sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Tempo de ninguém...

Hoje senti vontade de ouvir "Space Oddity", a canção do David Bowie, mas cantada pela Natalie Merchant. A voz dela, a tal que até nos poderia dar prazer cantando a lista telefónica, tem um significado muito pessoal para mim. Depois há a letra da canção, começando pelo título: "space oddity". É assim que eu me sinto tantas vezes. É assim que, por alguns momentos, eu me senti hoje.

O vosso hoje é ontem para mim--é o tempo de ninguém...

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Olhos em bico!

Não sei o que pensar sobre os motivos da China para intervir no mercado bolsista chinês. Diz a Bloomberg hoje:
Authorities want to stabilize equities before a Sept. 3 military parade celebrating the 70th anniversary of the World War II victory over Japan, said two of the people, who asked not to be identified because the move wasn’t publicly announced. Treasury sales allow policy makers to raise dollars needed to bolster the yuan after a shock devaluation two weeks ago, according to different people familiar with the matter.

Este pessoal que controla a vida de milhões -- OK, mais de mil milhões -- de almas parece-me muito criativo. Que fazer senão um short no mercado chinês para 4 de Setembro?

Estranho amor

A vida glamorosa do Turista Lusitano continua. Ontem, fomos ao Miller Outdoor Theater, um teatro ao ar livre que faz parte do Hermann Park, que é o parque onde se situa o Zoo de Houston, o Planetário, o Jardim Japonês, o Museu de Ciências Naturais, etc.

Os espectáculos deste teatro são grátis para quem se quer sentar na relva. Quem prefere o conforto de uma cadeira, tem de pagar e comprar os bilhetes com antecedência. Como eu só descobri a existência deste teatro ontem através de um anúncio na KUHA, a rádio que pertence ao sistema da NPR (National Public Radio), só dava mesmo para desfrutar o espectáculo na relva. Vimos o filme Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb de Stanley Kubrick.

Levámos um cobertor de piquenique, duas almofadas, e farnel. Acabámos por não tocar no farnel. Para mim, que já vivo nos EUA há muito tempo, é sempre interessante ver as coisas que quem vem de fora dos EUA nota. O Turista Lusitano achou estranho que eu levasse tanta coisa, mas depois quando viu as outras pessoas com cadeiras de praia, cobertores, malas térmicas, etc. achou que eu não tinha exagerado. Durante o espectáculo, o Turista Lusitano também achou engraçado que os americanos se descalçassem e se pusessem à vontade.

Eu também notei isso quando vim para os EUA. Há 20 anos, o que estava na moda era sandálias Birkenstock -- agora também está na moda, mas vocês sabem quem não as irá comprar e porquê -- e depois chinelos de enfiar o dedo (1999). Também é comum ver pessoas descalças a caminhar pelos campus das universidades. Coisas que nós, portugueses, fazemos na praia ou na piscina, os americanos fazem-nas nos sítios mais comuns. Até se vê avisos em restaurantes e bombas de gasolina que dizem "No shoes, no shirt, no service."

A lua à espreita atrás do anfiteatro

Tudo preparado para o filme

A área do bar iluminada durante o filme

O fim da noite

Cientistas a sério

Estou a ler um post no ExtremeTech acerca de energia negra (dark energy). Segundo o autor, que não tem formação em física, apenas é formado em biologia molecular, nenhum cientista sabe exactamente o que é energia negra, nem como funciona, e a certeza da sua existência é talvez de 99,996%. A certa altura do artigo, diz-se isto:

You’ll notice that there is a lot of speculation in this field, and a lot of wishful thinking. How do we know that dark energy isn’t another of Einstein’s cosmological constants, a fictional concept invented to shore up a failing theory? Why couldn’t dark energy be just another foolhardy attempt to explain away inconvenient observations?

Imediatamente pensei no que dizem acerca dos economistas e da economia não ser uma ciência a sério porque as ciências duras é que têm todas as ferramentas bem identificadas e o progresso no conhecimento é feito com confiança. Agora alguns de vocês irão dizer que o problema é que quem escreveu o post não é físico (muitas pessoas que escrevem sobre economia não são economistas).

Eu gosto muito do Brian Greene, que é especialista em Teoria dos Cordéis (String Theory). Às vezes tenho pena dele pois até me parece que ele anda com o cordel ao pescoço por causa dos resultados do acelerador de partículas. Ouvindo-se o Brian Greene, nesta entrevista de 2011, também se fica com a mesma impressão do post...

Não posso deixar de pensar que esta malta de física até parece a malta de economia: não sabe nada. E parece que até o Einstein se enganou!

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Da Serra da Estrela à Terra da Estrela (VIII)

Já aqui se dera conta do cartaz, à entrada da pequena cidade texana de Kemah, publicitando o entretenimento para essa noite: luta livre de anões. No estado do Louisiana, a cidade de Lake Charles anuncia orgulhosamente num outdoor: "Exposição de armas - Centro Cívico". Ao cruzar a fronteira do Texas para o Lousiana, um painel luminoso avisa: "Calcasieu Parish: Veio aqui praticar crimes? Não se sinta à vontade." Mas se veio para exibir armas ou andar à porrada com anões, welcome, so nice to see you tonight.

Tex Mix (IV)

Um tipo que tem muito tempo livre, e o usa a inventar palavras, é um vagabulário.

Tex Mix (III)

Para que as crianças possam aprender a ler cada vez mais cedo, urge inventar o abercedário.

Tex Mix (II)

Tinha pensamento crítico e um temperamento cínico. Era um gajo cítrico.

Tex Mix (I)

Em Portugal, ouve-se o ranger de dentes. Aqui, sente-se o ranger do Texas.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Período inovador

Na Forbes, fala-se de uma inovação para as mulheres: calcinhas absorventes para serem usadas quando a mulher está com o período, não sendo necessário o uso de pensos ou tampões. No artigo diz-se o seguinte:
“Tampons were invented in 1931 and aside from adhesive strips and wings on pads, there hasn’t been any major innovation in 85 years,” says Agrawal. “It’s time to change that — and to change the taboo.”

Realmente, 85 anos é muito tempo. Estas calcinhas têm uma estratégia de marketing semelhante à dos sapatos Toms: ao comprar um item, a companhia compromete-se a doar um outro nos países pobres (a Toms também tem outras actividades de beneficência).

Em África, estar com o período é uma das principais razões pelas quais as raparigas faltam às aulas; logo, se este produto tiver sucesso, isto pode ser bastante importante para o desenvolvimento do continente.

Mundo endividado...

Hoje, no programa da Diane Rehm está a realizar-se uma discussão engraçada sobre a actual crise da China e o seu impacto nos EUA. No programa alguém disse que o nível de dívida mundial é de $300 mil biliões de dólares (nos EUA dir-se-ia $300 triliões porque os americanos usam a escala curta), enquanto que o PIB mundial é de apenas $75 mil biliões. Para algumas pessoas, isto parece assustador, mas não é necessariamente, pois o mundo, ao contrário de países individuais, é um sistema fechado e as dívidas de uns são os créditos de outros--a dívida mundial é cancelada exactamente pelos créditos de quem emprestou.

A dívida ao nível mundial não tem um efeito negativo no mundo como pode ter a dívida nacional para um país. O que tem é um efeito redistributivo de riqueza, pois parte do rendimento futuro dos países devedores vai ser usado para pagar o custo de contrair a dívida, i.e., os juros. Esses juros serão contabilizados como rendimentos dos países credores. Para o mundo, saiu de um bolso e entrou no outro, logo do ponto de vista contabilístico fica-se na mesma.

Como se observou no programa, é mais relevante saber o que essa dívida compra e eu acrescentaria a saúde financeira de quem a contrai. O que a dívida compra informa-nos acerca da criação de riqueza na economia. Por exemplo, na China há dívida que é contraída para construir edifícios que ninguém usa, logo esse investimento não gera um retorno para a economia (em Portugal também há esta ideia que autoestradas e edifícios vazios geram riqueza ao ser construídos). O que é gerado é uma antecipação de rendimento futuro--isto é, tira-se rendimento do futuro para ser gasto no presente. No futuro teremos menos dinheiro porque parte do nosso rendimento é usado para saldar a dívida.

Outra forma de endividamento chinês é contrair dívida para comprar acções no mercado bolsista. Note-se que as empresas que estão cotadas na bolsa chinesa não têm o hábito de dizer a verdade nos relatórios de desempenho (a avaliar pelo BES, em Portugal também há esse problema). Muitas das empresas chinesas valem menos do que elas dizem. Há ainda a agravante de alguns dos empréstimos chineses que foram usados para insuflar o mercado bolseiro terem como garantias activos de imobiliário chinês, cujo valor é duvidoso.

Nós sabemos que o mercado imobiliário chinês é uma bolha, só não sabemos o seu tamanho nem quando irá estalar. Há quem diga que é desta que a coisa rebenta, mas um dos comentadores no Diane Rehm Show disse uma coisa que faz muito sentido: a China controla a saída de dinheiro, logo a maior parte das pessoas não consegue tirar o dinheiro da China, logo tem de o investir nacionalmente: ou investe na bolsa ou em imobiliário. Se o mercado bolsista está em sarilhos, as pessoas provavelmente irão tirar dinheiro da bolsa e metê-lo noutro sítio, i.e., em imobiliário.

A crise actual tem o potencial de insuflar o mercado imobiliário chinês ainda mais no curto prazo, fazendo com que o estalo da bolha imobiliária chinesa seja muito maior no longo prazo.

Road kill

No Domingo à tarde, o Turista Lusitano e eu regressámos de Nova Orleães, mas como o Turista Lusitano queria ver pobreza na América saímos das auto-estradas inter-estaduais e andámos pelas estradas estatais e locais da Luisiana. A certa altura, já de noite, apareceu-me um bicho pela frente numa dessas ruas e eu portei-me à altura: dei um grito, disse asneiras, e travei a tempo de evitar atropelar a criatura--era um gambá. Na minha cabeça, para além do rol de "fuck, fuck, fuck...", também passava a canção do genérico do True Blood porque algumas das cenas que nós víamos eram iguais às desse genérico.

Depois passei para a imagem mental seguinte: "road kill". Perguntei ao Turista Lusitano se ele sabia o que era "road kill". Não sabia. Expliquei-lhe que era a bicharada que era atropelada na estrada e que havia muito boa gente que aproveitava os cadáveres dos bichos para cozinhar. Pensam que eu brinco? Não, não, falo a sério. Ora vejam lá na Wikipédia um artigo sobre "road kill cuisine".

Na minha hospedaria, os turistas descobrem a verdadeira América...

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A exigência é só para um dos lados?

Um destes dias, António Costa explicou que não promete empregos. Apenas se compromete com medidas que estima que terão um determinado impacto sobre os números do emprego. Eu percebo que esta mensagem seja difícil de passar e é normal que quem se opõe ao PS se aproveite da aparente contradição para acusar Costa de dar uma no cravo e outra na ferradura.

Mas, na verdade, mesmo que a distinção seja intricada, ela está correcta. E se nós, muitas vezes, nos queixamos da falta de exigência dos eleitores para com os políticos, não faz sentido criticar António Costa. Se os eleitores não entendem, então faz-se a pedagogia que for necessária. O grau de exigência para com os eleitores também tem de aumentar.

domingo, 23 de agosto de 2015

Dualismo e reforma do mercado de trabalho: uma proposta para Portugal

O meu contributo para o debate, no Expresso de sábado.

A exigência de “reformas estruturais” do mercado de trabalho é um requisito proposto pela generalidade das instituições internacionais, e um dos elementos de maior relevância nos programas de resgate financeiro dirigidos aos países sob assistência. No entanto, as medidas com maior peso nas reformas propostas são as dirigidas à promoção da moderação salarial, nomeadamente no que diz respeito à rigidez nominal dos salários, através da diminuição do alcance dos instrumentos de contratação colectiva, aumento das horas de trabalho, bem como através da redução das indemnizações por despedimento, a qual facilita o ajustamento salarial pela substituição dos contratos mais antigos por contratações com níveis salariais inferiores.
Estas reformas, cujo pouco conteúdo que pouco difere de país para país, esquecem um dos maiores problemas identificados nas economias do Sul da Europa: o dualismo do mercado de trabalho, evidenciado com maior severidade em Espanha, Portugal e Itália. Este dualismo caracteriza-se pela coexistência de dois mercados de mercado paralelos: um mercado fortemente protegido dos choques económicos adversos, constituído por trabalhadores com contratos sem termo, e um mercado de trabalho de trabalhadores com contratos a prazo, onde todos os riscos estão concentrados. A existência deste dualismo deve-se a um conjunto de políticas destinadas a flexibilizar as relações laborais que tiveram lugar ao longo das décadas de 80 e 90, tendo contribuído para uma significativa diminuição do desemprego naqueles países verificada entre 1995 e 2007. 
Num período longo de crise ou estagnação económica, a segmentação do mercado resultou num aumento acelerado e significativo do desemprego na parte não protegida do mercado de trabalho, traduzido em taxas de desemprego jovem acima dos 30%. Adicionalmente, o dualismo do mercado de trabalho afeta de forma relevante o potencial de crescimento da economia, seja por um menor investimento em capital humano (relações laborais de curto prazo não incentivam o investimento em formação profissional, quer por parte dos empregadores, quer por parte dos trabalhadores), seja por efeitos negativos de longo prazo do desemprego jovem no tipo e qualidade de ocupações que os jovens poderão desempenhar no futuro.
Sendo de esperar que a recuperação do mercado de trabalho se consolide a curto e a médio prazo, seria importante que esta recuperação fosse acompanhada por um conjunto de reformas que combatam de forma mais pronunciada a segmentação do mercado de trabalho. Estas reformas deveriam contemplar a criação de um novo tipo de contrato a tempo indeterminado que preserve a flexibilidade de contratação ao nível da empresa e ofereça uma perspetiva de relação laboral de longo prazo para os mais jovens. Este novo tipo de contrato deveria assim conter alguns dos elementos de flexibilidade existente na contratação a prazo, que fazem com que seja a forma preferida atual de contratação para as empresas, e elementos de segurança do emprego, que a tornem atrativa para os trabalhadores. 
A recente lei italiana, de março de 2015, do “Contrato a Tutele Crescenti”, contém alguns dos elementos anteriormente descritos: trata-se de um novo tipo de contrato de trabalho que se aplica a novas contratações, que na prática permite o despedimento por motivos económicos não justificados, através do pagamento de uma indemnização igual a dois meses de salário por ano de antiguidade na empresa, com um mínimo de quatro e um máximo de vinte e quatro meses. Espera-se assim diminuir os custos associados a processos judiciais de despedimentos injustificados, diminuindo a incerteza e o risco que o empregador incorre no momento da contratação. Por outro lado, aumenta-se a segurança no emprego face a um contrato a prazo, através da indemnização crescente com a antiguidade. 
Apesar de ainda ser prematuro uma avaliação dos impactos desta reforma na diminuição do dualismo no mercado de trabalho italiano, seria muito oportuno iniciar o debate sobre o lançamento de um novo tipo de contrato de trabalho, com características semelhantes, em Portugal. Este novo tipo de contrato de trabalho poderia, na prática, traduzir-se na possibilidade do despedimento individual ser fundamentado com as mesmas regras do despedimento coletivo (note-se que em Portugal é mais fácil proceder ao despedimento de cinco trabalhadores do que de um trabalhador), acompanhado por uma compensação superior à existente atualmente para os contratos sem termo (doze dias por cada ano de antiguidade, com limite até doze anos), por exemplo de dois meses por cada ano de serviço. O debate sobre as condições de funcionamento do mercado de trabalho nunca é um debate fechado. A situação atual assim o demonstra e o exige. 

Y'all come back and see us...

Ontem, à saída de um restaurante no French Quarter, fomos despedidos assim por um empregado, que insistia em manter uma cara séria:
--You're leaving us already? We're about to close the doors and hold everyone hostage inside. Thank y'all for coming and come back and see us sometime...