domingo, 22 de janeiro de 2017

Yes, we can!

Como deve ser do vosso conhecimento, na Sexta-feira, Donald Trump tornou-se Presidente dos EUA. O dia teria sido um completo desastre, não fora o nosso colega de blogue Nuno Garoupa estar em Houston e termos aproveitado para fazer um mini-jantar da DdD. No final de algumas horas a falar português, fiquei mais animada e pronta para a manifestação de Sábado.

De manhã, encontrei-me com alguns amigos americanos para participar na Women's March de Houston. Iniciámos a marcha em Jamail Skate Park, em direcção à City Hall. Pensámos que estávamos atrasados, mas chegámos mesmo na hora exacta e ficámos perto do início da marcha. A polícia estava à nossa frente a pé e abria caminho.

sábado, 21 de janeiro de 2017

A popularidade dos populistas

O Nuno Garoupa tem escrito alguns textos interessantes sobre o populismo. De acordo com a definição que utiliza do termo, Portugal, em princípio, estaria nos próximos tempos imune a este espectro que ronda o resto do mundo ocidental. Talvez. Desgraçadamente, não há nenhuma definição consensual sobre este conceito. De qualquer maneira, o Nuno utiliza dois critérios para o definir ou circunscrever. Primeiro, a oferta de respostas simples para problemas complexos, ou seja, a existência de uma componente demagógica - um populista é sempre um demagogo, embora nem sempre o contrário seja verdade. Segundo, um discurso antissistema - contra as elites do poder. Ora, com base nestes critérios, não vejo como é que se pode excluir o Bloco e o PCP dos movimentos populistas que abalam o mundo. Renegociar a dívida ou a saída do euro não são respostas simples para problemas extremamente complexos? Detestar o capitalismo, a democracia liberal, os empresários (vulgo “capitalistas”) não é estar contra o sistema? Talvez o Bloco e o PCP não sejam neste momento populistas, mas então, a meu ver, esta definição de populismo está incompleta.
Em entrevista ao "Observador", Jan-Werner Müller descarta o discurso antissistema (que, segundo o autor, até pode ser visto como salutar) ou o discurso sobre certas temáticas (a emigração, por exemplo) como sintomas do populismo. A característica principal de um populista é apresentar-se como o único representante legítimo do “verdadeiro povo” (seja lá o que isso for) - só ele pensa e fala como o “povo real” pensa e fala. De acordo com Müller, Bernie Sanders ou o Podemos não representam movimentos populistas, porquanto não se apresentam como os únicos representantes legítimos da “maioria silenciosa”. Isto parece-me altamente discutível.

21.01.2017 - Marcha das Mulheres em Berlim



Diversidade, generosidade, harmonia.

Gostei de passar esta hora no meio de pessoas assim, falar com elas, ver que não estou sozinha, enternecer-me com a criatividade e o sentido de humor.
  
Ao sair, deparei-me com um pequeno memorial. Só então me lembrei do risco de atentados terroristas. Se havia ali polícias, não vi. Berlin, Du bist so wunderbar!








sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Amanhã, marchamos!

Amanhã, por todo mundo, marchamos pela nossa dignidade. Em Portugal, haverá marchas em Braga, Porto, Coimbra, Lisboa, Faro, e na Ilha da Terceira. Podem ver o mapa aqui. Eu estarei na de Houston e vocês?




Começou a contagem



Ou podem visitar visitar a página oficial da contagem para o último dia de Trump deste termo. (Ah, deixem-se de parvoíces: quando o Obama foi eleito, quem não gostava dele também fez o mesmo.)

Chegámos às ruas

A Destreza das Dúvidas chegou ao Correio da Manhã.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O eixo do mal

Por estes dias, uma amiga minha comentou que estava a resistir à tentação de fazer piadinhas sobre a aparência física do Trump. Sugeri-lhe que não o faça, lembrei o velho ditado "não lutes com um porco: vocês os dois vão acabar sujos de lama e o porco vai adorar".

Sou óptima a dar conselhos aos outros... Mas, pelo meu lado, se penso na cerimónia de tomada de posse do Trump que vai ter lugar amanhã, deparo-me com um terrível impulso de Schadenfreude. Rebbeca Ferguson é convidada para cantar na cerimónia de tomada de posse de Trump, e responde que só o fará se a canção escolhida for Strange Fruit, hihihihi, embrulha essa, Trump. A única estrela que vai cantar a solo é Jackie Evancho, uma miúda de 16 anos que se revelou no "America's got talent" a cantar "o mio babino caro". Hihihi, foi o melhor que se arranjou para cantar o hino nacional à frente do Trump, hihihi, uma miúda de 16 anos. Para o Obama, foi a Aretha Franklin. Hihihi. E o baile, hehehehe, quero ver quem arranjam para cantar no baile. Quero ver se quem canta também se comove profundamente como a Beyoncé (quem não se lembra?), imagino o casal Trump a dançar na terrível exposição daquele palco: nos antípodas da graça, do à-vontade, da harmonia, da sensualidade e da alegria do casal Obama. Quero ver, hihihihi. Por falar em casal Trump: a Melania. Hihihihi, a Melania, coitadinha da Melania, hihihihi.

Portanto, é este o gelo fino sobre o qual corro o risco de avançar: pensar mal da Melania por causa do marido dela. Desclassificar a Jackie Evancho (cuja alegria e naturalidade em tempos me enterneceram) só porque ela vai cantar o hino nacional na cerimónia de tomada de posse. Sujar o debate das ideias políticas com incursões na área do aspecto físico de uma pessoa e da sua vida privada.

"O Trump liberta o filho da puta que há em ti", dizia há tempos o Lutz Brückelmann, falando do contributo de Trump para a aceitação e até o elogio de discursos públicos à margem da decência e da humanidade, agora vistos como sinal de corajosa frontalidade. Mas a acção destruidora do fenómeno Trump vai mais longe: como descubro também em mim, faz vir à tona os piores instintos de quem se queria pessoa civilizada. Isto está a correr muito mal. Tenho de meter os travões a fundo: pensar, escrutinar os impulsos, pensar de novo.

Tempos difíceis, estes, quando me sinto desapontada comigo própria, e suspeito que aqueles com quem mais me identifico ideologicamente também não estarão muito seguros dos seus valores.

Por exemplo: será que a ausência de estrelas do mundo do espectáculo na tomada de posse do Trump é realmente sinal de protesto de cada uma delas? Ou há algumas que só não foram porque temeram ser marginalizadas ou perseguidas pela máquina da qual dependem? Será que está em curso uma espécie de controlo de "actividades antiamericanas" entre pares? Outra questão preocupante: a independência do nosso pensar. Temo o dia em que o Trump diga algo sensato, e muitos desatem a contradizer apenas por reflexo condicionado.

Corremos o risco de nos afastarmos dos nossos melhores valores de tolerância, generosidade, respeito pela liberdade alheia. Estamos cada vez mais separados uns dos outros - "deploráveis", uns; "elitistas arrogantes", os outros.

O mais perigoso eixo do mal é esse que marca a distância intransponível entre nós e os outros - e é ele o mais eficaz vector de destruição da nossa sociedade. Por muito antagonizados que estejamos, vamos ter de arranjar maneira de nos reencontrarmos e entendermos. A nossa democracia tem de ser um lugar de coexistência pacífica na diferença. E não se trata de aprender a indiferença e o cinismo, não se trata de aceitar passivamente. Trata-se do trabalho difícil e exigente de encontrar as palavras certas para o diálogo.

A Jackie Evancho, a tal miúda de 16 anos que amanhã vai cantar o hino nacional americano, pode tornar-se um símbolo desse desafio. Ela - a única artista que aceitou actuar a solo na tomada de posse do Trump - tem uma irmã mais velha que nasceu com corpo de rapaz, e se empenha na defesa da dignidade dos transexuais. Na mesma família, uma pessoa colabora com Trump e a outra é perseguida por muitos dos eleitores deste presidente. Se eles conseguem o amor, o entendimento e o respeito, nós também havemos de conseguir.



We the people

Amanhã, no Washington Post, a Amplifier Foundation irá comprar páginas de publicidade onde publicará arte para a Marcha das Mulheres, que se realizará no Sábado. O objectivo da campanha no Kickstarter era de $60 mil, mas já ultrapassou mais de $1,3 milhões.



Limites de um mercado competitivo

A respeito do Obamacare, é comum ouvir-se que, se houver competição, os preços serão mais baixos e o que falta ao mercado de saúde do Affordable Care Act, vulgo Obamacare, é que, em vez de haver mais competição, ela está a diminuir. Quem diz estas coisas confunde causa com consequência. Se o mercado tiver muitos participantes inicialmente, pode ser uma consequência da competição no mercado que eventualmente haja menos competição. Basta que as seguintes condições se verifiquem, por exemplo:

Prostitutas é com eles

Uma informação útil, caso venha a ser inserida no Trivial Pursuit, da boca de Vladimir Putin: não há dúvida que a Rússia tem as melhores raparigas de moral duvidosa do mundo.

“I find it hard to believe that he [Donald Trump] rushed to some hotel to meet girls of loose morals, although ours are undoubtedly the best in the world”

~ Vladimir Putin, citado na Bloomberg

Portugal, a eterna metrópole

Na sequência da recente viagem de António Costa à Índia pude mais uma vez constatar a singularidade do complexo colonial português. A maioria dos países ex-colonizadores sente uma culpa característica ou, no máximo, uma indiferença relativamente às nações que no passado colonizou. Portugal, pelo contrário, sente ainda hoje um estranho orgulho no seu império passado. O mito criado por Salazar permanece vivo, de uma forma que ultrapassa a mudança de regimes ou ideologias políticas.

O dito mito assentava em dois ou três pressupostos básicos. A suposta capacidade inata e única dos Portugueses para colonizar. A ausência de racismo no processo de colonização. A invenção do “mulato”.  Salazar fez realmente muito bem o seu trabalho de construção da identidade nacional. Apesar da existência de alguns laços, especialmente económicos, com as colónias anteriores à instauração do Estado Novo, o Império enquanto símbolo da soberania, da razão de ser do regime político vigente, e da mitologia nacional aparece em toda a força com a edificação do Estado Novo.

Olhemos para alguns números. Num ensaio sobre o 25 de Abril, onde aborda a questão da descolonização, Vasco Pulido Valente cita números que apontam para um total de 15.000 (quinze mil) habitantes de Angola e Moçambique com origem na metrópole em 1910. No final da II Guerra Mundial, os números ascenderiam, então, a 70.000 habitantes brancos com origem na metrópole. De acordo com o autor, apenas com o início da guerra colonial houve, de facto, um aumento substancial do número de brancos de origem Portuguesa nas colónias. Os motivos para a ausência de um número alargado de colonos são, para o autor, bastante prosaicos. Os Portugueses não pretendiam emigrar para a África Portuguesa (o que correspondia a um degredo económico à época). Pretendiam, isso sim, emigrar para países ricos, onde pudessem, naturalmente, alcançar os seus sonhos materiais, e ver-se livres da pobreza abjeta que grassava em Portugal. Países como o Brasil, primeiro, e, mais tarde, França ou Alemanha. E, recentemente, o historiador económico Nuno Palma tem desenvolvido excelente trabalho económico, referente sobretudo aos séculos anteriores, que corrobora no essencial esta visão.  O “império colonial português” durou na verdade 20 anos (dos anos 50 aos anos 70), sendo que metade deste tempo foi em guerra para não se desintegrar. Por outras palavras, nós nem quando éramos metrópole éramos metrópole!

É, pois, frequente (e interessante) vermos peças jornalísticas – como as que se repetiram durante a última viagem do primeiro-ministro – a aludirem à forma como ainda hoje se sente de forma fortíssima (!) a presença portuguesa em Goa, Macau, África e no Brasil.

As peças jornalísticas da semana passada foram especialmente ridículas. Uma peça de uma estação de televisão aludia à emoção de se sentir Portugal do outro lado do mundo, nas ruas de Goa. Logo de seguida, entrevistada uma prima de António Costa, esta teve de falar em inglês, uma vez que não sabia português. O semanário Expresso apresentou uma entrevista ao Ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, onde este referia o habitual estribilho que Portugal deveria aproveitar estes fortíssimos laços culturais passados para se estabelecer como porta de entrada do investimento indiano na Europa. Esta expressão não será estranha para ninguém. Já todos ouvimos – inúmeras vezes – que Portugal deve aproveitar estes “laços” coloniais passados para se posicionar como porta de entrada na Europa para investidores Brasileiros, Angolanos, Indianos ou Chineses. Eu própria cheguei a aprender na escola e a debitar em testes – em pleno século XXI – que Portugal deveria aproveitar a sua posição atlântica e ser uma plataforma giratória entre a CPLP e a UE. Este é, pois, o grande desígnio geopolítico de Portugal!

No fundo, a expressão “porta de entrada” revela simplesmente que esta gente acha que Portugal deve continuar a ter um papel de metrópole a cumprir, onde os laços comerciais são exclusivos com Lisboa, que, depois, tirará benefícios de revenda os produtos e serviços das colónias. Manuel Caldeira Cabral, entre muitos outros, acha mesmo que um investidor milionário indiano – que não sabe português (nem a prima do Costa sabe!) – quando quer investir na Europa (por exemplo, na Polónia) deve primeiro fazer escala em Lisboa, em vez de ir directamente onde quer. Dizem-me, “sim, mas no caso dos investidores brasileiros ou angolanos, a língua é um facilitador importantíssimo”. Bem, eu lamento desiludir os meus leitores, mas creio que isso é igualmente uma fantasia.

Olhemos para o caso do Brasil. De facto, é o país onde mais se fala português. Mas, dada a sua independência tão mais anterior, percorreu uma história independente de Portugal que os Portugueses parecem esquecer. Foi, por exemplo, um fortíssimo destino de emigração de italianos, alemães, holandeses e japoneses, os quais contribuíram para o enriquecimento cultural, económico e social do país. Nas zonas mais ricas do país (nomeadamente nos estados do Sul), existem comunidades completamente bilingues, que mantêm laços culturais e económicos com os seus respectivos países de origem. Para além disso, qualquer pessoa com experiência em grandes universidades Americanas, testemunhará o enormíssimo número de Brasileiros que lá estudam e se preparam para tomar as posições de destaque no seu país de origem.

Por tudo isto, a ideia de que um investidor da elite Brasileira virá a Lisboa “picar o ponto”, e pedir a autorização à metrópole, para entrar no mercado Europeu, é simplesmente risível. Digamos que um país com uma Justiça em frangalhos, um código fiscal sem qualquer previsibilidade, impostos altos, e uma população pouco educada é de qualquer utilidade apenas porque fala a mesma língua parece-me no mínimo duvidoso.


Será isto culpa de uma propensão portuguesa para mitos, um trabalho de propaganda do Estado Novo muito bem feito, uma ausência de “julgamento” histórico e público do real papel das figuras e elites do Estado Novo (Adriano Moreira passa hoje no espaço público Português por um  “grande humanista”)? Falta ainda uma reflexão nacional sobre a extensão real do racismo nas colónias (recomendo, a este propósito, o magnífico livro de Isabela Figueiredo “Caderno de Memórias Coloniais”). Não sei.

As mortes ilegais

Primeiro o papel. A autorização. O concurso. O procedimento. A norma. "O que temos de exigir aos gestores é o cumprimento rigoroso das normas, fazendo o seu trabalho, que é salvar vidas." Depois, vamos salvar vidas. Depois. Nunca antes. Se morrer antes, foi uma morte que não cumpriu o procedimento. Uma morte ilegal, portanto.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

My two cents sobre a TSU-gate

1st cent - É oficial (pelo menos reconhecido pelo governo) que o aumento do salário mínimo foi excessivo e coloca dificuldades às empresas, sendo necessário dar-lhes um bónus para que não haja efeitos nefastos no desemprego.
2nd cent - O desconto na TSU não se aplica a novas contratações. Portanto, é também oficial, quem estiver desempregado que se foda.

What else

I have grown to see myself in the mirror
not recognizing who it was I was meant to be.
I recall the past with lingering details,
but the clarity I seek gets lost in the present.
What other people could have inhabited me?
You say "Go forth, search from within."
but there is nothing else that I wish to see.
My past is gone, a present unforeseen,
my future barely glimmers,
what else is there to be?

P.S. After reading James Schuyler

Um estado de espírito

É mais ou menos como Portugal...

As traseiras: notem o oleandro todo queimado do gelo que tivemos recentemente. 


À frente da casa: só metem água...