cada cabeça, sua sentença

A Bloomberg tem uma reportagem especial acerca de como os casais gerem e pensam a sua vida financeira. É apenas uma colecção de histórias recolhidas nos EUA. No final, falam de relações poli-amorosas com uma pessoa de uma firma de advogados e, a certa altura, dei-me conta que nunca tinha pensado nestas coisas.

Pensava eu que era uma mulher moderna porque, há 18 anos, tive dois namorados simultaneamente. Não faço ideia como aconteceu, não foi uma coisa propositada, mas também não andei às escondidas de ninguém. Dava muito jeito: com um havia uma vida social muito activa, com o outro havia conversas mais estimulantes. Uma vez, os meus amigos perguntaram aos namorados, à minha frente, porque é que eles me partilhavam sem armar bronca e eles disseram "Because it's Rita". Depois acabaram o curso ao mesmo tempo e foram à vida. Foi um grande choque ir de dois para zero, repentinamente.

Na entrevista, dizia-se que o enquadramento legal tem, mais ou menos, 20 anos de atraso relativamente às dinâmicas sociais. O que virá daqui a 20 anos, pergunto-me.

Dados, música, e sexo

"In addition to surveying 30,000 people around the globe, we used Apple Watches, Nest Cameras, iBeacons and a custom-built app to collect biometric data from people in 30 homes. The pilot experiment yielded a wealth of interesting insights into how music influences what people do and how they interact with each other in the home. People who listened to music together moved closer together. They enjoyed their food more. They had more sex.

In an interview with Forbes, Daniel Levitin, a neuroscientist who helped designed the survey and interpret the data, said “for the first time we’re seeing evidence that the music causes people to feel closer to one another.” The magazine speculated that the experiment could represent the future of how science is conducted."


Fonte: Frank Orrico, Media Decoded

Se calhar, é ao contrário: pessoas que têm mais sexo, ouvem mais música...