Terça-feira, 21 de Maio de 2013

Fim sem glória.

O ex-ditador argentino Jorge Videla morreu na sequência de uma queda na banheira. Para quem se entreteve a lançar os opositores de helicóptero no Atlântico Sul (sem para-quedas, note-se) foi um fim sem glória.
http://www.publico.pt/n1595029

Criançada

Num destes dias a minha filha de quase 5 anos brincava no computador com uns jogos online. A determinada altura, ficou tão irritada e stressada por não conseguir ganhar um jogo que tive de lhe tirar o computador. Depois de bastante choro e muita birra, com calma, expliquei-lhe que aqueles jogos serviam para ela se divertir. Se era para se irritar, então mais valia não jogar.
Lembrei-me disto ao ver algumas reacções ao final do campeonato e ao ler extensas trocas de argumentos nas redes sociais entre vencedores e vencidos. Caríssimos, o futebol serve para um tipo se alegrar as vitórias da sua equipa e para deixar que os outros se alegrem com as suas vitórias. Se não conseguem fazer isto então mais vale fazerem uma cura de futebol, tal como a minha filha de 4 anos fez uma cura de computador. Não é assim tão difícil.

Deve o Benfica ir à bruxa?

A pretexto da sétima final europeia que o Benfica perde, tenho ouvido várias pessoas a falar em bruxedo. Até o Pedro Mexia, no Governo Sombra, sugeriu essa possibilidade. Mas, considerando que numa final há uma probabilidade de vitória de 50%, é de facto assim tão estatisticamente improvável que em nove finais apenas se ganhem duas? Na verdade, fazendo as contas, os mais letrados podem verificá-las recorrendo a uma Distribuição Binomial, conclui-se que não. 
Se se admitir que cada final é decidida por moeda ao ar, então a probabilidade de em nove finais não ganhar mais do que duas é de 9%, ou seja, acima do limiar de 5% que os critérios científicos tradicionais consideram. 
Não há evidência estatística que suporte a tese do mau-olhado, ainda estamos dentro dos padrões perfeitamente admissíveis do acaso.

Domingo, 19 de Maio de 2013

Confusões sobre Segurança Social e suas fontes de financiamento

Ricardo Reis, respondendo a um artigo de Fernanda Câncio, explica por que motivo não é razoável tratar o subsídio de desemprego e as pensões da mesma forma. Para os objectivos pretendidos, o artigo é claro e está bem escrito.
No entanto, um dos principais debates que Portugal vive de momento é sobre o sistema de financiamento da Segurança Social. Há cada vez mais vozes a pedirem para que se passe de um sistema de repartição para um sistema de capitalização. Nesse aspecto, infelizmente, artigo de Ricardo Reis contribui (bem) mais para confundir do que para esclarecer. O artigo é escrito como se o actual sistema fosse de capitalização, com cada geração a poupar para as suas reformas futuras, quando, obviamente, o que se passa é o contrário: cada geração no activo financia as reformas das gerações que estão reformadas.

Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

O "cisma grisalho"


Esta semana, Silva Lopes, um homem de esquerda, teve uma intervenção corajosa. Diz ele que, embora lhe custe muito que lhe cortem na pensão, não vê outra solução para a “sustentabilidade” (desculpem lá o palavrão) do sistema. Os “grisalhos”, acrescentou, não podem continuar a “asfixiar os mais novos”, que, como é sabido, terão, na melhor das hipóteses, direito a uma pensão simbólica. Em 2001, Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso anunciaram uma reforma do sistema para 50 anos. Em 2007, Vieira da Silva anunciou outra reforma, desta vez para, salvo erro, 30 anos. Em ambos os casos, partiu-se de pressupostos irrealistas, como o de taxas de crescimento médio anual de 3% e 2%, respectivamente. Em 2007, a Polónia fez também uma reforma da "segurança social", avançando para um sistema de capitalização: cada um desconta, de forma obrigatória (presumo), para si e as pensões actuais são cobertas com dívida pública. Em Portugal, continua-se com um sistema redistributivo, em que os mais novos pagam as reformas dos mais velhos, contando que, quando chegar a sua vez, alguém pagará as suas. Já sabemos que isso não vai ser possível; os números, a começar pelos da demografia, não deixam margem para dúvidas a esse respeito. A questão é: devem ser os mais novos a suportar o grosso dos custos, pagando a reforma dos mais velhos e poupando (se tal for ainda possível) para a sua velhice, ou devem os sacrifícios ser repartidos pelas diferentes gerações? Eu, tal como o Silva Lopes, não tenho dúvidas sobre qual é a solução mais justa.
 

Hoje somos um país mais livre do que ontem

Aprovada co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo.

Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

Exportações, emprego e emigração,o caminho do mau reequilíbrio

Em Jornal de Negócios de 14/05/2013
Num ano, a economia portuguesa perdeu 229 mil empregos. Perdeu emprego de forma mais acentuada nos sectores transaccionáveis. Assistiu a uma redução das exportações. Perdeu população activa residente. Perdeu capacidade de produção. Nada disto ajuda ao necessário ajustamento económico.
Os números de Março revelam que o número de desempregados aumentou 130 mil, com o desemprego a atingir valores próximos de um milhão. No entanto, estes dados revelam apenas parte do problema. A queda do emprego foi muito superior. Num ano, a economia portuguesa perdeu 229 mil postos de trabalho.
A diferença entre os dois números é explicada principalmente pela emigração. Dados da Direção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas, citados na imprensa esta semana, referindo que em 2012 saíram do país 130 mil portugueses, confirmam esta ideia. Em 2012, Portugal teve não só o maior aumento de desemprego como a maior perda de população activa desde que os dados são registados.
A saída de um número tão elevado de trabalhadores, em particular de trabalhadores jovens e qualificados, compromete o potencial produtivo futuro da economia portuguesa. À perda de 130 mil trabalhadores com qualificações superiores à média pode corresponder uma perda de PIB potencial permanente de 4 ou 5 mil milhões por ano e receitas fiscais de mais de 2 mil milhões. Com esta sangria Portugal perde capacidade para crescer e para conseguir pagar as suas dívidas.
Todos estes dados são contrários ao ajustamento de que a economia portuguesa necessita.
PERDA DE EMPREGO MAIS ACENTUADA NOS TRANSACCIONÁVEIS

Redução de Emprego
Em milhares
Taxa de variação homologa (c)
Proporção do Emprego Total
Proporção da perda de emprego

Transaccionáveis (a)
-105
-8,3%
26%
46%
Não transaccionáveis (b)
-116
-3,5%
73%
51%
Total
-229
-4,9%
100%
100%
  (a) Indústria transformadora e agricultura 
 (b) Serviços e Construção. Variações entre o primeiro trimestre de 2012 e o primeiro trimestre de 2013. Fonte: INE.

Na última década a economia portuguesa sofreu uma série de choques externos que acentuaram os seus desequilíbrios. O alargamento e a maior abertura da UE à China colocaram em cheque a nossa especialização tradicional, comprometendo o crescimento económico. A maior crise desde 1929 deu uma facada adicional. O fraco crescimento que daqui resultou, em paralelo com o acesso a crédito barato, estiveram na origem do desequilíbrio externo e do desequilíbrio orçamental.
Para os corrigir, a economia portuguesa precisava de um ajustamento das suas componentes.
Portugal apresentou durante anos uma despesa superior à produção. Precisava de gastar menos e de produzir mais.
Portugal produzia menos bens transaccionáveis do que consumia, o que significava que tinha um défice externo crónico. Precisava de reajustar a sua produção, passando a produzir mais transaccionáveis e menos não transaccionáveis.
O caminho de reequilíbrio ideal passaria por aumentar a produção, e para isso aumentar o investimento, em particular nos sectores transaccionáveis, para que aumentassem as exportações. O ajustamento teria de passar não apenas pelo aumento da produção de transaccionáveis e pelo aumento do investimento, mas também pela redução dos gastos públicos e do consumo. O reequilíbrio externo seria feito tanto pelo aumento das exportações como pela redução das importações.
Isso foi o que aconteceu entre 2010 e 2011. Os gastos públicos desceram mais que o consumo privado. O PIB caiu, o desemprego aumentou, mas a produção e o emprego na indústria transformadora e na agricultura aumentaram. Não se estava a seguir um ajustamento fácil, mas estava-se a caminhar no sentido correcto.   
No último ano, o ajustamento económico em Portugal não só está a ser mais duro, mas não está sequer a seguir no sentido correcto. O Investimento, que devia estar a aumentar, está a cair. O emprego nos sectores transaccionáveis, que devia estar a aumentar, está não só a cair, mas a cair de forma muito mais acentuada do que o emprego nos sectores não transaccionáveis – ver quadro.
Os dados de Março também revelaram que as exportações, que deviam estar a aumentar, estão a cair. O reequilíbrio externo que, em 2010 e 2011, se estava a fazer mais pelo aumento das exportações do que pela redução das importações, está-se a fazer agora apenas pela redução das importações.
Mesmo no que toca ao reequilíbrio da despesa interna, ao contrário do que aconteceu em 2010 e 2011, em 2012 a queda do consumo privado foi superior à queda dos Gastos públicos, situação que se deverá repetir no corrente ano. Os privados estão a fazer mais pelo ajustamento do que o Estado.
O principal problema que o país enfrenta neste momento não é a instabilidade dentro do Governo, nem a lentidão a que se está a processar a consolidação, é o facto de as medidas socialmente muito duras que estão a ser impostas não estarem a gerar o ajustamento da economia no sentido necessário. Portugal precisa de investir mais, produzir mais e exportar mais. E nada disto está a acontecer.

Novo ala esquerdo

Como foi comunicado anteriormente, a Destreza está no mercado e está compradora. Não tendo desistido de procurar um ala direita com qualidade suficiente para substituir o Fernando Alexandre, já acertou a contratação de um fora-de-série para a ala esquerda. Caros leitores, é com gosto que vos digo que o Manuel Caldeira Cabral é o novo coautor da Destreza.

Sobre Nossa Senhora e Jesus

Se há dois dias Nossa Senhora estava com os senhores da tróica, hoje espera-se que esteja sentada ao lado de seu filho Jesus. Que os postes das balizas benfiquistas continuem com inspiração divina, são os meus votos, até porque os ingleses são protestantes e não ligam nada a Nossa Senhora. É dar-lhes uma lição.

Terça-feira, 14 de Maio de 2013

Valha-nos Nossa Srª de Fátima

Valha-nos Nossa Srª de Fátima, é triste ter um presidente assim, que palhaço. Mais grave ainda é saber que já nem com o apoio da mulher ele pode contar.
Será legítimo concluir que Nossa Srª de Fátima atrasou voluntariamente a avaliação da tróica só para poder ficar com os louros?

Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

A destreza reforça-se

Depois de ter perdido o Fernando Alexandre para o governo, numa transferência que recebeu ampla divulgação nos meios de comunicação social, a Destreza das Dúvidas vai ao mercado reforçar-se. Aguardem notícias nossas.

Direito à vida

Sou só eu a achar que os touros em fuga conquistaram o direito à vida? Não digo direito à liberdade, mas com certeza que se dariam por satisfeitos com uns prados cheios de florzinhas onde descansar.

Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

Ignorante, talvez --- por Paulo Jorge Santos

O Sr. Henrique Monteiro (HM) intitula a sua crónica “Chamem-me o que quiserem”. Eu podia chamar-lhe muitas coisas mas, por agora, chamo-lhe ignorante. Ele é ignorante na substância dos seus argumentos e no enviesamento dos mesmos. Vamos por partes. HM afirma que doutores em psicologia e especialistas da educação afirmaram que os exames traumatizavam as crianças, chegando mesmo a perguntar “(mas não somos todos especialistas em educação e doutores em psicologia?)”. Não Sr. HM, você não é nem doutor em psicologia nem especialista em educação. Primeiro ponto. É jornalista, desconhecendo eu a sua formação académica e profissional de base. A maior parte das pessoas com formação em educação e psicologia que se pronunciaram sobre os exames que tive a oportunidade de ler questionaram a pertinência dos mesmos para a melhoria do sistema de ensino, algo que se recusa a discutir (bem digo eu, uma vez que concede que isso ultrapassa a sua competência). Outros questionaram, e acertadamente na minha opinião, a obrigatoriedade de os alunos se deslocarem da sua escola para realizarem exames noutra. Até o conhecido blogger Paulo Guinote se insurgiu contra esta prática. Na minha opinião esta decisão tem um único fundamento: fazer equivaler, no plano simbólico, estes exames aos antigos exames da 4ª classe, ignorando que o fim da escolaridade obrigatória se deslocou do 4º ano para, potencialmente, o 12º.

A deslocação dos estudantes coloca, objetivamente, um obstáculo suscetível de potenciar a ansiedade de alguns alunos sem que se vislumbre qualquer ganho. Exceto aquele que avança: o de que a escola deve preparar para as ansiedades da vida. A escola deve ser exigente, sem dúvida. Contudo, se levarmos o seu raciocínio ao extremo talvez possamos regressar às reguadas como forma de controlar o comportamento e punir o baixo aproveitamento escolar. Singapura utiliza um sistema de chibatadas que por vezes são aplicadas em público. Lamento que seja apenas aplicado a rapazes, uma prática sexista incompatível com uma nação civilizada. É um país que sistematicamente surge nos primeiros lugares dos rankings escolares do PISA, do TIMMS e do PIRLS. Concorda meu caro HM?

Quanto ao que afirma relativamente ao Dr. Benjamin Spock, e à primeira fase da sua obra, assim como ao que denomina loucura pedagógica anarquista de Célestin Freinet, temo que a sua ignorância sobre o que estes dois autores escreveram, advogaram e praticaram seja de tal ordem que inviabilize qualquer discussão racional. Sugiro que siga a máxima de um cantor da sua geração, Bob Dylan, que em A Hard Rain's A-Gonna Fall tem um verso que reza assim: I’ll know my song well before I start singin. Você não sabe cantar, nem muito menos sabe a canção. Tem um poleiro e acha-se um canário. Mas é apenas um sujeito ignorante e preconceituoso. Pelo menos nesta crónica, para sermos rigorosos.

Quarta-feira, 1 de Maio de 2013

O Outono alemão

Ingenuamente, muitos pensam que, após as eleições de Setembro na Alemanha, vai ser possível uma viragem na política europeia, que a "austeridade" será finalmente abandonada. Infelizmente, estão enganados e mostram não conhecer minimamente a realidade alemã. Primeiro, a Alemanha não é Portugal, onde é possível um político chegar ao poder e fazer tudo ao contrário do que andou a dizer em campanha: a opinião pública alemã jamais toleraria tal coisa. Segundo, como pretende demonstrar Mats Persson neste artigo , a austeridade (os alemão não lhe chamam assim, chamam-lhe "poupanças") é consensual em todo o espectro partidário. Nas actuais circunstâncias, é tão politicamente suicida um político alemão prometer o fim da austeridade como um candidato a presidente dos EUA negar Deus.