sábado, 18 de fevereiro de 2017

Um profeta

Em 1831, numa missão do ministério da justiça francês, o magistrado Alexis de Tocqueville e o seu amigo Gustave de Beaumont permaneceram nos EUA cerca de nove meses com o objectivo de estudar o sistema prisional americano. No início de janeiro de 1832 regressaram a França. Cerca de dois anos depois, em 1834, Tocqueville, com 29 anos, publicou a primeira parte Da democracia na América. O livro tornou-se um best-seller e o autor famoso em França e no estrangeiro – principalmente na Inglaterra, uma espécie de segunda pátria do escritor. Durante anos, Tocqueville foi membro do parlamento da monarquia orleanista e Secretário de Assuntos Estrangeiros, por um curto período, na Segunda República. Em 15 de Dezembro de 1850, numa carta ao seu amigo Loius de Kergorlay, enviada de Sorrente, confessa que “valho mais no pensamento que na acção”. Se alguma coisa permanecer de si neste mundo será mais o “rasto do que escrevi do que a lembrança do que fiz”. Via os anos dedicados à política activa como estéreis, sob muitos ângulos. Ao mesmo tempo, sentia-se mais maduro e experiente, iluminado por “luzes mais verídicas sobre as coisas humanas e uma noção mais prática dos detalhes”. Agora, aos 45 anos, no declive da vida, Tocqueville queria escrever outra obra. Mas qual o assunto a escolher? Era essa a sua dúvida na altura. Tinha de escolher algo que o animasse e fizesse sair de si tudo aquilo que pudesse dar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sinais dos tempos

Ontem estive numa reunião de directores de centros de investigação, presidentes e vice-presidentes com uma secretária de estado. Não contei a divisão entro homens e mulheres mas aquilo estava e equilibradíssimo. A haver maioria era de mulheres.
Houve três pessoas que tiveram de sair antes da reunião acabar. Todos homens. Não sei os motivos dos outros 2 que saíram antes de mim, mas eu tive de sair às 19h porque tinha de tomar conta das minhas filhas, porque a minha mulher não estava em casa.

Século XXI no mundo ocidental

Escrito por um dirigente do partido republicano dos EUA e publicado ontem, ou seja em 2017. Ou seja, no século XXI num país ocidental.

Sara Bichão em Houston









quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Desobedecer


Na véspera de Donald Trump instituir o controle de imigração a que alguns chamam de "Muslim Ban", fui ao Museu do Holocausto, em Houston, assistir à exibição do filme "Désobéir -- Aristides de Sousa Mendes", que os americanos traduziram como "Disobedience". Tratava-se de um programa patrocinado pelo Museu do Holocausto e pelo American Jewish Committee.

A assistir ao filme estavam presentes duas pessoas da família de Aristides de Sousa Mendes: eram ambos netos, Louis-Philippe Mendes, que conta 56 anos de idade e apresentou o filme, vive no Canadá e o outro mais jovem, vive mesmo em Houston; foi a primeira vez que se encontraram. Também lá estava um outro rapaz descendente de judeus que tinham recebido vistos. Lembrei-me, mais uma vez, de que todos nós somos frutos do acaso: os nossos antepassados tiveram de sobreviver a muitos eventos para nós existirmos e o mesmo acontecerá com os nossos descendentes.

Nessa famigerada Sexta-feira, em que se celebrava o "International Holocaust Remembrance Day", Aristides de Sousa Mendes foi homenageado em Houston, mas não tive oportunidade de comparecer -- o Consul Honorário de Portugal também não compareceu, aliás, Portugal não teve presença oficial na cerimónia.

Tinham passados seis dias desde a tomada de posse de Donald Trump e ver aquele filme naquela altura foi uma experiência muito emotiva para mim. Senti orgulho de um português ter salvo tanta gente -- estima-se que tenha emitido cerca de 30.000 vistos, não se sabendo ao certo quantas pessoas foram salvas --, mas vergonha de ter sido apenas um consulado português. Deviam ter sido muitos mais porque é essa a génese de Portugal e de ser português: Portugal é um país que existe porque um tal de Afonso Henriques se lembrou de desobedecer ao Papa.

No final do filme, não fui apenas eu a ficar emocionada, pois uma senhora americana sentiu necessidade de comentar a agradecer e dizer que o filme era muito actual e que servia de inspiração para os tempos que se viviam. Mal sabia ela que, no dia a seguir, os tempos que se viviam iriam tornar-se ainda mais estranhos e parecidos com um enredo de filme.

Donald Trump acha que por ter sido eleito tem o poder de fazer tudo aquilo a que se propôs sem que ninguém o questione. Já vi várias pessoas a achar que deixá-lo fazer tudo é um sinal de Democracia: foi eleito, temos de aguentar. Isto não é Democracia! Um governante que faz tudo é um ditador; em Democracia quem governa nunca pode fazer tudo porque tem uma oposição com quem tem de negociar e um enquadramento legal a que está sujeito. Pareceu-me uma ideia evidente depois de ter pensado nela, mas não é assim tão evidente porque só pensei nela claramente no outro dia.

Há três dias saiu a decisão de um dos processos contra Trump iniciados após o suposto "Muslim Ban". Dizia a Juíza Leonie Brinkema, da Virgínia, que "maximum power does not mean absolute power." O Presidente não tem poder absoluto; tem de trabalhar dentro do que lhe permite a lei e o Parlamento. Obedecer ao Presidente não é obrigatório.



Vassourada

Se o défice de Mário Centeno fosse a vassoura da casa dele, poderíamos imaginar uma situação em que se ia visitar Mário Centeno a casa e estava tudo sujo. Ao ver-nos torcer o nariz, Mário Centeno oferecer-nos-ia a prova de que estava tudo bem: a vassoura que tinha comprado há um ano, que raramente usava. A vassoura estava como nova, ou seja, funcionaria perto do limite máximo de eficiência. A casa estava suja, mas a vassoura bem conservada era prova mais do que suficiente de que havia grande potencial para a casa estar limpa.

Assim é a economia de Centeno: no papel conseguiu "controlar" o défice; mas reduziu a taxa de crescimento do PIB de 1,6% para 1,4%. Diz o Eco que a dívida pública em 2016 estima-se em 130,5% do PIB, um máximo histórico se acabar por ser confirmado, e acima dos 129% de 2015.

Não se preocupem: a vassoura tem potencial; a competência de Mário Centeno para a usar é que não. Deve-lhe faltar uma vassourada...

"A concorrência no mercado de trabalho"

Fonte: Mónica, Maria Filomena (1982), "A Formação da Classe Operária Portuguesa", Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, págs. 140-141.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

ROTFLOL

A Presidência Trump está a tornar-se numa das coisas mais divertidas que aconteceram nos EUA. É tão divertido que o Saturday Night Live nem tem de despender muito esforço para imaginar sketches, basta ler as notícias. Ora veja-se o editorial da Bloomberg, que nos dá uma excelente sinopse do desastre em andamento:

"In office for less than a month, Trump's team has been plagued by near-constant security mishaps, ranging from the comical to the chilling. His press secretary seems to chronically tweet out his authentication codes. Senior staffers were reportedly using a private e-mail server that had been targeted by Russian hackers. At an Oval Office ceremony about factory jobs, the key was left in a classified lock-bag in view of visitors and photographers.

More worryingly, Trump is apparently still using an unsecured smartphone, to the distress of everyone from security experts to members of Congress. This is no small thing: Foreign intelligence agencies could steal data from the device, log its keystrokes, track its location, or even commandeer its camera and microphone, turning it into a roving wiretap.

Making matters worse, the cybersecurity bureaucracy that attends to this kind of thing is in flux. Gregory Touhill, the federal chief information security officer, stepped down in January just four months into the job. Cory Louie, the staffer responsible for securing devices and data for top White House staff -- including the president -- was escorted from his office earlier this month for reasons the administration hasn't explained."


Fonte: Bloomberg

Mas a melhor parte de todas é que isto está a acontecer sob um homem branco de 70 anos, que tem muito sucesso, e até dizem ser bilionário! Não é um negro, nem uma mulher que está ao leme.

prostituição intelectual altamente profissional

Ontem, numa conversa que estava a decorrer num post do Paulo Querido, em que eu criticava o Paulo e a generalidade da esquerda pela reacção ao caso Centeno, saiu-se de lá um palermita a perguntar quanto me pagavam para criticar o governo do PS.
Hoje, quando acordei, em comentário a um post meu em que me mostrava muito contente com a performance económica do 2º semestre de 2016, perguntaram-me directamente se me pagavam para escrever post laudatórios para o governo.
Conclusão: sou uma puta intelectual altamente profissional, aceito todos os clientes.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Interesse Nacional com ou sem Ideologia



Na sequência do meu artigo no DN a semana passada sobre Governar com Ideologia, o meu amigo Pedro Braz Teixeira publica hoje um artigo em jeito de resposta, Interesse Nacional. Já sei que hoje deveríamos estar a falar do Centeno, mas decidimos debater estas coisas mais abstratas. 

(1) Eis o ponto fundamental de discordância – eu acho que não é possível definir “interesse nacional” sem fazer referência a uma ideologia; o Pedro defende que há exemplos de violações do “interesse nacional” que, sendo gritantes, não necessitam de um referencial ideológico.

(2) Todos os exemplos que o Pedro apresenta são violações do interesse nacional. Mas o Pedro acha que são objetivamente violações do interesse nacional. Eu acho que são subjetivamente violações do interesse nacional. Subjetivamente porque pedem uma moldura ideológica (por sinal, eu e o Pedro temos a mesma pelo que não surpreende a nossa concordância sobre as referidas políticas). Provavelmente, nestes casos concretos, estas políticas públicas são uma violação do interesse nacional do ponto de vista de muitas ideologias. Mas, na minha análise, não posso excluir que existam ideologias que apoiam estas políticas e entendam que não são violações do interesse nacional.

(3) Isto leva ao ponto seguinte – o uso do “interesse nacional” no debate político. Nada tenho a opor se for aceito por todos que o “meu” entendimento de interesse nacional pode ser distinto do “teu” entendimento de interesse nacional. Isso só é possível com um entendimento subjetivo. Discordo quando o debate é apresentado como o interesse nacional contra uma particular ideologia. Porque isso é dizer que há portugueses bons e portugueses maus. Como cita o Pedro, “é fugir ao saudável combate das ideias. Mas, acima de tudo, é insistir num discurso pouco democrático.”

(4) Não tenho problema em subscrever a frase do Pedro, “Ora, na prática, há um conjunto de circunstâncias em que me parece não só legítimo mas também essencial invocar o interesse nacional ao criticar certas opções políticas,” sempre e quando essa invocação não seja para aspirar a uma superioridade moral.  Mais concretamente, assim como eu e o Pedro podemos achar que o consulado socrista (2005-2011) feriu o interesse nacional, aceito que outros possam genuinamente entender que o consulado passista (2011-2015) feriu o interesse nacional. Não concordo, mas aceito. E só posso aceitar porque o interesse nacional é ideologicamente subjetivo. Se não aceitar, estou a optar por uma arrogância ideológica que é, na minha forma de ver, profundamente anti-democrática.

Dados simpáticos e bem conseguidos!

A Catarina Martins acha que o problema de Mário Centeno é que tinha dados "simpáticos" sobre a economia e é por isso que foi promovido a frango de churrasco na Praça Pública. Conclui, então, que é "tragicamente irónico", pois nem há "factos novos" sobre a CGD.

Já Marisa Matias acha que ninguém pode provar que Mário Centeno mentiu no Parlamento e o problema de Mário Centeno é mesmo os indicadores económicos conseguidos, nomeadamente os bons resultados do défice.

Crescimento de 1,5% (depois revisto para 1,6%), em 2015, era uma calamidade; agora crescimento de 1,4% entra na esfera do simpático e conseguido. Já sei, já sei, não é do crescimento que elas falam porque, para estas duas moças, é o défice que conta para o bem-estar dos portugueses; não é a dívida que aumentou, nem o crescimento do PIB que é inferior ao de 2015.

E depois admiram-se de tanta gente dizer que as mulheres não são boas com números...

A/C Mário Centeno

Esta seria uma boa altura de queimar muita gente...


Estações e estacionamentos

Trainspotting era um hobby clássico de ficar a ver passar os comboios.
Trumspotting é o novo hobby de ficar a ver atropelar os factos.

A ter em conta na política educativa

Não tenho cumprido o que de algum modo me propus ao aceitar o convite para colaborar no DdD – publicar posts sobre educação. Depois de tê-lo feito numa fase inicial, a pouco e pouco perdi a vontade. Talvez esta pouca apetência tenha a ver com um certo distanciamento da acção do Ministério da Educação do actual governo, que embora satisfizesse um objectivo que me agradou – eliminar os desvios de Nuno Crato ao que vigorava antes do seu consulado – não fazia mais do que tomar medidas avulsas.

Floricultura 20

Olha para a porcaria que fizeste.