sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Quando se insiste na resposta errada

Vítor Cunha respondeu-me. E respondeu-me reformulando a pergunta usando uma linguagem mais objectiva e concisa, o que é muito útil. Só que Vítor alterou a pergunta.


O problema é que ele se esqueceu da proposição “de”. A reformulação correcta seria “poderemos afirmar que o número de grupos diferentes de A é [inferior/superior/igual] ao número de grupos diferentes de B.” 

Ah, mas retira-se pelo contexto e pelo espírito da pergunta e outras merdas. Lamento, a pergunta está mesmo mal formulada. É possível constituir muito mais grupos de B do que de A. O resto são tretas de quem não quer reconhecer que a pergunta é, vá lá, sejamos simpáticos, muito infeliz.

PS Vítor Cunha diz ainda que se alguém pensou como eu pensei é porque "já se esqueceu que o grupo A é composto por 6 elementos e o B, consequentemente, por 11 elementos." Obviamente que tal é um disparate. A resposta que eu dei depende crucialmente de o conjunto B ter mais elementos do que o conjunto A.

Quando a resposta certa está errada

Há 11 jogadores efectivos: E1, E2, E3, E4, E5, E6, E7, E8, E9, E10 E E11. Quantos grupos de diferentes jogadores se consegue fazer com esta base? É contá-los. Aí vão alguns: {E1}, {E1, E2}, {E1, E8}, {E2, E4}, {E9, E10}, {E1, E2, E8, E11}, etc. Se fizerem bem as contas (e não incluindo o conjunto vazio), concluirão que o número de grupos diferentes é de 2047

Se fizeram as mesmas contas para os suplentes ― S1, S2, S3, S4, S5 e S6 ― concluirão que o número de grupos de diferentes jogadores é 63.

Ou seja, a resposta a esta pergunta é, ou devia ser:
podemos afirmar que o número de grupos de diferentes de jogadores suplentes é inferior ao número de grupos diferentes de jogadores efectivos.
Quem respondeu isto teve zero. Isto não não é justo. E entradas como esta do Vítor Cunha a tratar quem errou esta pergunta como estúpido são totalmente descabidas. E, já agora, dizem muito mais sobre os seus autores do que sobre os que tiveram o azar de ter de responder a uma pergunta destas.

PS Sabendo que a resposta considerada certa seria que o número de grupos é igual, consegue-se inferir o que o examinador queria perguntar. O que ele queria dizer é que ao se pegar em 17 jogares e se escolher os 11 que jogam, automaticamente ficam escolhidos os 6 que não jogam. E para cada 11 diferente haverá o complementar correspondente no banco de suplentes. Sabendo a resposta, percebe-se o que queriam perguntar. Queriam mas não conseguiram, perguntaram mal.

PPS Vítor Cunha respondeu-me e eu respondi-lhe de volta.

A mensagem

Confesso que estou bastante decepcionada com os nossos governantes no que diz respeito ao resultado das eleições na Grécia. Acho que ao comentarem não dizem nada de substancial; pelo contrário, acabam por gerar polémica e intrigas que fazem as delícias da nossa comunicação social. Se eu mandasse nas relações públicas do nosso governo, teria preparado um comunicado oficial que diria o seguinte:
"O povo português congratula o novo governo da Grécia e deseja que a Grécia saia da sua crise o mais depressa possível. Nós somos solidários com o povo grego e faremos tudo ao nosso alcance para ajudar a Grécia. No entanto, a nossa preocupação principal é a defesa dos interesses de Portugal e assegurar que qualquer solução encontrada minimize os sacrifícios exigidos ao povo português."

The End

Deve ser esta a mensagem de Portugal: desejamos o melhor, mas preparamo-nos para o pior. Tudo o resto é desnecessário pois, sendo a Grécia um país soberano, tal como Portugal, os seus cidadãos têm o direito de votar em quem muito bem entenderem e a nossa opinião é irrelevante.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Galinhas do Mato

Tinha 11 anos quando Zeca Afonso editou as “Galinhas do Mato”, com Zeca às portas da morte. Lembro-me de uma conversa do meu pai com um amigo sobre o álbum. Dizia esse amigo que tinha de ouvir muito mais vezes porque ainda não estava a gostar, mas que o Zeca Afonso era tão bom que só podia ser falha do ouvinte. Na altura gravei esta conversa no cérebro sem a perceber. Lembro-me de uns anos mais tarde achar isto uma estupidez. Parecia que Zeca era um Deus e que tudo o que fizesse tinha de ser bom ou que, por sabermos que ia morrer, não podíamos criticar o seu trabalho.

Já mais adulto, sinto-me quase obrigado a concordar. Realmente, José Afonso tem músicas de que não gostava e de que não gosto. Mas, mais tarde, há qualquer coisa que me faz gostar dessas músicas de que antes não gostava. Muitas vezes é a versão de um cantor mais recente, outras vezes são situações que assentam como uma luva numa canção do Zeca.

A vantagem é que, ao contrário desse amigo do meu pai, eu não me esforço por gostar. Vem por si.

Depreciação do Euro demorou, mas é muito bem vinda


Evolução do Cambio Euro-dólar – valores médios mensais.

Artigo publicado no Jornal de Negócios

O Euro está a 1,15 dólares, o valor mais baixo desde 2003, quase 20% abaixo do de há seis meses atrás. Esta descida é positiva, quer por estimular a competitividade e no curto prazo e dar um impulso ao crescimento, quer por contribuir para atenuar os riscos de deflação na zona euro (ZE).
O impacto da depreciação do euro deverá ser mais relevante do que a análise mais simplista baseada no peso das exportações para fora da zona euro pode sugerir.
A análise dos efeitos da depreciação do euro tem de começar pelo efeito que esta tem directamente nos bens exportados para fora da Zona Euro. São cerca de 40% das exportações, e quase 50% do valor acrescentado das mesmas. Neste caso o efeito é directo e pode ser muito relevante para conseguir inverter a tendência de abrandamento das exportações dos últimos três anos.
Mas os efeitos não se esgotam aí. Mesmo nos 60% de exportações que têm como destino a ZE, as exportações portuguesas concorrem com produtos oriundos da China, Vietname, México ou Turquia. Há assim um efeito de melhoria da competitividade que é importante considerar, em particular no caso português que, dentro da ZE, é o país com a estrutura de exportações mais próxima da dos países extracomunitários.
Há ainda o efeito de arrastamento das empresas fornecedoras de grupos que exportam para fora da zona euro. Os exemplos de empresas portuguesas fornecedoras dos grandes grupos automóveis europeus são os mais óbvios. Uma proporção elevada das exportações portugueses são componentes para empresas europeias, que depois são exportados para fora da ZE.
Por último há ainda o efeito de substituição no mercado doméstico e os efeitos nas exportações de serviços. No caso do Turismo, o maior mercado continua a ser o inglês, um país fora da ZE.
Considerando todos estes efeitos podemos dizer que, se a depreciação do euro não é a cura ou a solução de todos os nossos problemas, tem potencial para dar um contributo positivo muito relevante.
Podemos também perguntar porque é que esta depreciação não veio mais cedo, questionando porque é que se permitiu que durante uma década se assistisse a uma tão forte apreciação do euro, que passou de mínimos próximos dos 0,8 dólares, entre 2000 e 2002, para valores máximos próximos dos 1,6, em 2008, situando-se entre os 1,3 e os 1,5 dólares na maioria do período entre 2007 e 2014 – ver gráfico.
A resposta é ao mesmo tempo complexa e bastante simples. É complexa porque os factores que influenciam a evolução cambial num regime livre são complexos, resultando das expectativas e da combinação e articulação da política monetária, evolução dos preços, crescimento relativo, saldos externos, etc.
No entanto, também é relativamente simples. Em grande medida a forte valorização do euro no período entre 2001 e 2008, reflectiu as prioridades e preocupações do BCE nesse período.
Numa altura em que uma parte importante dos países do Euro apresentavam défices externos elevados, que recomendavam uma desvalorização da moeda, prevaleceu a ideia de combater por todos os meios o risco de uma aceleração da inflação que nada indicava que pudesse acontecer.
De facto, até 2010, o discurso oficial do BCE desvalorizou os riscos e problemas criados pela existência e agravamento dos défices das balanças de transacções correntes dentro da Zona Euro, mantendo uma política monetária conservadora consistente com a valorização.
Não se trata de atribuir todas as culpas de tudo o que aconteceu aos países do Sul da Europa às opções de política monetária, que lhes foram particularmente negativas. Outras instituições fizeram outros erros, e estes países fizeram os seus próprios erros.
Mas pode-se perguntar se foi razoável as instituições europeias esperarem que os países do Sul da Europa podiam resolver os seus problemas de competitividade e de desequilíbrio externo, num contexto em que em simultâneo à abertura do mercado europeu à entrada de produtos concorrentes das suas exportações, assistiam a uma duplicação do valor da sua moeda (de 0,8, para 1,6 dólares).
Com uma valorização galopante desta natureza, só empresas que conseguissem ganhos de produtividade de 10% ao ano poderiam manter as suas margens. Não é assim estranho que tenha sido difícil atrair nesses anos mais investimentos para a área dos transaccionáveis. No caso português o mais estranho e surpreendente é que, mesmo com a valorização do euro que aconteceu, se tenha conseguido nesse período aumentar as exportações e reduzir, mesmo que de forma insuficiente, o défice da balança de bens e serviços.
A depreciação do Euro é assim uma boa notícia, que vindo tarde, esperemos se possa manter por um período relevante, dando o seu contributo para facilitar a melhoria da competitividade e do crescimento numa Zona Euro, que para tantos dos seus elementos tem tido uma política monetária muito longe da que seria óptima.



Eu vejo-me grega com os portugueses

Anda tudo excitado com o Syriza, mas eu raramente me excito com políticos sobre os quais eu ainda não sei praticamente nada. Há muita gente que vê os gregos como coitadinhos; pela minha parte, eu acho que foram mal tratados e acho que deviam ter sido ajudados de maneira diferente, mas os gregos não são coitadinhos.

Quando eu trabalhava na Universidade do Arkansas, conheci um estudante de mestrado da Grécia que estava a fazer um estágio lá, juntamente com uma estudante de doutoramento da Itália e uma post-doc de Espanha. Como eu tinha carro e eles não, frequentemente eu os levava pela cidade e era comum irmos jantar fora. Uma noite, o grego e a italiana entraram numa grande discussão. Ela achava que a Itália devia ser um país decente e as pessoas deviam exigir que o Sr. Berlusconi se portasse à altura. O grego achava que tanto a Itália como a Grécia eram corruptos e não tinha conserto. E disse ele que, na Grécia, era completamente normal e aceitável, um funcionário público chegar ao trabalho, pendurar o casaco, sair para fumar cigarros, depois regressava para apanhar o casaco para sair para o almoço, tirava um almoço prolongado e depois lá aparecia, quase a horas de ir para casa. Era normal, o funcionário fazer pouco ou nada e ninguém dizia nada. Um comportamento destes não é normal em Portugal.

Durante a crise financeira e as várias intervenções na Grécia, ouvi muitas vezes na rádio americana relatarem a maneira como o serviço de saúde grego funcionava. Vocês podem ler a descrição das práticas corruptas utilizadas, como exigir que um paciente pague um suborno para ter consulta, dar subornos para ver certos médicos ou para ter consulta mais depressa, etc. Por exemplo, custava €50 de suborno para ir a um hospital e €3.000 para ter uma cirurgia. Os subornos faziam parte da compensação da classe médica. Eu não conheço casos destes em Portugal; já sei que os médicos recebem prendas das farmacêuticas, etc., mas nenhum médico estende a mão como condição para ver o paciente.

E depois há forma como os políticos gregos se comportaram. A Grécia recebeu intervenção formal em Maio de 2010, depois de muitos meses de incerteza--eles já estavam na corda bamba antes do colapso financeiro de 2008,--em que o país podia ter iniciado uma mudança de comportamento. Escolheu não o fazer antes e também não o fez durante algum tempo depois da intervenção. Em vez disso mudou de governo praticamente de seis em seis meses, procurando criar o máximo de instabilidade política pois pensavam que a UE estava a fazer bluff. Não nos esqueçamos que a Grécia não só aldrabou todas as estatísticas para entrar no euro, ou seja, não fez esforço nenhum de ajustamento da economia, como contratou a Goldman-Sachs para os ajudar na fraude. (A UE sabia da situação e, mesmo assim, deixou entrar a Grécia no euro criando uma situação de profundo risco moral. Depois de adoptar o euro, a Grécia devia ter sido acompanhada cuidadosamente pela UE. Obviamente, que o grande problema nessa altura era que o polícia de serviço, a Alemanha, tinha perdido a autoridade moral para dar lições aos outros, pois foi um dos primeiros países a quebrar o acordo de Maastricht--mesmo hoje, a Alemanha está em violação do acordo.)

Só em 2012, é que a Grécia viu que as coisas eram mesmo sérias e iniciou "reformas", como oficialmente reduzir em metade o salário do Presidente da Grécia de $462.504 (recebia €23.122 de salário mais €6.240 de despesas por mês, mas note-se que o Presidente grego da altura teve o bom senso de prescindir do salário voluntariamente); como comparação, o Presidente dos EUA ganhava $400.000 por ano.

Hoje coloquei essa notícia antiga, cujo link incluí acima, no meu grupo de discussão de economia no Facebook. E, de repente, muitos membros dizem que Portugal é exactamente a mesma coisa, é tudo igual à Grécia!!! Em 2011, o vencimento do Presidente da República de Portugal era de €6.523, depois de já ter sido cortado em 2010 e, outra vez, nesse mesmo ano de 2011, e nós tivemos intervenção depois da Grécia. Como é que isto é "exactamente igual" à Grécia?

Nós não somos tão maus quanto a Grécia. Não sei a razão desta predilecção nacional pelo masoquismo. Penso que o masoquismo é bom nos livros das "Cinquenta Sombras de Grey", mas eu prefiro ler os Trópicos de Henry Miller.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Primeira desilusão...

Dá-me ideia que o novo Ministro das Finanças grego dá ares de ser um Vítor Gaspar da contabilidade nacional:
“We are in favor of a frugal lifestyle. What is the necessity of so many Porsche Cayennes in the narrow streets of Athens? Greeks were more creative when they lived frugally, without loans and credit cards,” he [Varoufakis] highlighted.

Fonte: Greek Reporter

Mas, a meu ver, um grego que compre um carro alemão, depois de toda esta tragédia, não é um bom grego. Eu sugiro um Ferrari para ajudar a Itália...

Just a coincidence?


Procuram-se líderes...

"Only when the tide goes out, do you discover who's been swimming naked."
Warren Buffett
Revoltei-me ao ler esta notícia acerca da demissão em bloco dos chefes das urgências do hospital Garcia de Horta. A demissão numa altura de crise, em que a vida de pessoas está em risco, vai contra tudo em que acredito. Acho uma demonstração clara de falta de profissionalismo. É muito fácil estar à frente de organizações em tempos normais, quando as coisas são previsíveis. Quando se entra em situações de crise, é que se vê quem andava a nadar nu, como dizia o Warren Buffett. O que me incomoda ainda mais é que um surto de gripe de gravidade acima do normal não é uma situação extrema. Se tivesse havido uma crise pior, teria sido uma razia.
Sim, reparei que a demissão é pescadinha de rabo na boca: “Não haveria (recuo no pedido de demissão) se as condições difíceis não fossem reversíveis, mas as condições são reversíveis”. Não compreendo esta necessidade de criar estes dramas todos quando a vida das pessoas está em causa. Mas lá está, como falávamos eu e o Zé Carlos, em Portugal é previsível que o sistema encalhe.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Dúvidas de dívida

No Domingo, estava a ouvir a rádio quando um analista, que comentava acerca da Grécia e do programa de QE do BCE, comparou os bonds portugueses com os bonds alemães. Ele disse que a dívida portuguesa era muito má porque a economia portuguesa era muito fraca e a economia alemã era tão melhor. Não sei se é por eu ser portuguesa, mas eu não acho a economia alemã grande coisa. Aliás, na minha cabeça, a economia alemã é um grande puzzle, pois cresce muito lentamente, tão lentamente que me faz lembrar o Japão. E depois, para um investidor, a dívida portuguesa é óptima: boa rentabilidade e Portugal, apesar de tudo, lá encontra maneira de pagar as contas.

Esta semana decidi ir ver a dívida alemã, mais propriamente a dívida das famílias--quando eu estou aborrecida, consulto estatísticas. Encontrei a página de estatísticas da zona euro, que tem uma ferramenta de gráficos muito gira onde construí o seguinte gráfico:

Em 2013, o rácio da dívida das famílias alemãs era de 83,3%, das irlandesas de 191,8%, das portuguesas de 117,5%, e das francesas de 84,5%. Depois comecei a pensar onde é gasto este dinheiro. A maior parte da dívida das famílias está relacionada com a habitação e o carro. Portugal tem tradicionalmente uma alta taxa de habitação própria, mas na Alemanha arrenda-se mais. Fui ao Eurostat, que indica que, em 2013, 74.2% da população vivia em habitação própria em Portugal; 52,2% na Alemanha; 64,3% na Franca; e 69,6% na Irlanda (isto em 2012, pois os números para a Irlanda não estão disponíveis para 2013). Concluo que, ou as casas alemãs são muito caras, ou os alemães gastam muito dinheiro a comprar carros, ou os alemães financiam muito do seu consumo a crédito, ou uma combinação destes três factores--para um povo com a reputação de "poupadinho", parece-me um comportamento estranho.

Note-se também que, em termos de dívida privada (empresas e famílias), a Irlanda está em muito pior estado do que Portugal, o que é muito surpreendente, pois os salários aumentaram muito mais lá do que em Portugal durante a época de boom e a Irlanda tinha taxas de crescimento invejáveis. O efeito da crise financeira é claramente visível na dívida das empresas irlandesas, mas a dívida das famílias irlandesas estava mais alta do que a portuguesa antes de 2008. Ou seja, para mim, nós temos pior reputação do que merecemos, mas também não somos muito bons a projectar uma imagem de confiança em nós próprios.

Garantias de previsibilidade

Max Weber foi um dos mais profundos e perspicazes pensadores sobre a era moderna e o capitalismo. Há cerca de 100 anos, escreveu:

“O capitalismo industrial (…) tem de poder contar com a regularidade, a segurança e a objectividade do funcionamento do ordenamento jurídico, com o carácter racional, essencialmente previsível, do direito e da administração.”

As intervenções estatais deveriam estar enquadradas legalmente, não pelo perigo de, ao contrário, poderem lesionar princípios de justiça, mas porque se tornariam imprevisíveis, com o que se negaria a racionalidade (leia-se: capacidade de prever as consequências) que convém aos interesses dos capitalistas.

Sem estas garantias de previsibilidade ou calculabilidade, o capitalismo não poderia florescer.

Non sequitur?

A Grécia já começou a mudar.
A esperança chegou finalmente ao povo helénico.

Novo programa de empreendorismo para Portugal...

Que pena eu não acertar assim na lotaria: no outro dia, queixava-me eu de não se atrair emigrantes qualificados para regressarem a Portugal e eis que os meus desejos ir-se-ão realizar. Diz o artigo no Público,
Novidade é a promessa de lançar, também este ano ainda, um programa de "Empreendedorismo para Emigrantes”.

Ou seja, o Governo vai “apoiar a criação de empresas por nacionais não residentes em território nacional”. Não se compromete com metas sobre quantas empresas a criar, ao contrário do que acontece noutras medidas deste plano estratégico. Mas explica: “Dispondo Portugal de uma vasta e muito qualificada diáspora, hoje enriquecida por novos perfis migratórios de jovens que têm procurado outros destinos, estará aí a primeira fonte de migrantes que nos interessa enquanto nação captar.”

Público, 26/1/2015

É verdade, "I see dead people..."

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Poder de dragão...

Menos de uma semana depois de o BCE formalmente anunciar que ia inundar o mercado de euros, basta a vitória do Syriza na Grécia para o euro apreciar. O mercado é irracional no curto prazo e não se pode fazer grandes ilações destes movimentos, mas não deixa de ser curioso. Como bem observou o Luís no outro dia, atravessamos águas nunca antes navegadas. A palavra de ordem é mesmo "incerteza".

Uma declaração histórica

Em 1792, é utilizada pela primeira vez no Parlamento inglês a expressão "opinião pública" (public opinion). O whig Charles James Fox, num ataque ao seu arquirrival William Pitt, declara:

“É verdadeiramente correcto e prudente consultar a opinião pública (…) Se por acaso a opinião pública não coincide com a minha; se, depois de alertar para o risco, não virem as coisas de forma semelhante à minha, ou considerarem outro projecto preferível ao meu, consideraria meu dever ante o rei, ante a minha pátria e ante a minha honra, retirar-me para que possam seguir o plano que considerarem melhor mediante um instrumento adequado, ou seja, mediante um homem que coincida com eles (…) mas uma coisa está muito clara: que eu deveria proporcionar ao público os meios adequados para se formar uma opinião.”

Na declaração de Fox, a última frase é a mais importante - the means of forming an opinion. Fox referia-se, claro, à educação e à informação necessárias para se formar uma opinião fundada, opinião que nasceria de um debate público, no qual vingariam os argumentos mais racionais e persuasivos.

Nesta época, o “público” reduzia-se aos proprietários e às pessoas instruídas, que não iriam além de umas centenas de milhares num país que já teria mais de 20 milhões. De qualquer maneira, o absolutismo parlamentar vê-se obrigado paulatinamente a ceder a sua soberania. Os deputados têm como interlocutor oficial o “público” e estavam lançadas as bases para um government by public opinion