segunda-feira, 2 de março de 2015

Da perplexidade que me apetece...

Estava aqui a pensar que o que me apetecia mesmo era que o PM Tsipras ficasse perplexo. Sabem, daquela perplexidade que aconteceria se o PM Passos Coelho fizesse um comunicado aos media internacionais a dizer o seguinte (vou escrever em inglês porque é internacional):
"I, as the Prime Minister of Portugal, fully understand the difficulties that the Prime Minister of Greece faces because many of his challenges are quite similar to the ones I faced in 2011. I am thankful that the people of Portugal cooperated with my government to put our nation on a more stable path and to ensure that we would not have to live through a neverending crisis. Even my political opponent agrees that Portugal is much better today than when his party left office voluntarily. I also would like to point out that, since 2011, Portugal's GDP dropped less than 4%, while Greece's dropped 18%.

We are now in a position to assist the government and people of Greece to overcome their own challenges. We invite the Prime Minister of Greece to visit Portugal so that we can share with him the lessons we have learnt and the tools that we have developed throughout our tenure. We wish nothing but the best for Greece, its people, and its government, and we remain fully engaged to do what is best for our two nations and for the European Union."

E com isto, eu ficaria tão perplexa, que o meu queixo cairia com 100% de probabilidade!

Live long and prosper, queridos gregos...

O oportunismo...

A propósito do comentário do Manuel Cabral acerca das qualificações dos trabalhadores portugueses, recordei-me de um rapaz que eu conheci em 2009 ou 2010, quando eu trabalhava na Universidade do Arkansas. O César Hidalgo é um rapaz do Chile, nascido em 1979, que tem um doutoramento em Física da Universidade de Notre Dame, nos EUA. Antes disso tinha estudado Física na Pontificia Universidad Católica de Chile. Talvez alguns de vós já tenham encontrado o nome dele porque ele foi mencionado num artigo no Público acerca da influência de uma língua no mundo. A Revista Wired, em 2012, considerou que Cesar Hidalgo é uma das 50 pessoas "that could change the world." O que o distingue dos outros é a sua originalidade quando olha para dados. Por exemplo, ele cria arte com representações gráficas de dados. Mas também cria representações gráficas da densidade entre variáveis em países diferentes, etc. Actualmente, o César é o director do Macro Connections Group no MIT.

Conheci-o porque ele foi convidado para apresentar um seminário no Departamento de Economia onde eu trabalhava. Depois do seminário, o convidado de honra, os estudantes e os professores foram todos para um bar na Dickson St. para conversar. Durante a conversa ele disse uma coisa que não me saiu da cabeça e frequentemente penso nela. Ele disse que não tinha aprendido nada de física durante o seu doutoramento nos EUA. Todo esse conhecimento tinha sido adquirido quando ele tinha estudado no Chile. O que os EUA lhe tinham ensinado foi a ver o mundo de forma a que a teoria que ele tinha aprendido pudesse ser aplicada de uma forma criativa.

Aqui há uns anos, depois do colapso financeiro, uma das histórias que passou na NPR era sobre um modelo desenvolvido por Ben Bernanke nos anos 80, o modelo chamava-se "financial accelerator". As previsões desse modelo indicavam que os EUA iam entrar em crise. Nessa história há uma parte que eu acho engraçada e que sublinhei para vós:

Bernanke's computer model is called the "financial accelerator." It's now in the office of Mark Gertler, an economics professor at New York University, who worked on it with Bernanke decades ago. You might expect a model of the economy to look like a video game, with avatars and a virtual trading floor. But when asked to show off the financial accelerator, Gertler turns to his computer and starts printing out paper.

That's because he and Bernanke worked on equations, not computer programs. "For that, we have highly intelligent and ambitious graduate students," Gertler says.

A investigação pesada nos EUA depende actualmente dos estudantes estrangeiros, mas antes disso dependia de cientistas estrangeiros que vieram para os EUA como refugiados. As universidade americanas têm uma visão oportunista do mercado.

Uma das minhas antigas alunas da cadeira de econometria que eu leccionei na Universidade dos Arkansas é do Sri Lanka e, depois de terminar o curso e regressar para o seu país, pediu-me ajuda para encontrar um programa de mestrado nos EUA e para organizar a sua candidatura e o financiamento dos estudos. Como ela terminou o curso recentemente, eu decidi escrever-lhe para ver como as coisas tinham corrido. No email, ela disse que tinha arranjado emprego, pois durante o curso tinha tido um estágio dentro da universidade, o que lhe deu oportunidade de encontrar um emprego de consultoria no governo local de Nova Iorque, e depois disso encontrou um emprego normal.

Diz ela que pessoas que tinham acabado o curso um ano e seis meses antes dela ainda não tinham emprego. O seu conhecimento de estatística aplicada com SAS e Stata ajudou-a bastante--esta parte fez-me orgulhosa porque as minhas recomendações foram todas no sentido de ela ter um bom background nesta área e conseguir estágios. E depois ela mencionou uma coisa que aprendeu na cadeira do primeiro ano de Microeconomia do Andy Horowitz--uma curiosidade, o Andy fala português porque se apaixonou pelo Rio de Janeiro e decidiu aprender. Ele disse: "It's not about where you have absolute advantage; it's about where you have comparative advantage." É a teoria de David Ricardo, que até tinha ascendência portuguesa.

E agora pergunto-vos o seguinte:

  • Temos nós em Portugal uma visão oportunista do mercado?
  • Será que exploramos as áreas onde temos vantagens comparativas ou esperamos que vantagens absolutas nos caiam do céu?
  • Quando Álvaro Santos Pereira mencionou que devíamos olhar para coisas usando uma visão oportunista do mercado, o que é que o país lhe fez?
  • Quando o nosso governo olhou para todos os licenciados portugueses, tiveram uma visão oportunista do mercado?
  • Quando António Costa olhou para as cheias na baixa de Lisboa, teve uma visão oportunista do mercado?
  • Quando a Grécia elegeu um governo maluco, tiveram os nossos governantes uma visão oportunista do mercado?
"Eppur si muove!"

Os olhos também comem!

Um dos blogues portugueses mais bonitos é o da Mónica Pinto, o Pratos e Travessas. A Mónica é uma fotógrafa e food stylist magnífica, ao nível de uma Martha Stewart ou de uma Donna Hay. Na minha opinião, a melhor revista de culinária do mundo em termos de design é a Donna Hay Magazine e as fotos da Mónica Pinto estão ao nível dessa revista. Os textos do blogue, a maneira de ser da autora, e a sua sensibilidade são verdadeiramente inspiradores e ela consegue captar a atenção de muitos leitores e imprensa internacionais porque para além de escrever em português, também escreve em inglês.

A Mónica Pinto é uma "taste maker": ela cria uma história em redor da comida que confecciona e, ao vermos as suas imagens e lermos a história, sentimos que, por uns instantes, somos transportados para o mundo que ela criou. É um mundo onde o passado, o presente, e o futuro intersectam. É um mundo onde nós queremos ficar e sentir as coisas que ela nos conta. É um mundo cujo potencial monetário dentro e fora de Portugal seria grande, se houvesse alguém com visão para casar a economia com a fantasia.

Foto: Mónica Pinto, Pratos e Travessas

domingo, 1 de março de 2015

Que filme...

Aqui há uns meses, decidi que me ia inscrever no Netflix para não ficar totalmente à margem da cinematografia. Como não tenho leitor de DVDs, a não ser no computador, só vejo filmes digitais no iPad. Obviamente que sou preguiçosa, pois não custa muito arranjar um leitor de DVDs e ligar aquilo à TV, que eu ligo para aí duas vezes por ano. A app da Netflix no iPad não é nada de especial, é muito má até, e o catálogo de filmes é muito limitado. Por exemplo, não tem "The Dreamers" do Bertolucci, que é um dos meus filmes preferidos. Filmes de David Lynch não há, mas isso é por culpa dele.

Quando decido ver um filme, tenho sempre imensa dificuldade em encontrar alguma coisa que me agrade porque eu estou farta dos filmes de Hollywood. Normalmente vejo filmes estrangeiros ou independentes. A certa altura, o algoritmo do Netflix decidiu que eu gosto de filmes com muito sexo, especialmente lésbicos. A parte do sexo não me incomoda muito, se bem que se for um filme só de sexo pode limitar bastante o enredo, mas não percebo porque é que tem de ser filmes lésbicos. Porque é que não sugerem mais filmes com homossexualidade masculina ou filmes heterossexuais? Mas o que eu gostava mesmo era de filmes interessantes, com ou sem sexo. E nem há filmes portugueses para eu lá ver. Porque é que os nossos políticos quando mandaram emigrar as pessoas, não mandaram também alguém criar um serviço de vídeo na Internet para os portugueses no estrangeiro poderem consumir filmes portugueses? Ou será que há um e eu ainda não conheço?

A propósito de sexo, um dos meus filmes preferidos é "Sex, Lies, and Videotape". Gosto tanto que eu, quando estava em Portugal, às vezes, via-o muitas vezes, para aí uma por semana durante vários meses seguidos. A minha irmã até implicava comigo de eu só ver aquilo. Há outro filme que eu sou capaz de ver duas e três vezes seguidas e era o que eu fazia quando estava a tirar o doutoramento e ficava com a neura. É o "Legally Blonde", que até é um filme de Hollywood. Há uma cena neste filme que é o máximo: quando ela se veste de Playboy Bunny e vai à festa e se encontra com o ex-namorado. Quando a Elle diz "I'm never gonna be good enough for you, am I?" eu farto-me de rir. De repente, dá-se uma viragem total na moça e ela diz: "I'll show you how valuable Elle Woods can be!"

E é isso! Só nos falta aquele momento em que nós, com rabo de coelhinha(o) ou não--e estamos quase na Páscoa!--, decidimos demonstrar o quão valiosa(o)s somos...

When the House of Cards is built in Sesame Street

Diferença de opinião...

O Carlos Duarte num dos meus últimos posts disse-me que a Sampedro não está interessada em criar um estilo de vida. Está interessada em vender lençóis e toalhas para hotéis. Qual é a implicação disto? É simples: não se quer vender um produto diferenciado, quer vender-se uma commodity. Como eu vos disse no outro dia acerca da agricultura, não há grande dinheiro a fazer em commodities. A maior companhia do mundo é a Apple; não é a IBM. O dinheiro faz-se em produtos diferenciados, como insinuou o Zé Carlos no post "Uma distinção em desuso". Em Portugal ainda não se percebeu uma coisa simples: não há reformas nem salários a nível da Europa do norte enquanto as pessoas continuarem a olhar para si próprios, para os outros, e para o que fazem como se o produto do seu trabalho estivesse apenas a satisfazer necessidades básicas. As reformas e os salários são uma consequência, não são uma causa, do desenvolvimento.

Este ano vai fazer 20 anos que eu vim estudar para os EUA num programa de intercâmbio. Eu podia ter-me candidatado ao Erasmus, mas não o fiz porque a competição era mais do que muita, e a minha probabilidade de ser aceite era mais pequena. Um dia vi um anúncio para um programa de intercâmbio com os EUA e decidi candidatar-me a esse. O meu objectivo em sair de Portugal era um de diferenciação: eu queria que esta experiência no meu CV me diferenciasse dos meus colegas. Quando cá cheguei, passados uns meses, os meus amigos aqui diziam: "Rita, devias ficar nos EUA e fazer um mestrado." Nos EUA, eu trabalhei em part-time, a ganhar o salário mínimo, que na altura era $5.25/hora, como "Student Assistant" no gabinete de Relações Internacionais da universidade. Antes de regressar a Portugal, falei com o meu gerente no gabinete, que é um homem extraordinário e que foi o meu primeiro mentor nos EUA. Eu disse-lhe que estava a pensar tirar um mestrado e ele deu-me o plano de acção: (1) vais falar com os teus professores e dizer as tuas intenções para eles terem uma melhor ideia de quem tu és e poderem escrever cartas de recomendação em teu nome; (2) vais falar com os departamentos aos quais te queres candidatar para eles terem nos arquivos o teu nome e para já terem uma ideia de quem tu és quando te considerarem para o programa; e (3) tens de te informar dos procedimentos para fazeres o exame GRE em Portugal e como te vais preparar para o exame.

Regressei a Portugal, terminei a licenciatura, e candidatei-me a empregos em Portugal, pois não sabia se ia ser aceite para o mestrado ou não e depois também havia a questão de financiamento. Tive uma entrevista para uma posição numa empresa de cerâmica em Montemor-o-velho, se não estou em erro. Durante a entrevista ficou claro que a posição para a qual me estava a candidatar era uma de secretária, isto é, os gerentes quando viam o meu CV viam uma commodity, não viam um produto diferenciado. O salário não era suficiente para eu sair de casa dos meus pais, nem sequer comprar um carro. Para ter o meu primeiro emprego eu teria de, basicamente, subsidiar a empresa. Hoje em dia nada mudou, não andam aí a propor estágios não-remunerados? E mais, ao mesmo tempo que se diz que as mulheres deveriam ter mais filhos, há mulheres portuguesas que trabalham mais de 30 horas por semana por menos do que o salário mínimo e os potenciais patrões dizem-lhes que a expectativa é de que tenham um marido para ajudar nas contas da casa. Não estou a inventar, isto foi-me contado em primeira mão. Não entendo como é que o Ministério das Finanças, de tão sofisticado que é, não apanha estes patrões espertalhões que se aproveitam da infelicidade alheia para subsidiar a sua gestão incompetente.

Mas voltando à minha história pessoal: julgo ficar claro na vossa cabeça que, em Portugal, eu sou uma commodity; nos EUA eu sou um produto diferenciado. Não havia qualquer diferença entre eu aí e eu aqui. A diferença estava nos outros, não em mim. Na altura eu pensei: se é para ser secretária, então eu vou para os EUA ser secretária enquanto tiro o mestrado. Vou diferenciar-me ainda mais. E vim. Mas eu tenho um defeito muito grande: eu vivo para aí 20 anos à frente do resto das pessoas. Eu fui a dois bancos em Portugal perguntar se ofereciam crédito para estudar no estrangeiro. Claro, que ficaram a olhar para mim, hoje em dia não é assim tão anormal. Na altura, o tópico que me interessava era o ambiente e eu vim para os EUA estudar a economia de recursos e problemas ambientais em 1997. Pois é, ninguém aí sabia o que isso é. A julgar pelas políticas de ambiente actuais, também não sabem hoje. O que me valeu é que, durante o meu mestrado, o meu orientador disse-me que eu devia fazer um doutoramento. Eu respondi-lhe à portuguesa: eu não sou suficientemente boa, i.e., eu sou uma commodity. Ele disse-me: "tu és uma das melhores alunas do departamento, se tu não és material para doutoramento, não há esperança para todos os outros". Para o meu orientador eu era um produto diferenciado. E eu fiquei e lá fiz o doutoramento, que até foi a coisa mais gira que eu fiz, porque entretanto apaixonei-me por econometria e tirei uma especialização em estatística para além do doutoramento--diferenciei-me ainda mais, com a agravante de isto ser antes de toda a gente ter ficado obcecada com "big data". Ou seja, mesmo nos EUA eu diferenciei-me antes do mercado de trabalho estar preparado para mim. Eu sou como o poema do Robert Frost: tomo sempre o caminho que é o menos seguido pelos outros. Nem sempre o mercado de trabalho está preparado para mim e, por isso, a minha carreira é muito mais volátil do que a carreira de quase todos os amigos. E já recusei vários empregos estáveis e aceitei empregos arriscados.

Na última vez que mudei de emprego, arrisquei mais uma vez. Eu tinha um emprego estável em Memphis, tudo estava certinho, e eis que uma pessoa para quem eu tinha trabalhado antes, me oferece uma posição em Houston. Durante meses foi extremamente difícil pensar em mudar de cidade outra vez--note-se que eu já vou no meu quarto estado nos EUA. Perguntei a mim própria muitas vezes "Rita, o que é que te define? Gostas de risco ou és avessa ao risco?" E sempre eu chegava à mesma conclusão: "Eu gosto de risco." Eu não sou uma commodity, eu sou um produto diferenciado e como tal o meu percurso não pode ser igual ao das outras pessoas. E, outra vez, eu tomei a estrada menos caminhada pelos outros e mudei de cidade.

Quando eu discordo de como as coisas são feitas em Portugal, muita gente me diz que eu não conheço Portugal, que as coisas não são como eu julgo que elas são. É claro que as coisas não são como elas deveriam ser: Portugal esteve a menos de um mês de entrar numa bancarrota completa--isso não é uma situação normal. Eu conheço Portugal perfeitamente. Eu sei que as coisas não deveriam ser como elas são. Mas, há mais de 20 anos, que eu espero que os meu adorados portugueses aprendam o que Portugal deveria ser e deixem de se resignar com o que Portugal é. É essa a nossa história: não conhecem Viriato, Afonso Henriques, D. João IV, Fernão de Magalhães, a Padeira de Aljubarrota? Ser português é construir um país que é diferente, vencer a adversidade, e não ser resignado. Ser português não é ser uma commodity; é ser diferenciado.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Sol na eira e chuva no nabal

Imaginem uma sociedade em que as pessoas podem investir na Eira ou no Nabal:
1. Caso faça sol, a Eira tem uma taxa de rendibilidade de 100% enquanto o Nabal perde 90%;
2. Já se chover, acontece o contrário, o Nabal ganha 100% e a Eira perde 90%.

Admitindo que nesta sociedade as pessoas são todas avessas ao risco, a estratégia óptima será ter uma carteira de títulos equilibrada, distribuindo a sua riqueza igualmente pela Eira e pelo Nabal, de forma a ter assegurado uma taxa de rendibilidade de 5% ao ano. Mas, claro, há uns burros que investem tudo na Eira e outros burros que investem tudo no Nabal.

Nesta sociedade ninguém muito inteligente será rico. Já os ricos serão especialmente estúpidos.

PS Lembro-me de ter lido esta parábola num dos melhores blogues aí da coluna direita. Infelizmente, não consegui encontrar o ‘post’ específico para o linkar.
PPS Qualquer semelhança entre esta parábola e a história do melhor CEO do mundo e arredores que tinha 90% da tesouraria investida no mesmo produto é, obviamente, pura coincidência.
PPPS O Miguel Madeira encontrou o link referido em PS. Cá está, muito obrigado.

A pretexto de Raquel Varela: uma hipótese...

A pretexto das homeopatetices monetárias de Raquel Varela, li este comentário no facebook, que não resisto a partilhar:
Estou aqui a pensar... era do caralho alguém fazer isto anos a fio, para um dia acabar com o blog com um post só a dizer... "Tava a gozar!"
O autor é o André Gama. Já que nunca põe nada aqui na Destreza, ponho eu por ele.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Meio século amanhã

Vai sair amanhã a quinquagésima carta escrita por Warren Buffett aos seus accionistas. Há pessoas que costumavam deter apenas uma acção da Berkshire Hathway só para receber as ditas cartas. Justin Fox na Bloomberg acha que o Buffett dos anos 70 é o mais "cool", já o Matt Levine prefere o Buffett dos anos 60. Ao ler a peça do Fox, gostei da citação da carta de 1980, que se refere à performance da empresa em 1979. Diz assim:

We hope we don’t get into too many more businesses with such tough economic characteristics. But, as we have stated before: (1) our textile businesses are very important employers in their communities, (2) management has been straightforward in reporting on problems and energetic in attacking them, (3) labor has been cooperative and understanding in facing our common problems, and (4) the business should average modest cash returns relative to investment.

Porquê esta citação? Porque a acho aplicável a Portugal: os têxteis são uma área onde temos competência e boa reputação internacional e poderiam empregar muito mais gente, não só em manufactura, mas também no sector de serviços: design, engenharia textil, atendimento a clientes (em português e inglês, pelo menos), informática, análise de dados, etc. Bastava termos consciência de que o nosso mercado não é o baratucho onde se compete com a China ou a Índia, e estaríamos posicionados para um mercado mais caro, desde que oferecêssemos um produto e um serviço de atendimento de clientes à altura. Uma boa gestão da produção e da cadeia logística (minar dados para identificar e evitar problemas é muito importante) trataria de podermos controlar os custos e satisfazer os clientes a tempo e horas. Uma aposta na imagem dar-nos-ia visibilidade ao público mundial.

Por exemplo, fui à página da Sampedro e nem uma feed no Instagram têm, apesar de terem uma página de Internet com boa apresentação, mas quase nenhuma funcionalidade: não posso comprar lá coisas nem posso conversar com ninguém acerca do produto. Contrastem isso com o feed no Instagram da Pottery Barn, uma marca americana que até vende lençóis feitos em Portugal ou o da Anthropologie, da qual já vos falei, e que, entre outras coisas, vende toalhas de banho feitas em Portugal. Estas marcas não vendem os objectos, vendem todo um estilo de vida. Comprar o objecto na loja deles, e eles têm lojas online, ajuda-nos a construir um estilo de vida cuidado, para além de satisfazer a necessidade para o qual o objecto foi criado.

Variáveis proxy

Aqui há uns meses, um amigo meu no Facebook perguntou-me se eu estava ocupada no tabalho. Eu disse-lhe que não mais do que o normal e perguntei-lhe porquê. Ele respondeu que queria saber se a economia americana estava mesmo a aquecer, logo se a minha actividade laboral reflectia esse aquecimento; eu disse-lhe que a minha carga de trabalho é uma péssima variável proxy para saber esse fim. Eu fico ocupada quando há problemas na América do Sul, pois nessa altura tenho de andar em cima das notícias para ver se há novidades que possam afectar os mercados de soja e milho. Esta semana continua a greve dos camionistas no Brasil, que está a afectar os preços de soja--é bom para os agricultores portugueses que tenham cultivado soja, aproveitem enquanto é tempo porque isto não vai durar muito--e eu estou um bocadinho mais ocupada.

Quando Alan Greenspan escreveu a sua biografia, revelou que costumava acompanhar o mercado de roupa interior masculina como indicador da força da economia americana. A razão era que, se as pessoas adiassem comprar ceroulas*, que quase ninguém vê, logo pouco importa quando estão em mau estado, é porque estavam a poupar dinheiro. Podem ouvir este audio acerca desta variável proxy.

* Já antecipando as vossas correcções, digam lá que termo técnico preferem: truces, cuecas, slips... Aceitam-se sugestões em troca de desejos de um óptimo fim-de-semana!

Dignidade na política

Platão acreditava ter demonstrado a servilidade natural dos escravos pelo facto de estes não terem preferido a morte à escravidão. Para um homem livre, a escravidão era considerada pior que a morte. Como diria, mais tarde, Séneca: “Com a liberdade tão ao alcance das nossas mãos, existe ainda alguém que seja escravo?”

Dedicar a vida aos negócios da cidade exigia coragem, só ao alcance dos homens livres. Quem quer que ingressasse na esfera política deveria, em primeiro lugar, estar disposto a arriscar a própria vida: o excesso de amor à vida era um obstáculo à liberdade e sinal inconfundível de servilismo.

Não era um mundo perfeito, longe disso, mas era assim que na Antiguidade se concebia a dignidade na política. Hoje, nada é mais difundido que a convicção de que o «poder corrompe», mas a dignidade conferida à política pelos antigos ainda não desapareceu completamente.

Amadorismos

"É um bocadinho de amadorismo para quem ganhou tantos prémios de melhor CEO do ano, melhor CEO da Europa e arredores, não é?". Foi assim que a deputada do BE Mariana Mortágua cobriu de ridículo o (ex) super gestor da PT Zeinal Bava, ontem na Comissão de Inquérito ao BES. O homem parecia ter sofrido um ataque de amnésia e não se lembrava de nada relacionado com os actos de gestão ruinosos da PT, nomeadamente os 900 milhões de euros aplicados na Rioforte.

Por falar em amadorismo, o que dizer do facto deste senhor continuar a andar por aí à solta, na maior das impunidades? E ao Ricardo Salgado e a toda aquela tropa fandanga de super gestores do BES, quando é que a mão da justiça lhes cai em cima com força? Sem punições expeditas e exemplares, a regulação e a supervisão não passam de “um conto de crianças”.



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Vitória de Pirro

Rezam as crónicas que Pirro (318 a. C. – 272 a. C.), aquando da vitória na batalha de Ásculo (281) contra os Romanos, a custo de imensas baixas nas suas tropas, ao ser felicitado, respondeu com estas palavras: "Mais uma vitória como esta, e estou perdido."
Aos que andam por aí a felicitar o governo grego pela vitória na batalha de Bruxelas contra o eurogrupo, Aléxis Tsípras e Yanis Varoufakis bem que lhes podiam responder como o seu antepassado Pirro.

Uma chinesice

Alfredo Barroso bateu com a porta. O histórico socialista, e um dos fundadores do partido, viu na “chinesice” de António Costa a última gota-de-água. Eu compreendo. As palavras proferidas por Costa, a 19 de Fevereiro, no Casino da Póvoa, ante a comunidade chinesa que celebrava o ano novo chinês, foram uma “bala de canhão” desferida nos corações socialistas, que não aguentam discursos elogiosos sobre a actual situação de Portugal.

É no que dá Costa discursar sempre para o lado que o vento está a soprar. É um malabarismo complicado e as escorregadelas são um perigo constante.

Do Largo do Rato saiu entretanto uma explicação: “Perante o exterior, António Costa recusa-se a falar mal do país”. Ou seja, para dentro, Portugal está péssimo; para fora, Portugal está melhor.

Razão tem Alfredo Barroso: Costa prestou “vassalagem à ditadura comunista e neoliberal da República Popular da China". Com que cara é que esta gente pode agora acusar o governo português de subserviência à Alemanha, quando o líder da oposição faz estas tristes figuras?

No reino da percepção

A Rita desmonta aqui um mito. Afinal, os alemães, que gostam tanto de dar lições de moral aos outros, não são propriamente um exemplo: a Alemanha “está em violação do Tratado de Maastricht e já o está há mais um ano do que Portugal: já tem um rácio de dívida pública-PIB superior a 60% desde 2003.”

Muito bem. Sobra uma pergunta: por que raio os credores (especuladores, se quiserem) emprestam dinheiro a um preço tão baixo aos alemães incumpridores e não fazem (ou não fizeram) o mesmo aos portugueses e gregos?

Tem tudo a ver com uma questão de percepção. No mundo financeiro reina a percepção. Por várias razões, em 2010, Portugal, a Grécia e a Irlanda perderam a credibilidade perante os investidores em títulos. Até ao momento, esses mesmos investidores nunca deixaram de acreditar na capacidade da Alemanha – e, já agora, na capacidade dos EUA: se somarmos ao défice federal, os défices estaduais, o passivo do Medicare e Segurança social (100 biliões), o crescente passivo das pensões dos funcionários públicos, a posição fiscal dos EUA era pior do que a da Grécia em 2009, com um rácio dívida/receita de 312%.

Isto pode mudar de um dia para o outro? Pode. Basta que os investidores percam a fé na viabilidade dos sistemas alemão ou americano. O mundo é governado pelo poder da sugestão.

Os mercados financeiros movem-se sob os efeitos do contágio e histeria e as novas tecnologias da comunicação reforçam e expandem dramaticamente esses efeitos. Talvez a leitura da obra de Jacques Charcot, fundador da psiquiatria moderna, que demonstrou a existência de uma conexão entre hipnose e histeria, nos possa ser mais útil à compreensão da “nova economia” do que o estudo de Keynes ou Hayek, cujas ideias e teorias me parecem datadas e desfasadas do admirável mundo novo em que vivemos.