sexta-feira, 26 de maio de 2017

Contas improváveis

Esta semana, Mário Centeno sugeriu numa entrevista à Reuters que era possível que a economia portuguesa crescesse mais de 3% em termos homólogos no segundo trimestre de 2017. Se isto se verificasse, passaríamos de uma taxa de 2,8% no primeiro trimestre, para uma de mais de 3% no segundo trimestre, ou seja, uma aceleração de pelo menos 0,2%.

Lembrei-me de ir ver os dados históricos e contar quantas vezes é que a variação homóloga do PIB acelerou do primeiro para o segundo trimestre. Construí o seguinte quadro sumário, a partir dos dados do INE:

Os desactualizados

Por acaso, hoje fui visitar a página de Internet do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra, e notei que havia uns links giros nos destaques que nos convidavam a olhar para os dados. Fui ver do que se tratava; mas, em ambos os casos, os únicos dados disponíveis eram os de 2012.

Pergunto-me por que razão é que se gasta dinheiro a fazer estas coisas, se não é para continuar? Mais valia estarem quietos. Ou será que quem faz a manutenção da página de Internet não reparou que a página está quase cinco anos desactualizada? E notem que a desactualização tanto acontece com governos de Esquerda, como de Direita.

Outro pessimista

Mick Mulvaney, o Director do Office of Management and Budget apresentou esta semana a proposta de orçamento do Presidente Trump. A reacção mais crítica veio de Mark Sanford, Representante da Carolina do Sul e Republicano. Tive oportunidade de ouvir parte do que ele disse quando estava a ouvir as notícias na rádio e concordo com a sua apreciação dos dados.

O Huffington Post relata a intervenção de Sanford:
"Sanford offered some basic history to challenge Mulvaney’s assumptions. For starters, he noted that the average economic expansion in all U.S. history lasts about 58 months. The current expansion begun under President Barack Obama has been underway for 94 months. The Trump budget, Sanford noted, assumes that will continue uninterrupted for an additional 214 months.

“This budget presumes a Goldilocks economy, and I think that’s a very difficult thing on which to base a budget,” Sanford said. He also noted that the Bible cautions against building a house on sand.

Sanford took specific aim at the unemployment, growth and inflation rates the budget relies on.

“Can you guess the last time we had an unemployment rate of 4.8 percent, growth at 3 percent, and inflation held at 2 percent?” Sanford asked. “It’s never happened,” he answered, when Mulvaney didn’t.

After pointing to other assumptions in the budget that have never happened, Sanford argued that to get the growth rates assumed by the budget, it would take a return to economic and demographic circumstances that haven’t existed since the 1950s and 1960s. That was when women were entering the workforce, highways were being expanded, appliances were first flooding the markets, productivity was skyrocketing, and the Baby Boomers were going to work, rather than retiring en masse.

“Even if we went to 1990 numbers, we would only see one-quarter of what is necessary to achieve 3 percent growth,” Sanford said.


Fonte: Huffington Post

A reacção de Mulvaney foi descrita na CNBC:
"Mulvaney defended the White House's projection earlier in the hearing, saying he was "stunned" about widespread doubts that the U.S. can achieve — and maintain — 3 percent growth. He argued that people would have to be "pessimistic" to assume such a level of expansion is "somehow unreasonable.""

Fonte: CNBC

E se fossem à merda?

Hoje há greve outra vez, mas é uma greve que dá jeito a todos. A Geringonça que governa o país ainda não arranjou maneira de resolver os conflitos entre os partidos do Governo sem causar greves. Eu não sei em que universo opera esta gente ignóbil, mas o mais lógico e o que nos venderam foi que era possível governar sem greves, se estes partidos estivessem no governo, porque podiam ameaçar retirar o apoio ao PS, que era uma arma supostamente muito poderosa. Afinal não era arma nenhuma porque eles acham-se desarmados.

Diz a Joana Mortágua: "A reposição de rendimentos e de direitos do trabalho que está a ser feita por este Governo é importante e devia ser feita de forma mais profunda e mais rápida, [...] a luta dos trabalhadores ajuda a este objectivo para que o Governo entenda que temos uma pressão social forte para avançar". Não percebi, mas tenho a impressão que a Joana também não sabe o significado do que disse.

Por estes dias, a minha paciência anda curta. Há pouco mais de duas semanas, foi encontrada, ao meu pai, uma massa nos intestinos que precisava de ser analisada, mas houve dois dias dias de greve e depois o dia de ponte por causa do Papa. Nessa altura, na madrugada de 11 de Maio, o meu pai sofreu um acidente isquémico transitório e teve de ser levado para as urgências. Teve azar! Esta semana teria dado mais jeito.

Vão à merda, caros governantes.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Quando se deve errar?

Uma vez, um modelo meu errou duas semanas seguidas. Depois do segundo erro, sugeriram-me se não havia uma variável que eu pudesse usar de forma a diminuir esse erro específico. Não me parecia. O erro anterior tinha sido na direcção oposta, logo o meu modelo não estava a fazer um erro sistemático: uns eram positivos, outros eram negativos, como devia ser e não houve nenhum evento captado por uma variável a que eu tivesse acesso, que pudesse antecipar aquele segundo erro e o anterior. Não fiz nada ao modelo. Na semana seguinte, o modelo acertou exactamente, e a mesma pessoa que me tinha sugerido mudar o modelo, deu-me os parabéns por ter acertado.

Na minha profissão, conto errar perto de 100% do tempo, mas preocupa-me o tamanho dos meu erros e a direcção dos mesmos. Há alturas em que, por haver informação muito mais limitada, os meus erros irão ser grandes e eu espero que sejam; à medida que mais informação fica disponível, os meus erros têm de ser menores; mas não podem ser sistemáticos. Também me interessa a evolução das variáveis, a maneira como interagem umas com as outras -- as coisas passarem o teste de cheiro, como dizia um antigo chefe meu.

Há erros que são desejáveis. Por exemplo, alguém que vai ao médico e o médico diz "Se você não fizer X, Y, e Z, vai provavelmente morrer dentro de dois anos." Qual o objectivo do médico: acertar na projecção a todo o custo ou errar de propósito? Em economia encontramos o mesmo tipo de problema: há previsões que são feitas para não se concretizarem.

Chateia-me um bocado quando as pessoas dizem que sou pessimista. Um bom economista tem de ser pessimista por natureza, pois uma das nossas funções é gerir risco, logo temos de estar sempre à procura de coisas que possam correr mal; ninguém se importa quando as coisas correm bem. Para além disso, muitas vezes, quando as coisas vão para o torto, descobre-se que muita gente comprometeu a sua integridade profissional, ou seja, erraram quando tinham informação suficiente para não o fazer.

Há certos erros que devem ser tolerados; outros não.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Olhos, ovos, e pornografia

Quando andava no nono ano de escolaridade, falhei um teste vocacional. Não sei bem como se sabe que uma pessoa falha coisas destas, mas o certo é que a psicóloga me mandou ir ao oftalmologista porque suspeitava que eu precisava de óculos. Fui e precisava; fiz o teste e passei. A minha vocação é contabilidade. 


Usei óculos até aos 25 anos, altura em que me mudei permanentemente para os EUA e, na minha residência universitária, reparei que não conseguia identificar as pessoas que se aproximavam vindas do fundo do corredor. Era um bocado aflitivo olhar para alguém e não o reconhecer, mas se tirasse os óculos não tinha esse problema. Então deixei de os usar. 


Mais tarde, em 2004, quando mudei de emprego, tive uma secretária muito profunda e passava bastante tempo a programar em GAMS. Tive a brilhante ideia de enfiar o écran do computador bem no fundo da secretária para ter mais espaço para ter cadernos e livros. Foi uma das piores ideias que tive, pois passados uns meses os meus olhos começaram a picar bastante. A certa altura, fechá-los tornou-se doloroso até -- pensei que fosse ficar cega. Marquei uma consulta para um oftalmologista e a médica foi muito simpática, fez-me um exame muito rigoroso, e concluiu que eu tinha os olhos muito secos. Quão secos? Mais secos do que as pessoas de idade avançada que eram seus pacientes. Deu-me ordens para fazer mais intervalos enquanto trabalhava com o computador e de, de vez em quando, colocar uma compressa húmida quente sobre os olhos, pois o calor estimulava a produção de lágrimas boas -- aquelas que são hidratantes. 


Perguntei à médica se eu via bem e ela disse que sim, havia um bocadinho de estigmatismo, mas como não tinha sido corrigido, o meu cérebro tinha compensado (sou como os mercados: eficientemente ineficiente). Fiquei contente de não precisar mais de óculos e costurei umas bolsas de pano, com grãos de arroz lá dentro, para ter no escritório, aquecer no microondas, e colocar sobre os olhos de vez em quando. Achei mais prático do que usar compressas húmidas. 


Até há poucos anos, à parte da minha tendência para ter os olhos secos, nada mais notei; mas recentemente, noto que já não consigo ver muito bem quando estou a ler algo em letra pequena. No outro dia, não conseguia ver o rótulo da lata de atum Sta. Catarina (dos Açores), para ver quantas calorias tinha. Isto é muito importante porque eu leio sempre os rótulos de tudo -- é um vício meu. 


Hoje quando estava na loja ao pé dos ovos, notei que havia uma marca nova de ovos. Fiquei curiosa e comecei a ler o pacote. Li "Porn free" e pensei "Por que razão é que os ovos estão livres de pornografia? Que coisa mais estranha..." Voltei a olhar para o pacote e desta vez foquei mesmo os olhos no que dizia: "Born free". Ah, sim, mas estes ovos não são, nem nunca serão, nascidos, pensei...



segunda-feira, 22 de maio de 2017

Nós, os criminosos

Na semana passada, o Juiz John G. Roberts, Presidente do Supremo Tribunal dos EUA, confessou que, uma vez, tinha conduzido a 60 milhas por hora, numa zona de 55, e não foi apanhado. Vejam lá o tipo de pessoas que chegam ao Supremo! Em 2010, no Cimarron Turnpike, quase na saída para Stillwater, Oklahoma, fui apanhada a conduzir a 100 milhas por hora, numa zona de 75. Ia sozinha de Fayetteville, AR, para passar a noite em casa dos meus sogros e depois, ao outro dia, ia para Denver, Colorado. (É por causa destas viagens que se inventaram os livros audio.) Lá paguei a multa de quase $300 porque o polícia teve pena de mim e deu-me a mais leve porque era a minha primeira infracção. Serviu-me de lição.

Intuições

Nas minhas incursões pela página do INE, consultei o ficheiro de indicadores económicos. Neste caso, não foi preciso fazer contas, bastou olhar para os dados mensais. Meti cada ano lado a lado, para facilitar a comparação, que é bastante intuitiva:

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Um presente envenenado

Enquanto anda tudo entusiasmado com o primeiro trimestre de 2017, vale a pena comparar vários anos para vermos se estamos piores ou melhores do que quando a Geringonça tomou posse. Sendo assim, fui ao site do INE ver o que lá andava. (Confesso que fui ao INE porque o Pedro Romano quase que nos desafiou a lá ir e eu tenho muita dificuldade em resistir a desafios).

É estranho que, quando o governo PSD/CDS estava no poder, falar em défice, dívida, e PIB era sinal de corrupção moral, pois havia coisas muito mais importantes do que isso. Só que agora, com o défice de 2016 pequenino e o crescimento do PIB do primeiro trimestre de 2017 grande, toda a gente que criticava dá urras e proclama a virtude destas variáveis económicas.

Fiz uns cálculos básicos (ver as contas a vermelho no boneco abaixo*) para ver como tinham crescido o PIB e a dívida pública anualmente e depois, usando as estimativas do governo para 2017, tirei a média anual de 2016 e 2017 para poder comparar com 2015. De 2014 para 2015, a dívida pública cresceu 2,44% e o PIB 3,71% (em termos nominais).

Se a Geringonça conseguir cumprir o prometido em 2017, então, a dívida crescerá 1,56% e o PIB 2,99%; depois de, em 2016, crescerem 4,11% e 3,02%, respectivamente (estimativas, ainda). Em média, em 2016 e 2017, a dívida cresceu 2,83% e o PIB 3,01%, ou seja, aumentar o crescimento da dívida não resultou em nenhuma aceleração do crescimento do PIB, logo aumentar a dívida pública não gerou nenhum retorno para a economia.



Fonte: INE e cálculos meus

Por vezes, ouve-se as pessoas dizer que a economia portuguesa está estagnada, mas isto é incorrecto, pois o PIB real está estagnado, mas cada vez é necessário mais dívida para o manter estagnado, ou seja, Portugal está a empobrecer. A Geringonça não mudou isto, mesmo com o PIB a crescer 2,8% no primeiro trimestre de 2017, pois isto não compensa o fraco desempenho de 2016. Talvez em 2018, Portugal volte a estar como estava em 2015, o que significa que Portugal desperdiçou mais de dois anos.

*Note-se que são valores nominais, mas como a inflação acelerou desde 2015, não afecta o meu argumento.

Antes e depois

Mário Centeno antes, 19/8/2015

Mário Centeno agora, 19/5/2017

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Temos mais um doutor

Ontem o José Carlos defendeu brilhantemente uma brilhante tese de doutoramento em Comunicação Social sobre a Teoria da Espiral do Silêncio, de Elisabeth Noelle-Neumann.

Da próxima vez que o José Carlos se peidar será um doutor peidando-se. Não é um cheiro qualquer, é um odor a rosas.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Não percebo

Pssiuuuu, alguém me explica como é que um homem que tem um corte de cabelo que compete com a carpete "shag" de Elvis Presley, em Graceland, pode opiniar acerca da indumentária feminina de trabalho?

Poupar e gastar

"There’s a time in everyone’s life to save. There’s also a time when you’re supposed to spend. That time is commonly known as retirement.

Millions of Americans aren’t doing that, however, which has put the U.S. in a perverse situation. Younger generations aren’t saving enough as their income slips further behind previous generations. Older Americans meanwhile sit atop unprecedented piles of assets built through stock market and real estate booms.

Yet these retirees, or at least the affluent ones, aren’t spending it. It turns out they’re afraid of the unknown.

In all, American households and nonprofits were worth $93 trillion at the end of last year, according the U.S. Federal Reserve. That’s almost $300,000 for every man, woman, and child in the country. Of that, Americans held $25.3 trillion as retirement assets, according to the Investment Company Institute. That includes $8.4 trillion in defined-benefit pensions and $14.9 trillion in individual retirement accounts and 401(k)-style plans."


Fonte: Bloomberg


Normalmente, presume-se que as pessoas poupam para continuar a ter níveis de vida confortáveis quando se reformam, logo o evento da reforma iniciaria um período de poupanças negativas. Mas para um grupo de reformados, que acumulou grandes poupanças, isto parece não fazer sentido, pois mesmo reformados não só não gastam, como continuam a poupar. Deduz-se, então, que a causa de terem acumulado tanta riqueza foi o não gastarem, em vez da ideia comum de que acumularam a riqueza para a gastar.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Milagres e diversificação

O PIB cresceu à taxa anual de 2,8% no primeiro trimestre de 2017 devido às exportações, com um grande peso para as exportações para Angola, que cresceram 48,3% em termos homólogos, ou seja, o crescimento da economia portuguesa dependeu das exportações para um país cuja capacidade de financiamento depende do preço do petróleo e que tem problemas com corrupção, violação de direitos humanos... Que boa notícia e é sustentável!

Lembram-se que, no ano passado, o mau resultado do primeiro trimestre se devia ao mau desempenho das exportações para Angola -- devíamos mandar um cartão a agradecer terem tido aquela crise porque deu-nos jeito agora. Notem que, para diversificar o risco das exportações, Portugal tem mais dois santos beatificados, logo atrairá mais turistas.

Dava jeito se houvesse mais um milagre que nos garantisse mais peregrinos, por exemplo, a imagem de Cristo queimada em pasteis de nata ou nas queijadas de Tentúgal. Com uma doçaria conventual tão extensa, é quase impossível que não haja milagres deste tipo a torto e a direito...

O consumo não cresceu, mas a procura de crédito não parou de crescer para comprar casa e carro. Quem diria...

O emprego no estado, em Março, também cresceu, apesar de nos terem assegurado que as medidas dois por um (aposentam-se dois, contrata-se um) estavam a ser implementadas. Bem sei que é uma impossibilidade matemática, mas considerem isto o milagre de Segunda-feira.