sábado, 1 de agosto de 2015

Cadência

"aliada à brisa nocturna, a cadência desta chuva de astros leva-me a supor que também o cosmos terá seus outonos."

~ António Gil

"Cadência" é uma das minhas palavras preferidas. Apareceu-me esta semana enquanto eu estava a ler "A Céu Aberto", um livro de poesia de António Gil, quando ia a caminho do Porto. No dia anterior, tinha ido a Viseu numa visita rápida na qual tomei café com o Gil e jantei com a minha amiga Sofia. 

Eu já tinha tentado comprar "A Céu Aberto" pelo menos duas vezes online, mas estava esgotado. Mandei um e-mail ao Gil porque não conseguia comprar os livros dele. Quando decidi vir a Portugal, o Gil disponibilizou-se a fornecer-me alguns dos seus livros. Eu sei--sou uma gaja de muita sorte. Mas pensem assim: quando se quer muito uma coisa, vale a pena persegui-la e eu queria muito estes livros...



Ouvido num carro no Porto...

--"Quanto mais me bates, mais eu gosto de ti..." [a propósito de um carro baixo bater com a parte de baixo no passeio, à saída de uma garagem]
--E sabes a continuação da canção?
--"Este é o meu retrato, já não mudo, eu sou assim"
--Muito bom, mas agora isso é politicamente incorrecto.

Viva a América! Conseguiu exportar o termo "politicamente incorrecto".

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O Estado não tem mãos

Em Portugal, apesar dos progressos, continuamos a ter um “Estado patrimonial” muito forte, para usar a famosa expressão de Max Weber. Ou seja, as elites políticas vêem o Estado como uma forma de enriquecimento pessoal. A esquerda radical, com razão, não se tem cansado de denunciar a corrupção, a promiscuidade de interesses públicos e privados, etc.. Mas essa mesma esquerda, se pudesse, nacionalizava tudo. Supostamente, dessa forma, os ganhos seriam equitativamente distribuídos pelos trabalhadores e consumidores, em vez de ficarem nas mãos dos capitalistas exploradores.
Se confundir o Estado com o governo é um erro, tratá-los como entidades completamente distintas é também um absurdo. É neste segundo tipo de erro que a esquerda cai.
A esquerda gostaria que as empresas (pelo menos, as “estratégicas”) estivessem nas mãos do Estado. O problema é que o Estado não tem mãos, quem tem mãos são os indivíduos. A esquerda fala como se o governo pudesse ser incompetente ou corrupto, mas o Estado, vá-se lá saber porquê, estivesse naturalmente investido de nobreza e dignidade e pairasse sempre acima das fraquezas e vícios humanos. Infelizmente, o Estado não é nada disso. O Estado são pessoas, muitas vezes escolhidas e nomeadas pelo tal governo “incompetente e corrupto”.

Balança ideológica

Visito uma livraria. Compro o Livro de Leitura para a 4ª Classe, de 1961. Para equilibrar, compro também Born to Be Gay - Uma História da Homossexualidade.

Conselho à PAF




Não há dúvida que acompanhar os números do desemprego é importante. Mas qualquer discussão fica coxa se não olharmos estes números em conjunto com os do emprego. Se taxa de desemprego se aproxima dos níveis verificados do início do programa ajustamento (a última vez que o desemprego esteve mais baixo que os 12,4% atuais foi em junho de 2011, com 12,3%), os níveis de emprego estão um ano atrasados em termos da sua recuperação: o nível atual aproxima-se do valor verificado em 2012.
Se a PAF quiser fazer uma campanha sem demagogia, aconselharia antes a destacaram a evolução da produtividade: está 8% acima dos valores observados em março de 2009 e 2% acima dos valores do início do programa de ajustamento.





Contra o capitalismo



Cartaz na Praça do Chile, em Lisboa --- via Carlos Vaz Marques, no twitter

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Conclusão: daqui a uns tempos vamos enriquecer todos na bolsa


A súmula impressionante de disparates que está contida no artigo linkado acima, e que acaba com o disparate mor que é a declaração de que os economistas vão deixar de errar nas suas previsões económicas, confirma o que há muito penso. Não são, verdadeiramente, os economistas que acreditam nas previsões económicas e não são os economistas que olham para a Economia como uma ciência tão infalível como a Física.
Tipicamente, quem comete estes erros é alguém, como este tipo doutorado em Física, que nada percebe de economia mas que se dedica à economia.

terça-feira, 28 de julho de 2015

O poder limitado das baionetas

Um dia Talleyrand explicou a Napoleão: "Com as baionetas, Sire, pode-se fazer tudo, menos uma coisa: sentar-se sobre elas." Até quem pretende governar com os soldados depende da opinião destes e da que tenham sobre estes os restantes habitantes. Na verdade, não se manda com os soldados. Como explicou Ortega y Gasset, mandar não é uma questão de punhos, é uma questão de nádegas. "Trono, cadeira curul, banco azul, poltrona ministerial". Mandar é sentar-se. Tranquilamente.

Loucura megalómana e revolucionária

Aqui está a transcrição de grandes partes da conversa de Varoufakis a explicar como planeava, com mais quatro pessoas, criar um sistema bancário paralelo na Grécia depois de piratear os dados dos números de contribuinte. O tipo nem sequer parece ter noção da enorme operação de logística informática que o seu plano envolveria.

Para quem ainda não acredita nas notícias, pode ouvir o homem de viva voz aqui.

Podemos, todos, finalmente, concordar que o tipo é louco, megalómano, radical e revolucionário?

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Números do desespero

Oiço na TVI 24 um economista da Universidade Nova (penso que se chama Luís Rato) enumerar meia dúzia de factos sobre o “Estado social” português. Exemplos. Nos últimos três anos, foram transferidos do Orçamento do Estado (OE) 3,4 mil milhões de euros para cobrir os défices da segurança social. O fundo de estabilização (um subsistema de capitalização da segurança social) cifrava-se em 2014 em pouco mais de 3 mil milhões, o suficiente para pagar seis ou sete de meses de pensões em caso de emergência. Além disso, foi necessário transferir, em 2014, mais de quatro mil milhões do OE para a Caixa Geral de Aposentações. Neste momento, há 1,5 activos para 1 pensionista. Segundo um estudo recente da Comissão Europeia, em 2060, mantendo-se as actuais tendências (e consideraram nesse estudo uma taxa média de 8% de desemprego), cada português receberá apenas 30% do seu último salário.
Não falta muito tempo para que haja apenas um activo para um pensionista, ou seja, não tarda muito que cada pensionista receba, grosso modo, apenas os cerca de 34% do salário (correspondente à chamada TSU) de cada activo (ou 26%, se o PS, caso ganhe as eleições, avançar com a sua proposta abstrusa de cortar 8 pontos na TSU, 4 para os trabalhadores e 4 para as empresas).
Atenção, e estes números do desespero existem apesar de todas as medidas e reformas que foram tomadas nos últimos 15 anos: introdução de um factor de sustentabilidade (na reforma de Vieira da Silva em 2007) e o concomitante aumento da idade da reforma (o tal economista, que aparenta estar na casa dos 40, fez os cálculos e só se poderá reformar aos 68,4 anos), a contribuição extraordinária de solidariedade, etc.
Estes números esclarecedores, que bastam para fazer disparar todos os alarmes, não parecem, todavia, preocupar muito comentadores/pensionistas como Bagão Félix ou Manuela Ferreira Leite, que desvalorizam o problema. Percebe-se. Também se percebe que os partidos não queiram falar no assunto. Os pensionistas votam e os que vão receber a reforma em 2060 andam por aí a estudar, a divertir-se ou a tratar da vida e têm mais que fazer do que se preocupar com o futuro daqui a meia dúzia de meses quanto mais daqui a 10, 20, 30 ou 40 anos.
Esta gente (partidos e a maioria dos comentadores), uma cambada de irresponsáveis, com o argumento de que discutir o problema implica alimentar um conflito geracional, está a empurrar com a barriga e a arranjar um conflito geracional explosivo no futuro. 

Delfins, versão desalinhada*

Na banheira de meus pais
Senti ao longe bacon para comer
Perguntaste porque o cheirava
Olhei para ele, não me pude conter

Vejo o mar do comboio,
Encontrei velhos quadros
De selvagens que o Miró soube escolher.


Eu pinto esta banheira assim
A Pantone não é para mim
Nesta banheira eu descobri
Tanto lixo em cima de mim

Só, nu, cais,
Vais recordar esse teu malhar,
Cu dorido no lar.

Lembro o bar, onde aos tombos,
Fui deixar, lá no adro,
Uma grade depois de a beber.

(desalinhado = que não diga respeito à  Linha do Estoril, de Cascais ou lá o que é)

Ode ao Fisco

Há quase duas semanas, ouvi uma entrevista de um professor de economia grego, que trabalha no American College of Greece. Uma das coisas que ele disse foi que os gregos têm de melhorar a colecta de impostos. Para o fazer, ele sugeriu que a Grécia pedisse ajuda aos EUA para ver como é que o Internal Revenue Service (IRS) controla a evasão fiscal; também falou em obrigar as pessoas a pagar electronicamente todas as transacções de valor superior a €50.

Eu abanei a cabeça. O que ele quer não tem nada a ver com os EUA. Os americanos usam muito o sistema de honra para pagar impostos. Há lojas que até passam recibos à mão. O que ele quer é o sistema português. E isto é uma oportunidade para Portugal brilhar. Porque é que o governo português não partilha o que aprendeu em Portugal nestes últimos anos com a Grécia? Aliás, o que o Ministério das Finanças devia fazer era escrever um case study de como Portugal modernizou a colecta de impostos. Apesar de eu detestar e ser contra a invasão de privacidade, acho que o sistema português deve ser dos mais modernos do mundo. Podia ser melhorado, mas ainda não está acabado, logo quem sabe o que nos aguarda amanhã?

Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa relativo ao Processo nº 1/09.3F1STC.L1-9

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Outbreak

Não desapareci, mas em Portugal há Wi-Fi em muito lado e funciona em lado nenhum--mas aposto que, se eu fosse a um Starbucks, funcionaria. Tenho de gerir o meu acesso à Internet via telemóvel e a Vodafone até nem é má de todo. Estou tão feliz por não ser cliente da NOS... (Ninguém me pagou para dizer isto, eu é que pago pelo serviço da Vodafone que eu uso.)

No meu segundo voo para Portugal mudaram-me de lugar porque disseram que eu estava a separar uma família. Quando cheguei ao meu novo lugar, já estava ocupado por outra pessoa porque eu estava a separar outra família. Aquele voo tinha muitas famílias e, por uns momentos, pensei que talvez a desaceleração do crescimento da população fosse exagerada, mas era um voo dos EUA para Portugal. O que eu encontrei foi crianças que hoje estariam em Portugal, mas que estão nos EUA porque os seus pais emigraram para lá. Dois dos meninos levavam camisolas da seleção nacional de futebol, mas só falavam inglês. Ainda não falavam português, mas talvez aprendessem algumas coisas nestas férias. Talvez tivessem 4 e 5 anos e notava-se que gostavam muito de Portugal. Era a família deles que eu estava a separar. 

Pediram-me para trocar de lugar e eu troquei imediatamente. Fiquei sentada ao lado de um senhor que não falava nada. Presumi que fosse médico pois estava a ler um artigo dos Centers for Disease Control (CDC) no computador. Como era um voo noturno, tentei descansar o mais possível, mas não cheguei a dormir. 

Quando aterrámos em Lisboa, o meu companheiro de voo estava um bocadinho frustrado por demorarmos tanto tempo a sair do avião. Ele estava em ligação para ir para outro sítio, mas não reparei para que aeroporto se dirigia. Meti conversa. Disse-lhe que seria terrível, se ele tivesse de ficar desterrado em Lisboa. Ele sorriu e relaxou. Depois perguntei-lhe se ele era médico. Ele disse que era epidemiologista, trabalhava para os CDC, em Atlanta e ia em trabalho para algures na Europa porque havia um pequeno outbreak e tinha sido pedida a intervenção dos CDC. Não me disse o que era, nem onde era, apenas consegui saber que era num país desenvolvido e não era Portugal. No entanto, o voo era uma operação conjunta da United Airlines e da Lufthansa, o voo dele foi comprado à Lufthansa, logo talvez fosse algures para o norte da Europa. 

Falámos também sobre os modelos que ele usava e que eram feitos em R, que é o que eu uso para estimar os meus modelos. É uma linguagem muito poderosa, observámos ambos, é muito flexível e dá para sermos extremamente criativos. É o que se chama uma linguagem de quarta geração e é "object-oriented". Para quem se interessa por investigação quantitativa e análise de dados, vale a pena investir na sua aprendizagem. No entanto, é preciso ser teimoso porque tem uma curva de aprendizagem com uma inclinação muito acentuada.