sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

O dia da raça

O Presidente da República considerou que o hipismo é uma nova área-chave para o desenvolvimento da economia nacional e, na visita a um centro de equitação, manifestou preocupação sobre os níveis de procriação dos cavalos lusitanos.

Finalmente percebi. Quando Cavaco se manifesta preocupado com a baixa natalidade lusitana está a pensar no garanhão lusitano.

Lembram-se de há uns anos Cavaco Silva ter celebrado o 10 de Junho como o “Dia da raça”? Cavaco continua coerente. A ideia era celebrar o dia da raça lusitana, ou seja o garanhão lusitano. O objectivo era o estimular o desenvolvimento nacional.

Dar à costa

Ontem, num comentário no Facebook, escrevi a pretexto das próximas eleições que era seguro que eu não votaria no PSD/CDS.
Depois dei-me conta de que voltei a usar o adjectivo 'seguro' sem qualquer segundo sentido, não havendo perigo de pensarem que era um trocadilho com o substantivo próprio.
É o regresso à normalidade das palavras.

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

Implosão de edifícios

Ao contrário do que alguns parecem pensar, implodir um grande edifício exige muito cuidado e um planeamento meticuloso e caso a caso. Pequenos detalhes fazem toda a diferença e dois edifícios aparentemente iguais podem reagir de forma muito diferente à mesma disposição de explosivos.

Por mais cuidadoso e meticuloso que seja o planeamento, há sempre o risco da pegada da implosão ir muito além do perímetro do edifício. Milhares de toneladas de metal pedra e cimento em queda são sempre imprevisíveis. Por isso, o perímetro de segurança tem de ir muito além do perímetro do edifício.

Enfim, isto tudo para dizer que implodir o Ministério da Educação até pode ser um programa aceitável para um governo. Mas é para ser feito com planeamento pormenorizado e com um plano adequado para todas as contingências. Entregar a coordenação dessa implosão a um incendiário só pode dar merda.

terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Melhorar os rendimentos sem prejudicar o emprego


Opinião no Diário Económico de hoje, sobre a subida do salário mínimo, um tema já abordado pelo Luís aqui e aqui.

"A discussão em torno das vantagens e/ou desvantagens do aumento do salário mínimo nacional (SMN) é uma das mais recorrentes e controversas. Os defensores da subida justificam-na com argumentos baseados numa maior equidade na repartição de rendimentos e na proteção dos trabalhadores com menor poder negocial. Adicionalmente, como a propensão marginal ao consumo dos trabalhadores de menores rendimentos é superior à dos detentores de capital, o aumento do SMN estimularia o consumo e, como consequência, a procura e o emprego. 

Do outro lado estão aqueles que consideram que a fixação dos salários deveria ser apenas entregue às forças de mercado, encarregando-se estas de determinar os salários de equilíbrio. O salário mínimo, a par dos salários fixados no âmbito da contratação coletiva, poderá implicar um preço do trabalho superior à produtividade marginal de alguns trabalhadores, tornando-os menos atrativos para os empregadores, o que explicaria o elevado desemprego dos jovens e menos qualificados.

Apesar da literatura económica não ter chegado a um consenso quanto aos efeitos sobre o emprego de uma subida do salário mínimo, no geral é aceite que os efeitos serão tanto maiores quanto maior a sua proximidade ao salário mediano. Portugal, sendo um país com salários baixos, é o terceiro país da UE, depois da França e da Eslovénia, onde o SMN está relativamente mais próximo do salário mediano. Isto quer dizer que o potencial de efeitos adversos sobre o emprego é demasiado elevado para se considerar uma subida sem que se considerem outras medidas compensatórias. O desafio é, assim, permitir uma melhoria dos rendimentos dos trabalhadores com menores rendimentos sem prejudicar o emprego. Uma subida moderada do SMN poderia ser acompanhada, por exemplo, por uma descida da TSU paga pelos empregadores relativa às remunerações dos trabalhadores com baixos salários. A perda de receitas da segurança social daí resultante, seria compensada com receitas provenientes da nova “fiscalidade verde”, em vez destas serem canalizadas para a descida do IRS, a qual beneficia em primeiro lugar as classes média e média alta."

domingo, 21 de Setembro de 2014

A especialização como forma de sobrevivência

No seu “Study of History”, Arnold Toynbee analisa as transformações que as mais variadas culturas sofreram ao longo dos tempos. A páginas tantas, Toynbee debruça-se sobre a forma como os coxos e os estropiados gerem as suas deficiências físicas num mundo de guerreiros activos. Tornam-se especialistas. Quando comunidades inteiras são conquistadas e reduzidas à escravidão, utilizam a mesma estratégia do indivíduo estropiado em sociedades guerreiras. Especializam-se e tornam-se indispensáveis aos seus conquistadores.

Virtude e fortuna em Maquiavel

Virtude é a paixão pela realização do bem público, paixão que compete com as paixões mais baixas até conseguir que estas se identifiquem com aquela.
Fortuna é a expressão do resíduo irracional, do imponderável, do imprevisto, da margem de inexplicabilidade que se encontra em toda a história. Os homens são iguais por natureza, pois todos nascem com as mesmas capacidades. Mas a fortuna distribui de um modo caprichoso e injusto as vantagens meramente acidentais do mundo, o que leva à desigualdade e, com ela, à inveja e à competição.
A arbitrariedade da fortuna desafia-nos constantemente a reafirmar a virtude, pela lembrança de que a virtude, essa, não é uma dádiva da fortuna, nasce, pelo contrário, da vontade do Homem.

sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

Maria de Lurdes Rodrigues

Já vi muitas pessoas a defender a Maria de Lurdes Rodrigues. Como gosto da nossa ex-ministra da educação (e, à medida que o tempo crata, gosto cada vez mais) também quero tomar o partido dela. 

Assim, pergunto, já houve alguma explicação satisfatória para ter assinado um contrato de 266 mil euros para alguém coligir legislação? E houve alguma explicação para, perante um valor tão exorbitante, isto ter sido feito por ajuste directo?

PS Não estou a ser irónico, gosto mesmo da Maria de Lurdes Rodrigues, mas enquanto isto não for explicado, não ficarei convencido da sua inocência.

PPS Pode-se, claro, argumentar que há muitos contratos deste tipo, até de valores maiores, que nunca foram a tribunal. É provável que seja verdade, mas, na minha opinião, o erro está em esses não terem sido devidamente escrutinados.

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

O interesse público capturado, mais uma vez

Por mais tretas que nos queiram impingir, o BES foi nacionalizado. O contributo da banca comercial para o financiamento do novo banco é quase uma migalha quando comparado com o buraco que o Estado tem de tapar. Por este motivo, não faz qualquer sentido tratar a banca comercial como se de accionistas do novo banco se tratasse. E, sendo assim, o novo banco devia ser gerido de acordo com o interesse público e não com o interesse privado.

Não é preciso ser um ás das finanças para perceber que vender um banco à pressa é garantia de péssimo negócio para quem vende, sendo que quem vende são os contribuintes, e de um excelente negócio para quem compra.

Para já, apenas consigo encontrar dois motivos para esta venda apressada que agora querem impor. Primeiro, o interesse da banca comercial em aproveitar os despojos de um banco que detinha uma quota de mercado de cerca de 20%. Segundo, a incapacidade das autoridades em assumir que nacionalizaram um banco. Por isso, para poderem insistir na ideia de que não houve uma nacionalização de facto, governo e Banco de Portugal querem ver-se rapidamente livres da propriedade do novo banco.

Até ao momento, tinha considerado que a actuação das autoridades neste caso tinha sido, dadas as circunstâncias, a melhor possível. Agora, deixei de acreditar que seja o interesse público a nortear as suas intenções. Torna-se para mim óbvio que, mais uma vez, o interesse público está a ser capturado por interesses privados. Não estando o interesse público alinhado com o privado, o executor do projecto, se for uma pessoa decente, sai. Até prova em contrário, é assim que compreendo a saída de Vítor Bento.

PS Não tenho qualquer informação privilegiada sobre o assunto.